Entrevista: “Talvez Meu Pai Seja Negro” é o único filme baiano no É Tudo Verdade 2026. A diretora Flávia Santana fala sobre a obra

entrevista de João Paulo Barreto

O desenho infantil de uma árvore genealógica feito pela criança Flávia, aos 11 anos de idade, para um trabalho escolar, lhe fez descobrir que sua avó Celina, na verdade, não era a sua avó. Seu pai, Antônio, ao ouvir da menina a pergunta sobre quem eram os pais de Celina lhe disse que, na verdade, Benícia era a sua mãe biológica. A informação, claro, teve um impacto imenso na mente da pequena Flávia.

Corta para algumas décadas depois e a agora diretora, produtora e roteirista Flávia Santana passa por uma aferição de verificação de autodeclaração perante uma banca de heteroidentificação. O fato, que parece não ter uma ligação direta com aquele trabalho de escola de tantos anos atrás, pelo contrário, acaba por criar na cineasta uma reflexão sobre como aqueles momentos de introspecção e descobertas pessoais lhe afetaram na infância e continuaram a fazê-lo na sua vida adulta.

Na certidão de nascimento de Antônio, sua cor consta como sendo branca. Na conversa que abre o filme “Talvez Meu Pai Seja Negro”, o homem e sua filha diretora falam sobre aquela informação trazida pelo documento. Antônio Gomes Santana, de forma austera e decidida, diz à filha que aquilo será consertado. Naquele momento, ele aponta para sua própria pele e diz que sua cor é parda. Aquela constatação e processo de correção legal da certidão dará início a um mergulho individual por parte de Antônio, bem como familiar ao incluir nesse mesmo processo sua filha Flávia, em uma série de autoreflexões.

Única produção baiana presente na seleção oficial do tradicional festival de documentários É Tudo Verdade, que, em sua 31ª edição acontecendo em São Paulo e no Rio de Janeiro, segue até o dia 19 de abril, “Talvez Meu Pai Seja Negro” foi exibido Cachoeira Doc 2025 e no Panorama Internacional Coisa de Cinema 2026. Em entrevista ao Scream & Yell, a diretora Flávia Santana falou sobre o processo de criação da obra e como foi esse compartilhar de um ponto tão pessoal de sua vida com o público e aprofundou este e outros aspectos trazidos pelo seu filme. Confira!

Apesar do filme trazer um foco maior acerca do sentimento de seu pai em relação àquele reencontro com suas próprias raízes, gostaria de abrir essa entrevista lhe perguntando como esse mesmo processo de mergulho lhe afetou como pessoa e profissional do audiovisual?
O filme veio mesmo como um desejo e urgência de tentar salvaguardar a memória da minha família paterna, num exercício de tentar remontar e contar uma história que foi estilhaçada, que temos pouco acesso a informações, documentos e registros. E nessa jornada, nesse mergulho, que foi muito profundo, desafiador e importante, eu e meu pai iniciamos um processo de troca e reflexões sobre a história dele e da nossa família, que não tínhamos falado antes. Também não tinha tido a oportunidade de trocar com ele sobre temas que me atravessaram toda a vida, como questões relacionadas a identidade e pertencimento, por exemplo. Então o filme, pra mim, sobretudo enquanto pessoa, foi muito importante, porque me aproximou ainda mais de meu pai, me proporcionou trocas e conexões com pessoas muito generosas, me gerou reflexões que reverberam na minha forma de me posicionar no mundo. E, principalmente, foi especial porque materializamos memória: temos um filme que conta (parte) da nossa história, que é nossa, mas, ao mesmo tempo, tem gerado identificação por muitas e muitas pessoas que também tiveram as suas histórias e memórias de suas famílias fragmentadas. E tenho percebido isso também como uma das grandes potências de todo esse processo.

Em determinado momento, vemos, durante um almoço de família, a discussão sobre o fato de sua avó ter sido uma “dama de companhia”, algo que a privou de um crescimento social. Na conversa, vemos visões contrastantes sobre esse ponto, com seu pai encarando com normalidade aquela ideia de que a pessoa era considerada como parte da família, quando sabemos que, no fundo, ela não era. No seu íntimo, tanto como filha quanto como diretora que precisa trazer para o documentário um ponto de reflexão a partir daquele conflito de ideias, como aquela conversa e aquele atravessar de ideias que às vezes se contrastam, outras concordam entre si em outros aspectos, lhe direcionou ao incluir a cena e a reflexão desse encarar do processo de injustiça social que sua avó sofreu?
Eu acho que a história de minha avó dialoga com muitas outras mulheres, tanto do passado, quanto do presente. Mulheres que saem do interior, para trabalhar em casas de família nas capitais. No entanto, se tratando ainda da geração dela, tinha o agravante de ser naturalizado que crianças e jovens menores de idade fossem trabalhar – algo que é inaceitável e hoje temos leis que regularizam isso no Estatuto da Criança e Adolescente. Entendo que para outras gerações, isso era “normal”. Mas entendendo que isso não é certo, senti a importância de trazer esse questionamento na mesa, de me posicionar também, enquanto uma pessoa de outra geração, num tempo em que estamos e precisamos, cada vez mais, não naturalizar absurdos, como trabalho infantil, racismo, machismo, homofobia, intolerância religiosa, preconceitos e injustiças sociais em geral. É um momento que tensiona, mas que reflete também essa diferença de gerações entre mim e meu pai, e que nos coloca em um espaço de troca, de reflexão importante e necessário, acredito.

Nesse revisitar às localidades do interior, alguns personagens surgem a ilustrar não somente a história de sua busca, mas acabam representando diretamente algo mais amplo, no caso, questões de identidade e pertencimento a um local. Foi o caso do carismático sr. Manuel. Ao visitar alguns daqueles lugares, essa reflexão sobre aquelas pessoas também lhe ocorreu? De que modo lhe ajudou na concepção final do filme?
Ir para Brejões foi um grande presente! Éramos um grupo de sete pessoas e fomos muito bem acolhidos por todo mundo que encontramos. Foi um momento de perceber mesmo o quanto o direito à memória é mesmo um privilégio para poucos. As histórias das famílias, pessoas, cidades, estão fragmentadas, e muitas vezes se perdem com a partida de uma pessoa mais velha. E isso pudemos perceber bem nos nossos dias lá. Então, esses encontros, essas trocas com essas pessoas, evidenciam também a dificuldade que é tentar remontar o passado. Ao mesmo tempo, também evidencia algo que acho muito especial: a generosidade das pessoas do interior, de Brejões, e o interesse genuíno de todas elas em nos ajudar. Isso me emocionou muito!

O filme aborda com muita propriedade a questão da aferição de verificação de autodeclaração e a importância da banca de heteroidentificação na política pública de cotas raciais. Unir um tema tão pessoal e familiar seu e de seu pai a um aspecto de reflexão mais amplo e que traz diversos outros fatores de discussões que vão do social ao político foi algo que lhe preocupou? Em que ponto essa proposta narrativa e analítica se tornou o norte do filme?
Tratar de temas como memória, apagamentos e identidade racial a partir de uma vivência pessoal foi muito desafiador, sobretudo por compartilhar esse espaço íntimo, da minha família e nossa história, em uma obra audiovisual. O filme, a partir de uma montagem muito cuidadosa, realizada por Nin La Croix, se propôs, politicamente e afetivamente, a provocar reflexões e buscar gerar conexão com outras pessoas e famílias que, de alguma forma, se identificam com a nossa história. Todo o processo foi feito com muito afeto, muita verdade e sem pretensão de trazer respostas concretas. O próprio título já traz incertezas, a dúvida, e acredito que aí está a força do cinema também: de ser essa ferramenta que possa colaborar para gerar discussões, provocar reflexões e ampliar perspectivas.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.



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