entrevista de Alexandre Lopes
Formada no Rio de Janeiro em 2024, a Madame Salame reúne Lety Lopes (guitarra e voz), Hanna Halm (baixo e voz) e Juliana Marques (bateria e voz) em torno de um indie rock direto ao ponto. Sem firulas, mas cheio de nuances, o som alterna entre o dançante e o melancólico, sempre atravessado por humor. Daí também o nome, que faz referência a um episódio do desenho Popeye, no qual Brutus se disfarça de vidente para aconselhar a ingênua Olívia. Como a própria banda resume em seu release: “nada mais sério do que não se levar a sério”.
Apesar da banda ser relativamente nova, ela não parte do zero; há um lastro de projetos anteriores e de vivência na cena carioca. Lety é um nome conhecido no underground por participações em bandas como Trash No Star e Visão Turva e Hanna e Juliana com a Tuíra e Floppy Flipper, por exemplo. Além disso, guitarrista e baixista também estiveram à frente do Motim, espaço central da cena independente da cidade entre 2016 e 2024, dedicado à criação de redes para artistas independentes, mulheres e pessoas LGBT+. O encerramento do coletivo, somado a perdas recentes e processos pessoais, reverbera no EP de estreia do trio.
Lançado em julho de 2025 pelo selo Efusiva, “Madame Salame” (o EP) funciona como um cartão de visitas de identidade muito bem definido. Em apenas cinco faixas, a banda constrói um jogo de contrastes entre o íntimo, o banal, o riso e o impacto emocional. Gravado em colaboração com Vitória Parente e finalizado por Leonardo “Shogun” Moreira, o trabalho revela um conjunto confortável tanto nos momentos mais pesados quanto na delicadeza e na diversão.
“Decaf” abre os trabalhos apontando o caminho, começando contida antes de desembocar em um rock de pista despretensioso; “Zero a Zero” ironiza frustrações cotidianas com leveza quase debochada; “Corredor de Espera” mergulha em uma densidade emocional que se sustenta com guitarra distorcida; “Brilho intenso” mistura vocais suaves com um clima quase grunge; e “DM Tinta” traz uma homenagem à artista visual Dâmaris Felzke (in memoriam).
Entre o DIY, a herança do rock alternativo dos anos 90 e o desejo de resgatar o prazer simples de tocar, a Madame Salame se mostra como um projeto que olha para trás sem se paralisar pela nostalgia, apontando uma forma honesta de seguir em frente. Em um papo por e-mail com o Scream & Yell, as três integrantes contam mais sobre o EP e o trio. Leia a seguir.
Como a banda se formou?
Hanna: Eu e Juliana tivemos banda juntas entre 2017-2018 e sempre estávamos comentando que um dia rolaria um projeto novo. Inclusive, o nome Madame Salame já era cotado por mim depois que a Juliana lembrou desse episódio do Popeye. Ficou ali de stand by, meio na zoação, meio cozinhando na promessa. A Lety e eu desde que viramos amigas trocamos alguma ideia sobre tocarmos juntas, mas nunca tinha rolado; a gente acabava canalizando todo nosso tempo juntas ou pra tratar dos assuntos da Efusiva, ou para gerir a Motim, que demandava muito da gente. Depois que a Motim acabou, a gente ainda tinha o espaço à disposição com todo o nosso equipamento de som para ensaiar e ir construindo nosso repertório aos poucos. Coube a coragem de propor que a banda finalmente acontecesse, era o momento ideal! Eu tinha umas duas ideias de composições que achava que caberiam no projeto e a gente começou a trabalhar de forma muito leve e divertida.
Todas vocês dividem vozes e composições, e isso dá ao projeto uma sensação muito coletiva. Como funciona essa dinâmica no trio na hora de compor as canções?
Lety: Chegamos com ideias das músicas, com uma base pronta e cada uma vai adicionando elementos. O fato de termos referências muito parecidas ajuda nesse processo.
Juliana: O ensaio é sempre um momento de criação e experimentação. Eu gosto de pensar em algum elemento que traga um diferencial na levada, ou alguma referência de groove – bateristas que conhecem bem os anos 90 podem reconhecer algumas ideias que eu tive. Tem também um aspecto muito instintivo, que é sentir a cara que a música tem, antes mesmo de ela existir totalmente. E quando encontramos pela primeira vez essa cara, tocando e ajustando, todo mundo sente na hora: “é isso!”. É um momento muito legal, ainda mais quando a gente está em casa entre si e confia que ele realmente chega.
O EP foi gravado por Vitória Parente em conjunto com a banda. Como foi essa experiência e o modo de trabalho?
Hanna: A Vita é uma amiga muito querida e uma excelente profissional do áudio. Tê-la conosco na produção do nosso primeiro EP com certeza facilitou muito o processo e ajudou a quebrar o gelo no início, porque mesmo gravando em casa rola muita insegurança. Além de também assinar a capa desse projeto, a gente contou com ela para a captação da bateria e na edição de algumas tracks antes de enviar pro Leo Moreira, o “Shogun”, para a mixagem e masterização. Ele também foi indispensável para trazer a identidade que a gente queria pro EP.
Juliana: Fiz o possível para montar um estúdio em casa, apesar de morar em apartamento. Até agora os vizinhos não nos expulsaram, então está dando certo! Mas se por um lado temos liberdade de tempo de uso, um ambiente acolhedor e a confiança de usar o próprio equipamento tranquilamente, um setup DIY básico tem suas limitações. Meu quarto não tem tamanho suficiente para um reverb que faça diferença na sonoridade da bateria, por exemplo. Então aí entra a parte do milagre da mixagem, que foi o trabalho primoroso do Leo Shogun, e foi uma honra poder contar com ele.
A Madame Salame tem um som puxado pro indie rock noventista, com execução crua e momentos dançantes. O que vocês acham que tem explorado neste projeto que não foi possível em suas bandas anteriores?
Lety: Eu tenho curtido muito usar minha guitarra com mais efeitos limpos e composições mais melodiosas. Na Trash No Star, outra banda que também toco guitarra, as composições têm guitarras mais distorcidas, acordes dissonantes e vocais mais desesperados
Hanna: Acho que tenho conseguido explorar o baixo mais melodicamente. Além disso, acho bacana a gente conseguir fazer com que todo mundo cante um pouco e colabore coletivamente nas composições.
Juliana: Na banda anterior que tive com a Hanna, a Tuíra, tinha uma pegada mais séria, mais militante. Embora ainda tenhamos coisas sérias a dizer agora, eu disse para a Hanna que queria fazer um som que trouxesse um ambiente divertido para as pessoas, aquela mágica de ver as cabeças acompanhando o ritmo, gente sorrindo e curtindo um som de boa. A nostalgia do nosso som é uma coisa geracional, mas é também uma vontade de retorno ao espontâneo, que andamos perdendo com o passar dos anos. Tudo é imagem, é like, é trend… sabe, já deu. Agora eu quero lembrar o que é a leveza da vida de verdade.
O EP encerra com “DM tinta”, uma homenagem à artista Dâmaris Felzke. Como foi lidar emocionalmente com essa faixa e decidir colocá-la como fechamento do EP?
Hanna: A gente conheceu a Dâmaris na Motim em uma de suas passagens pelo Rio de Janeiro. Ela apareceu por lá durante uma feira que a gente produzia e propôs fazer um grafite na parede do bar. Ela pintou uma Janete, sua persona, e foi um momento muito espontâneo e cheio de significado porque a arte dela trazia muita verdade e traduzia a liberdade que ela vivia. Depois de uns meses ela retornou à cidade e visitou a Motim novamente, já em outro endereço. A gente tinha se mudado fazia pouco tempo e tínhamos parede de sobra para intervenções, então ela nos presenteou com dois murais incríveis no caminho do estúdio. Ela chegou a comentar que a Motim seria parada certa pra ela toda vez que ela voltasse ao Rio, mas não houve uma próxima vez… Receber a notícia de seu falecimento foi muito triste e essa consternação acabou se somando ao turbilhão de sentimentos que vivíamos também em relação à Motim, que tinha fechado há um pouco mais de um mês. Toda morte precoce é absurda e a gente se pega pensando em tudo o que aquela pessoa ainda tinha pra viver ao mesmo tempo que reconhece o tanto que ela ofereceu ao mundo de forma tão pura e verdadeiramente livre. DM Tinta era uma jovem que viveu para arte e eu acho que cada trabalho que ela deixou pela ruas em todas suas andanças traz muito mais do que a expressão da artista através das imagens que ela representava. É a tradução da liberdade genuína de uma vida corajosa que deu ao mundo seu bem mais precioso: sua arte!
Quando estávamos debatendo sobre a ordem das músicas do EP decidimos colocar “DM” Tinta como fechamento porque ela acaba em um rallentando, o que contrasta com “Decaf”, que abre o disco em um crescendo. Mas acho que, de alguma forma, essa faixa fecha o EP com significados maiores sobre as transformações das nossas realidades ao mesmo tempo que deixamos nossa marca por aí, nos muros, costas das placas, na vida das pessoas, na memória.
Hanna e Lety já têm uma história muito relevante na cena carioca à frente do coletivo/espaço cultural Motim (2016 – 2024). Considerando essa experiência anterior com o Motim, o que vocês acham que a cena independente precisa para ser mais inclusiva (tanto para mulheres quanto para LGBTeres)?
Lety: Fazendo uma leitura muito por cima, é difícil pensar na cena sem considerar que enfrentamos opressões estruturais que atravessam nosso cotidiano. Num geral, estamos muitos passos atrás dos caras cis-heteros. Enquanto estamos lidando com mil questões para nos manter vivas, eles têm tempo livre para pensar e se dedicar em seus projetos.
Uma outra coisa importante é que precisamos de curadoria que enxergue potencial e não considere apenas números ou use curadoria como desculpa para indicar os velhos amigos de sempre. Tá chato bater palma pra quem faz o mínimo com um monte de privilégio enquanto temos muito potencial sendo desperdiçado na escala 6×1, lutando pra sobreviver.
Quais os próximos passos da Madame Salame? Vem turnê/shows ou novos lançamentos por aí?
Hanna: Além de alguns shows agendados para 2026, estamos nos programando para gravar um single de uma música que já estamos tocando nas apresentações mas acabou ficando de fora do EP. A gente também tá caminhando para trabalhar algumas músicas novas.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

