texto de Homero Pivotto Jr.
fotos de Giovanni Maglia / Cogumelo em Cena
No filme “Dogma” (1999, de Kevin Smith), Deus foi interpretado pela cantora Alanis Morissete – colaborando, na cultura pop, para representações menos patriarcais de formas divinas. Algo parecido, porém do lado oposto da força, ocorreu no universo da música: a banda heavy/occult rock Lucifer (alcunha apropriada em um gênero supostamente apadrinhado pelo tinhoso), protagonizada pela musicista alemã Johanna Platow, que idealizou e batizou a empreitada.
Criado em 2014, o grupo fez sua estreia em Porto Alegre em 20 de abril de 2026, no Espaço Marin. Com um público aquém do merecido, o quinteto evocou carisma e desenvoltura quase sobrenaturais para entregar uma performance contagiante (e hipnotizante). Se algum dos músicos ali vendeu a alma ao diabo, é de suspeitar que tenha sido por um bom preço, pois que espetáculo! E, por deuz: é muito gratificante uma apresentação de rock básico entregue com devoção.

Junto com louraça belzebu, que personifica a iniciativa musical com um dos nomes dados ao tinhoso, estava a congregação de peso constituída por Kevin Kuhn (bateria), Coralie Baier (guitarra), Max Eriksson (guitarra) e Claudia González Díaz (baixo, que também toca com a excelente artista inglesa Rosalie Cunningham). No palco, o destaque realmente foram as execuções, já que, além do backline, só havia a denominação da banda estampada em um telão de leds ao fundo e ventiladores junto aos retornos.
Com forte influência do hard rock setentista e fervor no evangelho black sabbathico, a Lucifer enfileirou composições cativantes e de refrães grudentos durante cerca de 1h10min – priorizando faixas do até então mais recente álbum “Lucifer V” (2024). Isso com uma atuação enérgica, que incluiu interações com o público, baterista em pé, backing vocals muito bem colocados e aqueles momentos instigantes em que os responsáveis pelos instrumentos de corda fazem pose colocando guitarras e baixo em direção ao céu.

O início da liturgia deu-se com “Anubis”, primeiro single da carreira e peça que andava fora do repertório há uma meia-dúzia de anos. A sequência veio com “Ghosts” e “Crucifix”, quando a frontwoman saudou seus “fallen angels” na plateia. Em seguida foi a vez de “Riding Reaper”, “Wild Hearses” e “Lucifer”. Antes de “At the Mortuary”, Johanna lembrou que todos vamos desencarnar. Precedendo “Slow Dance in a Crypt”, a cantora destacou que se tratava de uma canção de amor.
Vieram, a seguir, “The Dead Don’t Speak” e “California Son” encerrando a primeira parte do set. Johanna, então, fez graça ao comentar que bandas esperam que seus fãs peçam para que toquem mais nas aparições ao vivo, quando o repertório supostamente finda. Com a reação positiva da galera, tivemos o bis, que contemplou “Bring Me His Head”, “Going Blind” (releitura do Kiss) e a poderosa “Fallen Angels”. Vale pontuar a qualidade do som no Espaço Marin, algo que, certamente, colaborou para ampliar a potência da atração – que já é boa nas gravações de estúdio, e soou especialmente poderosa em ação.
Enquanto muitos matam em nome do senhor, é irônico – e salutar – que outros tantos se divirtam sob a batuta do anjo caído. Como sugeriu o Black Sabbath no hino “N.I.B”: “my name is Lucifer, please take my hand”. Pois pegamos firme e seguimos com gosto por esse passeio pelo caminho da mão esquerda que o rock possibilita.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

