Cinema: “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” – ou: “ainda bem que é ficção (ou não)”

texto de Davi Caro

Um homem misterioso, vestido de forma no mínimo excêntrica e que diz vir do futuro, entra em um restaurante no meio de uma noite chuvosa. Uma vez lá, ele faz de tudo para chamar a atenção de todas as pessoas para a apocalíptica mensagem que traz: o mundo vai acabar, e somente um igualmente misterioso e mirabolante plano será capaz de evitar o desastroso fim da realidade como é conhecida. Uma trama de aventuras e desventuras é o que naturalmente se esperaria, elucidando o passado de uma figura enigmática que pode funcionar como o protagonista de qualquer história. Assim é a premissa que se esperaria do novo longa-metragem de Gore Verbinski, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” (“Good Luck, Have Fun, Don’t Die”, 2025). Não demora muito, no entanto, para que o enredo tome caminhos bastante distintos, e para que o foco da narrativa possa subverter toda e qualquer expectativa.

O tal homem futurista sem nome (vivido por Sam Rockwell) de fato se porta com urgência e demonstra um tipo instantâneo de magnetismo; sua missão, ao contrário do que se poderia imaginar, não é solitária. A necessidade de recrutar outros indivíduos, aliás, é o principal fator que o motiva a irromper no cotidiano de pessoas completamente desconhecidas e (naturalmente) céticas da sombria realidade descrita pelo sujeito, que fala de um mundo onde o consumo compulsório de redes sociais por todas as pessoas acabou desembocando, por fim, na singularidade suprema do algoritmo de inteligência artificial – apenas a ponta do iceberg de uma distopia que resulta na aniquilação de milhares de pessoas.

E é no tal restaurante que o personagem central acaba encontrando o time de incautos cidadãos que o ajudarão a atingir seu objetivo…ou não: Ingrid (Haley Lou Richardson), uma jovem que atravessa o turbulento fim de uma relação e sofre de uma intrigante alergia à tecnologia; Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz), um casal de professores que é confrontado em primeira mão a zumbificação das pessoas – e sobretudo dos jovens – diante de redes sociais; Scott (Asim Chaudhry), um cético que trabalha como motorista; e Susan (Juno Temple), uma mulher que atravessa uma tragédia pessoal e que encontra, na figura do homem bizarro que surge em sua vida, uma chance de recuperar a própria alegria de viver. Lutando contra o tempo e tendo que encarar súbitos (e, ocasionalmente, estapafúrdios) obstáculos e desafios, o desajustado bando passa a refletir sobre suas próprias trajetórias e experiências, a fim de encontrar uma solução para a silenciosa ameaça que se aproxima. E, conforme o mistério da identidade de seu líder começa a se desvendar, se torna cada vez mais claro que esta é uma missão à qual nem todos sobreviverão.

Embora tenha colecionado performances como coadjuvante de luxo – com grandes êxitos, incluindo ai um Oscar – Sam Rockwell abraça a loucura de seu viajante do tempo sem nome com energia e carisma natos, sem nunca, porém, tomar mais tempo de tela do que o devido. Sim, porque embora seja o personagem central do filme, boa parte da trama se dedica a desenvolver as histórias prévias dos vários coadjuvantes da história, que acabam sendo a verdadeira alma da produção. Da insegurança crônica do Mark de Michael Peña, e da improvável química que o personagem possui com a pragmática e reticente Janet como interpretada por Zazie Beetz, passando pelo potencial dramático de Juno Temple (talvez a grande arma secreta do enredo) e culminando na excelente performance de Haley Lou Richardson. Esta última, que canaliza algo como o absoluto oposto da personagem submissa que viveu na segunda temporada da série “The White Lotus”, acaba se revelando quase uma protagonista secreta, com o arco do desenvolvimento de sua personagem sendo o mais abrangente e que gera mais apelo.

Mesmo um elenco com tamanha boa equalização não seguraria uma produção com um argumento tão tresloucado como este. Sorte, então, de Gore Verbinski e do roteirista Matthew Robinson: o sucesso alcançado em termos de ritmo e de storytelling encontra seu par em uma cinematografia que dispensa exageros em favor de imersão, e que faz uso bastante sagaz de um enredo que se alterna entre um neurastênico presente (no melhor sentido) e os melancólicos passados de cada personagem. Embora determinadas passagens – especialmente conforme o longa se encaminha para o clímax – possam facilmente ser interpretadas como militância anti-IA e pró-pânico apocalíptico, as escolhas do roteiro são sutis o suficiente para escaparem de abordagens clichê. Incluindo um desfecho que surpreende e, ao mesmo tempo, se mostra condizente com a estrutura de world-building explorada desde o início, este é um filme que sabe explorar seus pontos fortes evitando derrapagens pretensiosas.

Pretensão foi, durante muito tempo, praticamente um sinônimo do trabalho de Gore Verbinski. O último trabalho cinematográfico do diretor, “A Cura” (2016) foi mais criticado do que elogiado, perdido em meio a ambições vazias e que pouco trazia da criatividade e dinamismo esbanjado nos três primeiros filmes da saga “Piratas do Caribe”, que elevaram o cineasta ao status de grande nome em Hollywood. Dez anos depois, ele mostra ter aprendido a lição: longe de ser perfeito, mas dedicado e confiante, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” é uma mudança de horizontes – uma aventura que tira vantagem da falsa impressão formulaica que passa, apenas para pegar os espectadores de surpresa com atuações cativantes, ocasionais risadas espontâneas, montagem esperta, e um enredo que instiga quase em medida igual àquela com a qual entretém. Tudo isso embalando uma mensagem que, ao final, torna-se cada vez mais visível no mundo real – a cada dia, mais difícil de ignorar, e quase impossível de evitar.

Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *