Discografia comentada: Cássia Eller

por Bruno Capelas

Qual é a primeira imagem que vem à sua cabeça quando se fala em Cássia Eller? A mulher que mostra os peitos para 100 mil espectadores cantando “Smells Like Teen Spirit” no Rock in Rio? A garotinha esperando o ônibus da escola de “Malandragem”? A artista de apliques em um quarto de hotel chique no clipe de “O Segundo Sol”? Ou a crooner de voz suave e interpretação romântica de “Non Je Ne Regrette Rien” em seu Acústico MTV?

Dona de voz e personalidade ímpares, Cássia Eller é comumente incluída por muita gente no grupo das principais cantoras da música brasileira das últimas décadas. Sua morte, por um infarto do miocárdio, em dezembro de 2001, frustrou o que poderia ter sido a coroação de uma carreira interessante, cheia de sucessos, mas marcada por discos irregulares, grande sucessos radiofônicos e muitas pérolas escondidas.

É possível dividir a carreira de Cássia Eller em quatro duplas de discos: a fase Vanguarda Paulista (“Cassia Eller” e “O Marginal”), a primeira guinada pop (“Cássia Eller” e “Violões”), o tributo a Cazuza (os dois “Veneno”) e o sucesso sob a batuta de Nando Reis. Em todas elas é possível notar o ecletismo da cantora, sua fixação por algumas figuras tradicionais do rock (Beatles, Cazuza e Legião Urbana, especialmente). Outra questão interessante é a repetição de faixas: muitas de suas músicas aparecem três vezes na discografia (caso de “Malandragem”, “E.C.T.”, “Por Enquanto”, “Nós” ou “1º de Julho”), em versões que costumam não diferir muito – um desperdício, talvez?

Além de comentar os discos de estúdio, incluem-se aqui os discos ao vivo que Cássia lançou em vida, por dois motivos: sua frequência (são três em 11 anos de carreira discográfica) e por sua importância. Em diversos momentos do documentário “Cássia Eller” (2015), de Paulo Henrique Fontenelle, fica clara a noção de que a cantora era um animal de palco, pouco afeita a seus trabalhos em estúdio. Além disso, os comentários a seguir também incluem o registro póstumo “Dez de Dezembro”, gravações lançadas postumamente (como o grande show do “Rock in Rio 3”), raridades, a biografia “Apenas Uma Garotinha”, lançada em 2005 pela editora Planeta, e o documentário “Cássia Eller”, de 2015.

Ao final de tudo, a intenção não é de definir a cantora em uma descrição precisa (“fera, bicho, anjo, mulher, mãe, filha, irmã, menina, Deus, deusa”, como fez Renato Russo), mas sim ajudar um neófito a explorar sua discografia, buscando pérolas perdidas ou revisitando as canções que ninguém diz aguentar mais ouvir (mas ainda canta junto nas rodinhas de violão). Com vocês, Cássia Eller.

Cassia Eller (1990)
Depois de anos cantando em barzinhos e teatros de Brasília, Cássia Eller chegou a São Paulo no final dos anos 1980 como uma ilustre desconhecida. Foi só quando uma fita demo sua bancada por um tio empresário caiu na mão do produtor Mayrton Bahia (responsável pelos principais discos da Legião Urbana), diretor artístico da Universal Music, que a sorte mudou e ela foi chamada para testes na Polygram. Lançado em 1990, o primeiro álbum da cantora (sem acento no título) já exibe seu ecletismo característico, embora seja pouco palatável. É fácil perceber o talento vocal de Cássia em faixas como a regravação esperta de “Tutti Frutti”, do repertório de Little Richard, ou a releitura bem-humorada de “Rubens”, do Premê. No entanto, o repertório pouco pop (há várias canções da Vanguarda Paulistana, incluindo “Já Deu Pra Sentir”, de Itamar Assumpção, e “O Dedo de Deus”, de Arrigo Barnabé) e os arranjos com muitos sintetizadores, guitarras ardentes e alguma aproximação com o jazz acabam atrapalhando o trabalho (para entender, ouça a versão quase reggae para “Eleanor Rigby”, dos Beatles). Não só por isso (mas também), o destaque de “Cassia Eller” fica com “Por Enquanto”, da Legião Urbana, com introdução de “I’ve Got a Feeling”. Enquanto quase todo o disco tem arranjos elétricos, “Por Enquanto” se sobressai por sua veia acústica: nas gravações do álbum, Cássia tentou várias vezes repetir a performance da fita demo, sem êxito. A versão que acabou sendo lançada (e agradou ao exigente Renato Russo) acabou sendo a “original”, dando à cantora seu primeiro sucesso.

Nota: 6
Ouça: “Rubens”, “Por Enquanto”, “Não Sei O Que Quero da Vida”, “Tutti Frutti”.

O Marginal (1992)
Gestado durante a fase “hippie” de Cássia Eller, quando a cantora, sua banda e seu empresário se mudaram para uma chácara no Rio de Janeiro ao melhor estilo Novos Baianos, “O Marginal” foi um dos primeiros discos brasileiros a serem lançados simultaneamente em LP e CD, como uma aposta da gravadora Universal – a bem produzida capa também é outro sinal disso. O conteúdo, no entanto, não justificava a brincadeira, sendo o disco menos acessível da cantora. Apesar de ser criado no Rio, “O Marginal” intensifica a relação de Eller com o grupo da Vanguarda Paulistana, com novas releituras de Arrigo Barnabé (“Teu Bem”), Itamar Assumpção (“Sonhei Que Viajava Com Você”) e Mário Manga (“Aquele Grandão”), além de parcerias com Luiz Pinheiro (“Eles” e a faixa-título, também com participação de Hermelino Neder). Fora da cena paulista, Cássia também grava Luiz Melodia (“Sensações” e “Amnésia”), Beto Guedes (“Caso Você Queira Saber”) e uma raridade de Rita Lee, “Bobagem”, mas sua expressividade esbarra no repertório “difícil” do disco. Os melhores momentos do álbum acabam sendo as duas covers de Jimi Hendrix, que fecham a conta do trabalho: “If Six Was Nine” e “Hear My Train a Coming”, em vigorosas interpretações. Vinte anos depois, “O Marginal” passou para a história como o trabalho menos vendido de Cássia, além de ajudar a reforçar sua imagem como “roqueira” (e como já dizia Rita Lee, roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido… ou marginal).

Nota: 4
Ouça: “If Six Was Nine” e “Hear My Train a Coming”

Cássia Eller (1994)
Último fruto do primeiro contrato de Cássia Eller com a Universal, o disco de 1994 foi feito em condições bastante diferentes dos trabalhos anteriores. A começar pelo fato de que, em 1993, a artista deu a luz a Chicão, seu primeiro e único filho. Sem dinheiro e sem plano de saúde, o parto do menino foi pago pela gravadora e coube à cantora, por gratidão, acolher as interferências da Universal após dois álbuns de baixas vendas e apenas um sucesso. Além de indicar um produtor tarimbado (Guto Graça Mello) e colocá-la em um bom estúdio (o Nas Nuvens, do Rio de Janeiro), a Universal ainda sugeriu duas canções ao projeto: “Partners”, um lado-B do RPM, e “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding – em ambas, Cássia comete grandes interpretações, com destaque ainda para o solo de guitarra de Wander Taffo na primeira. Outra (boa) novidade é a abertura da cantora a um repertório mais acessível: há samba (“Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves), baião (“Coroné Antônio Bento”, de Luiz Wanderlei e João do Vale, famosa na voz de Tim Maia) e standards do rock nacional (“Música Urbana 2″, da Legião; “Lanterna dos Afogados”, dos Paralamas; “Metrô Linha 743”, de Raul Seixas), em interpretações corretas, porém às vezes prejudicadas (mais uma vez) por muitos sintetizadores. Seriam três canções inéditas, porém, que fariam o disco ser o primeiro da artista a bater a marca das 100 mil cópias vendidas: “1º de Julho”, feita especialmente por Renato Russo após o nascimento de Chicão; “E.C.T.”, uma parceria do trio Nando Reis / Carlinhos Brown / Marisa Monte; e uma faixa pinçada do baú de Cazuza que acabaria se tornando a mais popular representação da personalidade de Cássia Eller: “Malandragem”.

Nota: 8
Ouça: “1º de Julho”, “Partners”, “Try a Little Tenderness”, “Coroné Antônio Bento”

Cássia Eller Ao Vivo (1996)
Apesar de ser um animal de palco (a cantora odiava, por exemplo, ouvir seus discos de estúdio), Cássia Eller foi sempre afeita a grandes públicos. Mesmo com o sucesso de “Malandragem”, a cantora resolveu investir em uma turnê minimalista – ao menos, em produção. Chamada informalmente de “Violões”, a tour consistia apenas em Cássia e os violonistas Walter Villaça e Luciano Maurício executando arranjos acústicos, mas não por isso menos potentes. No repertório, ligeiras modificações: para substituir “Partners”, Eller buscou uma inédita de Nando Reis, “Nenhum Roberto”, fortalecendo a relação que, anos mais tarde, mudaria sua carreira. Cássia ainda incorporou covers de Caetano (“Eu Sou Neguinha?”), Barão Vermelho (“Não Amo Ninguém”) e uma bela canção flamenca de Tião Carvalho, “Nós”. As novas músicas ajudaram na variedade do setlist da turnê, que era baseada firmemente em “Cássia Eller”, de 1994 – dos dois primeiros discos, apenas “Por Enquanto” entrou. Pesa ainda o fator de que, junto a Walter e Luciano, Cássia conseguiu criar arranjos mais vigorosos para as músicas do álbum, com destaque para “Metrô Linha 743” e “Coroné Antônio Bento”. O show do disco acabaria virando o disco do show em 1996, vendendo mais de 100 mil cópias. Para os neófitos na obra da cantora, “Violões” é um ótimo resumo de sua primeira fase, e, em sua simplicidade, acaba sendo o melhor registro ao vivo de sua carreira. (Em 2010, o trabalho também viraria DVD, baseado em show gravado pela TV Cultura em 1996, com direito a extras de entrevistas e apresentações de Cássia na emissora).

Nota: 9
Ouça: “Eu Sou Neguinha?”, “Nenhum Roberto”, “Nós”, “Por Enquanto”, “Metrô Linha 743”

Veneno Antimonotonia (1997)
Depois do sucesso comercial dos dois últimos discos, que ultrapassaram a marca de 100 mil cópias vendidas, Cássia tinha tudo para se firmar no cenário nacional. Para confirmar isso, a Polygram arregimentou o veterano Waly Salomão para ser o produtor de seu novo trabalho. A princípio, era ideia mesclar canções antigas com novidades, buscando refrescar o repertório da cantora. A dupla, no entanto, acabou surgindo com outra proposta: fazer um tributo – sem data comemorativa específica – a Cazuza, como se retribuindo o favor que foi “Malandragem”. Com a benção de Lucinha Araújo, que havia lançado naquele ano a versão da história de seu filho, o disco é, na visão da própria Cássia, “as 14 mais” do ex-vocalista do Barão Vermelho, em uma divisão bem cuidada entre a trajetória do cantor em sua primeira banda e em carreira solo. A escolha do repertório é correta, dividindo-se entre hits de Cazuza e alguns lados-B, mas o resultado acaba sendo aquém do esperado. Em canções consagradas, Cássia sofre pela comparação (a versão de “Brasil” é opaca perto da de Gal Costa, “Bete Balanço” e “Pro Dia Nascer Feliz” não fazem sombra às originais do Barão Vermelho, embora a leitura de “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” seja um dos destaques do trabalho). Nos lados-B, o disco melhora consideravelmente, na revelação de canções como “Mal Nenhum” (parceria de Cazuza com Lobão), “Billy Negão” ou “Obrigado (Por Ter Se Mandado)”. Apesar de boas vendas (120 mil cópias em um ano), “Veneno” não foi o salto que todo mundo esperava. Mas ele viria, logo em breve…

Nota: 6
Ouça: “Billy Negão”, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, “Obrigado”, “Mal Nenhum”.

Veneno Vivo, 1998
Se “Veneno Antimonotonia” não era suficiente para homenagear Cazuza, Cássia quis mais. “Veneno Vivo” registra a turnê do álbum-tributo, que também contou com direção de Waly Salomão. O compositor de “Vapor Barato” fez com que, pela primeira vez, a artista não apenas cantasse, mas seguisse marcações de palco e recitasse versos (até a oração a Ave Maria foi incluída no meio). Felizmente, a escolha do repertório privilegia os melhores momentos de “Antimonotonia”, com destaque para a versão enérgica de “Obrigado” ou o balanço de “Billy Negão”, superiores às versões de estúdio. Outras inclusões também chamam a atenção: a releitura da flamenca “Nós”, em dobradinha com “Mis Penas Lloraba Yo”; a esperta apropriação de “Todas as Mulheres do Mundo”, de Rita Lee; e a curiosa homenagem “Eu Queria Ser Cássia Eller”, de Péricles Cavalcanti. Seja como for, o resultado do disco é misto: as regravações de “Vida Bandida” e “Farrapo Humano”, por exemplo, não adicionam nada às originais de Lobão e Luiz Melodia, o que também vale para a já desgastada “Geração Coca Cola”, da Legião Urbana, em arranjo claramente inspirado pelo hardcore. A fúria de “Veneno Vivo” acabaria afugentando os fãs da leveza dos álbuns de 1994 e 1996, vendendo apenas cerca de 50 mil unidades. Ainda assim, “Veneno Vivo” é um disco importante: a direção musical de Waly daria à cantora cancha para seus dois trabalhos seguintes, e serve como uma boa “despedida de solteiro” antes de um feliz casamento. A partir de agora, o mundo de Cássia ficaria completo.

Nota: 5,5
Ouça: “Todas as Mulheres do Mundo”, “Obrigado”, “Billy Negão”, “Nós”.

Com Você, Meu Mundo Ficaria Completo (1999)
A pecha de “roqueira intransigente” sempre acompanhou Cássia Eller. Pelo menos, até o dia em que Chicão, na época com cinco anos de idade, disse para a mãe que ela não cantava. “Você berra. Quem canta mesmo é a Marisa Monte”, teria dito o menino, fã da cantora de “Beija Eu”. Acostumada a não seguir conselhos ou orientações estéticas, Cássia percebeu ali que precisava mudar o rumo de sua carreira. Foi quando seu rumo se cruzou de novo com o de Nando Reis: compondo muito na época da turnê do Acústico dos Titãs (1997), o compositor buscava abrir caminho para canções que não se encaixavam bem de sua banda. Ao reencontrar Cássia via amigos em comum, encontrou uma voz – e acabou sendo convidado para produzir seu novo disco, junto com o músico Luiz Brasil. Além de ceder quatro canções (o sucesso “O Segundo Sol”, que viraria o mundo da cantora de cabeça para baixo, a bela balada “As Coisas Tão Mais Lindas”, a empolgante “Infernal” e a faixa-título), Reis ainda ajustou Cássia com uma boa banda e azeitou os arranjos, com forte presença de percussão, eventuais sopros e uma ótima cozinha. Além disso, o cantor fez uma tour pelo baú dos amigos para, pela primeira vez, fazer Cássia Eller gravar um disco quase inteiro de inéditas. Marisa Monte cedeu duas canções (o futuro hit “Palavras ao Vento” e “Um Branco, Um Xis, Um Zero”, com Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes), enquanto Carlinhos Brown apareceu com “Mapa do Meu Nada”. Fã de Cássia, Caetano Veloso criou a arrojada “Gatas Extraordinárias”, à moda das canções que fez para Gal nos anos 1970. Até no visual a mudança é perceptível, com destaque para a capa romântica, em que Cássia aparece de apliques, camiseta e calcinha. O resultado é um golaço: além do sucesso comercial, “Com Você…” abriria portas para a cantora, sendo hoje um dos melhores discos de intérprete da música brasileira.

Nota: 10
Ouça: “Gatas Extraordinárias”, “Palavras ao Vento”, “Mapa do Meu Nada”, “O Segundo Sol”, “As Coisas Tão Mais Lindas”.

Acústico MTV (2001)
Um dos principais projetos da MTV gringa – e importado para o Brasil – o Acústico MTV vivia em 2000 uma fase de desgaste: depois de resgatar a carreira de ícones do rock nacional (Titãs, Rita Lee, Capital Inicial) em um formato de falsa coletânea, o projeto havia recebido até mesmo artistas fora do padrão da emissora, como Art Popular. Ainda assim, a exigência era de aceitar apenas nomes de grandes vendagens, o que não era o caso de Cássia Eller na época. Apesar de terem uma imagem parecida, a relação entre o canal de TV e a artista também não era próxima. Mesmo assim, isso não foi empecilho para que Anna Butler, diretora artística do canal, bancasse um projeto com Cássia, após o sucesso de “O Segundo Sol”. A aposta acabou se revelando certeira: novamente com produção de Nando Reis e Luiz Brasil, o disco reúne não só os maiores sucessos da cantora como ainda expande seus horizontes de ~ecletismo~. Logo na primeira faixa, uma surpresa: quem esperava um berro encontrou uma regravação de Edith Piaf (“Non, Je Ne Regrette Rien”), com Cássia Eller em meio a rosas e cantando como nunca (resultado de três semanas de ensaios e isolamento com a banda em Teresópolis, no Rio). Além de revisitar seus clássicos (“Nós”, “Malandragem”, “Por Enquanto”, “O Segundo Sol”), a cantora ainda exibe sambas (“Vá Morar Com O Diabo”, de Riachão, e “Partido Alto”, de Chico Buarque), mostra mais duas boas baladas de Nando Reis (“Luz dos Olhos” e “Relicário”, com participação do compositor) e traz os amigos da Nação Zumbi para o balanço em “Quando a Maré Encher” e “De Esquina”, de – e com – o rapper paulistano Xis. Com direito a vendagem de mais de um milhão de cópias, o disco acabaria trazendo a Cássia o sucesso popular que nunca teve, fazendo-a emendar mais de cem apresentações em sete meses. No final de 2001, quando finalmente iria descansar para começar a pensar em um novo disco, a cantora acabaria morrendo dias antes do Ano Novo, vítima de um infarto do miocárdio. O Acústico MTV acabaria sendo seu último disco, encerrando uma carreira interrompida no auge.

Nota: 9
Ouça: “Relicário”, “Partido Alto”, “Non, Je Ne Regrette Rien”, “De Esquina”.

Dez de Dezembro (2002)
Após o Acústico, a intenção de Cássia Eller era se firmar como grande intérprete da música brasileira, seguindo a linha exibida em “Com Você…”. Reportagens da época dão conta de que, em seu próximo disco de inéditas, a cantora gravaria inéditas de Lenine, Djavan e Chico Buarque. Acabou não acontecendo – e não há registros dessas faixas. Lançado em 2002, porém, “Dez de Dezembro” (referência à data de nascimento de Cássia) acaba servindo como uma amostra do que poderia vir a seguir. Organizado por Ronaldo Villas e Nando Reis, o disco reúne sobras e gravações inéditas da cantora ao longo de sua carreira, com destaque para uma dupla de canções do ex-titã. Gravada pelo músico em um disco de 2000, “All Star” funciona como verdadeiro mito de origem da relação entre o compositor e sua intérprete (que quis gravar a canção, mas não teve “autorização”), enquanto “No Recreio”, sobra das sessões de “Com Você…”, tem letra romântica e arranjo embebido em fortes guitarras. Duas covers de Beatles (“Get Back”, com Zélia Duncan, e “Julia”) e duas gravações de estúdio de canções já marca-registrada do repertório ao vivo da cantora (“Eu Sou Neguinha?”, com o rapper Xis, e “Nenhum Roberto”, com Roberto… Frejat) também recheiam o disco. A título de curiosidade, ainda há “Little Wing”, de Hendrix, em interpretação crua, e “Vila do Sossego”, de Zé Ramalho, que deveria ter entrado no Acústico MTV. Pelo sim, pelo não, “Dez de Dezembro” segue a regra dos discos “de sobras”: entre coisas legais e aleatoriedades, a sensação que fica é “mas por que tinha que acabar mesmo?”.

Nota: 7
Ouça: “No Recreio”, “All Star”, “Vila do Sossego”, “Nenhum Roberto”.

DISCOS PÓSTUMOS E RARIDADES

Como é de praxe com personalidades de grandes vendagens de discos cuja carreira acaba antes da curva, Cássia Eller tem em sua discografia uma série de trabalhos lançados depois de sua morte. A maioria deles são compilações de seus grandes sucessos com uma ou outra faixa inédita – é o caso de “Relicário”, coletânea com apenas músicas de Nando Reis gravadas pela cantora, que inclui as inéditas “Baby Love” e “Um Tiro no Coração” junto aos hits de “Com Você…”, ou das seleções de “melhores de” que ficaram populares nos anos 1990. (Cássia está em “Millenium”, “Minha História”, “Sem Limite”, “Série Gold”, “Perfil” e outras do mesmo gênero). Há ainda alguns bons trabalhos ao vivo, com destaque para o pirata “Luau MTV”, o sincero “Do Lado do Avesso” (um show de 2001 com Cássia ao violão, sozinha) e para a expressiva gravação do show de Cássia no terceiro Rock in Ri0, de 2001. Conduzida pela banda que gravou “Com Você…” e participação da Nação Zumbi, a apresentação mostra Cássia em alta forma, com direito a uma leitura elétrica de “Smells Like Teen Spirit”, elogiada até por Dave Grohl, e porradas como “Partido Alto” e “Infernal”, sendo sua melhor gravação “plugada” ao vivo. Por fim, o disco “Raridades” compila outtakes e participações da cantora em trabalhos de outros artistas (“Milagreiro”, de Djavan; “Mr. Scarecrow”, de Herbert Vianna) e trilhas sonoras (“Nasci Para Chorar”, cover de Erasmo incluída em “Houve Uma Vez Dois Verões”, de Jorge Furtado), sendo um trabalho curioso.

“Apenas Uma Garotinha”, Ana Claudia Landi e Eduardo Belo (2005)
Lançada em 2005 pela editora Planeta (e atualmente fora de catálogo, mas disponível na Estante Virtual), “Apenas Uma Garotinha” é o único trabalho biográfico a respeito de Cássia publicado até os dias de hoje. Escrito ainda sob o impacto da morte da artista, o livro conta com detalhes a vida da cantora – com ênfase para a narrativa de seus últimos dias e também para seus primeiros passos em Brasília. Se o texto por vezes deixa de transpirar conhecimento sobre música, sendo uma leitura entediante em alguns dos momentos mais deliciosos (os detalhes sobre gravações de discos, por exemplo, poderiam aparecer melhor descritos e contados), por outro lado sobra em sentimentalismo, seja ao falar do nascimento de Chicão ou da relação entre Cássia e Nando Reis, com direito a revelar o destino final do All Star azul da canção.

“Cássia Eller”, Paulo Henrique Fontenelle (2015)
Um dos responsáveis pela onda de revalorização do mutante Arnaldo Baptista após o documentário “Loki”, de 2008, Paulo Henrique Fontenelle se debruçou durante quatro anos sobre a vida de Cássia Eller. A partir de uma inquietação pessoal para saber mais sobre a artista e não ter onde buscar informações, Fontenelle empreendeu uma pesquisa com mais de 40 entrevistas e 400 horas de imagens de arquivo para contar a história da cantora. O resultado é um filme sentimental, levemente influenciado por “Searching for Sugarman” (nos grafismos de abertura, sobretudo). Se a película às vezes peca na repetição de imagens e fotografias (e demoniza a imprensa quando devia apenas condená-la, na sequência sobre a morte da cantora), sobra na execução conduzida para emocionar o espectador. Em pouco mais de duas horas, as lágrimas podem correr soltas, especialmente no trecho final, em que a disputa da guarda de Chicão se mistura a depoimentos sensíveis sobre a trajetória de Cássia Eller. (Vale a pena ainda prestar atenção na pesquisa de imagens, que tem cenas da cantora interpretando Billie Holiday em Brasília e uma entrevista esperta de Ângela Ro Rô mandando um grande abraço pra Zizi Possi na MTV).

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop.

LEIA TAMBÉM:
– Paulo Henrique Fontenelle: “Ela cantava o que acreditava” (aqui)
– 10 anos sem Cássia Eller: a chama da cantora permanece forte (aqui)
– Nando Reis: “Gosto de fazer músicas para poder cantar” (aqui)
– “Loki” exibe uma sinceridade tão tocável que anula qualquer crítica (aqui)
– A versão domesticada de Cássia Eller ao vivo em Taubaté, 1999 (aqui)

DISCOGRAFIAS COMENTANDAS:
– Discografia comentada: Ramones, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: The Clash, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Sinéad O’Connor, por Renan Guerra (aqui)
– Discografia comentada: Babasonicos, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Discografia comentada: Suede, por Eduardo Palandi (aqui)
– Discografia comentada: Alanis Morissette, por Renata Arruda (aqui)
– Discografia comentada: Pato Fu, por Tiago Agostini (aqui)
– Discografia comentada: Mogwai, por Elson Barbosa (aqui)
– Discografia comentada: Wander Wildner, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Foo Fighters, por Tomaz de Alvarenga (aqui)
– Discografia comentada: Morrissey, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Bob Dylan, por Gabriel Innocentini (aqui)
– Discografia comentada: Paul McCartney, por Wilson Farina (aqui)
– Discografia comentada: Elvis Costello, por Marco Antonio Bart (aqui)
– Discografia comentada: Echo and The Bunnymen, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: The Cure, por Samuel Martins (aqui)
– Discografia comentada: Leonard Cohen, por Julio Costello (aqui)
– Discografia comentada: Midnight Oil, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Discografia comentada: Nick Cave, por Leonardo Vinhas (aqui)

8 thoughts on “Discografia comentada: Cássia Eller

  1. Queria incluir nessa lista de obras postumas dois DVDs:Cassia Rock Eller,que saiu em CD também no lançamento do disco Com Você…..Meu Mundo Ficaria Completo,em 1999 e O Melhor de Cassia Eller,compêndio das aparições dela na MTV,de 2003.

  2. Ótima matéria. Nunca dei muita trela pro material de estúdio da Cássia, mas recentemente comecei a dar uma explorada, descobrindo que tem muita coisa boa. O Acústico MTV eu acho ótimo desde o lançamento (ouvi à exaustão). Aliás, uma dica pra quem ainda compra cds: na Americanas (lojas físicas), achei todos esses discos por R$ 9,90…

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