entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa
Após abordarem as inquietações distópicas, a relação com a inteligência artificial e a ambiguidade entre o mundo real e virtual no disco “Ones & Zeros”, os Birds Are Indie aprofundam a temática iniciada há três anos no novo álbum, “The Stone Of Madness” (2026). Desta vez, a banda de Coimbra adota uma tônica mais introspectiva, deslocando a sua análise do coletivo para o indivíduo, através dos seus mecanismos interiores, tensões, repetições e bloqueios emocionais.
No disco, editado a 27 de março pelo selo Lux Records e que dominou a conversa com o vocalista e guitarrista Ricardo Jerónimo, pelo Google Meet, o trio continua a fazer uso das caixas de ritmos e dos sintetizadores aliando-os ao lado roqueiro e de indie pop que os caracteriza. Mas, se em 2023 as canções eram mais diretas e luminosas, no novo trabalho há maior densidade e existe igualmente uma renovação da intensidade vocal e interpretativa que o álbum anterior já patenteava. “Quisemos dar seguimento ao caminho que iniciámos no disco conceitual “Ones & Zeros” e decidimos manter um pouco a linha anterior com algumas alterações e evoluções. Na lógica de tornar estes álbuns gémeos, também nos fazia sentido que existissem pontes fáceis entre os dois trabalhos e que não fossem sonicamente universos completamente diferentes”, conta Jerónimo.
O primeiro single, “Not Today”, espelha bem a sensação de adiamento que percorre o álbum. Entre a frustração e a catarse expressas na faixa, emerge a voz mais madura e emotiva da multi-instrumentista Joana Corker e a sua urgência interpretativa intensifica o impacto da canção e a mensagem do grupo. “I Could Laugh”, o novo single, marca o regresso da banda ao rock canônico, a bela e contemplativa “Gold And Symmetry” retrata a busca por estabilidade e algum brilho, enquanto a acelerada “Bend” aborda a ideia de uma pessoa se encontrar num estado de possível não retorno ou mesmo de loucura (que está muito presente no trabalho).
Numa das faixas mais interessantes do álbum, “No More Alibis”, cantada por Joana Corker, os Birds Are Indie criaram uma música viciante e de lírica sugestiva, recriando a Madchester dos anos 1980. “Tentamos tirar partido das caixas de ritmos, que também estão presentes noutras faixas, mas, neste caso, quisemos mesmo usar o ‘beat’ como algo mais ‘groovie’, dançável e também com o baixo e as guitarras a fazerem linhas diferentes e não simplesmente os acordes que usamos maioritariamente”, explica Jerónimo. O disco termina com a melancólica “When Something Changes”, iniciada com uma pegada folk e que encerra com o mantra poético e prolongado “Soon you’ll find me on distant shores I’ll write my name when you wrote yours”. A faixa ecoa o final de festa que a derradeira “Behind The Sun” representava no álbum “Ones & Zeros” e Jerónimo espera que “as pessoas entrem no mantra na nossa companhia até ao fim da música”.
Relativamente ao futuro, o vocalista e guitarrista dos Birds Are Indie sublinha a ideia da evolução como o fator mais importante. “O que tentamos sempre é não estagnar, mudar e evoluir. É algo que seguimos em termos criativos, a nível de composição, nos discos e clipes que fazemos, nas gravações e nos instrumentos que tocamos. Por isso é que os nossos primeiros álbuns tinham uma guitarra, voz, pandeireta e um xilofone e agora estamos onde estamos. Tudo acontece de forma natural sem haver objetivos pré-definidos. A partir daí, apenas reforçamos essa naturalidade e questionamos: “É por aqui que queremos ir?” ou então damos continuidade a uma ideia e dizemos: “Isto faz sentido, por isso apostamos nisto”. O que podemos tentar fazer para a frente? Tocar em cidades onde nunca tocámos, mas também voltar a Espanha com este disco e atuar em alguns festivais onde nunca estivemos. Mas, o importante é que as pessoas continuem a gostar dos nossos álbuns e, para já, estamos satisfeitos”, conclui.
De Coimbra para o Brasil, Ricardo Jerónimo conversou com o Scream & Yell sobre os Birds Are Indie. Confira:
No anterior trabalho, “Ones & Zeros” (2023), vocês centraram a temática na ambiguidade entre o mundo real e virtual e na relação com a inteligência artificial. O vosso disco mais recente, “The Stone Of Madness” (2026) propõe um aprofundamento dessa orientação e coloca o foco no indivíduo, nos seus mecanismos interiores e nas suas vivências. Porque resolveram seguir este caminho específico e a via conceitual que iniciaram há três anos?
Na verdade, nestes dois trabalhos em conjunto tentamos que eles funcionassem quase como irmãos siameses. E este segundo, “The Stone Of Madness”, aconteceu assim porque o anterior também se processou daquela forma. O álbum “Ones & Zeros” foi um pouco o despoletar de uma maneira diferente de pensar os discos. Até esse momento pensávamos neles como conjuntos de canções, quase como um álbum de fotografias que de vez em quando tirávamos e depois guardávamos. Embora as músicas pudessem ter alguma coerência entre elas e tinham, isso devia-se ao fato de terem sido compostas e gravadas num determinado período da nossa vida. Obviamente que agora somos de uma forma e dois meses ou cinco anos depois mudamos e efetuamos as coisas de maneira diferente. No caso do “Ones & Zeros” foi mesmo um álbum conceitual que tentámos que fizesse sentido a todos os níveis, não só nas letras, mas também musicalmente, na nossa postura, imagem, fotografias e nos clipes. Tudo isso transmitia o universo de que você falou, da distopia real e virtual. Mas, tinha uma abordagem muito ligada ao coletivo e aquilo que somos enquanto sociedade, comunidade e humanidade, bem como as coisas que podem estar a colocar tudo isso em risco ou pelo menos a gerar mudanças um pouco assustadoras numa parte delas. O disco novo, “The Stone Of Madness”, representa uma espécie de dualidade do álbum “Ones & Zeros”, porque tem uma lógica mais interior, psicológica, individual que não é necessariamente a minha nem só a minha. O trabalho anterior não traduzia propriamente a visão pessoal que tenho do mundo, tratava-se de uma construção de personagens e de coisas que, naturalmente, também me passam pela cabeça. “The Stone Of Madness” funciona um bocado no mesmo sentido. Não é um álbum pessoal sobre as minhas questões ou problemas nem sobre as coisas que eu penso ou aquilo que vivo. Mas, isso estará sempre imbuído no disco, pela forma como tentei veicular pensamentos que andam na cabeça de pessoas.
As personagens que habitam o novo disco revelam vários estados de espírito, como a desorientação, prepotência, contemplação ou a soltura, mas a ideia de loucura aparenta estar muito presente. Foi por essa razão que deram ao álbum o título de “The Stone Of Madness”?
Sim, mas não necessariamente na perspectiva de loucura enquanto estado clínico ou em termos da saúde mental. Não é nesse sentido. Por isso é que demos o título de “The Stone Of Madness” que é inspirado num quadro de Hieronymus Bosch. A pintura ilustra um procedimento médico, um pouco assustador, em que não percebemos historicamente e fatualmente se acontecia, embora existam indícios de que se tenha verificado. Era a ideia ancestral e medieval de que a loucura estava alojada na cabeça de uma pessoa e podia ser extraída através de uma técnica. Portanto, a demência era algo físico, quase como uma pedra ou um quisto, ou seja, algo que através de uma cirurgia podia ser retirado. Como disse, há uma pintura do Bosch que ilustra isso e nos nossos videoclipes e na capa do álbum também piscámos o olho a esse quadro. O conceito é um pouco esse, a loucura não interpretada enquanto um estado clínico, porque ao longo dos séculos foi assim chamada, por diversas razões. Se uma pessoa tinha epilepsia no século XIII era considerada louca ou se uma mulher achava que tinha direitos e tentava valer isso também era queimada na fogueira e resolvia-se o assunto. Portanto, centrava-se mais na lógica de algo interior e do que temos dentro de nós. Depois, uma das belezas do quadro de Bosch é que a extração é de uma pedra, mas em cima da mesa está uma flor. Então o que é a loucura na verdade? O que é essa tal pedra? São um pouco esses estados de espírito que você referiu encarados neste raciocínio. Mas, também de coisas que nós pensamos e atravessamos interiormente, psicologicamente, mentalmente e não no sentido clínico de alguém estar louco ou de ter problemas psiquiátricos.
No clipe do primeiro single, “Not Today”, a personagem vivida pela Joana Corker exibe sinais de desespero e tensão e ilustra muito bem o sentimento de frustração, mas também de libertação associada à canção. Em que medida este vídeo reflete a vossa ideia de estender o conceito do álbum e enquadrar música, imagem e narrativa?
O clipe em termos de imagem vai buscar muito à capa do disco. Como disse anteriormente, fizemos tudo na mesma altura. A gravação da música em estúdio e depois o desempenho da Joana enquanto atriz no vídeo derivou bastante daquilo que é a performance dela em palco. Porque é uma canção onde nos últimos concertos, que fizemos antes de começar a gravar o disco, já a tínhamos tocado. Foi uma das primeiras faixas que compusemos e fomo-la testando nos shows e a Joana ganhou uma confiança, exteriorização e catarse no palco que nos surpreendeu. As pessoas que compunham o público diziam: “A Joana naquela música entrega-se à atuação de uma maneira incrível”. Nós dissemos-lhe que quando gravássemos a faixa ela tinha de imaginar que estava no palco e devia soltar tudo e foi assim que aconteceu. Isso refletiu-se no vídeo e na personagem que você referiu, que de repente começa a ter umas visões um pouco estranhas. Quando vir os outros clipes que lançaremos (nós fizemos três) vai perceber que a ideia é irmos cruzando universos entre músicas, letras, figurinos e as coisas vão se misturando de uma forma algo caleidoscópica. Nesse primeiro clipe, a Joana começa a atirar livros pelo ar e a jogar outras coisas fora que já não lhe interessam. Por isso, ela é a personagem principal do single “Not Today”.
Outra música que me chamou à atenção foi o vosso novo single, “I Could Laugh”, porque conjuga um sentido melódico pop com uma cadência roqueira e é interessante a forma como vocês estabelecem uma correlação entre a alienação e a catarse e criam uma faixa contagiante.
É uma faixa que ainda não tocámos ao vivo mas, nos ensaios, sentimos muita energia nela e na altura em que a compusemos, também. É uma das canções que não tem ´drum machines´. Trata-se da Joana Corker a tocar bateria, o Henrique Toscano a tocar o baixo e eu toco guitarra e canto. Em certa medida, a letra é um bocado irônica: “I could laugh but crying sounds so much better”. É alguém que está quase a gozar com a situação e a pôr em causa se é melhor rir ou chorar. Normalmente, nós dizemos rio para não chorar. A música e o refrão em particular invertem um pouco essa lógica, no sentido em que eu choro porque rir já não me dá tanto gozo e chorar dá-me mais satisfação. O resto da letra é de certa forma a catarse de alguém que está numa situação limite.
Quais são as vossas expectativas relativamente ao acolhimento do público para o novo disco?
Normalmente, criamos poucas expectativas. Não sei se será uma estratégia de defesa, por isso avançamos e depois logo se vê qual foi a reação do público. As pessoas não costumam atirar-nos pedras nem ovos e no fim dos shows batem palmas, dizem que gostaram e nós continuamos (risos). Se nos tivéssemos desiludido muitas vezes, provavelmente já tínhamos perdido a motivação. As coisas continuam a correr bem, as pessoas gostam de ver os concertos, falam connosco no final e o ambiente que se cria nos shows e no pós-shows é bom. Por outro lado, os espaços em que tocamos propiciam isso. Estou a pensar em salas como o Maus Hábitos, no Porto, que conhecemos bem e onde iremos iniciar o tour de apresentação do álbum. Em Lisboa, a Bota, onde já nos encontrámos consigo, também tem um espírito muito fixe (legal). Na nossa cidade, Coimbra, o Salão Brasil é quase como uma segunda casa para nós. Portanto, os espaços e as pessoas que fazem esses lugares e estão à frente dos mesmos, tal como os técnicos ou os responsáveis da produção, são nossos conhecidos. Esse conforto faz com que nos sintamos à vontade para que as coisas corram bem.
Qual é a vossa mensagem para os leitores do Scream & Yell?
Nós sabemos que no Brasil há muita gente a escutar as nossas músicas, porque os números chegam-nos pelas plataformas e ficamos contentes. Muitas vezes lemos comentários ou mensagens de brasileiros a dizer que gostariam que fossemos a São Paulo ou a Belo Horizonte. Curiosamente, um terço dos Birds Are Indie, o Henrique Toscano, esteve recentemente no Brasil a tocar com outra banda de Coimbra, os So Dead. Ele gostou bastante da experiência e veio de lá com boas histórias. Quem sabe se um dia isso nos poderá acontecer. Enquanto grupo, os Birds Are Indie têm uma logística diferente, porque não tocamos num ‘setup’ tradicional de instrumentos. A banda que eu referi, os So Dead, com quem o Henrique se deslocou ao Brasil, não levou instrumentos de Portugal para lá. Nem guitarras ou pedais, absolutamente nada. Isso estava disponível nas cidades onde atuaram, porque são instrumentos standard de uma banda rock típica. No nosso caso, as coisas são de tal forma personalizadas que torna a logística difícil. Por isso, estamos um pouco mais voltados para fazer outros tours na Europa que nos permitam continuar a viajar de carro, como fazemos sempre em Espanha. Mas, nunca se sabe. Agora que trabalhamos mais com ‘drum machines’ é possível que no futuro possamos tornar o ‘setup’ mais transportável para outros continentes. Quanto ao disco, esperamos que as pessoas do Brasil gostem e que o escutem da forma que quiserem. Provavelmente será mais prático ouvi-lo nas plataformas digitais. Também há muitos brasileiros a viver em Portugal. Por isso, quem nos conhece no Brasil podia sugerir à família que tem cá para nos ir ver tocar nas cidades onde os seus parentes vivem. Seria uma interação muito engraçada.
– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é do estúdio tsunami.alert

