texto de Davi Caro
“Qual o valor do mérito artístico frente ao hype de um meme?” Essa é apenas uma de muitas perguntas complicadas demais para respostas simples que o mundo se vê forçado a encarar nos dias atuais. É também, com toda certeza, o dilema que pegou de surpresa muitos dos entusiastas de música pop (ou não) que se depararam com a gravação da performance do duo franco-canadense Angine de Poitrine para a rádio independente americana KEXP, disponibilizada em fevereiro de 2026. Isto é, presumindo que pelo menos alguns destes incautos internautas tenham se disposto a buscar saber mais sobre a dupla de instrumentistas fantasiados tal qual personagens do Castelo Rá-Tim-Bum, executando faixas que se aproximam do jazz e do math rock sem se atrelar a nenhum dos dois, sob o aval de uma emissora que se consolidou como uma vitrine para o que há de melhor na música alternativa de todos os lugares do mundo. Não que qualquer pessoa pudesse ser julgada por não procurar se informar mais sobre apenas uma de muitas manifestações culturais que o algoritmo das mídias sociais e das plataformas de streaming manifesta todos os dias, claro.
Aqueles capazes de vencer a fadiga inescapável nos dias de conexão virtual crônica devem ter se surpreendido, então, ao descobrir que o projeto musical, cujos dois integrantes se apresentam sob os pseudônimos Khn (guitarra e contrabaixo) e Klek (bateria) de Poitrine, não apenas já possuía um disco lançado (“Vol I”, de 2024) como estava prestes a lançar seu segundo LP. Com o título de “Vol II”, e lançado neste mesmo abril, o álbum é exatamente o que se poderia esperar do duo tendo em vista a apresentação em que despontaram para o grande público. Ao ponto, aliás, de sua session servir como uma espécie de aperitivo para o repertório mais fresco. Literalmente: das seis canções do disco novo, três compõem o repertório do show na KEXP (disponível, na integra, acima).
O tracklist relativamente curto surpreende, no entanto, pela duração impressionante das faixas: “Fabienk”, a abertura, dá a tônica não apenas pela atmosfera intricada de compassos quebrados alternados com passagens dançantes e irresistíveis, mas também por ser a segunda canção mais longa do repertório. E, mesmo assim – em um processo que se repete com a segunda faixa, a mais truncada “Mata Zyklek” – não é como se a extensão das faixas fizesse tanta diferença na audição. Além de um trabalho impressionante de produção, que valoriza as nuances instrumentais ao mesmo tempo em que realça as (breves) intervenções de vocais, o uso de instrumentos microtonais também ajuda, em muito, a criar uma experiência que triunfa através da imersão.
Cabe aqui um adendo: instrumentos microtonais possibilitam o uso de intervalos menores de notas, também por isso chamados de microintervalos. Embora a incorporação da microtonalidade remonte, inclusive, ao Renascentismo (apesar de seus estudos datarem de muito tempo antes), não é a primeira vez que instrumentos com tais possibilidades são incorporados por projetos dispostos a desafiarem suas audiências. Em que pese, porém, a popularização tímida do estilo pelos australianos do King Gizzard & the Lizard Wizard (cujo “Flying Microtonal Banana”, de 2017, colocou o termo na boca dos indies), aqui sua incorporação é bem mais, digamos, “didática”. Basta ouvir a cadenciada “Sarniezz” para que a diferença seja sentida mais profundamente – e isso sem nem precisar de pós-graduação em música ou algo do tipo.
“Utzp” chega a lembrar um pouco os trabalhos de bandas como o Battles, caminhando na corda entre o abstrato e o pop. É possível que seja a mais “amigável” das canções apresentadas. E, paradoxalmente, talvez seja por isso mesmo a mais esquecível do novo trabalho. Pasme: com quase sete minutos (!), trata-se da mais longa faixa aqui. Mais curta, e com certeza mais marcante, “Yor Zarad” faz uso esperto de microfonias para chamar a atenção para as guitarras de Khn – ao final, em apenas mais uma de várias contradições, o que se sobressai aqui são as espertíssimas levadas de bateria de Klek, que poderiam facilmente figurar em um disco do black midi. Tudo isso acaba arrematado pela excelência, e “grudência sonora”, de “Angor”. Por mais que leve algum tempo para engatar, a canção derradeira é uma das mais instigantes do novo repertório, e talvez seja a melhor ao transpor a abordagem diferenciada dos visuais da dupla para o âmbito sonoro. Pode não ser a melhor do álbum, mas com certeza é forte candidata ao posto de favorita.
Boa parte da relevância de “Vol II” está na forma com a qual a sonoridade ao vivo do Angine de Poitrine é bem transposta para o estúdio. Com sua equipe de produção igualmente oculta atrás de pseudônimos (os responsáveis pela gravação e pela mixagem do disco são creditados, respectivamente, como Glegg e Tek De Poitrine), dá para imaginar que o processo de criação e formatação de um trabalho como este é o mais insular possível. Também é possível supor que, se não fosse pelo apelo do estranhamento e da incredulidade de espectadores incautos, um trabalho como este dificilmente seria capaz de quebrar a proverbial “bolha” que isola aqueles afeitos a estruturas menos convencionais.
O quanto vale, então, o talento e o mérito artístico (ambos inegáveis) frente ao hype de redes sociais (efêmero por natureza)? É desafiador procurar traçar o futuro do Angine de Poitrine, com toda a inventividade que já demonstraram ser mais do que capazes de conjurar, quando a ilusão da novidade e da intriga algorítmica se esvaírem. Poderiam ser apenas um caso como o do Future Islands, que finalmente apareceu para o grande público, após anos de batalha fora do mainstream, depois de uma energética e memorável performance no programa de David Letterman, em 2014. Mas os tempos definitivamente não são mais os mesmos, e, ao contrário do grupo de synthpop – que voltou, com energias renovadas, ao mesmo underground que os conhecia de longa data – o Angine de Poitrine representa uma anomalia musical que vai muito, muito além de seus figurinos singulares. Voltar para um nicho no qual se sobressaem (o math rock, ou a música experimental como um todo) não seria, de modo algum, um demérito; na pior das hipóteses, seria o testamento de uma época onde, a despeito de uma espécie de TDAH cultural, um duo anticonvencional, com apelo comercial no mínimo discutível, conseguiu o feito de capturar o imaginário popular de milhares de pessoas ao redor do mundo. Nos dias atuais, apesar dos pesares, é difícil pensar em um legado maior que este.
Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

