texto de Manoel Magalhães
Os manuais de roteiro e os executivos das plataformas de streaming parecem ter vencido a queda de braço com os realizadores que tentam produzir séries de televisão mais autorais. “O Estúdio”, de Seth Rogen, faz comédia com essa relação entre a indústria e os artistas no ambiente do cinema, mas a questão aplica-se a todo o ecossistema do audiovisual. São raras as produções atuais que escapam aos padrões repetitivos norte-americanos, o que felizmente é o caso de “Anos Novos” (“Los Años Nuevos”), série espanhola passada em Madrid e que acompanha os personagens Ana e Óscar nos dias de réveillon de 2015 a 2024. A série foi produzida e exibida originalmente pela plataforma da Movistar Plus+ e adquirida pela Mubi para a distribuição internacional. Um alento para quem tem se emocionado pouco com produtos de entretenimento.

“Anos Novos” se destaca por valorizar uma abordagem cinematográfica e tentar adaptá-la ao consumo efêmero do vídeo plataformizado, que evita planos longos, silêncios e cenas de sexo sem plasticidade/. Os episódios são filmes que funcionam em uma dinâmica de independência e complementaridade, nos quais os planos-sequência lembram que a vida acontece fora do recorte dos rostos dos atores, fora da cabeça e do egoísmo dos personagens, e que pessoas reais existem em um contexto afetivo complexo. O grande plano-sequência do episódio final começa mostrando Ana ansiosa ou delirante, não temos certeza, em uma galeria de Madrid enquanto o tempo não para, comprando comida, pensando, vendo quem passa, fumando ao lado de homens que tomam o café da manhã. A personagem ama e se desespera de forma naturalista ao som das vozes de Mon Laferte e Jorge Drexler (“Prefiro uma noite em claro do que ter a alma em suspenso”).
Outro ponto alto é a variedade de abordagens dos aspectos da vida. A construção não é unidimensional. A convivência com as famílias ajuda a enquadrar os comportamentos. Os dramas e as festas esboçam as personalidades (os amigos de Óscar são quase família para ele, já Ana tem questões tácitas com as amigas), até o estranhamento e a não presença são explorados na série, como, por exemplo, no episódio da viagem de Óscar com um desconhecido para a praia idílica não alcançada com Ana no primeiro episódio. O relacionamento entre os dois é importante, claro, mas é desenvolvido a partir da vivência de outras relações. O pai de Óscar, que é poeta, e o melhor amigo, com problemas de adicção, são extremos distantes de sua personalidade. A mãe e as irmãs de Ana são apagadas em comparação à sua personalidade solar. E ainda existem ex-amores, novos amores, amores sem rosto, nomes de amores que nunca são vistos.

Muita coisa muda em um recorte de dez anos na vida de qualquer pessoa. Os dois em um ano estão construindo uma sintonia, no outro muito apaixonados, no seguinte o desejo se desencontra e a relação vai tomando um rumo que fica difícil prever o final. O ambiente interfere um pouco, as ambições profissionais, assim como a necessidade de aventura ou segurança de cada um. A variação de cenários acrescenta outras cores a esse desenvolvimento narrativo. É o plano de fundo que respira nas imagens das cidades em que eles transitam. Um episódio se passa em Berlim, outro em Lyon, e existe sempre a vontade de ir a Valência, onde o sol nasce no horizonte de um ano novo. Sempre prometendo esperança de uma vida nova.
Os dez episódios-reveillons cobrem um período significativo de todo adulto do nosso tempo, no qual os acontecimentos se dividem entre os anos pré-pandêmicos, a pandemia e os pós-pandêmicos, quase apocalípticos. Os dois, assim como nós, que os assistimos, são sugados pelo espírito do tempo e precisam se transformar no susto, decidindo o futuro da relação bem no meio do (quase) fim da humanidade. Seja vivendo tudo de perto, como Óscar, ou se afastando, como Ana, ninguém saiu bem dos golpes da última década. E os diretores sabem jogar com o que se mostra sem estar explícito no texto. O sofrimento de Óscar saindo do hospital para o réveillon no auge da Covid-19, a falta que Ana sente enquanto é maltratada por franceses.
Narrativas episódicas-temporais são comuns na cultura pop. “Um dia”, de David Nicholls, já virou filme, a trilogia do “Antes”, de Richard Linklater, tem saltos temporais de nove anos. E se formos mais longe no tempo, até mesmo Harry e Sally elaboram a relação, entre a amizade e o romance, em um intervalo considerável de tempo. “Anos Novos” consegue não se aprisionar na fórmula, apesar de valer-se dela. É uma obra mais contemporânea que fabular. O recorte temporal espelha a vida de todos na última década, não só as dos personagens.
O episódio final é primoroso. Ele se sustenta como um filme e independeria de tudo o que foi elaborado nos outros nove capítulos para o quadro narrativo. O que acontece e pode ser entendido (ou subentendido) não precisa de contexto, basta já ter se apaixonado para compreender. O jogo entre os dois atores e a câmera (exercício que remete a “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor), a pouca luz do quarto, o amor discutido. O exterior vai saindo de cena para que o interior, o íntimo, se sobressaia. O final é um acerto de contas que é constituído pelos dois. A vontade de fuga é a obrigação de encerrar as diferenças em benefício de um grande amor. E emociona como poucas coisas filmadas atualmente para a televisão conseguem. “Um tremor que é prazer e anula todo o horror. Qual é a distância entre o medo e o amor?” canta Nacho Vegas nos créditos finais.

– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico, jornalista, documentarista e produtor. Toca na Harmada e dirigiu o curta-documentário “Abreu/Prazeres” e “Nada pode parar os Autoramas“.

