texto de Fabio Machado
fotos de Daniel Agapito
Não é uma tarefa fácil estrear um festival de música em plena sexta-feira da Paixão em São Paulo. Ainda mais um festival cuja curadoria é especialmente voltada para artistas e estilos não-convencionais. Mas a primeira edição do No Hope Fest, realizada na Casa Rockambole (SP), provou que não falta interesse ou disposição do público para aproveitar o feriado com uma maratona de shows que começou cedo, por volta das 18h, e terminou pontualmente às 23h.

Segundo João Kombi (Test), um dos idealizadores do evento, em postagem no Instagram, a ideia foi tomando forma durante as No Hope Tours – turnês feitas em conjunto com o Deafkids, que além de shows memoráveis no Brasil também alcançaram o exterior – com a intenção de expandir o nome que caracteriza a união das duas bandas. Portanto, além da turnê e do disco “Sem Esperanças” (lançado em 2025), agora temos o No Hope Fest. E além do combo Deaftest/TestKids como atração principal, houve uma preocupação em incluir outras propostas de som que talvez tenham como ponto em comum uma posição à margem do mainstream, ainda que buscando estéticas diferentes entre si.

A primeira atração do festival começou no coreto localizado na área externa da Casa Rockambole, com o sound designer Felinto explorando sintetizadores e sons eletrônicos acompanhado do percussionista martinicano Boris Percus, em uma jam session que aproveitava ao máximo as polirritmias e grooves nascidos da música afro-diaspórica. A essa altura, o público ainda estava chegando, mas começava a curtir – ainda que de forma tímida – o mix entre eletrônico e analógico que ainda teve participação de Mariano Sarine (Deafkids) fazendo percussões adicionais, e de certa forma serviu como uma espécie de espelho do que rolaria mais à frente no festival.

Ao final do set, Felinto agradeceu e conclamou os presentes a participar ativamente do evento e comprar o merch disponível para apoiar os artistas. Afinal, sempre é interessante reforçar as dificuldades que envolvem aqueles que estão todo dia fazendo o corre nas cenas subterrâneas Brasil afora. Falando em merch, o espaço externo também foi aproveitado de forma a incluir um corredor com diversos itens das bandas, como discos, fitas K7, camisetas e bonés, além de patches e bottons criados por expositores independentes. No geral, a Casa Rockambole se mostrou um bom espaço para a proposta, pela variedade de palcos disponíveis, banheiros com fácil acesso e área livre de sobra para circulação.

Além do coreto, foram utilizados outros dois espaços da casa: a “pistinha” (uma sala mais intimista com palco e PA) e o teatro que já é velho conhecido de quem frequenta shows na capital desde os tempos do Centro Cultural Rio Verde. Após a atração do coreto, a pistinha foi rapidamente ocupada para receber as bandas Vermenoise e Cerne, que fizeram uma apresentação em conjunto avassaladora e ensurdecedora. Começaram em um ritmo lento e progressivamente pesado, com ecos de drone e noise reverberando e crescendo em um caos generalizado (no melhor dos sentidos). Em uma cena onde o metal às vezes é demasiadamente polido e produzido, é bom ver bandas que ainda injetam uma bem-vinda dose de sujeira e gordura na coisa toda. Foram a surpresa da noite.

Na sequência, o teatro ia sendo ocupado aos poucos para conferir a performance do duo Rádio Diáspora, aqui acompanhados por Paola Ribeiro na voz. Ou melhor, vozes. Paola se mostra uma adição muito bem vinda e integra cantos, sussurros, gritos e onomatopéias ao improviso promovido por Rômulo Alexis (trompete) e Wagner Ramos (bateria, samplers). É uma tentação simplesmente chamar tudo de “jazz”, até mesmo pelo trompete de Rômulo Alexis ditando as melodias; mas o que acontece ali é música sem rótulos, com forte conexão ao legado do continente africano espalhado pelo mundo. Visualmente, também foi uma performance bonita de ver, que começou com o salão numa quase penumbra, exceto por algumas luzes verdes sendo refletidas na parede e outras que piscavam, em contraste com as notas que surgiam da conversa espontânea entre Rômulo, Wagner e Paola.

Se o choque entre metal e improvisação livre já não era suficiente para os presentes, a pistinha reservava mais uma surpresa com o set da DJ Kenya20hz, que botou todo mundo – metaleiros, punks e alternativos em geral – para dançar sem concessões com um set marcado pelo peso e pelos graves, inclusive com alguns drones e momentos mais minimalistas. Ou seja: apesar do contraste em termos estéticos, no fundo não era tão diferente dos outros artistas do evento. Outra boa surpresa, que foi legal de assistir no palco menor, mas que talvez tivesse o arsenal sônico melhor aproveitado na infraestrutura do teatro.

Mas o teatro já estava sendo preparado para receber o norueguês Sturle Dagsland. Acompanhado pelo multi-instrumentista Sjur (cujo visual o faz parecer uma versão dos Balcãs de Anton Newcombe, do The Brian Jonestown Massacre), Sturle também faz um som inclassificável, que combina vozes angelicais e operísticas com alguns momentos mais aventureiros – às vezes, sua vez parece com um gnomo de desenho animado (não é uma crítica, veja bem). Tudo isso acontece em meio aos drones e efeitos criados por Sjur, criando uma aura ritualística e intrigante. Uma estranheza que, após algum tempo, consegue ser até cativante.

A programação continuou de volta para a pistinha com uma performance intensa da Naimaculada. Ricardo Paes (voz), Luís Viegas (baixo), Samuel Xavier (guitarra), Pietro Benedan (bateria) vieram acompanhados de Dudinha Freitas (guitarra) e Sol (voz), estrearam uma música nova que terá um feat de Kiko Dinucci e mostraram um peso até então inédito, pelo menos para quem só os conhece pelo disco “A Cor Mais Próxima do Cinza”. Mas mais do que o peso, foi bonito ver a performance e a alegria presentes da banda, obviamente curtindo cada momento ali. Um salve extra para Ricardo Paes, que além da voz e da presença no palco, ainda consegue criar passos de dança durante os momentos instrumentais mais progressivos da banda, na melhor escola At the Drive-in de caos controlado.

À medida que a apresentação do Test/Deafkids se aproximava, o número de pessoas presentes na Casa Rockambole também crescia. Uma pequena aglomeração se formava com as portas do teatro ainda fechadas enquanto acertavam os últimos detalhes no palco. Quando o público enfim entrou, encontrou um palco com duas baterias, pilotadas respectivamente por Sarine (Deafkids) e Barata (Test). Douglas Leal (guitarra/voz) se posicionava junto a Barata, enquanto João Kombi (Test) estava no lado oposto com Sarine, como se fosse uma espécie de inversão das respectivas duplas.

Mas o que importa é que o som já estava rolando, com as características que todos aguardavam: foco nos ritmos circulares criados por Sarine e Barata – ora tocando em sincronia, ora conduzindo sozinhos seus instrumentos – acompanhados dos vocais e guitarras de Douglas e João, que se preocupam menos com riffs e mais em criar texturas que se somam ao todo (Douglas também contribui adicionando percussão e programações de synth na massa sonora).

Não demorou muito para todo o teatro entrar em sincronia com as batidas coletivas, num set que revisita e expande os temas criados no disco “Sem Esperanças”. Em dado momento, Douglas e João largam as guitarras e se revezam nos vocais, enquanto Barata e Sarine fazem uma espécie de drum n’ bass analógico anabolizado…ou industrial tropical? A essa altura, palavras e tentativas de definição são desnecessárias.

Mais do que ficar apontando um ou outro integrante, o melhor da DeafTest é justamente passar longe da racionalização e apreciar o resultado criado pela soma dos integrantes naquele momento. E apreciar também o reflexo disso no público, que a essa altura está mais preocupado em dançar, balançando ou não a cabeça até o final da noite.Olhando para essa primeira edição como um todo, talvez o elemento em comum entre os artistas selecionados seja esse: a forma como conseguem impactar e arrancar reações que vão da dança ininterrupta ao olhar incrédulo, tentando entender o que está se passando. Que essa inquietude continue dando a direção das próximas edições do No Hope Fest.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

