entrevista de Danilo Souza
Um dos principais pesquisadores e historiadores da música em Vitória da Conquista, Plácido Oliveira documenta as obras dos artistas do passado e do presente em seu projeto “Memória Musical do Sudoeste da Bahia”, além de também continuar na ativa como músico com a sua banda, a Distintivo Blue. Com anos de dedicação na área, chegando a escrever uma tese de mestrado sobre a cena rock no município, ele tem muita história para contar. “Em 2001, eu fiz o vestibular para História na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e, coincidentemente, foi nessa época que estava começando a ter acesso à cena rock e aos bastidores das bandas. A sensação que a gente tinha é que algo muito grande e inédito estava acontecendo, aquela sensação de cena, de movimento de todo mundo junto, todos por todos, isso aí me deu a clara sensação de que estava vivendo alguma coisa interessante”, relembra Oliveira.
Sempre envolvido com arte – antes de ir de vez para a música, Plácido foi roteirista freelancer na Maurício de Sousa Produções, responsável pela mais conhecida história em quadrinhos do país, a “Turma da Mônica” – o músico conta que sempre preferiu as canções e bandas consideradas antigas… antigas meeesmo, chegando a Robert Johnson, ícone do blues. “Eu fui me interessando mais por música mais velha do que pelas músicas de momento, sempre tive essa sensação quando era adolescente, que todo mundo buscava as músicas do momento e eu não. Me interessava por músicas que eram da época da minha mãe ou da época da minha avó”, ele conta, citando também Muddy Waters e os Rolling Stones.
Com um projeto focado em divulgar a música que rola em Vitória da Conquista, a principal cidade do sudoeste baiano, e também o que acontece pela região, o pesquisador argumenta que o modo como o mercado molda a música mudou também o jeito como o reconhecimento chega para os artistas hoje. Ele destaca Elomar, que ficou nacionalmente conhecido no país ainda numa época em que as rádios e as gravadoras eram o principal termômetro de sucesso, e o equipara com a banda Dona Iracema, que furou a bolha já na era do streaming. “A gravadora era quem decidia o que você ouvia, você não tinha muita liberdade. Esse era o mundo de Elomar. Então, uma gravadora, a Kuarup, chegou e viu que ele era um grande artista, investiu, gravou o LP, distribuiu e ele é mundialmente famoso por isso. Já a Dona Iracema [banda de hardcore de Vitória da Conquista, hoje o maior nome da cidade no cenário nacional] já está num mundo completamente diferente. Eles tocam no mesmo Spotify em que o Led Zeppelin toca e não tiveram que pagar milhões para estar nessa mesma plataforma”, comenta o historiador.
Documentar uma região inteira numa era em que todos registram tudo quase que em tempo real ajuda ou atrapalha o trabalho? Plácido responde: “Hoje tem tanta informação que às vezes até atrapalha […] isso é bom, mas também te deixa meio pirado. Se você não tiver um método, não sai do lugar”, admite.
Nessa entrevista, falamos sobre o que é ser artista e pesquisador em uma cidade do interior do Nordeste e as dificuldades enfrentadas no processo de documentar o trabalho das bandas locais. Leia abaixo.

Plácido, quando surgiu o seu interesse pela música?
Bom, como artista, acho que sempre esteve comigo. Quando era criança, era mais ligado na arte das histórias em quadrinhos, tanto que meu primeiro emprego foi como roteirista de histórias em quadrinhos freelancer na Maurício de Sousa Produções. Quando cheguei ao final da adolescência, tive contato com o pessoal da cena rock daqui de Vitória da Conquista. Eu estudava no Colégio Paulo VI, onde conheci o pessoal e meio que “troquei de arte”, passando a me interessar pelos bastidores da música e os ensaios das bandas. Aí percebi que eu também poderia cantar. Comecei a fazer parte da banda TomaRock, depois fui pra uma outra banda, chamada The New Old Jam, e em 2009 fiz a Distintivo Blue, que é essencialmente autoral e voltada pro blues.
Quais influências formam sua visão sobre música e cultura?
A maioria dos artistas de blues tem primeiro um contato com o rock clássico dos anos 60 e 70, como Led Zeppelin e Deep Purple, e que era o estilo da TomaRock e da The New Old Jam. Fui me interessando mais por música mais velha do que pelas músicas de momento, sempre tive essa sensação quando era adolescente, que todo mundo buscava as músicas do momento e eu não. Me interessava por músicas que eram da época da minha mãe ou da época da minha avó. Comecei com Guns n’Roses e Dire Straits, que até hoje são as bandas de que mais gosto e mais admiro dos anos 80, e, aqui do Brasil, Legião Urbana e Raul Seixas; fui pegando as influências desse pessoal e indo cada vez mais para trás, chegando a Muddy Waters, Rolling Stones, até o Robert Johnson, por exemplo, que já é ali dos anos 1930.
Você se lembra do momento em que percebeu que queria dedicar parte da sua vida a preservar a memória musical da região?
Acho que isso tem origem no meu interesse por bastidores. Sempre gostei de entender os bastidores das coisas, então gostava muito de ouvir música de videogame. Eu gravava as trilhas sonoras do Street Fighter II, do Sonic, de várias coisas, e ouvia. Gostava de ter essa sensação de que tenho acesso a algo dos bastidores e que geralmente a pessoa que está jogando nem presta atenção. Em 2001, fiz o vestibular para História na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), foi o primeiro que fiz e logo consegui passar e comecei a cursar. Coincidentemente, foi nessa época que estava começando a ter acesso à cena rock aos bastidores das bandas, e a sensação que a gente tinha é que algo muito grande e inédito estava acontecendo, porque nós tivemos movimentações de rock em Vitória da Conquista desde os anos 80, ou até antes, mas aquela sensação de cena, de movimento de todo mundo junto, todos por todos, isso aí me deu a clara sensação de que estava vivendo alguma coisa interessante.
Quais critérios você usa para escolher os artistas e registros que compõem o projeto Memória Musical do Sudoeste da Bahia?
Qualquer manifestação artística, porque é a memória musical do sudoeste da Bahia, ou seja, relacionada à música. Então, não é só o músico do sudoeste da Bahia, às vezes é um músico de fora que está passando por aqui e dá uma entrevista. Está valendo! É uma coisa muito ampla, tem a ver com música e associada à nossa região, então, se você está aprendendo a tocar violão, compôs sua primeira música e está naquela fase de ainda não ter coragem de mostrar para alguém, você é bem-vindo! Se quiser mandar o seu release, é só entrar em contato. As portas estão sempre abertas. Se você gosta de escrever sobre música, nós temos uma fanzine, que é um dos principais subprojetos. Quer escrever um texto para ser publicado na próxima edição? Manda! Se couber no formato [do fanzine, que geralmente é como uma “mini-revista” impressa, com limites de caracteres], a gente faz. Se não couber, vai para o site.

Como você vê a relação entre música e mercado? O Sudoeste baiano é devidamente reconhecido no cenário estadual e/ou nacional?
A questão é que quando se fala em mercado musical, é um mundo completamente diferente. Elomar veio lá no final da década de 70, numa época em que para ouvir alguém na rádio, necessariamente essa pessoa passou por uma gravadora e teve toda aquela questão de empresa com o artista e tal. A gravadora era quem decidia o que você ouvia, você não tinha muita liberdade. Esse era o mundo de Elomar. Então, uma gravadora, a Kuarup, chegou e viu que ele era um grande artista, investiu, gravou o LP, distribuiu e ele é mundialmente famoso por isso. Já a Dona Iracema [banda de hardcore de Vitória da Conquista, hoje o maior nome da cidade no cenário nacional] já está num mundo completamente diferente. Eles tocam no mesmo Spotify em que o Led Zeppelin toca e não tiveram que pagar milhões para estar nessa mesma plataforma. Então, estamos em uma fase do nicho da música. Dona Iracema é grande, mas no mainstream ninguém sabe quem é, assim como no mainstream, hoje em dia, pouca gente sabe quem é Elomar. Hoje, a gravadora já não tem mais tanto poder como antes. Basicamente, o poder da gravadora hoje em dia é ter grana para investir em divulgação.
Como a tecnologia tem ajudado (ou dificultado…) esse processo de arquivamento e divulgação da música local? Hoje em dia, todo mundo registra tudo nas redes quase de forma instantânea.
Para mim não faz muita diferença, porque quando comecei já tinha a internet, que estava caminhando a passos largos. Tudo bem, na época tinha mais material físico e eu podia ir numa banca de revista, pegar uma revista e tal, mas não tinha tanto livro como tem hoje, por exemplo. Hoje tem tanta informação que às vezes até atrapalha. Você pode ter também o banco de Teses da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para pegar todas as dissertações de mestrado e de doutorado sobre o tema que você quiser e fazer sua pesquisa, isso é bom, mas também te deixa meio pirado. Se você não tiver um método, não sai do lugar. Eu mesmo já passei por isso e pensei: “velho, não tenho capacidade de ler tudo até chegar aos 90 anos de idade, tenho que filtrar”. Você tem muita coisa de tudo, mas você tem que ter foco e método de pesquisa.
Você movimenta a cena da cidade com o subprojeto Toca Autoral, que publica nas plataformas, como o Spotify, canções originais de artistas que nasceram ou vivem em Vitória da Conquista. De onde veio essa ideia e como ela funciona na prática?
O “Toca Autoral” é em alusão ao “Toca Raul”, que considero como se fosse um símbolo da música cover. Então, é uma forma de contrariar esse conceito e para valorizar mais o trabalho autoral. Gravo seis músicas dos artistas que são escolhidos, em áudio e vídeo, e faço pequenas entrevistas para que eles contem sobre sua própria história, além de explicar cada uma das músicas. A pessoa tem que ser do sudoeste da Bahia ou estar morando no sudoeste da Bahia. Tanto que o primeiro participante do Toca Autoral foi Paul Bergeron, que é de Los Angeles, mas escolheu morar aqui com a família dele. O primeiro teaser do Toca Autoral era assim: “Artistas da região, nativos ou não”. Eles [os artistas que participaram do Toca Autoral] cumpriram todos os pré-requisitos de uma seleção que é rígida mesmo, porque ela subentende que você quer levar a sua carreira a sério. Teve projetos que se inscreveram para tocar, que eu até conheci e falei “pô, esse cara é um baita de um músico”, mas não se dá o trabalho de escrever um release…
Se você tivesse que resumir em uma frase o seu trabalho de preservar a memória musical de Vitória da Conquista, o que diria?
Preservar a música local é necessário, em todos os sentidos da palavra, e demorou. É isso, é necessário e demorou.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/

