Selo Scream & Yell: “Conexão Latina” (baixe o álbum!)

por Leonardo Vinhas

Em 12 de novembro de 2011, a coluna Conexão Latina fez sua estreia no Scream & Yell, trazendo uma entrevista com a banda argentina Onda Vaga. É 12 de dezembro de 2018 quando escrevo essas linhas, e com o perdão do clichê, se passaram muito mais que sete anos. Não me entenda mal: sete anos são muita coisa por si só. O país, eu, você, todos nos transformamos muito – e não cabe aqui avaliar se para pior ou melhor. Mas o fato é que os caminhos abertos por essa coluna se desdobraram de maneiras que ninguém poderia prever. Especialmente eu.

Obviamente, eu queria que a coluna não fosse apenas fogo de palha. Porém, jamais imaginei que duraria sete anos, que me levaria para festivais no Brasil e fora dele, que me colocasse em condições de ter conversas francas e jornalísticas com artistas cujo trabalho admiro, que abriria a porta para eu produzir discos e até mesmo ser co-organizador de um festival – justamente o Conexão Latina (que aconteceu entre 9 e 11 de novembro de 2018 em São Paulo), e contou em seu lineup com, entre outros, artistas entrevistados por essa coluna: Edu Schmidt (Argentina), Nicolás Molina (Uruguai) e Yangos (Brasil).

Três discos do selo Scream & Yell foram frutos diretos do trabalho dessa coluna: “Somos Todos Latinos”, “Brasil También Es Latino” e “Caleidoscópio: Um Tributo Ibero-Americano aos Paralamas do Sucesso”. Outros discos que produzi para o selo também tiveram uma relação tangencial com a coluna: “Ainda Há Coração”, “Sem Palavras” e “Um Grito que se Espalha”.

Sempre digo que a música colocou pouca comida no meu prato, mas me deu todo o resto que me alimenta. E as conexões que se fizeram com esse universo latino-americano tem alimentado os últimos sete anos da minha vida.

No começo de 2018, pedi a alguns artistas entrevistados pela coluna que cedessem uma faixa para um disco celebratório do aniversário da Conexão Latina. Para minha surpresa – como costuma ser nessa jornada – não só toparam, como a o lineup inicial cresceu. Entraram também artistas iniciantes – “apostas”, digamos assim – do mesmo modo que alguns que encerraram atividades contribuíram com faixas póstumas. E houve os que se conectaram diretamente, com várias canções feitas em parcerias entre dois ou mais artistas. No fim, só parou em 16 faixas (17 na versão exclusiva para download) porque eu pus um freio. Mas haveria material para mim, muito mais.

Agradeço a enorme generosidade dos artistas que participaram, que confiaram nessa coluna e que toparam entrar nessa festa em forma de disco. Porque, no fim, a música ainda é o que nos move a todos, mesmo que dela não tiremos nosso sustento.

Viver é um troço complicado. É bom, sim, mas tem vezes que é pesado, difícil e sem sentido. Quando a gente não consegue deixar leve nem fácil, só resta, então, inventar o sentido. E essa “Conexão Latina”, coluna e conceito, são parte do meu sentido hoje. Não faço ideia do que vai vir pela frente, desconheço os comos e quandos. Mas sei que ela continua, e tomo a liberdade de dizer que a vejo ainda mais importante agora, em tempos de fortalecimento de fronteiras, regressão cultural e obscurantismo voluntário.

Obrigado a você também, por ter lido, compartilhado e divulgado a coluna, e por estar aqui ouvindo esse disco. Principalmente por isso. Porque, como acabei de dizer, a música é o mais importante, sempre.

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Por Marcelo Costa, editor do Scream & Yell

Leo data o surgimento da coluna Conexão Latina para novembro de 2011 porque foi quando demos conta de que havia um grande material publicado e que muito haveria por vir, dai decidimos criar um ponto de convergência para esse vasto conteúdo, mas a Conexão Latina, como ideia, nasceu muito, muito tempo antes. Por exemplo: para se ter uma pequena ideia do que é fazer rock na Argentina hoje é preciso saber do fatídico 30-D, e Leo contou tudo sobre o trágico episódio num texto no Scream & Yell em março de… 2006. Um mês antes ele havia escrito sobre “Testosterona“, do Bersuit Vergarabat. Depois viriam textos sobre o Babasônicos, Callejeros, uma entrevista com o Arbol, uma pensata sobre o então “novo rock argentino”, a cobertura do Cosquin Rock 2008, Mimi Maura, Lache e Lucila Cueva, Fabulosos Cadillacs… Se é pra ser justo, a Conexão Latina têm 12 anos!

O surgimento da Conexão Latina como coluna em 2011, porém, casa com a aproximação do site com Portugal através das entrevistas oportunas de Pedro Salgado (reunidas aqui), que abriram uma clareira importante na cobertura da nova música tuga no país. E esses dois canais praticamente definem grandes focos do Scream & Yell na segunda década do novo século: ser menos babão com o rock anglo saxão ao mesmo tempo em que se valorizava quem está mais próximo de nós (seja territorialmente, seja linguisticamente), mas tanto não tinha o poder da indústria a seu favor quanto sofria de um preconceito inexplicável (mas que, nestes sete anos, veio diminuindo consideravelmente), que mais nos afastava de nossos vizinhos do que aproximava. Certa vez Belchior cantou nos anos 70 que era “apenas um rapaz latino-americano”, mas essa sensação de ser latino parece ter nos abandonado enquanto brasileiros nas décadas seguintes. Aqui tentamos recupera-la porque somos todos latinos (e, a grande maioria de nós, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes).

O trabalho que Leonardo Vinhas vem construindo com a Conexão Latina é o mesmo trabalho de formiga que realizamos no Scream & Yell desde 1996 ao falar de uma banda, de um livro, de um filme, de uma história em quadrinhos, de um show, que é o de provocar o leitor e faze-lo, de alguma maneira, pensar. Cutuca-lo e acorda-lo desse universo zumbi em que confortavelmente todos vivem (e morrem) para que a arte, de alguma forma, o conecte com o mundo. Por isso, Conexão Latina sempre foi um bom nome, porque é isso mesmo que essa coluna busca: Conexão! Latina! Nos atentarmos ao som, à música, à melodia e, com isso, nos atiçar a atravessar fronteiras e provar pratos, conhecer pessoas, culturas, sotaques e, quem sabe, ampliar o portunhol como uma terceira língua do continente (seguindo uma provocação do argentino Kevin Johansen em entrevista no Scream & Yell em 2017) – risos. E o ponto inicial de tudo isso é a música! Por isso, baixe a guarda um poquito para clicar neste link e, diante do acervo de matérias da coluna Conexão Latina, correr o risco de se apaixonar por algum artista já entrevistado / resenhado pelo Leo Vinhas. Ou então dê play (ou faça o download) logo abaixo no 16º lançamento oficial do Selo Scream & Yell. Estamos juntos.

DOWNLOAD GRATUITObaixe “CONEXÃO LATINA” em MP3 320 via Mediafire aqui
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A faixa “A Chama”, Las Diferencias feat. Lara Rossato, é exclusiva para audição em streaming ou download em MP3 (não está disponível no Soundcloud). A faixa “Amanecerá”, de Nevilton, é exclusiva para download em MP3 e audição apenas no Soundcloud.

Faixa a faixa, por Leonardo Vinhas

01) “Cuando Empezé”, The Broken Toys. Depois de uma atribulada turnê pelo Brasil, a banda argentina The Broken Toys encerrou suas atividades. Deixaram saudades, e também algumas canções que não couberam no último álbum, “Sobre Tu Cadaver”, “porque eram alegres ou luminosas demais, e não estavam no espírito do disco”, como explicou o vocalista Santiago “McFly” Vivas. O próprio McFly me mostrou essas faixas e me coube a dura decisão de ter que escolher uma só para o disco. Que as outras não tardem em chegar aos fãs.

02) “Redemption”, Buenos Muchachos. Os Buenos Muchachos aproveitam o pequeno estúdio que montaram na casa do guitarrista Marcelo Fernández para ensaiar e gravar muito material. Sobras não lhes faltam, entre canções inéditas, jams e covers. “Redemption” estava sendo trabalhada para entrar no disco sem título, mais conhecido como #8, mas foi deixada de lado por apontar em uma direção diferente à do álbum. Foi recuperada e finalizada para este disco.

03) “Marinero de Luces”, Nicolás Molina. O uruguaio, que esteve à frente da banda Molina y Los Cósmicos, está preparando seu primeiro álbum solo, e a reportagem teve acesso a algumas demos e faixas. Quando pedi uma delas (“Que Pasó”), o filho mais famoso de Castillos respondeu: “que nada, vou fazer uma nova pro disco”. E assim nasceu essa versão da canção gravada por Isabel Pantoja, cantora romântica e popular desprezada pela intelligentsia uruguaia. A gravação conta com a participação de Hans Laguna, músico espanhol que costuma acompanhar Nacho Vegas.

04) “A Chama”, Las Diferencias feat. Lara Rossato. Desde a primeira vez que ouvi “La Llama”, faixa do álbum “Al Borde del Filo” (ou “Na Borda do Limite” em sua versão brasileira pela Monstro Discos), pensei que a canção renderia uma bela versão em português, com a gaúcha Lara Rossato fazendo a voz que em espanhol cabe a Nathalia Cabrera. Bastou apresentar Lara ao trio de Caseiros (região metropolitana de Buenos Aires) e o sonho começou a se tornar realidade. Eu e Lara fizemos a versão da letra pensando “em um amor em tempos de conflito” – não por acaso, rolava como “pano de fundo” da composição o caos social decorrente da greve dos caminhoneiros. Lara também orientou o guitarrista e vocalista Andrés Robledo quanto à sonoridade do português.

05) “Nuestras Mãos”, Ypu feat. Cesar Saez. Ypu é Ayla Gresta e Gustavo Halfeld, duo brasilense que foi gestado entre viagens pela Alemanha e Sudeste Asiático, e teve seu primeiro EP lançado neste ano. Uma de suas faixas, “Song to Let Go”, tinha uma versão com letra em português, que foi apresentada ao mexicano Cesar Saez (vocalista da banda californiana Wallburds e também artista solo), que junto com Ayla elaborou uns versos em castelhano e chegou a essa versão.

06) “El Ángel Azul”, La Hermana Menor. La Hermana Menor é uma das minhas bandas preferidas e “Canarios” (2011), um dos meus discos de cabeceira. As sessões para este álbum deixaram muitas faixas de fora, que a banda até disponibilizou por um tempo em seu site mas depois tirou do ar. “El Ángel Azul”, cover de Eduardo Darnachauns (uma espécie de Leonard Cohen charrua), era uma delas, e os uruguaios a trouxeram de volta, remasterizada para esse compilado. A banda promete retomar suas atividades em 2019.

07) “Laquemeaqueja”, Catalina Ávila. Multinstrumentista e compositora, a colombiana Catalina Ávila se equilibra entre o jazz e a canção colombiana. “Laquemeaqueja” foi composta e gravada especialmente para esse disco, e representa muito bem a união desses dois gêneros. Catalina tocou todos os instrumentos e também produziu a gravação.

08) “Terra do Mana”, Lila May feat. Bituin y Renata Espoz. Lila May é o nome que a produtora e musicista Mayra Rizzo escolheu para seu trabalho como cantautora, no qual explora a ligação percussiva entre as diferentes formas de canção latino-americanas. Para essa gravação, aproveitou a passagem da banda colombiana pelo Brasil e, junto com a chilena Renata Espoz (Resostenido), gravaram essa composição de ritmo forte e que é uma prévia do primeiro EP de Lila May, a ser lançado em 2019.

09) “El Circo Está en Remate”, El Zombie. Durante uma conversa informal no festival Paraíso do Rock 2018, perguntei a Guillermo Vega, vocalista e guitarrista do El Zombie, se eles teriam alguma faixa não lançada. “Temos três, e não sabemos o que vamos fazer com elas”, me respondeu. Não demorei muito a sugerir que o destino de uma delas fosse essa coletânea. Embora as três fossem boas, “El Circo Está en Remate” (gravada em 2013, com uma formação diferente da atual) trazia uma triste vigência, falando da depauperação de um país por seus governantes e a descrença nos sistemas políticos estabelecidos. Vega escreveu a canção pensando na Argentina (e estão aí os discursos dos infames ex´presidentes Jorge Videla e Carlos Menem para comprová-lo), mas bem que poderia ser o Brasil…

10) “El Triángulo de Las Bermudas”, Paul Higgs. Apesar do nome, Paul Edward Higgs é uruguaio, vive em Montevidéu, e grava canções ou com seu nome ou sob a alcunha de Algodón. Independentemente da assinatura, explora suas influências de indie e alt.country com letras de forte influência cronista. “El Trángulo de las Bermudas” é uma canção inédita, “feita há um tempão atrás” (palavras dele) e que traz o lado pop se sobrepondo às influências folk.

11) “Millión de Años ”, Victoria Brion. Pianista e tecladista, Victoria Brion passou pelo Brasil como parte da banda que acompanha a uruguaia Alfonsina. Victoria começou gravando versões mas vem trabalhando em seu repertório solista. “Millón de Años” é um começo mais do que promissor, por isso que foi requisitada para este álbum.

12) “Regresar (A Traves de la Noche)”, Valle de Muñecas. Faixa do álbum de estreia do quarteto portenho (“Días de Suerte”, 2006), ela foi registrada, junto com outras, em uma sessão ao vivo no estúdio MCL Records. Ficou engavetada até que eu instiguei Mariano Esain, líder da banda, a fuçar no baú. Finalmente mixada, a versão – mais enérgica que a já pulsante gravação original – enfim ganha a chance de chegar aos ouvidos do público.

13) “Debilidad”, Motorama. O Motorama é uma das grandes bandas de rockabilly do continente. Ou melhor, era. Ao abordar o baterista Luciano Esain (também do Valle de Muñecas e do Acorazado Potemkin) sobre a participação nesse disco, ele me contou que a banda… terminou? “Entrou em hiato indeterminado”? Seja como for, as atividades foram interrompidas, e “Debilidad” – gravada durante uma Locomotiva Session em Piracicaba (SP) – entra como um registro póstumo de uma banda que excursionou por quase todo a América do Sul e que se tornou querida por onde passou.

14) “Tiempo Perdido”, Juan Olmedillo. Atualmente residindo no México, Juan Olmedillo está entre os muitos venezuelanos que deixaram seu país por conta da crise econômica e social. Ele esteve anos à frente da banda punk Los Mentas (“toda repartida entre vários países hoje”, conta) e formou com Claudia Lizardo o duo La Pequeña Revancha. O tempo dedicado a esses projetos não impediu que ele compusesse temas solo, e em 2018 ele finalmente lançou seu álbum, o excelente “Ningún Lugar”. “Tiempo Perdido” é uma das canções desse período, mas acabou não sendo trabalhada para o disco. A versão que entra aqui, portanto, é a demo, com todos os instrumentos tocados por Juan.

15) “Martinica”, Finlandia. “Migrantes” é nome do vindouro disco do Finlandia, título que faz jus ao estilo de vida do duo formado pelo brasileiro Raphael Evangelista e pelo argentino Mauricio Candussi. A banda já excursionou por mais de 20 países, apresentando sua música que consegue unir o folclore europeu ao sul-americano com o auxílio da eletrônica. “Martinica” é uma sobra desse álbum, e traz uma referência celta que ainda não se havia escutado na banda.

16) “Duerme”, Andrés Correa. Um dos mais criativos cantautores da Colômbia, Andrés Correa tem sete álbuns, nos quais alterna arranjos acústicos a outros mais expansivos, sem jamais perder o caráter intimista de suas composições. “Duerme” é uma faixa inédita, registrada cruamente em sua casa apenas com voz e violão, e mixada e masterizada por Gustavo Halfeld para essa coletânea.

17) “Amanecerá”, Nevilton. (Faixa exclusiva do download). Além de ser fã do rock em espanhol (em qualquer idioma, na verdade), Nevilton trabalhava versões de suas canções no idioma de Luis Alberto Spinetta. Algumas delas viraram lados B de singles do seu último disco, “Adiante” (2017). É o caso de “Amanecerá”, versão para “Amarela” que foi gravada originalmente com a participação de Cesar Saez (o mesmo que aqui colabora com a Ypu, e com quem Nevilton já havia gravado uma versão para “Ela Disse Adeus”, dos Paralamas do Sucesso). Agora vivendo em Roma (Itália), o paranaense de Umuarama remixou a faixa e regravou os vocais, entregando uma versão exclusiva para se tornar a faixa exclusiva do download Scream & Yell.

 O álbum “Conexão Latina é o 16º lançamento oficial do Selo Scream & Yell. Os anteriores foram o single “A Comida”, d’Os Cleggs; “Um Grito Que Se Espalha – Tributo a Walter Franco”, “As Lembranças São Escolhas”, que comemora 30 anos de música e jornalismo de Dary Jr (Lorena Foi Embora, Terminal Guadalupe, Rosablanca e Dario Julio & Os Franciscanos), “Dois Lados”, um tributo ao Skank, e, ainda, “Sem Palavras”, apenas com bandas instrumentais, em abril de 2017 (baixe aqui). Conheça também “Faixa Seis” e “Brasil Tambien És Latino” (artistas latinos gravando canções brasileiras), “Ainda Há Coração” (em tributo a Alceu Valença), “Caleidoscópio” (em homenagem aos Paralamas do Sucesso), “Temperança” (Um Manifesto Contra o Ódio), “Ainda Somos os Mesmos” (em homenagem ao Belchior), “Espelho Retrovisor” (Engenheiros do Hawaii), “Mil Tom” (a Milton Nascimento), “Projeto Visto” (uma troca musical entre brasileiros e portugueses) e “Somos Todos Latinos” (com 16 artistas independentes brasileiros regravando temas pop e rock dos países de idioma espanhol).  O site já havia lançado anteriormente álbuns de Antonio NovaesGiancarlo RufattoLeonardo MarquesMarcelo PerdidoNatália MatosTransmissorOs Lacraus e Walverdes.

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