Esse você precisa ouvir: “Pega Leve”, o derradeiro e brilhante último disco do Kid Abelha

texto de Marcelo Costa

A passagem do baixista, vocalista e compositor Leoni pelo Kid Abelha foi marcante. Ao menos, metade dos mais de vinte hits da banda tem o dedo dele, que só participou dos dois primeiros discos do grupo, os clássicos “Seu Espião” (1984) e “Educação Sentimental” (1985). Depois disso, o trio Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunado lançou sete álbuns de inéditas, com hits aqui e acolá, mas todos irregulares. Foram necessários vinte anos para que o Kid Abelha se inspirasse e lançasse um álbum no nível de seus clássicos. A espera valeu a pena.

Lançado em 2005, “Pega Vida” foi o décimo álbum de inéditas de uma discografia que ainda conta com três discos ao vivo (dois deles acústicos), um álbum em espanhol e um disco de covers (o bom “Coleção”, 2000). De cara, dá para perceber que a gravação do programa “Acústico MTV”, que rendeu o CD/DVD homônimo e uma extensa e vitoriosa turnê pelo País, é influência direta no novo repertório. Quase todas as canções são conduzidas por violões, de forma quase acústica, que receberam por cima a guitarra econômica de Bruno Fortunado.

Das doze faixas, Paula Toller divide a autoria de onze com George Israel. A canção que “sobra” é “Será Que Eu Pus Um Grilo Na Sua Cabeça?”, sucesso de Guilherme Lamounier, em 1973. Paula volta a se vangloriar (exageradamente) de suas letras, assim como fez em “Tudo é Permitido” (1991), que, segundo ela, teve temas inspirados em D.H. Lawrence (e ótimos hits: “Grand Hotel”, “No Seu Lugar” e “Gosto de Ser Cruel”). Desta vez, além do release para a imprensa, a gravadora enviou um calhamaço de folhas com as letras, só para destacar o trabalho de Paula, como se jornalistas não soubessem ler o encarte do CD (que traz as letras).

Tudo bobagem. O Kid Abelha insiste em querer parecer intelectual, mas é uma banda pop, e das melhores da história da música brasileira em todos os tempos. “Pega Vida” é econômico nos arranjos, excelente na execução e inspirado no resultado. Poucas vezes na carreira da banda, Paula Toller cantou tão bem e com tanta calma quanto agora. Bruno brinca com wah-wahs, pedais de efeito, e ignora a distorção, enquanto George está cada vez mais apegado aos violões, deixando o sax para momentos oportunos (se é que existem momentos oportunos para um saxofone na música pop).

O disco gira em torno do tema sexo, que já foi bem mais exposto nos dois primeiros álbuns do Raimundos, convenhamos. Mas vamos entender que Paula Toller não é mais adolescente, e é mais jeitoso para uma menina dizer “quando quero preciso transar / quando transo preciso querer” (de “Eutransoelatransa”) do que “eu queria ser o banquinho da bicicleta / pra ficar bem no meio das pernas / e sentir o seu anus suar”. Levando isso em consideração, “Pega Vida” é um grande disco pop.

“Eu Tô Tentando” abre o disco de forma acústica, mas com bateria acelerada e um teclado que lembra algo da Legião Urbana. Paula canta: “eu tô tentando largar o cigarro / eu tô tentando remar meu barco / eu tô tentando armar um barraco / eu tô tentando não cair no buraco / eu tô tentando ser brasileiro / eu tô tentando saber o q é isso / eu tô tentando ficar com Deus / eu tô tentando q Ele fique comigo”, para concluir no refrão, “eu tô tentando ser feliz”.

“Poligamia”, a seguinte, é uma canção tipicamente Kid Abelha anos 80. Paula canta, pra cima, a boa letra: “Meus amores me querem inteira em qualquer posição / Meus amores não marcam bobeira e eu ñ fico na mão / Escritório, supermercado, banco de condução / Todo canto é apropriado. Eu nunca digo não”. Questiona o desperdício dos hormônios e decreta: “prazeres já temos de menos, produtos já temos demais”. A base dançante sobrepõe teclados até a chegada do bom refrão.

A faixa título é brega (e deliciosa) até não poder mais enquanto “Por Que Eu Ñ Desisto De Vc” é uma balada rock bonita que cita ecstasy e ponto G. A cover de “Será Que Eu Pus Um Grilo Na Sua Cabeça?” é um regaee estilizado, que poderia seguir o mesmo caminho de sucesso da cover de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon. Já “Peito Aberto”, um dos grandes momentos do álbum, tem inspiração folk e outra boa letra de Paula, que se assume ouvindo baladas bregas enquanto briga com o dicionário e só é considerada por “velhos, bêbados e animais”. “Deixar de amar não é normal / Não se desama dando um mero tchau”, encerra, perfeita.

“Fala Meu Nome” tem boa bateria, clima grandiloqüente e um amontoado de citações que une Lennon e Drummond no refrão. Já “Mãe Natureza” volta a optar pela simplicidade dos violões, deixada de lado novamente nas boas guitarras de “Duas Casas”, a seguinte, e o único rock do álbum, que traz a boa frase “vcs ñ têm futuro, sinto muito quem mandou dormir junto”. “Eutransoelatransa” traz o sax de George, vocal em contraponto e outro bom refrão: “eu prefiro no chuveiro / ela no elevador / eu tento ganhar dinheiro / ela só vive de amor / ela vai de pinga e gim / eu sou mais guaraná / ela ouve Guinga e Jobim / eu obladi-oblada”.

O CD se encaminha para o final. “Strip-Tease”, a próxima, é leve e tão pop que gruda na cabeça na hora. A letra, com um q de de tola e outros nove de boba, até diverte. “Cai t-shirt / mais um avião sai do chão / E outro pede permissão / a vida corre solta e sem previsão / cai o jeans / cai um mundo além do jardim / alguns acham normal / vida breve boba e sem manual”. É uma das poucas que a melodia do refrão perde para a melodia das internas. “Órion”, a faixa que encerra “Pega Vida”, é de longe a mais fraca. Uma balada arrastada que versa sobre saudade, mas não impressiona.

Último disco de inéditas da carreira do Kid Abelha, “Pega Vida” é uma coleção de pop songs deliciosas, com letras que trafegam do inocente para o inteligente em questão de piscar de olhos. Demorou pacas para o Kid Abelha lançar um disco excelente do começo ao fim, em uma carreira que trafega entre os bons “Kid” (1989) e “Tudo é Permitido” (1991), os medianos “Tomate” (1987) e “Meu Mundo Gira Em Torno de Você” (1996) e os fraquinhos “Iê, Iê, Iê” (1993) e “Surf” (2001).

Não bastasse ter as melhores canções do Kid Abelha em muito tempo, “Pega Vida” ainda traz um trabalho gráfico primoroso em todo o encarte, assinado por Fernanda Villa-Lobos. Embora não tenha (inexplicavelmente) cravado nem um grande hit nas rádios, “Pega Vida” foi uma despedida em alto nível da carreira discográfica de estúdio do Kid Abelha (após ele foi lançado apenas “Multishow Ao Vivo: Kid Abelha 30 anos’, em 2012) e, infelizmente, não deverá emplacar nenhuma canção no set list da turnê de reunião anunciada para 2026. Não dê bola: ignore os hits óbvios e descubra “Pega Vida”, um dos melhores discos do Kid Abelha.

texto publicado originalmente em maio de 2005 no Scream & Yell

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.



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