Três perguntas: Rodrigo “Garras” de Andrade (Selo180)

por Marcelo Costa

Entrevistados como Rodrigo de Andrade, o Garras, do Selo180, são o sonho de todo jornalista: “Eu me empolgo e escrevo bastante”, comentou ele na resposta do e-mail com as três perguntas abaixo (a entrevista que fizemos em 2016 também é excelente). E o “excesso” dele não tem nada de… excesso. Garras vai abrindo o coração de apaixonado por música e, neste caso, contando, em detalhes, todo o trabalho que circundou os lançamentos mais recentes do Selo180 em parceria com a Record Collector Brasil: a reedição de luxo do álbum “Metrô Linha 743”, de Raul Seixas, lançado originalmente em 1984, e “A Vida e Obra de Johnny McCartney”, que Leno gravou na virada de 1970 para 1971, mas a gravadora engavetou e só seria lançado 25 anos depois, pelo próprio Leno, em CD – essa é a primeira vez que o álbum ganha edição em vinil!

“Foram quase dois anos de trabalho no ‘Metrô Linha 743’”, conta Garras na conversa abaixo. “A intenção não era de apenas reembalar um disco do artista, mas expandir ele”, explica. O resultado é um dos trabalhos mais cuidadosos e sensacionais já feitos com um lançamento em vinil no Brasil. Além do encarte original e do release de imprensa da época, a reedição de “Metrô Linha 743” traz um livreto com 28 páginas compilando mais de 50 imagens inéditas, rascunhos das letras digitalizados, clipping de reportagens da época e entrevistas com os músicos e Kika Seixas relembrando a gravação. “Fizemos tudo com um olhar de fã”, comenta Garras. O resultado é absolutamente sublime – e, musicalmente, ainda conta com a inclusão de uma faixa extra, “Anarkilópolis” (que nunca havia sido lançada em vinil).

Sobre o disco de Leno, Garras conta: “O disco foi engavetado pela gravadora em 1971. Foi censurado pelos militares e também pela CBS, que achou o trabalho maluco demais”. Nesta reedição ao lado da Record Collector Brasil, “abordagem foi de realizar realmente a primeira edição em LP com o trabalho na íntegra. Tinha que ter uma capa gatefold com as letras, ficha técnica e uma foto histórica. Mas desenvolvemos também um encarte de quatro páginas contando a história do disco”, explica. Repetindo o trabalho cuidadoso de outros lançamentos do selo, “A Vida e Obra de Johnny McCartney” finalmente ganha edição em vinil. E os planos do Selo180 não param por ai: “em março estaremos lançando uma versão expandida do raríssimo ‘Sweet Edy’, do kavernista Edy Star. O LP é muito raro e o relançamento vai permitir que muitos fãs redescubram esse clássico”, conta.

No bate papo abaixo, Garras ainda fala sobre o momento de reviravolta que vive o mercado cultural brasileiro, com o streaming afetando diretamente a venda física (“O CD realmente tem perdido bastante espaço, ao menos no meio do rock independente”, avalia) e a derrocada das megastores, que está causando um estremecimento no mercado: “Não necessariamente pela perda desses espaços e empresas (os independentes nunca tiveram muita abertura por lá), mas pelo efeito cascata que a ruína delas acaba provocando”, explica. O calote decorrido dos pedidos de recuperação judicial das grandes livrarias está afetando diretamente distribuidoras de discos, que podem vir a fechar. Mas ele vê algo positivo nas mudanças: “Se espera que ao menos uma parte do público deles acabe migrando para esses espaços e canais alternativos. A questão é ver quem resiste até lá e quais serão os meios de se repor o estoque”, prevê. Abaixo, você confere o papo na integra. Sobre os discos você pode saber mais em www.selo180.com

“Metrô Linha 743” é o segundo lançamento do Raul Seixas do Selo 180 ao lado da Record Collector, certo? Quando a gente conversou, tempos atrás, você tinha falado que mais alguns discos do Raul iriam sair, e como foi o processo? Esse livreto de 28 páginas é uma das coisas mais lindas que já vi em vinil no Brasil!
Como sou fanzaço do Raul, me enche de orgulho ter ele no catálogo do Selo180. Esse trabalho de reedições históricas é sempre feito em parceria com o Fred, da Record Collector Brasil (que foi o primeiro e-commerce de vinil do país). Eu era cliente dele e, desde que fundei o selo, começamos a desenvolver projetos desse tipo. O primeiro foi o The Galaxies (de 1968). Na sequência, em 2016, veio o “Isso aqui não é Woodstock, mas um dia pode ser: ao vivo no II Festival de Águas Claras, 1981”. Foi o primeiro lançamento em vinil do Raul Seixas em mais de 20 anos e era um título inédito em LP. Uma alegria e um verdadeiro estouro! O público ansiava pelo Raul e por material novo. Batemos alguns recordes do “mercado moderno” de vinil no Brasil com esse título.

Desde então, estivemos trabalhando na reedição do “Metrô Linha 743”. Como somos selos independentes, o processo é lento. Em nosso cotidiano, desempenhamos quase todas as funções de uma grande gravadora, mas sozinhos. Então, assim como o primeiro Raul que colocamos na rua, foram quase dois anos de trabalho no “Metrô Linha 743”. Mas muito recompensador porque chegamos num resultado que superou nossas próprias expectativas. A intenção não era de apenas reembalar um disco do artista, mas expandir ele. Já tínhamos a autorização das herdeiras e o apoio do Sylvio Passos quando conseguimos licenciar o título com a Som Livre (e somos muito gratos, pois a maioria das grandes gravadoras não nos leva a sério) e nos permitiram incluir a faixa bônus “Anarkilópolis” (que nunca havia sido lançada em vinil). Reproduzir o encarte original e o release de imprensa eram passos naturais. Já havíamos decidido em produzir uma capa gatefold, cujo conteúdo seria um texto falando sobre o álbum. Mas aí contatamos o capista e designer Felipe Taborda e fomos a loucura com a quantidade de fotos inéditas que ele tinha. Ele foi muito legal e acessível, o que nos encorajou a ir atrás de todos que participaram do disco. O Fred entrevistou os músicos, o produtor Alexandre Agra, a Kika, o Sylvio Passos. Quando percebemos, tínhamos material para um verdadeiro dossiê. Aí começamos a elaborar o livreto, decididos a colocar tudo o que era possível. O Sylvio Passos nos auxiliou muito a formatar o texto. Fizemos tudo com um olhar de fã. Quando bolamos os lançamentos, o foco nunca é em “como podemos economizar e potencializar os lucros”. Muito pelo contrário! O pensamento é “como esse lançamento pode ser o mais incrível possível?”! Quando finalizamos, o livreto estava com 28 páginas. Foram meses de trabalho e o resultado nos enche de orgulho. Desconheço reedição histórica nos mesmos moldes no mercado fonográfico brasileiro. E acreditamos que realmente acrescentamos algo na obra do Raul. O que comprovamos com o retorno que os fãs estão nos dando.

Sobre os próximos lançamentos, sim, tem mais coisas do Raul vindo por aí. Mas hoje sou mais cauteloso ao comentar. Me vejo como o personagem da música “Sessão das Dez”: “Ao chegar do interior, inocente puro e besta…”. Sempre comentei muito entre os vinileiros (selos, lojistas, etc) sobre os planos e os projetos que estava desenvolvendo. E isso me fez perder alguns lançamentos. Alguém corria na frente e cobria a proposta, ou criava alguma dificuldade no licenciamento e acabava inviabilizando o projeto. Por sorte, no que diz respeito ao Raul, temos o apoio das herdeiras, da Kika e do Sylvio Passos. Então posso garantir que sairão mais coisas, desde reedições expandidas até material inédito. Para 2019 devem ser pelo menos dois LPs. O que eu já posso revelar é um disco que está em processo bem adiantado. Não é do Raul, mas tem muita relação com ele. Em março estaremos lançando uma versão expandida do raríssimo “Sweet Edy”, do kavernista Edy Star. O LP é muito raro e o relançamento vai permitir que muitos fãs redescubram esse clássico. Terá faixas bônus e material adicional, mas não um livreto como o do “Metrô Linha 743”. Ainda estamos desenvolvendo a parte gráfica, mas a ideia é valorizar a imagem do Edy. Tem fotos espetaculares. Cogitamos incluir um pôster dele nos trajes glam de Ziggy Stardust brasileiro.

No embalo, agora, vocês estão lançando também o “A Vida e Obra de Johnny McCartney”, do Leno. Suspeito que esse deu um pouco mais de trabalho, não? Como foram as conversas com o Leno para recuperar esse disco? E como você situa a importância desse lançamento para o rock brasileiro?
O disco foi engavetado pela gravadora em 1971. Foi censurado pelos militares e também pela CBS, que achou o trabalho maluco demais. O Leno era uma figura de imenso sucesso na Jovem Guarda (junto com Lilian, gravou enormes hits como “Pobre Menina” e “Devolva-me”). E aí ele apareceu com um disco maluco de roqueiro cabeludo maconheiro. Apenas quatro faixas foram aproveitadas num compacto e, por anos, o Leno achou que haviam apagado as fitas. Na metade da década de 1990, o Marcelo Froés encontrou o material e o Leno pode recuperar as gravações. Aí, em 1995, ele lançou o disco em CD. Teve mais uma reedição nos Estados Unidos em 2008. Mas seguia inédito em LP. O Fred (Record Collector Brasil) havia sido um dos responsáveis pelo relançamento internacional de 2008. Ele e o Leno são amigos de longa data. Então, não foi tão difícil executar o projeto. Teve todos aqueles trâmites burocráticos tradicionais de contrato, licenciamento, recolhimento dos direitos, desenvolvimento da edição e fabricação. Mas era um projeto que estava em pauta faz muito tempo. Somos fissurados no álbum e tínhamos consciência de que era um projeto histórico em formato analógico. Aí a abordagem foi de realizar realmente a primeira edição em LP com o trabalho na íntegra. Tinha que ter uma capa gatefold com as letras, ficha técnica e uma foto histórica. Mas desenvolvemos também um encarte de quatro páginas contando a história do disco.

Sobre a importância do lançamento é algo realmente incrível. Primeiro pelo resgate em si. Depois, pelo fato de que há faixas que realmente estavam na vanguarda da época quando se pensa na estética do hard rock setentão. Algumas das faixas mais pesadas foram gravadas antes do que o “Jardim Elétrico”, dos Mutantes. Então, realmente inaugura um tipo de sonoridade no rock brasileiro que viria a ser uma tônica no restante da década. Mas o disco é muito mais que isso: tem balada beatle, rock de garagem, jovem guarda, country rock… E além disso tudo tem um time inacreditável reunido ali. As participações são um destaque por si só. É um disco que tem forte relação com o Raul Seixas. Ele participou bastante do álbum e, do período em que foi produtor da CBS, é um dos principais elos-perdidos na carreira do Raul. Tem faixas com A Bolha, Marcos Valle, Ian Guest, Trio Ternura, Golden Boys, participações de integrantes do Los Shakers e Renato e Seus Bluecaps. Então, é um disco que acrescenta mais uma peça no quebra-cabeça discográfico de inúmeras bandas e artistas.

Como estão os planos do Selo 180 para 2019 nesse conturbado cenário econômico? Vocês seguem firmes lançando vinis, mas em 2018 foram vários lançamentos em CD, certo? Como você vê o mercado?
No princípio, o foco do Selo180 era realmente trabalhar só com vinil (daí o nome do selo). Mas logo comecei a ser procurado por bandas e artistas independentes que ainda não tinham um público que justificasse um lançamento nesse formato. Então, já em 2014 comecei a trabalhar também com CD, digital e até K7. Hoje, já são mais de 100 lançamentos, de 50 bandas e artistas, em todos os formatos. Mas, realmente, desde 2017 a situação — não só econômica — tem se refletido no mercado e, em 2018, tudo se agravou. O CD realmente tem perdido bastante espaço, ao menos no meio do rock independente. O digital, com as plataformas de streaming, se tornou o meio principal. Hoje, não são poucos os lançamentos que não possuem nenhum suporte físico.

Algo que está estremecendo o mercado é a derrocada das grandes redes de livrarias. E não necessariamente pela perda desses espaços e empresas (os independentes nunca tiveram muita abertura por lá), mas pelo efeito cascata que a ruína delas acaba provocando. Desde meados de 2017 que algumas dessas empresas não pagam seus fornecedores. E não são só distribuidoras e editoras de livros. Tem distribuidoras de CDs, LPs, DVDs e Blu-rays que fornecem títulos de gravadoras e selos de pequeno, médio e grande porte. Nesse cenário, tem que se levar em conta que o mercado fonográfico de mídias físicas está acossado há muito mais tempo que o mercado editorial de livros. Fatalmente, esse calote e fechamento das grandes redes têm afetado diretamente distribuidoras de discos, e não acredito que elas possuam lastro para continuarem operando. Isso desmantela consideravelmente um meio importante de se disseminar a tiragem de um CD em larga escala pelo território nacional, por exemplo. Ao mesmo tempo, tem que se lembrar que foram essas mesmas redes que sufocaram e exterminaram lojas e livrarias pequenas em cidades menores por todo o interior do país, promovendo uma concorrência desleal, com políticas agressiva de preços, venda pela internet e distribuição pelo correio. O fim da Fnac, Saraiva, Cultura pode acabar tendo um efeito positivo para lojas e selos independentes. Se espera que ao menos uma parte do público deles acabe migrando para esses espaços e canais alternativos. A questão é ver quem resiste até lá e quais serão os meios de se repor o estoque. Mas para isso os independentes tem grande desenvoltura.

Sobre planos para 2019, é a primeira vez em 5 anos de existência que as possibilidades do Selo180 se retraem ao invés de se expandir. Seguirão acontecendo lançamentos em formato digital e vinil (que já passou por seu holocausto e continua aí), mas a tendência é que saiam menos CD e que as tiragens sejam menores. É uma mídia que depende muito das distribuidoras (disseminar vinil é mais num esquema de guerrilha mesmo). Entre os próximos lançamentos do Selo180, posso citar a reedição histórica do “Sweet Edy” do Edy Star (em parceria com Record Collector Brasil), uma edição super-luxo do “Clássicos: Ao Vivo” da banda Cachorro Grande, o LP “Piscinas Vazias Iluminadas em Pé”, da Musa Híbrida (em parceria com Escápula Records e PWR Records, viabilizado pela Natura Musical), o LP homônimo do Gustavo Telles & Os Escolhidos, o compacto em espanhol do Escambau (em parceria com Melomano Discos), o CD do duo franco-brasileiro Burning Ambition e o novo disco inédito dos Irmãos Panarotto. E temos várias bandas do caralho em estúdio: Baby Budas, Trem Fantasma, Los Marias… E repare que eu disse que para a 2019 as possibilidades diminuíram. (risos)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

2 thoughts on “Três perguntas: Rodrigo “Garras” de Andrade (Selo180)

  1. entrevista sensacional! se as gravadoras respeitassem a MUSICA muitos outros títulos seriam reeditados com este apuro, infelizmente, ignoram os apelos dos selos independentes para licenciarem o material.

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