Em noite sold out, Mac DeMarco mostra em São Paulo a saída que Kurt Cobain não teve

texto de Alexandre Lopes
fotos de Fernando Yokota

Na segunda noite esgotada na Audio, em 5 de abril de 2026 (de uma turnê brasileira praticamente toda ela sold out produzida pela Balaclava Records), Mac DeMarco reafirmou sua relação quase afetiva com o público paulistano – uma mistura de culto, piadas internas e catarse coletiva que poucos artistas contemporâneos sustentam com tanta naturalidade e sem artifícios.

A passagem por São Paulo faz parte de uma turnê de nove datas no país – Brasília, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e São Paulo. Na capital paulista, duas noites lotadas reuniram cerca de seis mil pessoas no total, consolidando um vínculo que foi construído com sua primeira apresentação por aqui em 2014.

Desde o início da carreira solo, DeMarco operou como uma espécie de elo tardio entre o indie lo-fi e uma linhagem de figuras excêntricas como R. Stevie Moore e Ariel Pink. Seu “slacker rock”, “blue wave”, ou ainda o autodenominado “jizz jazz” nunca foi apenas um estilo musical, mas um equilíbrio entre um balanço preguiçoso e uma nostalgia difusa que já dava as caras e agora marca o pop contemporâneo.

Mas muita coisa mudou desde sua última passagem pelo Brasil, no Lollapalooza 2018. Sóbrio desde 2020 e cada vez mais buscando um caminho longe dos excessos que antes faziam parte de sua estética, Mac se retirou de grandes cidades norte-americanas como Nova York e Los Angeles para ter uma vida mais silenciosa no interior do Canadá. E suas canções também seguiram esse reflexo, assumindo uma sonoridade cada vez mais calma e minimalista em seu disco recente – “Guitar”, de 2025. Mas será que essa sua nova faceta bem mais pacata seria bem recebida por aqui?

DeMarco subiu ao palco às 21h10 acompanhado por Alec Meen (teclados), Daryl Johns (baixo), Phillippe Melanson (bateria) e do guitarrista brasileiro Pedro Martins (que abriu a noite com um set solo enxuto e elegante, marcado por uma MPB jazzy quase progressiva). “Obrigado por vir ao nosso show hoje”, disse ele, humildão. Mas desde os primeiros acordes de “Shining” e “For the First Time”, o coro da plateia foi imediato e se repetiria ao longo de toda a apresentação.

“Marquinhos” (como os fãs carinhosamente se referiram a ele diversas vezes durante a noite) apresentou-se de forma mais focada em cantar do que tocar sua guitarra Silvertone 1448, mas ainda apoiado em humor nonsense e sua presença de palco desajeitada. Se antes o canadense encarnava o slacker embriagado com um cigarro permanente na boca, agora ele assumia a figura curiosa do “crooner de meia-idade”, como ele próprio ironiza.

Felizmente, abandonar os excessos não diluiu seu carisma. Sim, ele ainda é um carinha simples e desengonçado no palco, que parece não ligar muito de usar boné e headphones tortos em apenas uma das orelhas e uma calça que mais parecia parte de um uniforme de eletricista. Mas DeMarco conduziu o show com a simplicidade de um frontman que estabelecia uma relação direta com o público, com momentos mais vulneráveis e menos blindado pela atitude cool que marcou sua fase inicial.

E o público devolvia com grande engajamento ao longo do repertório. No show, “Salad Days” e “On The Level” viraram hinos cantados a plenos pulmões por uma plateia que ria, gritava e se deixava levar pelo momento. E o próprio Mac parecia olhar pra isso com orgulho, como se capitaneasse um karaokê de suas próprias canções.

Ao vivo, as faixas de “Guitar” ganham corpo sem perder a intimidade. “Home” e “Holy” soam mais abertas e menos introspectivas do que nas versões de estúdio. Mas a performance ainda preservava algo do espírito zombeteiro que o consagrou. Em “Rock and Roll”, DeMarco tremulou uma bandeira do Brasil jogada ao palco, enrolando o pano no baixista e depois colocando em cima dos amplificadores. Em “Another One”, plantou uma bananeira. Em outro momento, dançou com o baixista antes de subir em suas costas.

Entretanto, talvez o momento mais emblemático sobre o contraste entre o velho e o novo DeMarco foi em “Ode to Viceroy”; originalmente um retrato totalmente romantizado do hábito de fumar cigarros, a canção ganhou novas implicações diante de um artista que abandonou esse vício. Mas alguns fãs ainda se apegam a essa imagem e acenderam cigarros na plateia, como se tentassem homenagear de forma banal um passado que seu autor já deixou para trás. Mas para ele, não há mais sentido na estrofe “vou te fumar até morrer”.

As faixas mais antigas funcionaram como gatilhos imediatos para o canto em uníssono.“Freaking Out the Neighborhood”, foi impulsionada por uma contagem junto do público e recebida com grande festa. “Moonlight on the River” ganhou um momento bonito com fãs emocionados. “Chamber of Reflection” veio mais acelerada e celebratória e foi tocada como um falso encerramento do show.

Com a camisa desabotoada e guitarra em mãos, Mac iniciou o bis, com “My Kind of Woman”, que selou a noite com um coro absoluto da plateia. O vocalista parecia menos um ídolo distante e mais um velho amigo agradecendo aos companheiros por terem passado em sua casa.

O que fica é um artista que se afastou um pouco da caricatura que o tornou famoso em memes, mas que ainda entende perfeitamente o que seu público busca: canções bonitas e uma conexão intensa com o intérprete no palco, ainda que entre uma piada e outra. Mac DeMarco amadureceu, mas sabe que crescer não significa necessariamente abandonar quem você foi, mas aprender a conviver com essa versão anterior de si mesmo – principalmente diante de milhares de pessoas que ainda amam essa versão. E há algo de generoso na forma como ele conduz esse encontro. E, naquela noite na Audio, isso foi mais do que suficiente.

É difícil não imaginar que, em algum universo alternativo menos cruel, Kurt Cobain (que faleceu na mesma data do show, 32 anos antes) talvez se sentiria realizado se tivesse seguido uma direção semelhante à de DeMarco. Depois de estourar com o Nirvana, Cobain se viu preso na armadilha de se tornar símbolo e porta-voz involuntário de uma geração. O sucesso impunha uma tensão quase irreconciliável entre sua integridade artística e exposição midiática.

Décadas depois, DeMarco parece ter encontrado uma forma de afrouxar essas engrenagens: reconfigura sua persona, desacelera para reduzir excessos e segue cada vez mais em seus próprios termos e ritmo. No fim, ao conduzir uma casa lotada com leveza e visivelmente se divertir com isso, fica a sensação de que ele sabe exatamente o que está fazendo. E que é possível existir na música sem ser totalmente consumido por ela.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *