texto de Alexandre Lopes
fotos de Marcos Oliveira / Espaço Unimed
Na noite de sexta-feira, 10 de abril, o Espaço Unimed recebeu o último capítulo da turnê “Criolo 50”, celebração das cinco décadas de vida do cantor/rapper Kleber Cavalcante Gomes. Com ingressos esgotados e uma plateia que misturava fãs, curiosos, desavisados e nomes como Emicida, Rael, Rashid e Samuel Rosa, a apresentação foi uma miscelânea que combinava rap, samba, reggae e afrobeat.
A abertura ficou por conta da DJ Pathy Dejesus, que aqueceu a pista, enquanto uma grande massa ainda avançava despreocupadamente para dentro da casa. Previsto para as 22h, Criolo só daria as caras no palco 45 minutos depois – tempo suficiente para que o espaço ficasse cheio e provocasse inquietação pela demora.
Às 22h46, ainda com as cortinas fechadas, veio a primeira aparição de Criolo, mas apenas como uma voz ecoando por cima de um dedilhado de violão no escuro. “Boa noite, São Paulo”, disse, antes de soltar uma frase que soava mais como sermão religioso do que como prelúdio de show: “As pessoas não são más, São Paulo, elas só estão perdidas. Ainda há tempo.”

O início quase anti-espetacular contrastaria com a apoteótica “Mariô” que veio logo depois. Criolo entrou em cena de óculos, tranças e vestindo uma jaqueta e bermuda preta. Em seguida, “Duas de Cinco” e “Sistema Obtuso” – com direito a caretas captadas pelo telão – e “Esquiva da Esgrima”, pontuadas por saudações a Xangô. “Obrigado pela presença de vocês, tem muita gente aqui”, comentou, visivelmente impactado por ver o Espaço Unimed cheio. E a resposta veio em coro do público: “Criolo, Criolo”.
Só que nem todo mundo parecia exatamente ali pela música. Em certo momento da noite, por exemplo, foi possível ouvir a pergunta “é show de quem hoje?” vindo de uma dupla de amigos ao lado; difícil saber se era ironia ou desatenção genuína. Mais tarde, a sensação se confirmaria com outras pequenas distrações ao redor: conversas paralelas, muita gente de passagem, ruídos de um público que nem sempre mergulha por completo no que está acontecendo no palco.
Alheios a isso, o anfitrião e sua banda seguiam firmes. “Lion Man” surgiu com pedido de mãos para o alto, seguida por “Freguês da Meia-Noite”. Neste número, a iluminação roxa reforçou a interpretação de cantor romântico meio kitsch que Criolo dá à faixa, mudando de uma postura combativa típica do hip hop para uma lamentação vulnerável e sensível.
Em determinado momento, após checar se estava “tudo bem” com a plateia, ele reconheceu a própria origem no grito: “É o Grajaú na casa?”, antes de tirar a jaqueta e revelar uma camisa do Corinthians com o símbolo da Democracia Corinthiana nas costas. A partir daí, a paleta de sons da apresentação oscilou para o reggae com “Samba Sambei” e “Pé de Breque”, com um belo solo de metais. Essa costura — que passa também por afrobeat e música brasileira tradicional — é o que sustenta a obra de Criolo há anos, e aqui aparece lapidada por uma banda afiada: DJ DanDan, Ed Trombone, Xeina Barros, Ricardo Rabelo, Bruno Buarque, Gustavo Sousa e Bira Sax.
Mas isso não quer dizer que todos os presentes estivessem na mesma vibe. Nesse momento, um desconhecido abordou este repórter para falar que “o som tá legal, mas prefere banda com guitarra”. Visivelmente bêbado, o mala perguntou se eu era “do rock” e disse que “preferia estar em um show dos Raimundos”, arregaçando a manga da blusa para mostrar uma tatuagem da banda no pulso. Por sorte, um amigo do maleta percebeu que o cara estava sendo inconveniente e o puxou de volta para sua rodinha.
“Sucrilhos”, “Yemanjá Chegou” e “Ogum Ogum” prepararam o terreno para o momento mais esperado da noite. Criolo avisou: “Essa música mudou tudo pra mim e pra minha família”. Ao iniciar a batida característica de “Não Existe Amor em SP”, muitos se realinhavam no espaço para cantar o hit. Ao final, agachado sob luz vermelha, abraçando a si mesmo, parecia menos um rapper intimidador diante de uma multidão e mais alguém tentando conter a intensidade da própria canção. “Não precisa morrer pra ver Deus. Cada um de vocês é um pouco dele. Axé!”, soltou ao final da performance.
Curiosamente, logo após o maior hino da noite, alguns começaram a ir embora dali. Mas o coro de fãs fiéis persistiu. E então Criolo puxou mais uma mudança no espetáculo: “Eu venho de um lugar maravilhoso chamado Grajaú”, disse, antes de convocar um trio de músicos do Pagode da 27. E com isso, o palco se reorganizou e virou uma roda de samba de bairro, com a adição de um violão, dois cavaquinhos e um repertório que incluiu “Maria Bonita” e “Menino Mimado”, enquanto o telão mostrava imagens do projeto Pagode da 27.

Ao evocar o Grajaú, Criolo insere sua música numa tradição comunitária que resiste à lógica individualizante do presente. Com “Lá Vem Você”, “Linha de Frente” e “Nas Águas”, as projeções desapareceram. Foi um movimento estético proposital, para que a apresentação abandonasse temporariamente a lógica de espetáculo e adotasse a circularidade da roda, como se a música bastasse para reforçar a ponte que surgia entre a zona sul e a zona oeste paulistana por meio do samba.
Criolo permanecia sentado em um banquinho em meio aos colegas, como se o show não fosse mais somente dele. E foi quando Xeina assumiu os vocais para uma interpretação excepcional de “Alguém Me Avisou” e “Sonho Meu”, celebrando Dona Ivone Lara. Na sequência, puxou sua versão para “Retalhos de Cetim”, de Benito di Paula, cantada em coro pelo público. É como se houvesse um tipo de transe no qual a bad vibe de quem estava ali antes por outro motivo que não fosse o som foi permanentemente afastada.
Mas novamente o espetáculo mudou de direção e as projeções assinadas por Bernardo Perpettu ressurgiram no telão, trazendo “Subirusdoistiozin”, que foi interrompida de surpresa para um live mix de Pathy Dejesus, que injetou drum’n’bass na faixa. “Grajauex” entrou pesada, abrindo caminho para a despedida: “Demorô” e “Convoque Seu Buda”, com mãos erguidas e vozes em uníssono.
Às 0h37, a noite terminou ao som de “Lovin’ You”, de Minnie Riperton, com banda e convidados reunidos no palco, evitando qualquer resolução grandiosa, como um bis. A despedida aconteceu de forma suave, quase doméstica; como quem prolonga uma conversa antes de ir embora.
Entre atrasos, dispersões pontuais de alguns inconvenientes na plateia, Criolo conseguiu entregar um belo show – mesmo com gente falando alto demais ou vivendo uma versão paralela do evento. Porque o que o Criolo faz é acreditar que ainda dá pra juntar gente suficiente num mesmo espaço e fazer com que sintam algo juntas. Como ficou claro, nem todos embarcaram. Mas quem foi, foi fundo – mesmo perdendo os últimos metrôs e trens para sair dali.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

