Entrevista: Rita Braga apresenta “Fado Tropical”, seu novo disco

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Em novembro de 2025, numa entrevista ao Scream & Yell, Rita Braga comentava o single recém-lançado, “Fado Tango”, e aflorava os caminhos e as referências que a levaram a criar o álbum “Fado Tropical” (2026), o seu primeiro trabalho cantado exclusivamente em português, onde mergulhou no universo do fado antigo e conferiu-lhe uma nova estética. Neste momento, estamos sentados numa esplanada do Parque Vale do Silêncio, nos Olivais, em Lisboa, a poucos dias do lançamento de “Fado Tropical”, editado em vinil pelo selo Braguita Records. O seu quinto disco é o foco de uma conversa animada, sempre interessante e reveladora de uma artista que se reinventa sem perder a essência que a define e a motivação que a impulsiona.

“Fado Tropical” reúne as boas características que marcam o trajeto da cantora e multi-instrumentista lisboeta, como a fusão de gêneros musicais (a eletrônica, jazz, pop e o rock, que se juntam ao fado), a sua capacidade de criar ambientes próprios de trilhas sonoras (algo que se evidenciara no magnético single “Fado Tango”, mas que percorre igualmente os instrumentais “Fado da Meia-Noite” e “Fado Menor”) e um sentido de humor latente que se manifesta, por exemplo, na releitura divertida de “Sou Miúda” (um fado celebrizado pela fadista Hermínia Silva nos anos 1930).

Na primeira faixa (a já citada “Fado da Meia-Noite”) e na derradeira (“Rua do Capelão”, uma versão de outro fado clássico da década de 30), a cantora e multi-instrumentista lisboeta recriou a música do Havaí e o imaginário tropical e onírico do universo dos discos “Exotica” (1957), do percussionista californiano Martin Denny. O segundo single, uma comovente versão de “Chão de Estrelas” (com a participação de JP Simões) faz a ponte entre Portugal e o Brasil e a magnífica “Cinza e Pó” (o single mais recente), inclui um arranjo original e é abrilhantada pela guitarra elétrica de Paulo Furtado (aka The Legendary Tigerman). A influência do rock faz-se, igualmente, sentir na faixa “Fado Sem Pernas” (uma das três versões de fados cantados por Ercília Costa com o guitarrista Armandinho, em 1930), que conta com a participação de Tó Trips (dos Dead Combo) cujo desempenho enfatiza “o triste poema composto de sofrimento” que a letra evoca. “Eu gosto imenso da música do Tó Trips e ele tem um estilo com influências de fado, entre outras coisas. A minha ideia na música foi substituir a guitarra portuguesa pela do Tó Trips e ele fez várias camadas com a guitarra elétrica”, conta Rita. A esse respeito, apresenta a sua visão sobre as semelhanças entre os dois universos: “Os músicos de rock n’roll eram vistos como ‘outlaws’. Eles iam parar à prisão muitas vezes e os fadistas do século XIX também passavam metade do tempo presos (risos). Por isso, a faixa lembra um pouco o lado marginal do fado”.

Para a elaboração de “Fado Tropical”, Rita Braga contou com uma banda formada por Bruna Moura (violoncelo), Ryoko Imai (marimba, violoncelo, cajón, “junk percussion”, bombo e castanholas), Suse Ribeiro e João Cabrita (saxofone), Aníbal Andrade (lap steel), Rui Rodrigues (percussões extras), JP Simões (voz) e as guitarras de Paulo Furtado e de Tó Trips. A forma como Rita Braga conduziu os arranjos e conciliou-os com a parte instrumental deu ao álbum tonalidades surpreendentes. Pelo meio, ela edificou um ambiente onde paira a sensação de estranhamento encantador e a tradição musical do fado é recriada, respeitando a parte lírica e a configuração primordial. Há semelhanças com o primeiro disco de Rita, “Cherries That Went To The Police (2011)”, um trabalho igualmente composto por versões de músicas antigas com novos arranjos e álbuns como “Time Warp Blues” (2020), permanecem intocáveis pela sua qualidade, mas “Fado Tropical” aprofunda a sua identidade artística e integra as referências anteriores num discurso musical mais coeso e pessoal. Com uma agenda de espetáculos bastante preenchida até novembro, incluindo shows em França, Inglaterra, Alemanha e apresentações do novo disco em Portugal, a artista assume o presente como um momento de realização. “Sinto-me satisfeita criativamente porque me reinventei e concebi algo novo”, conclui.

De Lisboa para o Brasil, Rita Braga conversou com o Scream & Yell. Confira:

No seu novo disco, “Fado Tropical”, sente-se uma reinvenção do fado através da introdução de novos instrumentos e de uma paleta emocional muito diversa. Há momentos de leveza, nostalgia, animação, alguma contenção do dramatismo tradicional e arrojo musical. De que forma se processou no trabalho o caminho de construção das novas tonalidades sonoras com que dotou o fado primordial?
Antes de produzir o disco passei pelo trabalho de pesquisa para conhecer muito do fado primordial, da história do fado, das gravações e também de textos antigos. Na palete sonora já vinha com a ideia de chamar o fado tropical e partir do ukelele, marimba e violoncelo. Era o trio original. Entretanto, as coisas evoluíram e conheci o João Cabrita. Apesar do saxofone não ser muito comum no fado, ele disse-me, por coincidência, que começou aí o seu trajeto. Foi assim que o Cabrita entrou. Depois introduziram-se imensas percussões, vibrafone e misturei várias influências. O caminho de construção sonora partiu mesmo das percussões e do ukelele, que me acompanha sempre. Houve também violoncelo, baixo, sax barítono e depois cresceu, as guitarras de rock entraram e o trabalho foi-se expandindo. Mas, partiu desse ponto.

Há um arco muito claro e interessante no álbum, que começa ao som de uma trovoada e de uma atmosfera tropical em “Fado da Meia-Noite” e termina com essa fusão inesperada entre fado e sonoridades havaianas em “Rua do Capelão. Podemos olhar para esse arco como um sonho, com início, desvios e um lugar inesperado de chegada?
Sim. Eu tinha a ideia concreta de começar com um trovão. É algo impactante e marca o início do disco, tal como os sons de natureza que aparecem nessa faixa e no fim. O uso desses sons transporta-nos para outro lugar. Tudo isso ajuda e a sonoplastia aliada aos instrumentos cria um determinado ambiente ou atmosfera. E no final, claro, volta-se aí pelos passarinhos e pelo Havaí. É um lugar e um tempo um pouco imaginados. Tem algo do passado, mas não só. Também está relacionado com os discos “Exotica”, do final dos anos 1950, de Martin Denny, e também de outros autores que estiveram na moda nesse período e imaginavam-se em sítios como uma ilha paradisíaca. Representavam lugares exóticos, no entanto eram fabricados e não existiam. É um pouco como a capa do meu disco, “Fado Tropical”, aquilo parece uma árvore, mas é cimento e mistura a fantasia com o arquivo histórico.

“Cinza e Pó” é uma das faixas que tem letra inédita de um fadista do século XIX que você musicou e conta com a participação especial de Paulo Furtado na guitarra elétrica. Tematicamente, evoca esqueletos e cemitérios e musicalmente sugere uma orquestra em andamento a criar diversos momentos sugestivos. Foi pelo seu imaginário peculiar que a escolheu para novo single?
A letra vem no livro do Pinto de Carvalho (conhecido como “Tinop”). Ele escreveu o livro “História do Fado” (1903). É uma obra superimportante, porque o “Tinop” foi às tabernas (botecos) investigar e conheceu contemporâneos da lendária fadista Severa. No meio do livro há imensos textos sem autor identificado. Se calhar havia muita improvisação, mas ele foi fazendo a recolha e escreveu vários desses versos. Achei curioso existirem tantas quadras sobre esqueletos e cemitérios (risos). Por isso, fiz um levantamento, editei a letra e compus a música. Foi na altura em que conheci o Cabrita e disse-lhe: “Experimenta aqui gravar na demo”. Eu gostei imenso do arranjo de saxofone que ele fez e o Cabrita disse-me que era “uma mistura de fado com Tom Waits” e achei a definição engraçada. A partir daí a Ryoko Imai fez um som de ´junk percussion´ que parece um áudio de esqueletos nos desenhos animados e a Suse Ribeiro juntou outras percussões e eletrônica e no final ainda convidei o Paulo Furtado com as guitarras. Portanto, foi um supergrupo (risos). Escolhi a “Cinza e Pó” como single por essas características e por ser uma faixa que se destaca um pouco no disco, porque é diferente das outras. Também tinha ideias concretas para fazer um vídeo dessa música e daí a escolha como single.

A versão de “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas, com a participação de JP Simões, tem nuances e uma suavidade próximas do fado e o vosso dueto traz uma nova dimensão emocional à canção. Considera que este single poderá ser um bom cartão de visita para o álbum nas suas próximas atuações no Brasil?
Sim. Sem dúvida. É o único tema brasileiro e não foi escolhido ao acaso. Por um lado, existe a teoria, que é defendida por musicólogos, como Rui Vieira Nery, de que o fado veio do Brasil. Por outro lado, esta música do Sílvio Caldas sempre me soou um pouco a fado e a forma dele cantar indiciava um dramatismo contido muito próximo dessa sonoridade. No entanto, em Portugal, ele é pouco conhecido e se calhar é a primeira versão portuguesa desse clássico brasileiro. O sotaque deles também tinha a ver com o nosso e eu aproveitei para fazer a ligação, esbater os contornos e fundi-los em algo luso-brasileiro. Acho que poderá ser um bom cartão de visita no Brasil, porque a faixa é bonita e onírica. Eu gostei muito da canção e senti que tinha de ser um single. Entretanto, saíram várias críticas no Brasil à minha versão e o feedback foi muito bom.

Considera que a diversidade instrumental que o álbum exibe, aliada ao canto integral em português e ao fato de trazer novas roupagens para o fado acrescenta uma nova dimensão à sua identidade musical ou é mais um capítulo da sua evolução?
Acho que são as duas coisas. Eu quis fazer um contraste com os dois últimos discos que tinham teclados e caixas de ritmo e já ouvi várias pessoas a dizer: “A Rita Braga é aquela artista que tem uns álbuns cheios de caixas de ritmo” (risos) e também havia o objetivo de contrariar essa ideia. No fundo, pretendia fazer algo de novo e mergulhar no universo de fado e numa história que está esquecida e se associa à música de Lisboa, à língua portuguesa e a um vocabulário que já não se usa. Nesses poemas que eu recolhi eles chamavam à guitarra portuguesa “banza”. É um capítulo inédito e uma etapa nova para mim. Julgo que não ficarei demasiado vinculada à minha faceta atual, porque “Fado Tropical” é o meu quinto disco e se pensarmos no EP “Gringo in São Paulo” (2015) já é o sexto que faço. O meu trabalho é caracterizado por uma reinvenção, existe sempre uma transformação e estou muito associada a isso.

Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Scream & Yell?
Eu agradeço a colaboração com o Scream & Yell, que se iniciou em 2015 com o EP “Gringo in São Paulo”, e confesso que gostaria muito de voltar a atuar no Brasil para apresentar o disco “Fado Tropical”, que aliás já está a ser divulgado lá. É algo que ainda não consigo prever, mas estou a desenvolver vários contatos para fazer shows. Adorava regressar ao Sudeste do Brasil e também tocar no Nordeste. Pode acontecer daqui a alguns meses ou no próximo ano, no entanto espero vê-los aí. É igualmente possível que ocorram parcerias com músicos brasileiros quando retornar. Já falei com o Marcelo Callado nesse sentido. Para já, é apenas um plano, mas ele está disponível para colaborar. Seria bom ter alguém na percussão e como somos amigos lá no Rio de Janeiro lembrei-me logo dele. Mas, logo se verá porque ainda é cedo (risos).

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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