entrevista de Marcelo Costa
Nascida em Rennes, na Bretanha francesa, filha de um contrabaixista francês com forte influência de jazz e de uma dançarina brasileira, a jovem Luiza Fernandes Viana chega ao primeiro álbum, que traz apenas seu primeiro nome, após alcançar, com o single de verão “Soleil Bleu”, a marca de 1,5 bilhão de visualizações nas redes sociais, e o 1º nas rádios da França e Bélgica. “LUIZA”, o álbum, traz o single famoso e mais 13 canções de muito potencial radiofônico que misturam reggae, música latina e influências eletrônicas.
O Brasil tem um espaço enorme na vida e na música de Luiza, que cresceu vindo com frequência ao país com a mãe para visitar parentes em Minas Gerais e na Bahia – e até passou um tempo na Amazônia vivendo “a vida como deveria ter todo dia”, segundo ela, em entrevista de vídeo ao Scream & Yell. Essa rotina fez de Luiza completamente fluente na língua portuguesa (“É a minha língua materna”, afirma): “Comecei a escrever em português bem antes do francês, porque acho essa língua muuuuito musical”, conta.
“LUIZA” une influências francesas e tropicais (música “eletrônica, dub, essa pegada do baixo, do sub bem forte”, explica) com música brasileira, “esse sol, essas percussões’, completa. Ela alterna francês, português e uma língua inventada, e recria um clássico nacional, “Manhã de Carnaval”, a canção mais popular de Luiz Bonfá e Antônio Maria, gravada para a trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, de 1959. Mas confessa: “Pra ser sincera, eu poderia acrescentar umas coisas mais estranhas no disco para que ele fosse total Luíza de verdade (risos)”.
Na conversa abaixo, Luiza revela que fez seu primeiro show no Brasil, abrindo para a também francesa Zaz, no dia de seu aniversário (“Foi muita emoção, muita emoção! Chorei demais da conta. Já quero voltar”), se empolga ao listar artistas brasileiros que admira, e diz que adoraria fazer um feat com Marina Sena: “Acho que a gente tem tudo a ver”. “LUIZA” é um lançamento do selo Chapter Two (em CD, vinil vermelho e digital) e já pode ser ouvido em todas as plataformas de streaming. Abaixo, você lê a nossa conversa com Luiza.
Luiza, você esteve recentemente no Brasil abrindo os shows de Zaz? Como foi mostrar sua música para o público brasileiro?
Foi emocionante para mim, foi emocionante. A primeira apresentação foi um dia antes do show oficial da Zaz, em um showcase que a gente fez na Áudio com alguns fãs que tinham respondido a uma mensagem. Então era um muito pequeno comitê. E era o dia do meu aniversário! Ou seja, a minha primeira apresentação no Brasil foi no dia do meu aniversário! Foi muita emoção, muita emoção! Chorei demais da conta. Foi muito, muito, muito bonito.
Rolaram umas questões técnicas, sabe? Foi meio difícil (ouvir) o som no palco. Acontece que, às vezes, você faz um show e depois que sai fala assim: “Nossa, mas foi demais esse show, foi ótimo”. E aí você vê os vídeos, e não foi tão bom assim. Aí eu saí desse show, que foi meio difícil porque a gente não tinha nossos (técnicos)… e eu não me ouvia bem, e eu achei que tinha feito um show ruim. Daí eu vi os vídeos e achei tudo ótimo (risos). Todos os vídeos que vi estavam ótimos.
É melhor do que o contrário de achar que foi bom…
É melhor. E aí todo mundo me falou que gostou, que amou, que adorou. Foi uma emoção tocar para gente da minha família, amigos, e conhecer pessoas que não me conheciam. Foi uma emoção, já estou com vontade de voltar,
No disco “LUIZA” você canta “Manhã De Carnaval” e, ainda, algumas outras canções em português (“Aperta”, “La Vida Loca”). Como é sua relação com a língua portuguesa?
É a minha língua materna! Eu comecei a falar em português, minha mãe é brasileira, né. Uma relação minha com o canto… E comecei a escrever em português bem antes do francês, porque acho essa língua muuuuito musical. (A língua portuguesa é) Muito melódica. E além das melodias, a gente pode também muito brincar com a percussão das palavras. E eu amo brincar de usar a minha voz e a língua como um instrumento. Usar a língua como percussão e as palavras como melodia. É a musicalidade das palavras. Acho que a língua portuguesa é ótima para fazer isso. Muito mais do que o francês. O francês é mais difícil para mim.
Você cresceu em um ambiente repleto de música. O que dessa vivência em casa você acredita estar presente em “LUIZA”?
Acho que generosidade, diversidade e essa coisa de não ter limites de explorar várias coisas, vários estilos, várias cores, várias pegadas. Não ter limite à criatividade. Acho que isso se reflete, se entende na minha música, no meu álbum.
Como foi construir musicalmente “LUIZA”? Ele é um álbum que te representa fielmente?
Pra ser sincera, eu poderia acrescentar umas coisas mais estranhas nele para que ele fosse total Luíza de verdade (risos). Mas eu gosto de pintar, e na pintura é muito difícil você falar “acabou”, sabe (como na música). Quando a gente começa uma música, ela pode ter várias direções, e a gente tem um tempo limite para devolver…
Eu trabalho com uma gravadora, e é uma parceria, eu não sou totalmente livre, mas é bom, porque talvez eu fosse perder as pessoas indo para todos os lugares. Então, eles me canalizam um pouco. Que pode ser, de certa forma, bom também nesse começo, para que o público possa me identificar. O povo às vezes precisa ter umas referências, uma base estrutural para poder encaixar a pessoa. Mas acho que consegui misturar uma boa parte de mim nesse disco, fazer uma boa… Tenho quase todas as cores do arco-íris nele.
Me interessei por sua vivência na Amazônia. Estive lá e é algo realmente mágico. Como foi sua experiência?
É a vida em estado puro, sabe? A vida… a vida. Comer, pescar, beber, construir casa, brincar, aprender. A vida como deveria ser todo dia, para mim. A vida, sabe, sem dinheiro, lendo a hora com o sol, vivendo com a lei natural dos encontros. Tudo de melhor.
Para você, em que lugar a música francesa e a música brasileira se encontram? O que as aproxima? Ou não?
Sabe, a gente não tem essa coisa de música francesa. Isso existe bastante no Brasil e, nossa, a gente sabe o que é música brasileira. Existem vários gêneros, mas a gente sabe… é, música brasileira. Aí, música francesa, a gente não tem essa pegada, não? Talvez tenha uma valsa, a chanson francesa, mas o francês escuta pouca música do nosso país, porque a gente escuta música do mundo inteiro. A musicalidade que vivenciei aqui na França, a maior, é a parte mais eletrônica. Comecei a descobri-la com meus 14, 15 anos e mergulhei muito, muito, muito, muito nesse mundo. Então, acho que a parte francesa na minha música é mais essa pegada eletrônica, também do dub, essa pegada do baixo, do sub bem forte. E a parte brasileira é essa tropicalidade, esse sol, essas percussões. Ritmo, festa, mas solar. Carnavalesco.
Você anda acompanhando a nova música brasileira? O que você anda ouvindo e com quem você gostaria de ter a oportunidade de fazer uma colaboração?
Eu amaria fazer uma colaboração com Marina Sena. Acho que a gente tem tudo a ver.
É legal.
Gosto muito dela! Muito, muito, muito. Não conheço muitas outras pessoas dessa geração, não. Passei por (algumas), mas não gostei tanto quanto da Marina.
E de artistas mais antigos, algum?
Dos antigos, todos. Todos! Seria difícil enumerar. Realmente, tipo, todos. Chico Buarque, Caetano, Milton Nascimento, Maria Betânia, Gilberto Gil, Tim Maia, TOOOODOS! Jorge Ben, tipo, amo, amo a música brasileira. Amo. E o forró com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, eu amo tudo da música brasileira. Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. Até hoje o funk, o piseiro, sabe? Eu amo, amo. Continuo sempre descobrindo. Tenho umas playlists que vou ouvindo sempre. Acho que a música brasileira vai tão bem no Brasil, sabe? Igual uma roupa que você veste, que fica bem em você. A música brasileira vai tão bem no Brasil. Sou fã, sou fã.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

