entrevista de Bruno Lisboa
Vivien Goldman começou no jornalismo musical pouco antes da explosão do punk, em 1977, mas teve tempo suficiente para perceber, em primeira mão, o que ela chama de uma “mudança sísmica”. Se antes havia poucas mulheres para entrevistar, de repente surgia uma comunidade inteira: The Raincoats, The Slits, Chrissie Hynde, Siouxsie Sioux. “Finalmente eu tinha uma comunidade. Era visivelmente diferente — e melhor”, lembra. Essa transformação não era apenas estética ou sonora: era estrutural, política, profundamente ligada à presença feminina em um território historicamente masculino.
Essa vivência atravessa cada página de “A Vingança das Punks” (“Revenge of the She-Punks”), lançado por Vivien originalmente em 2019, e com edição brasileira via Editora Barbante, com tradução de Emanuela Siqueira, em 2025. No livro, Goldman organiza uma espécie de “herstory” do punk — termo que ela mesma resgata de uma canção do Flying Lizards, banda pós punk que ela integrou em 1979 — a partir de quatro eixos fundamentais: identidade, dinheiro, amor e protesto. “Isso exigiu muita reflexão e escuta. Os temas foram extraídos da música — e da vida”, explica. Mais do que uma cronologia, o livro funciona como um mapa afetivo e político das mulheres que reinventaram o punk por dentro.
Longe do clichê que reduz o movimento à raiva juvenil, Goldman propõe uma leitura mais ampla: o punk como espaço de criatividade, solidariedade e transformação. Ainda assim, a raiva continua sendo combustível. Como ecoa a célebre frase de John Lydon, citada por ela, “a raiva é uma energia”. E talvez seja justamente essa energia — canalizada por gerações de mulheres — que dá ao punk sua longevidade e capacidade de reinvenção. Na conversa a seguir, Vivien Goldman revisita suas memórias da cena original, reflete sobre os desafios de escrever uma narrativa global e feminina do punk e reforça a atualidade de um movimento que, décadas depois, segue sendo abrigo para quem deseja se rebelar com as opressões do sistema. O livro está disponível em livrarias e, também, no site da Editora Barbante. Leia a entrevista abaixo.

Você não foi apenas uma jornalista cobrindo a ascensão do punk, mas também alguém profundamente inserida naquele momento cultural. Como sua relação pessoal com o punk influenciou a forma como você abordou a escrita de “Revenge of the She-Punks”?
Intimamente. Estávamos divulgando uma cena e uma mudança cultural que todos nós vivíamos como jovens artistas, músicos e escritores, muitas vezes nos cruzando nas mesmas ruas vizinhas, seja em Londres ou Coventry.
No livro, você organiza a narrativa em torno de quatro temas: identidade, dinheiro, amor e protesto. Por que escolheu esses pilares específicos para explorar as contribuições das mulheres ao punk?
Isso exigiu muita reflexão e escuta. Os temas foram extraídos da música — e da vida.
O punk costuma ser descrito como uma força disruptiva na música e na cultura. Na sua perspectiva, o que o tornou uma plataforma tão poderosa para as vozes femininas?
Tendo começado no jornalismo musical em tempo integral poucos meses antes da explosão do punk, pude observar a mudança sísmica em primeira mão. Quando comecei, não havia muitas musicistas mulheres para entrevistar — tive a sorte de entrevistar Gladys Knight duas vezes e Stevie Nicks, do Fleetwood Mac, por exemplo. Mas, em uma mudança abrupta, passaram a surgir várias mulheres baixistas ou bateristas, bandas formadas só por mulheres (embora um baterista homem não fosse incomum), como The Raincoats ou The Slits; ou cantoras e compositoras fortes e autônomas trabalhando com homens, como Chrissie Hynde, Siouxsie Sioux ou Toyah. Finalmente eu tinha uma comunidade. Era visivelmente diferente — e melhor.
Muitas pessoas associam o punk à raiva e à rebeldia, mas seu livro também destaca criatividade, solidariedade e transformação. Quais aspectos do movimento você acha que foram mal compreendidos ao longo do tempo?
Hoje já existem várias vertentes do punk, do zen ao cristão ao fascista. Essa amplitude pode ser mal compreendida.
Sua carreira como jornalista musical começou durante um período de intensa mudança cultural no Reino Unido. Como ser uma das poucas mulheres escrevendo sobre música na época influenciou sua perspectiva?
Em retrospecto, percebo que era preciso ser forte e ter um senso de humor um tanto mórbido.

Embora o livro foque nas origens do punk em lugares como o Reino Unido e os Estados Unidos, você também destaca seus ecos globais. O que mais te surpreendeu ao pesquisar cenas punk fora da narrativa anglo-americana tradicional?
Encerro o livro com a banda colombiana Fertil Misera, que achei muito inspiradora. Elas incorporam a essência do espírito punk, para mim, de forma sincera; fundadas por irmãs, arrecadam comida e roupas para crianças de rua em seus shows e decidem tudo coletivamente.
O punk é frequentemente considerado um movimento do passado, ligado ao final dos anos 1970. No entanto, muitos dos temas abordados no seu livro — desigualdade de gênero, dificuldades econômicas, instabilidade política — continuam urgentes hoje. Você acredita que o punk ainda tem o poder de inspirar novas gerações?
É difícil escapar do punk quando você está com raiva e está apenas começando, pois ele permite que você se expresse de forma autêntica, com mais paixão do que técnica.
O livro se lê quase como um documentário musical, misturando história, entrevistas e reflexão pessoal. Qual foi a parte mais desafiadora de equilibrar essas diferentes abordagens narrativas durante o processo de escrita?
Você tocou em uma parte realmente desafiadora do processo! Tentei entrelaçar todas as ricas narrativas globais em um conjunto coeso e abundante.
Como alguém que testemunhou a primeira onda do punk de perto, como você vê a relação entre esse movimento original e expressões posteriores do punk feminista, como o riot grrrl?
No livro, observo que uma mulher, Toby Vail, foi em grande parte responsável por apresentar o grunge de Seattle e Kurt Cobain a artistas como The Raincoats, que ele estava defendendo imediatamente antes de sua morte. A canção continua a mesma no sentido de que, como John Lydon disse no PiL, “a raiva é uma energia”. Mas a criatividade da maioria dos artistas é, em certa medida, estimulada por seus predecessores, e no livro tentei traçar essa linhagem — essa “herstory” — de forma mais completa.
++ Herstory — também o título de uma das minhas antigas músicas com o Flying Lizards!
As cenas musicais muitas vezes são moldadas tanto pela indústria quanto pelos artistas. Como as estruturas econômicas da indústria musical afetaram as mulheres no punk naquela época?
Foi difícil. Obviamente, assim como ainda hoje, as mulheres muitas vezes ganhavam menos que os homens pelo mesmo trabalho.
O Brasil tem uma longa história de música politicamente engajada e cenas underground vibrantes. Que conexões você vê entre o espírito do punk e culturas musicais em lugares como o Brasil?
A ligação entre música e política no Brasil é muito forte e energética — amantes da música em todo o mundo foram inspirados por Gilberto Gil e seu grupo (de amigos), e houve outras gerações desde então. Eles não tiveram medo do engajamento, de “sujar as guitarras”, por assim dizer, de uma maneira ativista e punk.
O que você espera que os leitores brasileiros levem de “A Vingança das Punks”?
Um espírito de solidariedade, comunidade e otimismo quanto ao papel da cultura em promover mudanças positivas nestes tempos turbulentos.
Olhando para trás, quais artistas ou histórias do livro pareceram especialmente urgentes ou importantes para você destacar?
Levei muito tempo para decidir o fluxo e a construção desta antologia, desde a selvageria do punk, passando pelo reggae e o afrobeat de Fela Kuti, até o abandono disciplinado da música harmolódica de Ornette Coleman.
Se o punk era sobre romper limites, quais limites você acha que os artistas de hoje ainda precisam desafiar?
Ha! Você tem a noite toda?
Por fim, depois de revisitar todas essas histórias ao escrever o livro, sua própria compreensão do punk mudou de alguma forma?
Percebi que eu estava mais irritada do que imaginava e a escrita foi bastante catártica.

– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014.

