texto de Davi Caro
Dá para imaginar os dramas e traumas que o terapeuta de Lee Cronin deve escutar. O cineasta irlandês, cujo primeiro longa-metragem, “The Hole on the Ground”, debutou em 2019, fez questão de centrar muito da trama de seu ótimo “A Morte do Demônio: A Ascensão” (2023), no tipo de drama familiar que permeia lares de todo o mundo desde tempos imemoriais – livros macabros e demônios ancestrais à parte, claro. Na época, a predileção do diretor por passagens cheias de gore e um desfecho repleto de vísceras artificiais angariou elogios tanto da crítica quanto do público, tamanho o êxito da tentativa de injetar sangue novo (com o perdão do trocadilho) e introduzir novos, e cativantes, personagens ao universo que Sam Raimi havia iniciado, mais de três décadas antes.
Seja como for, é justo presumir que quaisquer dilemas passados – ou presentes – de Cronin ainda persistem. E não é como se o mesmo procurasse esconder tal coisa: afinal, o nome do diretor figura logo no título original de seu “A Maldição da Múmia” (“Lee Cronin’s The Mummy”, 2026). Talvez seja para se distanciar dos aventurescos blockbusters protagonizados por Brendan Fraser no fim do século passado/início dos anos 2000 e, mais crucialmente, da bomba cinematográfica de mesmo nome que estrelou Tom Cruise e foi massacrada em 2017; quiçá a decisão venha de um propósito comendável de imprimir uma assinatura própria, autoral, a uma produção que tem tudo para ser encarada apenas como um festival de efeitos visuais e pouca trama tal qual se vê o tempo todo. Mas não são poucos os detalhes em comum entre o enredo do novo longa, que busca adaptar aos dias atuais os valores dos antigos filmes de horror dos anos 1950, e a produção anterior de Cronin: pelos trailers, já dá para ver que lá estão os mesmos sinais de fatalidade fraternal. Se o sucesso alcançado aqui é o mesmo, é outra história.
O casal Charlie (Jack Reynor) e Larissa (Laia Costa) Cannon vive uma vida relativamente confortável na capital egípcia do Cairo, onde o primeiro trabalha como correspondente jornalístico de TV e a segunda, grávida, exerce a profissão de enfermeira, ao mesmo tempo em que cuidam dos dois filhos, Sebastian (Dean Allen Williams) e Katie (Emily Mitchell). O súbito desaparecimento (ou seria rapto?) da menina enquanto sob os cuidados do pai, entretanto, acaba criando uma ferida que nunca se fecha de verdade na família. Oito anos e muitos esforços frustrados de encontrar a garota depois, os Cannon, que além de terem que lidar com um rapaz agora adolescente (Shylo Molina), também cuidam de Maud (Billie Roy) e vivem em Albuquerque, no Novo México, com a mãe de Larissa, Carmen (Verónica Falcón).
É quando recebem uma notícia que abala as estruturas da frágil dinâmica familiar que mantém: Katie (agora vivida por Natalie Grace) foi encontrada, no país no qual sumiu, dentro de um sarcófago de milhares de anos. Fragilizada, semi-catatônica e com a pele envolta com o que parecem ser bandagens, a menina resgatada acaba sendo levada pelos pais aos EUA, sob a ideia de que o retorno ao seio familiar possa ajudar a trazer a jovem de volta ao normal. Não demora muito tempo para que bizarras e macabras situações comecem a ocorrer, e, conforme Katie parece recuperar a consciência e novos detalhes sobre seu desaparecimento começam a ser desvendados pela policial egípcia Dalia (May Calamawy), a família que parecia finalmente haver se reunido corre o sério risco de se desintegrar – figurativa e literalmente.

“A Maldição da Múmia” é um filme que levanta uma série de questões, embora não se sinta disposto a responder a todas elas. A começar pela decisão do casal central de trazer de volta a filha desaparecida como se nada houvesse ocorrido: embora movimente a trama, a escolha mostra pouca consistência conforme o roteiro avança para o final. Aliás, falando em consistência: o desenvolvimento dedicado aos principais personagens aqui varia entre o impressionante e o completamente esquecível. O esforço está lá – Laia Costa mostra colocar tudo de si em cada passagem dramática, ainda que sua personagem seja escrita de maneira um pouco mais unidimensional, e menos instigante do que poderia ser. Ou seja: praticamente o oposto de Jack Reynor, cujo Charlie possui apenas alguns poucos vislumbres de profundidade. Infelizmente, a performance do ator não ajuda, mesmo que a química com o restante do elenco seja palpável; especialmente com as crianças, com quem consegue transparecer naturalidade e dinamismo.
Aliás, em que pese o excelente trabalho da adorável e impressionante Billie Roy como a caçula Maud, o grande destaque do elenco não poderia ser outro: Natalie Grace se impõe por trás de muitas camadas de maquiagem a fim de conferir à sua Katie um ar ao mesmo tempo aterrorizante e fragilizado – como uma bomba-relógio de pavio curto cujo poder de impacto é desconhecido. Conforme a trama se encaminha para o clímax, é impossível ao espectador não se ver torcendo pela resolução da ameaça ancestral que se anuncia ao mesmo tempo em que anseia pela segurança da pobre garota. É o tipo de atuação que não apenas evidencia trabalhos mais limitados ou menos versáteis (como a competente, embora caricata, atuação de Verónica Falcón) como também ajuda a destacar interpretações dignas de muito mais atenção – tal qual a misteriosa feiticeira egípcia vivida pela atriz Hayat Kamille, que captura a atenção desde os primeiros minutos do longa e cuja importância para a história vai muito além de algumas poucas aparições.

Também é importante esclarecer alguns pontos relacionados ao enredo em si: apesar do título, “A Maldição da Múmia” não é um filme tão ortodoxo em sua retratação da entidade assustadora da mesma forma que produções hollywoodianas anteriores. Embora contenha várias passagens (excelentemente filmadas, por sinal) no Egito, e inclua uma boa quantidade de diálogos em árabe – além de alguns poucos trechos onde se utiliza o espanhol – a produção acaba criando uma espécie de miscelânea de diferentes estilos comumente associados ao horror. Assim, elementos de possessão, found footage, thriller investigativo e body horror culminam, todos, em um longa que não economiza em passagens gráficas e muito, muito sangrentas. Juntamente com a trilha sonora, cortesia do colaborador de longa data Stephen McKeon, a utilização de efeitos práticos ajuda a potencializar o caráter visceral (no sentido mais literal do termo) de muitos dos momentos mais climáticos do filme.
O maior pecado de “A Maldição da Múmia” talvez esteja em seu desfecho, um pouco abrupto e talvez responsável pelo tom esquecível que fica ao final. Trata-se, claramente, de um trabalho apaixonado e fruto de dedicação excepcional – determinadas passagens aqui carregam tamanha riqueza de detalhes que poderiam salvar produções menores inteiras – e levar tal dedicação em conta pode apenas fazer com que o saldo final da experiência seja ainda mais frustrante. É um salto indubitável de qualidade se comparado com o fracasso retumbante de 2017 (nivelando por baixo), embora seja pouco frente ao improvável, porém inegável poder nostálgico da aventura de 1999. Lee Cronin já se mostrou um cineasta talentoso por si só, e também é claramente capaz de colaborar com outros grandes nomes do gênero (vale lembrar que James Wan, da franquia “Invocação do Mal”, é creditado como produtor aqui); o diretor deve retornar ao terror muito em breve, como colaborador no futuro “Evil Dead Burn”. Certamente não vão faltar novos nomes dispostos a repaginar o horror mumificado no futuro próximo, com perspectivas novas – e, esperamos, com as sessões de terapia em dia.

Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

