Entrevista: “Todo dia levanto da cama pra fazer algo pelo heavy metal brasileiro”, diz Thiago Bianchi (Noturnall)

entrevista de Paulo Pontes

O heavy metal brasileiro vive um momento especialmente prolífico. Além da quantidade de bandas em atividade, existe consistência, ambição e capacidade de articulação Nesse movimento, o Bangers Open Air se consolida como um dos principais catalisadores dessa nova fase: um festival que combina estrutura internacional com identidade local e coloca o Brasil, de forma definitiva, na rota global do gênero.

É nesse contexto que o Noturnall retorna ao evento em um novo patamar. Liderado por Thiago Bianchi, o grupo representa bem essa geração que não se contenta em apenas existir, precisa circular, produzir e expandir. Nos últimos anos, a banda acumulou turnês por diferentes continentes, projetos audiovisuais ambiciosos e uma presença constante que reforça sua posição dentro e fora do país.

Em entrevista ao Scream & Yell, Bianchi não economiza e ajuda a dimensionar o momento da banda e da própria cena. A ideia de “síndrome de tubarão”, que ele menciona, sintetiza uma lógica de funcionamento baseada em movimento contínuo: gravar, excursionar, lançar, testar. Trata-se de uma prática que molda não só o Noturnall, mas também uma parte significativa da cena atual.

O Bangers, nesse sentido, surge como mais do que um palco de grande visibilidade. Ele funciona como um ponto de validação e, ao mesmo tempo, de exigência. Ao abrir espaço consistente para bandas nacionais, inclusive em posições de destaque, o festival reforça um cenário onde relevância é consequência de trabalho e entrega.

Ao longo da conversa, Bianchi costura estrada, produção e visão de futuro com a naturalidade de quem está imerso nesse processo. O resultado é um retrato direto de uma cena em ebulição, e de um artista que, além de acompanhar esse movimento, ajuda a empurrá-lo para frente.

Thiagão, vamos começar falando do Bangers. Vocês tocaram no festival quando ele ainda era Summer Breeze, ali no Waves Stage, aquele palco menor. Agora vocês voltam pra um Bangers já consolidado, desta vez no Sun Stage. O que mudou de lá pra cá pra Noturnall?
Cara, o Noturnall é uma banda em franca ascensão. É uma banda que não para desde que a gente começou. A gente tem síndrome de tubarão. Aquela coisa de “se parar de nadar, morre”. Então, a gente tem feito turnês atrás de turnês, atrás de turnês, atrás de turnês. (São) Vários motivos pra comemorar.

O nosso último disco, “Cosmic Redemption” (2023), foi o mais vitorioso da carreira da banda. A gente fez mais de 150 shows desse disco, passamos por cinco continentes. Deve ter algum recorde de uma das únicas bandas brasileiras a percorrer cinco continentes com um disco só. E a gente fez até um primeiro de abril, zoando, da gente fazer a Antártida pra bater seis continentes e ser, atrás do Metallica, a única banda do mundo a fazer show nos seis continentes.

Mas assim, apesar de ser o primeiro de abril, é uma história que está rolando. Por isso aproveitei o gancho pra já preparar os corações das pessoas, porque a gente tem realmente um contato lá na Antártida, da galera da área de cientistas que recebeu o show do Metallica. A gente poderia realmente fazer um show por lá. Não é uma coisa fácil, obviamente. Então fica a piada do primeiro de abril por conta disso.

Mas, assim, é realmente uma banda que vem crescendo muito. Nós temos cinco DVDs, né? Temos um em São Paulo, o primeiro, na época do Aquiles, do Quesada, do Juninho, do Léo, que foi um puta show ali no Carioca Club, com a participação do Russell Allen. A gente teve um em Nova Friburgo com a participação do Mike Portnoy, inclusive com o Pucci (Henrique Pucci, baterista) solando, duelando com o Portnoy, que foi um auge também na carreira da banda.

Teve também a Carry On, a primeira homenagem ao André Matos, com participação do Alírio, do Mariutti, do Fabrizio e do Edu Falaschi. A gente tem o DVD na Rússia, a única banda brasileira de metal a ter um DVD na Rússia, até hoje. A gente tem um DVD em Curitiba, aquele que a bateria fica de ponta cabeça, eu entro de tirolesa, tem show de lasers.

Cara, é uma banda que tudo que faz, faz com muita vontade, com muita garra, com muito carinho. A gente toma cuidado pra que os metaleiros, os headbangers brasileiros se orgulhem de uma banda brasileira fazendo coisas desse calibre. E de lá pra cá, cara, eu acho que a gente fez muitos shows. A gente fez uma turnê no Oriente, uma das poucas bandas que percorreu o Oriente quase que em sua totalidade, passou por Camboja, Vietnã, China, Japão e Tailândia.

A gente tem agora uma turnê já pré-marcada para a Índia, para o ano que vem, um festival grande lá também, Indonésia. E a gente fez algumas turnês com o Edu Falaschi muito vitoriosas. Gosto de chamá-lo de meu irmão de outra mãe, de tanto tempo que a gente se conhece. E o tanto que ele nos ajuda também é realmente um carinho de irmão mesmo.

E fizemos um The Town junto com o Ready To Be Hated, que o Noturnall participou também. Cara, é uma banda que realmente não para. A gente fez um clipe recentemente com a participação do Danilo Gentili, do Igor 3K, do Sérgio Sacani. É um clipe super produzido, de CGI, de alto nível.

A gente tem agora uma turnê na América Latina, marcada para julho. Aí, na sequência, a gente emenda numa outra turnê pela Europa, de quase 40 datas, com uma artista grande europeia, que eu ainda não posso dizer o nome, e também com o Heathen Scÿthe, que é uma banda brasileira excelente.

Então assim, a gente não para. É uma banda que não para. E eu acho que é isso, essa tal síndrome do tubarão, realmente. De não parar de nadar. Fazer, fazer, fazer. Tocar, tocar, tocar. Gravar, gravar.

A gente tem um DVD pra ser lançado, estamos em meio de fase de edição. Um DVD que a gente gravou no Japão, em três datas diferentes. Gravamos as três datas, ficou muito legal. Estamos em fase de edição. E também gravamos um DVD na China, que vai ser o primeiro DVD também de uma banda brasileira gravado na China, uma banda brasileira de heavy metal. Um puta show que a gente fez lá com o pessoal da Dream Spirit, uma banda chinesa.

E, cara, tem um som que eu fiz com eles lá, muito legal. E no meio dos DVDs – é um DVD, a gente chama de DVD, mas vai sair aí pra YouTube – não sei como é que vai ser a questão ainda de DVD, né? Mas com certeza vai sair no YouTube, Spotify, essas coisas todas.

Entre as músicas tem making of, então vai ser bem legal de assistir, porque a galera quer saber como é lá. Como são esses lugares. A gente foi na Muralha da China, gravamos alguma coisa lá.

Quem me conhece sabe que eu não posso ir a um lugar legal sem querer gravar um clipe ou um DVD. Então, assim, a sua pergunta foi bem pontual e cirúrgica, porque é um jeito de você me botar pra falar o resto da vida, como você pode ver. Porque a gente realmente está fazendo bastante coisa.

Acabei de voltar do All Metal Stars, a turnê em homenagem ao André Matos. Foi muito desafiador, uma turnê de 16 datas, cantando só pedrada toda noite e tendo que estar em alto nível, porque hoje não tem mais show “aqui e ali”, é show pro mundo, né? Qualquer celular gravando ali vira registro global. Então você tem que fazer seu melhor sempre.

Mas foi muito gratificante tocar com o Edu Ardanuy, que é um cara que eu amo. Sempre quis tocar com ele, acho um dos maiores guitarristas do mundo. E tocar com o irmão do André foi muito emocionante. O show de São Paulo, com a mãe dele presente, foi difícil segurar a emoção.

Foi uma turnê de sonho, com casas cheias e pedidos pra voltar em vários lugares – Europa, França, Itália, Japão. A gente fez de coração e viu o quanto o André é amado no mundo inteiro.

O Noturnall e o All Metal Stars têm tomado bastante a agenda, mas o Noturnall segue sendo meu foco principal. Esse ano está bem corrido. Na Europa, são muitos festivais: Castle Rock, Masters of Rock, Vagos, entre outros. Também tem datas na América Latina, como no Equador. Tem muita coisa acontecendo.

Aproveitando até que você comentou isso, como é que é começar esse ano por um festival como o Bangers, no Brasil, antes dessas turnês todas? Qual é o peso de começar no Brasil todo esse corre que vocês vão fazer este ano?
Cara, o Bangers é o maior festival de heavy metal da América Latina e é um dos maiores do mundo. Hoje em dia você já pode colocar do lado ali dos grandes da Europa.

E, assim, a expectativa é sempre a máxima. A gente vai tocar num dos três maiores palcos. Estou muito agradecido à produção, a Damaris, ao Claudinho, que nos deram essa moral. Até enchi o saco deles, já fiz o pedido pra ver se a gente não consegue gravar esse show. Como eu havia dito, gosto de gravar tudo que é importante, interessante, porque assim, a galera… é legal você ter aquilo ali naquele momento e tal, mas que aquilo fique registrado pra posteridade, que a galera possa ver isso aí pra sempre.

Então já estou enchendo o saco do Claudinho e da Damaris pra ver se eles me dão a liberação pra gente poder filmar e fazer um “Live at Bangers Open Air”. Seria incrível. Ainda não tenho essa resposta, mas isso mostra o quão importante é pra gente esse festival. Gravar esse festival é pra imortalizar aquilo. Mas mesmo que não dê, já será imortalizado, porque ali é metaleiro de verdade. Às vezes você faz alguns festivais que tem uma galera misturada, gente que foi por causa de outra banda, que nem é de metal, é mais rock, mais hard. Ali não. Ali é banger mesmo, o nome acertou na risca.

As vezes que a gente tocou foram muito energéticas. E agora estou muito ansioso pra fazer o debute da banda no Bangers, porque antes era outro nome. Agora é uma coisa nossa, brasileira, com identidade própria.

Cara, estou muito empolgado. Eu fico ansioso pra me juntar aos meus. Eu sou metaleiro, sou produtor musical, no meu estúdio só entra metal. Tenho mais de 600 discos produzidos. Trabalhei com Angra, Shaman, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Edu Ardanuy, Edu Falaschi, James LaBrie e tantos outros. E minhas próprias bandas, obviamente.

O Karma…
Exatamente, o Karma.

Inclusive, um adendo: “Crawl” (música presente no “Leave Now!!!”, segundo disco do Karma) é uma das minhas músicas favoritas do metal nacional da história.
Pô, muito obrigado. Parceria nossa com o Tito Falaschi, escrevemos essa música juntos. Inclusive, o Tito Falaschi é meu parceiraço de composições. Em todas as minhas bandas tem música dele comigo. E essa é uma das músicas que eu também mais gosto, cara. Muito obrigado. Temos um gosto parecido.

E, cara, assim… inclusive, falando disso, tem um papo aí da gente poder fazer algumas outras coisas com o Karma. Tem uma data que nos ofereceram pra logo mais, aí eu até preciso ligar pro Felipe (Andreoli, baixista) – lembrando aqui, aproveitando esse papo – vou terminar aqui e dar uma ligada pra ele, ver se ele pode fazer essa data, que seria muito legal do Karma, porque a galera pede muito também que a gente consiga fazer turnê e tudo mais.

Então, eu não vejo a hora de estar com os meus ali no Bangers. Me sinto muito em casa, com as pessoas que eu me conecto. Com a minha gente, minha tribo. Todo dia que eu levanto da cama é pra fazer algo pelo heavy metal brasileiro. Então… e o Bangers é a síntese disso.

O que o Bangers representa pras bandas nacionais? Porque é um festival que tem essa abertura das bandas nacionais, inclusive esse ano tem um “plus”, né, a gente tem uma banda brasileira como headliner, o Angra, e também pro público, porque a gente sabe que, pô, você mesmo já falou isso em outras ocasiões, o Brasil é um celeiro de bandas boas, de músicos, e assim, até pro público conhecer algumas coisas que às vezes está deixando passar, e que ali o Bangers, de certa forma, apresenta também. O festival tem essa representatividade de mostrar pra essa galera aí o que tá rolando.
É uma renovação. Porque isso é uma coisa… bem pontuada sua, que é legal da galera reparar que, cara, assim, a gente tem os nossos grandes nomes, né? Você tem ali os dinossauros, você tem ali a atualidade e você tem o futuro num festival só. Se você olhar as bandas que estão permeando o festival inteiro, você vê de tudo. E é isso aí que você falou: chamar a atenção pra galera pra mostrar, “olha, tem isso aqui também, galera. Vamos ouvir isso aqui. Olha, tem isso aqui também”.

Mostra essa prateleira aí que tem muita coisa rolando, muita coisa legal. E a galera ouvir e ficar… “não tem nada”… porque isso é uma coisa que a gente tem que tomar muito cuidado pra gente não estagnar no tempo e achar que só existiu uma certa leva de banda. Mas tem muita coisa boa, cara, por aí rolando, entendeu?

E isso é uma coisa que é um puxãozinho de orelha que tem que dar na molecada. A galera tem uma preguiça de ouvir coisa nova, cara. E isso é uma coisa que o Bangers é uma das entidades que está fazendo o seu trabalho pra mudar isso, pra ajudar a trazer as pessoas mais pra próximo do heavy metal brasileiro e falar: “olha, cara, tem gente boa rolando aí, vamos ouvir”.

E está mudando, está melhor. Acho que essa é a maior época do metal nacional. Falo isso (da preguiça da galera de ouvir coisas novas) não em tom de reclamação, nem nada, mas em tom de alerta, tipo assim: “ó, estamos andando pra frente, estamos em passos largos”. Porque nós estamos na melhor época da história do metal no Brasil. Não adianta você achar que não.

Você pega e dá uma volta no tempo, cara, 20 anos, 10 anos… você tinha o Monsters of Rock trazendo bandas ali de metal, mas tinha ali pontuado umas três ali, né, de metal. Mas, cara, olha agora. Você tem o Bangers, que é um festival muito mais icônico, tem bandas focadas em metal, muito mais bandas brasileiras, um festival BR mesmo, de sangue, trazendo, colocando… Olha que coragem colocar… onde você vai ver um festival brasileiro desse nível colocando uma banda brasileira de headliner, cara? Isso aí é uma coragem e de um respeito incrível pelas suas raízes, pelo seu sangue.

Então, estou orgulhoso. Orgulhoso por estar fazendo parte disso. Orgulhoso pela galera, porque eu sei o corre que é. Eu vivo isso na minha vida. Então eu vejo vocês todos, o corre que vocês estão fazendo pra que o festival vire do jeito que ele merece. Eu vejo as bandas, o corre que eles estão fazendo pra trazer o seu melhor show, sua melhor entrega. O corre que os organizadores estão fazendo pra que o evento seja do nível que é na Europa, que é no Japão, que é no mundo. Porque você tem festivais muito bons também na América Latina, sabe? Não é só na Europa, não.

É um festival que faz com que o Brasil continue sendo esse celeiro e trabalha pra que esse celeiro continue formando novas bandas e atraia os metaleiros, os bangers, pra ficar de olho no que tá rolando. Ou seja, ele revitaliza o heavy metal. É um festival que agora fodeu, ele vai ficar pra sempre. Tem que ter o Bangerz pra sempre no Brasil rolando.

 

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.



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