entrevista de Heloísa Lisboa
Após mais de uma década longe dos palcos e dos estúdios, Nevermore reuniu uma nova banda e preparou uma turnê de retorno. O Brasil recebe o quinteto no próximo domingo, 26, no Bangers Open Air, festival que acontece durante o final de semana em São Paulo. O grupo ainda se apresenta na terça-feira, 28, no Carioca Club, também na capital paulista.
Em entrevista ao Scream & Yell, Jeff Loomis, guitarrista e cofundador do Nevermore, conversou sobre as audições que culminaram na nova formação da banda, a turnê que passa pela América do Sul e o que os fãs podem esperar do futuro.
“O baterista, Van Williams, e eu estávamos conversando bastante pelo celular e, de vez em quando, falávamos sobre a ideia de reconstruir a banda”, lembrou Loomis ao contar sobre a decisão de dar um novo capítulo ao Nevermore. O músico foi integrante do Arch Enemy — que também figura no lineup do Bangers Open Air — por cerca de dez anos, mas afirmou que “não estava compondo para a banda”. Williams e ele, então, usaram grupos como Alice in Chains, com William DuVall, e Stone Temple Pilots, com Jeff Gutt, como exemplos para tomar a decisão de voltar com um novo vocalista.
Foi assim que Berzan Önen surgiu em cena. Mas ocupar o cargo antes pertencente a Warrel Dane não foi tão simples: Önen e outras centenas de cantores participaram de audições — artifício do qual até mesmo o Smashing Pumpkins lançou mão recentemente. Segundo Loomis, “era apenas sobre talento”. No entanto, ele admitiu que o novo vocalista precisava “ser capaz de cantar em um estilo parecido com o do Warrel Dane” e, ao mesmo tempo, ter suas próprias particularidades. Apresentando experiência, técnica vocal e versatilidade como cantor, Önen garantiu lugar na banda. Jack Cattoi, na guitarra, e Semir Özerkan, no baixo, fecharam a formação.
Antes de cair na estrada, o Nevermore ensaiou seus sucessos na Suécia, mais especificamente na casa de Tore Østby, do Conception e ARK. Depois, iniciaram a turnê na Turquia — berço de Önen e Özerkan. Agora, a próxima parada é em Santiago, no Chile, e, logo em seguida, São Paulo. A cidade carrega memórias agridoces para a banda, já que foi onde Dane faleceu, em 2017, quando gravava seu segundo álbum solo. O artista, que sofreu um ataque cardíaco, foi sepultado em Seattle, onde nasceu.
Seattle é também onde nasceu o Nevermore, com Jim Sheppard completando o trio de fundadores, ao lado de Loomis e Dane. Ainda que o lugar tenha servido de epicentro do grunge, a cena que atingia seu auge nos anos 1990 não foi suficiente para infectar as características musicais da banda de metal. “Na verdade, Chris Cornell estava na gravação do nosso primeiro videoclipe, para uma música chamada ‘What Tomorrow Knows’”, revelou Loomis sobre os primeiros anos do Nevermore e sua relação musicalmente distante com o grunge.
No segundo semestre de 2026, o grupo segue pela Europa com shows de abertura para Savatage e Judas Priest. Entre as performances no Brasil e a ida ao continente, o Nevermore deve amadurecer composições inéditas para o próximo álbum da banda. Os Estados Unidos, por sua vez, ficam de fora da turnê devido a problemas com o visto de Önen.
Confira a seguir a entrevista com Nevermore na íntegra.
Por que pensou que esse seria o melhor momento para reunir o Nevermore?
Meu Deus, não sei, para ser sincero. Eu não estava pensando no momento certo, mas eu tinha acabado de passar dez anos na [banda] Arch Enemy. O baterista, Van Williams, e eu estávamos conversando bastante pelo celular e, de vez em quando, falávamos sobre a ideia de reconstruir a banda. Sempre nos perguntávamos: é possível? Olhávamos para outras bandas que fizeram algo parecido, como Alice in Chains, com o William DuVall, e o Stone Temple Pilots — bandas que tiveram novos vocalistas. Vimos que, definitivamente, era possível, mas precisávamos encontrar a pessoa certa.
Então, para resumir, fizemos à moda antiga: realizamos audições, basicamente. Acabamos recebendo mais de 700 inscrições — e isso pode não soar como muito, mas é. Van e eu passamos cerca de dois meses ouvindo cada uma das audições, dando a todos a merecida atenção. Com isso, encontramos o Sr. Berzan Önen, que é de Istambul, Turquia, e se tornou o novo vocalista. Encontramos ainda Semir Özerkan, que também é da Turquia, mas está vivendo nos Estados Unidos. Ele se tornou nosso baixista. Já o nosso guitarrista é o Jack Cattoi. Ele foi um pouco mais fácil de encontrar, porque trabalha na Seymour Duncan, empresa fabricante de captadores de guitarras da Califórnia. Eu estava por lá, fazendo alguns trabalhos audiovisuais, e conheci Jack.
Dito isso, encontramos três novos membros para a banda no último ano e meio. Nos juntamos pela primeira vez em janeiro, na Suécia, e ensaiamos 25 faixas do Nevermore. Descobrimos, então, que funcionamos como banda e tudo soou muito bem nos ensaios. Acabamos de fazer nosso primeiro show, em Istambul, há uns cinco ou seis dias, e correu tudo muito bem. Acho que, agora que temos essa apresentação na bagagem, estamos muito confiantes de que conseguimos fazer e continuar com isso. Também vamos fazer novas músicas, então estamos muito animados. É um momento muito legal para a banda, e estamos chegando à América do Sul.
Acho que você já respondeu a várias perguntas [risos]. Como o tempo que passou em outros projetos influenciou a reunião do Nevermore?
Sabe, a banda se separou por volta de 2010, e eu estava meio triste naquela época, porque não havia nada acontecendo na minha vida. Então, comecei a dar workshops de guitarra e viajar ao redor do mundo, ensinando as pessoas a tocar o instrumento. Fui à China, ao Canadá e até à América do Sul. Depois, fiz um projeto chamado Conquering Dystopia e, aí, passei dez anos no Arch Enemy. Acho que foi nos meus últimos dias no Arch Enemy que eu percebi que não estava compondo para a banda — e eu precisava ter isso de volta. Eu precisava tomar as rédeas da minha própria composição de heavy metal, entende? E eu nunca fiz isso no Arch Enemy, porque acredito que meu modo de compor era simplesmente diferente. Entende o que quero dizer? Era um estilo de escrita diferente do do Michael. Para ser sincero, acho que não deu certo. Eu definitivamente tentei, mas simplesmente não funcionou, sabe? Então eu estava realmente ansioso para fazer isso de novo. Conversando com o Van, o baterista, a gente pensou: “Vamos tentar. Vamos fazer audições e fazer isso acontecer”. E é literalmente isso o que temos feito nos dois últimos anos, organizando tudo. Aqui estamos hoje, prontos para voltar a fazer shows. Então, sim, de volta à estaca zero.
Quais foram os critérios para escolher os novos membros da banda?
Bom, eles tinham que ser bons. O vocalista precisava ser capaz de cantar em um estilo parecido com o do Warrel Dane. Ao mesmo tempo, eles tinham que ter seu próprio estilo, sabe? Não queríamos um clone do Warrel Dane, queríamos alguém que pudesse cantar como ele, mas que tivesse seu próprio estilo. Era apenas sobre talento. Tudo se resume ao talento e à capacidade de tocar as músicas, sabe, tocar os riffs e tudo mais. Todos os membros conseguem fazer isso. E esse é o ponto forte de todos: todos são músicos realmente talentosos. Então, analisamos todos os critérios de talento e a capacidade de executar e tocar as músicas perfeitamente. Foi isso que levamos em consideração.
Vocês passaram um tempo na Suécia, na casa de Tore [Østby], para ensaios, né? Como esse convite aconteceu? Como foi passar esse tempo conhecendo os novos membros da banda?
Foi ideia do nosso empresário. Ele achou que seria bom nos juntarmos no mesmo lugar. Uma vez que fizemos os testes, o próximo passo seria conhecer todo mundo, certo? Você tem que ser capaz de pegar a estrada e fazer turnês juntos. Então passamos esse tempo na Suécia para nos conhecermos e ensaiarmos 25 músicas do Nevermore. Foi uma experiência ótima! Era no meio do nada, então não havia muita interferência externa — podíamos focar na banda e nos ensaios. Foi fantástico! Tivemos jantares lindos todas as noites, curtimos a sauna — tinha uma sauna lá. Pulávamos na neve e íamos para a sauna. Focamos na música e em nos conhecermos. Foram cerca de dez… Momentos fantásticos!
Eu vi o documentário, e parece ser um lugar lindo mesmo.
Sim, era. É algo que nunca vou esquecer, com toda certeza.
Como é trabalhar com diferentes gerações de músicos e novos membros que também são fãs? Você acha que eles já se sentem à vontade para dar sugestões e te ensinar coisas que você talvez não saiba?
Ah, sim, essa é uma ótima pergunta. Sabe, quando você está numa banda, acho que, se você quer longevidade, quer que a banda dure, todo mundo tem que contribuir e dar ideias. Definitivamente não queremos que seja o show de Van e Jeff. Algo tipo escrevermos todas as músicas e dizermos: “Ei, pessoal, vocês têm que fazer isso”. Queremos que todos contribuam e sejam parte disso.
E é muito doido pensar sobre outras gerações de músicos que estão por aí. Jack, nosso novo guitarrista, é muito mais novo que eu. Ele tem uns 23 anos. Eu tenho 54. A diferença de idade é insana. Mas eu estou aprendendo coisas novas com ele todos os dias, quando sentamos e tocamos guitarra juntos. E isso é lindo, né? É sempre bom aprender algo novo e adicionar isso ao seu repertório de riffs, licks e coisas do tipo.
Mas, sim, é muito legal poder inspirar pessoas de diferentes gerações, pessoas que chegam até mim e dizem que eu inspirei seus filhos e filhas. É legal poder inspirar os outros quando se trata de música. Então, sempre vejo isso como algo muito positivo.
Você já falou um pouco sobre isso, mas queria saber mais sobre como foi o primeiro show, na Turquia.
Foi uma daquelas coisas que você nunca vai esquecer, simplesmente porque foi a primeira vez em 15 anos que toquei aquelas músicas ao vivo. Foi um lembrete do quão boas são essas composições. Além disso, foi um show com ingressos esgotados, então havia muita gente. Tinha umas 1350 pessoas lá — algo doido. Ver todo mundo cantando as faixas… Eles cantavam quase mais alto do que a própria banda. Então, ouvir isso e ter o apoio da plateia aqueceu meu coração. Foi muito emocionante, muito mesmo. Estamos muito mais confiantes, agora que fizemos o primeiro show. Sabemos que podemos fazer isso. Estamos de volta!
E os shows aqui no Brasil serão os primeiros depois de muito tempo, né? Está ansioso para rever os fãs brasileiros?
Muito, muito, muito ansioso! Acho que a última vez que tocamos aí foi no início dos anos 2000, quando estivemos na América do Sul. Lembro que a plateia cantava incrivelmente alto. Queremos ouvir isso de novo. Estamos animados. Vai ser incrível!
São Paulo carrega memórias agridoces, já que foi aqui que Warrel faleceu. Como está lidando com isso? Haverá alguma homenagem a ele no palco?
Vamos dar nosso melhor para carregar o legado dele, tocar suas músicas e honrar seu nome. É tudo o que podemos fazer. Como todo mundo sabe, a vida segue, e temos que honrar quem amamos da melhor forma possível, por meio da música. Só de saber que Warrel foi um dos grandes letristas do nosso tempo e um dos maiores artistas de metal, já é algo que nos permite lembrar dele, honrar seu legado e seguir em frente. É tudo o que podemos fazer. Mas, de qualquer forma, será um dia especial.
Nosso tempo está acabando, mas ainda tenho algumas perguntas. Nevermore estará em turnê com Savatage e Judas Priest no próximo semestre. Qual a relação de vocês com essas bandas e como se sentem sobre essa parceria?
Temos história com o Savatage. Estivemos em turnê com eles em 2001, nos Estados Unidos. São caras ótimos. Poder fazer turnê com eles de novo, depois de todos esses anos, é fenomenal. São todos nossos amigos. Nos conhecemos há muito tempo. Então, Savatage e Nevermore são muito próximos em termos de amizade.
Com o Judas Priest, bem, estamos sem palavras. É fenomenal que vamos poder acompanhá-los em sete shows. Andy Sneap, que é o guitarrista base da banda, é um grande amigo meu e do Van. Ele produziu alguns discos do Nevermore no passado, como “Dead Heart in a Dead World” e “This Godless Endeavor”. Então, temos história com o Andy. Vai ser incrível estar na estrada com ele e tocar com o lendário Judas Priest. Vai ser ótimo! Estamos ansiosos.
E vocês tiveram que cancelar alguns shows nos Estados Unidos por causa de problemas com o visto de Berzan. Com tudo o que tem acontecido no mundo, especialmente nos Estados Unidos, acha que é possível separar a música da política? Talvez isso reflita em novas composições?
Ah, acho que sim. Quer dizer, às vezes a política precisa ser separada da música. Sabe, eu meio que mantenho as duas coisas separadas. Nunca fui muito ligado à política, mas quer saber? Eu faço música e faço para mim. É a melhor coisa que sei que me faz feliz e me ajuda a superar os dias, às vezes com todas as dificuldades que acontecem no mundo. Música faz eu me sentir bem. Então, eu costumo me manter fiel a isso e às coisas boas que me fazem sentir bem todos os dias. Continuarei fazendo isso.
Só uma pergunta por curiosidade: Nevermore nasceu em Seattle como uma forma de se distanciar do grunge, e eu gostaria de saber por que vocês se identificaram com o metal, mesmo em um cenário tão diferente?
É uma ótima pergunta. Formamos o Nevermore na mesma época em que o grunge estourou em Seattle. Para ser sincero com você, nós éramos fãs de muitas dessas músicas. Alice in Chains, Soundgarden… Na verdade, Chris Cornell estava na gravação do nosso primeiro videoclipe, para uma música chamada “What Tomorrow Knows”. Ele estava na mesma sala que a gente, curtindo junto.
O que estava acontecendo em Seattle era algo muito natural. Nós simplesmente não éramos uma banda de grunge. Éramos uma banda de metal. A gente pensou: “Por que deveríamos mudar nosso estilo musical se é isso o que amamos?” Entende? Metal sempre foi algo que amamos. Nós simplesmente nos mantivemos firmes e ainda conseguimos fazer shows ao vivo.
Mas, ao mesmo tempo, essa enorme explosão da música grunge também estava acontecendo. Pearl Jam, Soundgarden… Todas essas bandas estavam surgindo do nada. E isso realmente colocou Seattle no mapa naquela época, o que foi algo muito legal de se vivenciar e presenciar, sabe?
Mas tudo se resume a nós nos mantermos fiéis à música que gostávamos naquele momento. Éramos fãs de metal e nos mantivemos fiéis a isso. Basicamente, nunca mudamos. Continuamos escrevendo, tocando e apresentando o tipo de música que sempre amamos. Pronto.
Jeff, tenho uma última pergunta, muito simples. E quanto ao futuro? Vocês planejam entrar em estúdio e lançar coisas novas?
Sim! Vamos compor em maio, junho e julho, nos próximos meses, e juntar tudo para nosso próximo disco. Novas músicas estão previstas para o início do próximo ano. Então, estamos trabalhando nisso coletivamente. Fiquem atentos para novas músicas muito em breve.
– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil

