entrevista de Alexandre Lopes
“Clara Crocodilo”, a obra seminal de Arrigo Barnabé lançada em 1980, já passou dos 40 anos. É tempo suficiente para virar peça de museu ou virar um daqueles discos que todo mundo respeita ou cita como referência de música de vanguarda. Só que algumas peças artísticas também parecem estar sempre prontas para serem revividas sob outras paletas. E é aí que entra a Aminoácido.
Formada em Londrina (PR) em 2016, a banda surgiu misturando arranjos guitarreiros à la Frank Zappa com conceitos tortos, narrativas bizarras e uma liberdade sonora pouco preocupada em soar “polida” ou “radiofônica”. Dos primeiros discos instrumentais – “Meticuloso” (2017), “Sem Açúcar” (2018) – até trabalhos mais estruturados como “Banda Morre” (2021), o grupo foi construindo um mundo próprio para quem aceita entrar no seu mar de referências e piadas internas. Mas e se fosse possível juntar esse universo com a contracultura marginal de “Clara Crocodilo”?
A parceria começou a tomar forma em 2020, quando a produtora Janete El Haouli propôs a Barnabé um show comemorativo do álbum em Londrina, cidade-natal do músico. Adiado pela pandemia, o projeto só ganhou corpo em 2022, com Arrigo convidando a Aminoácido para dividir o palco. E assim, o que era apenas uma apresentação virou uma colaboração direta e registro em estúdio.
Lançado em vinil com tiragem limitada, “AminoArrigo” (2025) reúne sete faixas e passa “Clara Crocodilo” pelo filtro estético da Aminoácido, com duas guitarras mais presentes e distorcidas, bateria mais direta, sax atravessando tudo e uma abertura maior para o humor. Não é um álbum que tenta substituir a versão primária, mas que também não se contenta em apenas reverenciá-la à distância. E no palco, a dobradinha entre os dois nomes faz muito sentido – como visto em (poucos) shows de divulgação que rolaram entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Na conversa a seguir com o Scream & Yell, o guitarrista e vocalista Cristiano Pereira conta como esse encontro foi se desenhando dos primeiros contatos ao palco, do palco ao estúdio, os desafios de rearranjar uma obra tão singular e como a Aminoácido encontrou seu próprio jeito de entrar (e sair) de um dos discos mais únicos da música brasileira. Será que vem mais shows dessa parceria por aí?
Pelo que pesquisei, a Aminoácido nasceu em Londrina em 2016. Olhando para trás, o que que você acha que daquela formação inicial ainda está muito presente na banda de hoje?
Os quatro integrantes principais da formação inicial. Eram duas guitarras, baixo e bateria. Isso está presente ainda. Teve uma época que a gente tocou com um percussionista, no segundo disco (“Sem Açúcar”, 2018). Depois que ele saiu apareceu o saxofonista mascarado. O discurso da banda vai mudando com o tempo: o primeiro disco (“Meticuloso”, 2017) é praticamente todo instrumental. A partir dele, o processo de composição foi se alimentando das coisas que a gente vivia e pensávamos no que seria legal de fazer com isso. Somos exploradores de campo vindos do planeta Kepler, que é igual a terra, mas um pouquinho diferente.
A formação atual está como?
Eu (Cristiano) e o Thiago fazemos guitarra e voz, Lugue no baixo, Douglas na bateria, Fábio no saxofone (tenor e barítono) e Clara na voz. A Clara se aglutinou recentemente na formação do Aminoácido, apesar de participar do nosso universo desde que chegamos. Ela gravou vozes no segundo disco, mas até então não fazia um show inteiro com a gente. Nesse projeto de tocar o “Clara Crocodilo” com o Arrigo, ela entrou com tudo.
O que você acha que a participação da Clara abriu de possibilidades pra banda?
A voz dela abre muitas possibilidades, porque ela consegue incorporar no palco como uma personagem. A voz dela tem um alcance muito foda e ela não tem essa limitação de tocar um instrumento enquanto canta. Então, dá para ir longe nos arranjos vocais, diálogos, explorar mais o texto.

Como é o processo de composição hoje? Parte de alguém específico ou nasce em grupo?
Tem uma coisa que eu valorizo muito na banda que é a vivência que acumulamos durante esses, sei lá, quase 10 anos. Durante um bom tempo, a gente conseguiu encaixar uma rotina semanal e fazíamos os ensaios religiosamente. Foi sempre no estúdio Tapete Voador, do Thiago, onde dava pra ensaiar e gravar.
Com o tempo a gente foi se conhecendo melhor e começando a pensar cada vez mais sincronizado. A gente construiu isso de trocar referências, conversar sobre os assuntos e levar tudo pra composição. Temos um campo estético amplo e isso fez com que a gente começasse a escrever separado também. Sempre fomos bem abertos. Tanto que o trabalho anterior ao “AminoArrigo” foi o “Homem Tactel”, um EP e documentário sonoro que teve patrocínio do PROMIC (Programa municipal de incentivo a cultura) aqui em Londrina. O Thiago produziu esse documentário sonoro e escreveu as cinco músicas. Como era durante a pandemia, ele acabou definindo quase tudo na partitura. Então foi um processo mais individual de composição. Acabamos compondo de várias formas diferentes.
Inclusive, a gente deu uma oficina de composição no Sesc Cadeião aqui em Londrina, em que fizemos uma proposta de composição a partir de desenhos: “Vamos tentar imaginar o efeito que queremos alcançar na música em termos mais figurativos? O que seria uma música polvilhada? E uma música úmida?”. Saíram disso algumas partituras visuais, que depois usamos para fazer uma improvisação guiada.
“Meticuloso”, “Sem Açúcar”, “Banda Morre”, tanto os títulos das músicas quanto dos discos por si só desenham algo meio conceitual. Existe uma linha narrativa entre os discos ou são obras separadas?
A gente tem um um patrono, uma referência máxima, que é o Frank Zappa. Ele produziu muito e até o seu público constrói e alimenta acervos de entrevistas e coisas transcritas dele. Lendo entrevistas dá pra identificar as ideias fortes dele. Uma coisa que ele falou em momentos diferentes da vida e está presente na obra é a “continuidade conceitual”. Ele argumenta que toda a obra dele estava relacionada de alguma forma. Você vai ouvir e as coisas não necessariamente se conectam, mas ele tinha esse ponto de que a linha do tempo da vida dele é uma obra. Não que seja exatamente assim com o Aminoácido, porque eu acho que o Zappa levou isso muito a cabo. Ele inclusive considerava que as entrevistas, aparições públicas, faziam parte da obra. Mas, pensar sobre isso traz ideias interessantes sobre onde começa e onde termina a autoria.
Uma forma de compor é ter o resultado final em mente e dar um jeito de chegar nele. Uma outra é ter um jeito de fazer em mente e ver o que ele produz de resultado e o que dá pra ser feito com ele. Eu acho que o Aminoácido tá mais nisso de construir no processo e não controlar diretamente o resultado. A gente lançou o “Meticuloso”, um ano depois o “Sem Açúcar”, que continua o primeiro, mas também se separa. No terceiro ano a gente construiu uma linha que conecta os dois e disso surgiu o “Goya” [2019], o nosso disco duplo que une os dois primeiros em um artefato ancestral interplanetário.
Não cheguei a ouvir esse outro EP que saiu depois do “Banda Morre”.
Esse é o “Homem Tactel”. É muito massa, quase todo instrumental. O Thiago trouxe esse personagem e começamos a conversar sobre ele enquanto ele escrevia as músicas. A proposta era fazer um rádio documentário, e essas músicas entraram para compor a trilha. O Homem Tactel aparece no final do “Banda Morre” (2021), na música “Tem pessoas que não sabem conversar”. Recomendo a escuta desse documentário para os interessados em informações sigilosas e conspiratórias sobre o Universo Aminoácido. Tem no nosso canal.
Queria saber como foi o primeiro contato de vocês com o Arrigo Barnabé. A ideia inicial era um show comemorativo dos 40 anos do “Clara Crocodilo”. Em que momento mudou de ser apenas um show e virou uma colaboração entre vocês?
A gente tentou contato com o Arrigo uns anos atrás, no Psicodália, já conhecíamos ele e a Patife Band também. São dois expoentes aqui de Londrina que gostamos muito. A gente até chegou a tocar uma música da Patife Band uma época. O Arrigo acabou ouvindo falar da gente algumas vezes que veio pra Londrina, mas não nos conhecíamos pessoalmente.
Foi quando a Janete El Haouli, produtora cultural, propôs ao Arrigo comemorar os 40 anos do “Clara Crocodilo” na “Semana Arrigo Barnabé” aqui no Teatro Ouro Verde que fomos convidados pelo Arrigo para ser sua banda no show. Já conhecendo o nosso som, ele sugeriu fazer o show com a gente. Foi uma ideia dele. A gente topou na hora e ele mandou as partituras de um outro arranjo que ele já tinha escrito.
Apesar de “Clara Crocodilo” ser muito rock and roll, os arranjos tem mais sopros e instrumentos menos distorcidos. No nosso caso, o desafio foi arranjar esse material para duas guitarras, piano e saxofones. Então a gente pegou essas partituras para orquestra que o Arrigo mandou e foi destrinchando os blocos e módulos, passando pela personalidade da banda e pelo viés estético. O Arrigo deu total liberdade pra gente, e nós levamos ele pro universo Aminoácido. É interessante porque é uma reverência ao Arrigo, mas também uma tentativa de tradução. Às vezes para você traduzir um negócio você tem que trocar as palavras, né? Então, pra transmitir a ideia do Arrigo através da linguagem do Aminoácido, tivemos que modificar as músicas. Foi lindo ele topar isso, e ele mesmo sugeriu o nome “AminoArrigo”. O nome passa a ideia de uma parceria, de que não é só o Aminoácido tocando músicas do Arrigo, mas são as obras do Arrigo um pouquinho diferentes.
Qual foi o maior medo ao tentar reinterpretar essa obra?
Eu fiquei pensando mais nessa coisa das guitarras, do rock and roll mesmo. Fiquei pensando se ele ia curtir o som mais pesado, a batera alta, riffão. A gente não conhecia o Arrigo pessoalmente e o pessoal falava que ele era bem exigente. A gente gravou e mandou para ele. Não dava para saber, foi um risco mesmo. Para mim era mais a questão do Aminoácido manter essa coisa do humor, da comédia. O Arrigo também tem, só que eu acho que no “Clara” original é um pouco mais velado, um humor mais elegante. E a gente é um humor debochado. Então tinha esses riscos de perder a mão ou exagerar. Não acho que descaracterizou, mas deu uma outra cara.
Pode não ser o mesmo estilo de humor, mas quando vocês começam a tocar as músicas de vocês no meio do repertório do “Clara Crocodilo”, acaba encaixando e fazendo sentido. Pesquisando sobre o disco, li que vocês ficaram preparando o repertório por dois anos. Como foi esse processo?
Foi exatamente isso, mas foi mais por conta da pandemia. O evento original seria em 2020, mas teve lockdown. A gente foi para casa e ficamos naquele drama pesado. E aí em 2021 começou a surgir aquele “será que volta?”, não sei o quê. Se eu não me engano, do meio pro final de 2021 a gente começou a ensaiar de máscara, seguindo todos os protocolos. Então, de 2021 até o show em 2022, tivemos um ano de escrita e ensaio das partes. Começamos a ensaiar toda quinta, e esse trabalho semanal foi importante pra gente conseguir amadurecer o trabalho. Todas as composições são meticulosas.
Mas vocês não ensaiaram logo de cara com o Arrigo, certo? Vocês ensaiavam entre vocês e mandavam vídeos e áudios para ele?
Sim, a gente escreveu todas as partes, ensaiamos todas as músicas e fizemos uma pré- gravação ao vivo, seguindo o processo normal de criação que já fazíamos antes. A gente costumava gravar ensaios assim já há um tempo. Então mandamos pro Arrigo, ele ouviu e falou: “Pô, gostei, já dava até para gravar. Tá legal esse som”. Como já sabíamos a data do show, programamos tudo para a gravação do disco acontecer nesse meio tempo. Gravamos a base ao vivo e ele gravou piano e voz separados. Foi um movimento bem articulado que a gente conseguiu fazer de aproveitar que o cara tava aqui, já levar ele pro estúdio e em uma semana gravar tudo.

O disco foi pensado desde o início para ser lançado em vinil?
Sim! Não fazia muito sentido pra gente lançar esse disco de qualquer jeito, como apenas mais um lançamento digital. Tudo isso que aconteceu é muito importante pra gente. Esperamos dois anos para lançar porque queríamos fazer direitinho. Então sim, a ideia era lançar em vinil e conseguir organizar uma turnê dele.
O que representa para vocês lançar um LP em tiragem limitada num cenário tão ruim como a gente está, com streaming e playlists hoje em dia?
Bom, eu me tornei um consumidor de vinil. E eu sempre pensei que o Aminoácido deu certo, conseguiu crescer e ressoar com o público porque a gente também é público do nosso trabalho. E assim, eu gostaria de ter acesso a esse material registrado em algo físico. Então, lançar em vinil acho que é uma forma de fortalecer, de credibilizar o que foi feito. Todo mundo da banda curte bastante o vinil: o Thiago coleciona e agora o Douglas lá em Berlim tá garimpando também. É uma coisa em que, independente de tendências, a gente acredita e consome. Isso acaba fazendo mais sentido pra gente nesse cenário maior, porque se for pensar apenas em coisas que valem a pena do ponto de vista financeiro, você não faz nada. Tivemos o apoio da prefeitura de Londrina porque de fato é caro fazer vinil e não conseguiríamos tirar do bolso. Pragmaticamente tá bem foda [a situação com o streaming], mas a música existe desde sempre e por mais que mercadologicamente não esteja fazendo sentido, as pessoas ainda vão escutar música e o vinil ainda é essa mídia que guarda uma certa materialidade. Então é mais uma coisa de se apegar a um marco do que seguir um caminho do mercado mesmo.
Vocês tinham feito 300 cópias em vinil, certo? Você tem ideia de como é que está a venda dele, se vocês já venderam metade, algo do tipo?
Cara, a gente já tá na metade do estoque sim. Esses últimos shows em São Paulo nos ajudaram bastante a vender. Aqui em Londrina a gente vendeu legal também. Tem como comprar em uma loja física aqui da Vermelho Discos e dá para comprar pelo site deles também.

Vocês pensam em fazer mais apresentações do “AminoArrigo”?
Com certeza! O que sinceramente dificulta um pouco é que quatro integrantes da banda estão morando em Berlim e isso demanda mais planejamento. Estamos tentando produzir mais datas para esse ano, tanto no Brasil quanto fora.
Como é que está funcionando a dinâmica da banda agora? Você falou que tem quatro pessoas da banda que estão morando em Berlim. Como essa geografia fragmentada impacta a criação e logística do grupo?
Por enquanto estamos abrindo mão de tocar junto, o que abre espaço para outras vivências individuais. Todos estão amadurecendo, inclusive musicalmente, com essa experiência. Isso já faz diferença nas nossas conversas e no próprio som. Nós construímos um entrosamento de banda muito forte, e tocando juntos recentemente deu pra ter certeza de que ela tá bem firme. Temos um universo enorme em aberto para explorar, muitas ideias que a gente não lançou ainda, textos, coisas que dá pra continuar produzindo à distância. O que eu sinto é que esse disco com o Arrigo a gente fez com muito esmero, então o próximo lançamento vai ter ainda mais intenção. O fato da gente estar separado não compromete fazermos turnês, e acredito que esse período vai trazer coisas diferentes pro grupo.
Sobre Londrina, como vocês veem a cena local hoje em dia?
Londrina é uma cidade que tem fases, né? Tem pessoas muito fodas desde sempre: aqui acontece o Festival de Música de Londrina há pelo menos 30 anos e era um dos maiores festivais de música do Brasil, o que trouxe muita gente foda para cá. O Hermeto, Tom Zé, uma galera sinistra já passou por aqui. Por mais que não tenha muita infraestrutura, Londrina é muito viva culturalmente. Ter uma faculdade enriquece também, sendo ainda um reduto de pesquisa e socialização. Eu tô no segundo ano de música na UEL e dá para ver que a discussão sobre cultura e sociedade é muito avançada. Mas, Londrina não tem uma musculatura tão boa assim de bancar projetos. O que acaba acontecendo sempre são investimentos pessoais e acaba tendo fases por isso, porque surge essa vontade, esse tesão, junta uma galera e faz o negócio acontecer por conta própria. Nós começamos num momento assim. Acho que isso acontece em todo lugar e em Londrina não é diferente. É uma cidade que que tá tentando crescer e tem muita gente foda trabalhando aqui, então é uma pena que às vezes falte fôlego para seguir.
Depois de um disco tão ancorado em uma obra clássica como “Clara Crocodilo”, o que vem a seguir? Dá vontade de radicalizar ainda mais ou voltar para algo mais simples, mais voltado pro Aminoácido?
Olha, as últimas conversas que a gente teve vão para uma coisa mais distópica. Eu acredito que o caminho seja matar o “Banda Morre”. Eu acho que a tendência é continuar acidificando ali, fermentando aquilo. A gente veio de outro planeta e a questão é justamente coletar o que está acontecendo aqui na Terra e processar isso. Com certeza os temas devem tratar de inteligência artificial, relações parassociais, gadgets. O que nunca vai faltar são coisas estranhas acontecendo.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

