texto e fotos (As Fadas) de Alexandre Lopes
fotos (Birushanah e Praed) de Fernando Yokota
Birushanah – Sesc Avenida Paulista – 09/12
Parte integrante do Festival Novas Frequências, o trio japonês Birushanah subiu ao palco do Sesc Avenida Paulista para um início de show que mais parecia um soundcheck levemente desorientado. Por conta de uma chuva chatinha e ventos preocupantes que assolaram a capital paulistana, o público presente ocupava apenas metade do espaço do show pouco depois das 19h40. Antes mesmo de começar, o baterista Atsushi Sano discursava para a platéia com muitos “arigatô everyone”, enquanto o amplificador de baixo decidia se participaria ou não do espetáculo. A cena contou com quase dez minutos de técnicos ajeitando cabos, mas rendeu à noite uma espécie de prólogo involuntário, que deve ter deixado a banda um pouco nervosa. Quando o som finalmente se alinhou, veio um sludge/doom metal com letras em japonês que parecia oscilar entre a concentração e a insegurança: bateria, baixo e guitarra soavam como três entidades que ainda negociavam o bpm e entrosamento entre si. A tensão só se dissipou lá pela terceira faixa, quando o trio, finalmente aquecido, entrou na mesma órbita e a coisa passou a se mover com mais propósito. Sano, aliás, tocava um kit que merecia exposição museológica: três frigideiras no lugar dos tons, uma “caixa” de metal que lembrava uma peça de carro, e um ride de ataque permanente, imprimindo um timbre de sucata ritualística que só funcionaria nas mãos de um baterista japonês que agradecia constantemente como um mantra entre as músicas. Em dado momento, o baixista Ao Asako puxou um didgeridoo que parecia uma concha espiral. O público, em silêncio quase cúltico, acompanhou o instrumento vibrar enquanto Sano marcava o chão com percussões suaves. Em seguida, foi a vez de Seiji Iso largar sua guitarra e assumir uma flauta, mergulhando todos em um intervalo quase meditativo antes da retomada do peso, com “Mabutairo No Tabibito” devolvendo o trio às guitarras amplificadas. No clímax, da apresentação, Iso tentou algo próximo de um vocal mais agudo, lembrando um Glenn Hughes no fim do mundo, fechou um set de 57 minutos. Ainda houve um bis curto, puxado pela insistência da plateia e coroado com mais “arigatô” do incansável Sano, que parecia sinceramente muito empolgado com a experiência. Um show estranho e por isso mesmo, fascinante.

Praed no Sesc Avenida Paulista – 10/12
Se o Birushanah buscava a transcendência pelo metal, o Praed veio no dia seguinte do Festival Novas Frequências para invocar outro tipo de transe: aquele em que a pista de dança se encontra com o free jazz, o shaabi e um laptop. Novamente pouco depois das 19h40, Raed Yassin já chegava pedindo palmas ao público e fazendo um agachamento de aquecimento que preparava todos para o que seria um ritual árabe-eletrônico de possessão dançante. Após o primeiro número, “Embassy of Embarrassment”, Yassin soltou um animado “Good evening, São Paulo!”, dedicando o show à embaixada brasileira que havia dificultado a entrada do duo no país. “Depois desta vez, não sabemos quando vamos voltar, então é melhor vocês dançarem”, avisou. A ordem foi devidamente obedecida durante “Doomsday Survival Kit”, que contou com a ilustre participação de uma cabeça de boneca usada como sintetizador ativado por sensores de luz. Enquanto isso, Paed Conca seguia firme em suas funções no clarinete, lendo partituras com a postura de quem toca num recital, ainda que seus joelhos flexionassem num micro-rebolado tímido. Esse contraste entre os dois era um show à parte: Yassin assumia o palco como um frontman de cabaré, puxando um lenço do bolso para imitar uma odalisca dançando, incentivando palmas e provocando a plateia, enquanto Conca era a antítese perfeita: contido, meticuloso em seu instrumento e só abrindo espaço para pequenas coreografias involuntárias quando o trance eletrônico exigia. O terceiro número, encerrado às 20h28, já tinha colocado abaixo o Sesc, que estava mais cheio do que na noite anterior. O fechamento foi intenso, com Yassin esticando notas nos vocais e Conca soltando solos cada vez mais inspirados em seu instrumento. A música desabou aos poucos, até que Yassin assumiu um vocal melódico que funcionou como um pouso suave depois de um voo turbulento. Aplausos, gritos por “mais um”, e o duo voltou para um bis com “El Hawi”, finalizada às 20h55. Yassin agradeceu São Paulo, o curador Chico Dub e o Novas Frequências antes de encerrar com um conselho ambíguo e perfeito: “I think it’s time we dream or drink.” Difícil discordar depois de um showzão desses.

Os Fadas no A Porta Maldita – 17/12
Encerrando a primeira noite do festival de fim de ano do A Porta Maldita – depois do coldwave do trio Pink Opake e do transe experimental da dupla Qmar -, Os Fadas entraram em cena com seu autoproclamado “roque regressivo com onda”: guitarras ruidosas e estridentes, percussão torta e vocais gritados assumidos como uma linguagem tensa. A referência óbvia aos Pixies aparece até no nome da banda, mas funciona menos como mera nostalgia e mais como um ponto de partida para um processo de deformação e construção de suas canções autorais caóticas. O quarteto paulistano, formado por Gabriel Magazza (guitarra, voz), Anna Bogaciovas (guitarra, voz), Lucia Esteves (baixo, voz) e Augusto Coaracy (bateria, voz), opera no limite entre canções melodiosas e ruídos, com os berros de Gabriel ecoando os momentos mais raivosos de Black Francis, enquanto os momentos mais agudos dos vocais de Anna puxam o eixo para um território próximo do riot grrrl, com algo de Bikini Kill. Anna também assume o principal vetor de estranhamento do show com sua guitarra: sua abordagem do instrumento inclui técnicas pouco ortodoxas, como o uso de alicates de metal nas cordas, criando texturas abrasivas que ao mesmo tempo sabotam as canções e também as elevam para caminhos improváveis e noises interessantes. No repertório do show, faixas do EP “Sono Ruim” (2023) como “Sei Lá Vie” e “Revolto” dividiram espaço com músicas mais recentes, como o single porradeiro “Mamata”, que aponta para um novo lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026. No final, houve tempo até para uma rápida troca de posições entre Anna e Lucia para covers da punk rock “Isla de Encanta” e da bonita “La La Love You” do já referido quarteto de Boston. Foi um encerramento meio ‘confort music’ depois de uma apresentação barulhenta para o pouco público que ficou até o final. Foi como se Os Fadas dissessem: “o show acabou e vamos deixar um presentinho para reverberar nos seus ouvidos pelo resto da noite”.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br