texto de Marcelo Costa
fotos p&b de Fernando Yokota
Uma das instituições do punk rock californiano, e mundial, o Bad Religion retornou ao Brasil sete meses após ser chamado, de última hora, para cobrir a lacuna deixada pelos Sex Pistols no The Town (e três anos após se apresentar no Primavera Sound São Paulo). Ou seja, praticamente todo ano tem Bad Religion na cidade de São Paulo, um feito a se comemorar, já que o quinteto segue impecável ao vivo, ainda que confie excessivamente (e erroneamente) na consciencia do público presente (a maioria, fãs devotos).

Com mais de 45 anos de estrada, e dois membros originais (o vocalista Greg Graffin e o baixista Jay Bentley – integrante oficial, Brett Gurewitz não cai na estrada com a banda desde 2001) que estavam lá no início, em 1980, quando a possibilidade de uma carreira era algo absolutamente impensável, o Bad Religion é o tipo de banda que não precisa provar nada a ninguém, pois suas canções, seus discos e sua história alicercam uma carreira impecável. Porém, em um cenário cada vez mais polarizado, abrir mão do posicionamento em prol da liberdade de cada pessoa pensar por si própria soa um gesto inocente demais diante da barbarie do mundo (real e virtual).

No Espaço Unimed, em São Paulo, Greg Graffin e Jay Bentley, acompanhados de Brian Baker, Mike Dimkich e Jamie Miller, entregaram um set list poderoso, ainda que protocolar (apesar dos cabelos brancos, eles continuam absolutamente os mesmos de quando se apresentaram no Close-up Planet, em 1996, e o show – para o bem e para o mal – também), repleto de hits para fã nenhum botar defeito, mas, fora canções, entraram mudos e sairam absolutamente calados, como se a música apenas bastasse.

“Recipe for Hate” (1993) abriu o show pouco depois das 21h de forma empolgante seguida por “Them and Us” (de “The Gray Race”, de 1996), “Los Angeles Is Burning” (de “The Empire Strikes First”, de 2004) e pelo clássico “Do What You Want” (de “Suffer”, de 1988, canção que também é o título da biografia oficial da banda). O primeiro momento de histeria coletiva – com direito a urros e celulares levados ao alto para filmar – veio com “21st Century (Digital Boy)”, empolgação estendida também a “Fuck You” (de “True North”, de 2013) e “Come Join Us” (outra de “The Gray Race”, o campeão da noite, com cinco canções presentes no set).

As imagens no telão situavam cada canção em seu álbum de origem, numa seleção generosa que trouxe números de “Suffer” (1988) a “Age of Unreason” (2019), com destaque para “No Control” (1989), “Anesthesia” (1990), “Atomic Garden” (1992), “Infected” (1993), “Punk Rock Song” e “A Walk” (1996). O som, alto e claro, valorizava os riffs asperos da guitarra de Brian Baker, trajando uma camiseta escrita “Stay Free” com a face de Mick Jones, o eterno The Clash, e despejando riffs deliciosamente sujos pelos ampis Marshall. O bom público, que tomou o Espaço Unimed em plena terça-feira, cantou tudo (do mesmo jeito que os fãs do Maroon 5 cantam nos shows da banda de Adam Levine) num digno karaoke punk.

Ainda assim, o tom da noite foi mais classic rock e menos enfáticamente punk do que se poderia esperar de uma instituição emblemática como o Bad Religion, e a frase em português, estampada no encerramento do show, deixou isso ainda mais claro: “Pense por conta própria”, dizia o recado. É um ato de confiança que pode custar muito no computo geral, afinal Trump venceu uma eleição por cerca de 2 millhões de votos de diferença em quase 160 milhões de votos válidos (77 mi contra 75 mi de Kamala Harris) e, no Brasil, Lula garantiu seu terceiro mandato de maneira apertada (59 mi contra 57 mi do ex-presidente, hoje devidamente preso). Num mundo tomado por fake news, confiar que as pessoas pensem “por si próprias” é um erro inocente demais.

Não é o caso de ser panfletário e usar o microfone para catequizar a audiência ou transformam o show em um palanque político – algo que o Massive Attack (cujo som, portetoso, é tão poderoso quanto escapista) levou ao limite do insuportável em sua apresentação em São Paulo em 2025, com muitos fãs não conseguindo se conectar com a musica, expostos a excessiva verborragia política transmitida via telões – mas um simples aceno que seja (como fez David Hause em janeiro) sobre toda loucura que estamos vivendo é absolutamente necessário.

Em um mundo cujos fãs do Pink Floyd criticam Roger Waters por “misturar música e política”, não seria de se estranhar que alguém presente no Espaço Unimed não soubesse da história da banda, por isso, se posicionar, por exemplo, contra a guerra, contra o ICE e contra a política armementista e expansionista de Donald Trump é algo óbvio, mas obrigatório, ainda mais para uma banda punk. Pois lutar pela democracia é um ato diário. E incansável. Em São Paulo, por cerca de 80 minutos (e 24 canções de 12 álbuns), o Bad Religion delegou a defesa da liberdade a seus fãs. Não podem reclamar se quando voltarem, no ano que vem, estivermos vivendo numa ditadura. Afinal, o demônio mora nos detalhes. E não perdoa os inocentes. Tenha sempre isso em mente.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
A foto colorida que abre o texto é de Carlos Soares
