por Tiago Cavaco
Se olharmos para os Lacraus de uma maneira estreita, podemos dizer que eles começaram há dez anos quando pela primeira vez usaram o nome para participarem na compilação da FlorCaveira chamada “Cinco Subsídios para o Panque-Roque do Senhor”, juntamente com os Pontos Negros, Samuel Úria & as Velhas Glórias, Borboletas Borbulhas e Jerusalém. Desde essa ocasião voltaram a participar noutra compilação chamada “A FlorCaveira em Frequência Modulada” de 2007, e editaram o disco “Os Lacraus Encaram o Lobo” em 2011, numa edição da FlorCaveira com a Valentim de Carvalho.
Mas acredito que a maneira certa de olhar para os Lacraus não é esta maneira estreita. Se olharmos para os Lacraus de uma maneira larga podemos dizer que eles começaram há vinte e cinco anos. Foi em Dezembro de 1992 que na Igreja Baptista de Queluz se juntou um grupo de quatro adolescentes para ensaiarem três canções que deveriam apresentar no Acampamento Baptista de Fim de Ano de 1992, em Água de Madeiros (na zona de Leiria). Desses quatro adolescentes, três tocam neste disco dos Lacraus que agora ouvem. É um quarto de século a fazer música juntos.
Os Lacraus, vistos desta maneira larga, são um punhado de amigos que, sob nomes diferentes (já lá vamos!), não desistem de tocar. O primeiro grupo que os juntou teve uma duração curta – chamava-se Parakletos (que quer dizer “Consolador” em grego – é uma mania evangélica a de dar nomes a bandas a partir de termos no hebraico ou no grego) e nele estavam eu (o Cavaco), o Tiago Ramos, o Miguel Sousa (o Guel) e o Tiago Branco. Pouco depois, logo no início de 1993, os Tiagos começavam outra banda, à qual se juntava o Miguel Ferreira (que tocava com os Damaged Fan Club – um grupo com algum reconhecimento na cena do rock underground lisboeta da altura), chamada Metanóia e que pudesse servir para fazer “música mais pesada”. Afinal estamos a falar dos anos da vigência Nirvana, do álbum negro dos Metallica e dos últimos estertores dos Guns’N’Roses. Os Tiagos não queriam apenas ter uma banda evangélica em que a recepção fosse garantida junto de outros evangélicos (como os Parakletos asseguravam) – os Tiagos sentiam-se punks e queriam ter uma banda punk.
Também em 1993, os Parakletos acabariam por receber mais dois músicos e, à boleia deste acréscimo, mudar o seu nome para H.Pos (para fazer o trocadilho com “agape”, a palavra grega para um dos tipos de amor bíblico). Eram eles o Jorge Viegas e o João Leal, que solidificam instrumentalmente um grupo mais talhado para os eventos do contexto evangélico. Esta banda duraria até 1998. Entretanto, os Metanóia também não ficaram como começaram. Em 1994 passam a ser Catacumba, com um som mais virado para o trash metal e o hardcore (os Ratos de Porão tinham entrado na nossa vida para mudá-la para sempre). Tinha saído o Miguel Ferreira e entrado o Emanuel Conde e o Ricardo Oliveira. Já em 1996, em febre ska/punk, o nome passa a ser Bible Toons – é durante esta fase que conseguem organizar uns quantos concertos na cave da Igreja que se tornam memoráveis e razão para marcarem a escassíssima paisagem musical de Queluz. Como Bible Toons perdem o Emanuel Conde mas ganham o Carlos Rodrigues e o Miguel Sousa (que também tinha passado a querer “música mais pesada”).
Já em 1998, e com os músicos na Faculdade, sentem pressão de um nome intelectualmente mais sólido: com muita inspiração vinda da audição atenta dos Heróis do Mar (uma banda maldita durante a década de 90) passam a chamar-se A Instituição e o som torna-se mais próximo de um punk mais maniento e menos adolescente. É desta época os concursos musicais (com um primeiro lugar no Festival de Música Moderna de Corroios de 1998), mas também será pouco depois que o combustível que turbinava o sonho da banda da adolescência chega ao fim. Num ensaio inglório de 1999, A Instituição termina tentando ensaiar uma canção que apropriadamente se chamava: “A Instituição é Uma Banda Sem Futuro” (o cinismo pós-moderno tinha substituído o panfletarismo religioso).
Mas ainda no finalzinho de 1999, a paragem não conseguiu ser duradora. Eu junto-me ao Guel e cravamos o adolescente de 14 anos, Filipe Sousa (primo do Guel e do Ricardo Oliveira) e o João Eleutério para fazermos Guel, Guillul & o Comboio Fantasma. A primeira canção será precisamente a canção que tinha tentado reanimar A Instituição, agora com um novo nome e letra: “Queluz Está A Arder”. Esse seria também o título do primeiro disco, gravado logo no Dezembro próximo. E é desta inesperada ressurreição que vem um padrão hoje tão próprio da FlorCaveira (editora que começaríamos precisamente nesse ano de 1999): às vezes é preciso uma aparente derrota para as coisas voltarem ao sítio certo.
O disco “Queluz Está A Arder” dá um tom fundamental a tudo o que seria o futuro da FlorCaveira. Não tanto pelo som mas mais pela atitude: falar muito a sério ou falar muito a brincar; gravar com o que se tem à mão; e crer sem reservas que o que estamos a fazer é definitivamente mais urgente de ser feito do que aquilo que os outros estão a fazer (isto não significa que não gostamos do que os outros fazem, simplesmente não nos parece o que mais precisa de ser feito). A editora torna-se tanto uma família como uma ideologia. Estão nela aqueles que cresceram juntos no sentido de a criar, como poderão vir a estar juntos nela outros que assumam os seus dogmas. E seria isso que viria a acontecer, nos inesperados e loucos anos de 2007, 2008, 2009 e 2010 quando, à boleia de um talento mais depurado dos Pontos Negros (a banda adulta do adolescente Lipe do Comboio Fantasma), a crítica nacional descobriu a FlorCaveira e dela fez uma improvável sensação.
Antes de dar o salto para 2017, vale a pena dizer que dez anos antes os Lacraus tinham sido a banda criada para tentar canalizar os espíritos do Comboio Fantasma, parados desde 2003. Os Lacraus tiveram mil e uma formações. Foram eu e o Guel sozinhos (numa espécie de Black Keys); foram eu, o Guel e o Ricardo; foram por vezes eu, o Guel, o Ricardo e o Filipe; e, como formação mais clássica, foram eu, o Guel, o Ricardo e o Ben (que substituiu o Lipe, quando ele se quis dedicar aos Pontos Negros) – foi destes quatro que saiu em 2011 o disco “Os Lacraus Encaram o Lobo”.
Em 2017 os Lacraus são menos as suas formações concretas e mais aquilo que, no meio delas, teima em persistir: um grupo de família e amigos. Neste disco que agora escutam, os Lacraus são eu, o Guel, o Ricardo, o Lipe, o Tiago Ramos e o João Eleutério. A coisa bonita é que nestes seis tipos está reunida quase a totalidade d’A Instituição/Bible Toons (falta o Carlos Rodrigues) e está totalmente reunido o agrupamento conhecido por Guel, Guillul & o Comboio Fantasma. Foi também esse embalo de nos vermos novamente todos juntos que contribuiu para que tirássemos um tempo para irmos às cassetes e aos velhos CDs escolher uns quantos números do passado que mereciam ser regravados com a ternura dos (quase) quarenta. Quando já se toca há quase um quarto de século, já não é preciso arranjar grandes pretextos – é fazer e pronto.
Este disco reúne canções deste período de quase 25 anos de música. E isso diverte-nos. Geralmente os discos de 25 anos de carreira são discos de êxitos conhecidos por toda a gente. Conosco isso é impossível porque sempre andámos nos subterrâneos musicais. Temos tido aqui e ali um ou outro vislumbre daquilo que é a música recebida por massas (mais o Lipe com os Pontos Negros), mas, passado este tempo, não estamos assim tão distantes do lugar onde começámos. E isso não nos sabe mal. Se soubesse, não teríamos energia para regressar a canções antigas.
Tentámos ir buscar um pouco de tudo e por isso diz-nos muito ter, por exemplo:
– uma gravação do “Joãozinho” (uma canção que imita em modo teen-evangélico os Nirvana imitando os Vaselines), que fez parte da primeira maquete dos Metanóia, em 1993. Caramba, nada se perde – tudo se transforma!
– Por outro lado, o “Não Sei” foi gravada aqui numa versão menos pop-punk nineties como era a original, de 1997.
– A partir daí nota-se como o Comboio Fantasma apurou os exageros para uma fórmula que, estando ainda de pés no punk, já se sentia confortável no good old rock’n’roll. O “Eram três”, de 2000, foi provavelmente a primeira canção mais clássica que gravámos, que tanto dava Velvet Underground como Tom Petty.
– Depois, a canção “Há Sangue na Tua T-Shirt” já é da pena dos Lacraus, no período de início do uso do nome, por volta de 2005 (e incluída na tal mítica compilação “Cinco Subsídios para o Panque-Roque do Senhor”).
– Seguem-se depois três canções que, tendo integrados discos meus a solo, mereciam um tratamento mais springsteeniano: a “Da Fuga para a Mágoa”, que tinha sido um outtake do “V”, agora rebatizada para “Só os Anjos Dançam Contigo em Segredo”; a “Os Rapazes do Pouco Fazem Fogo”, originalmente do disco “Amamos Duvall”; e “Pousaste os Auscultadores”, do primeiro disco da Xungaria no Céu, originalmente cantada pelo Alex D’Alva Teixeira.
– Aproveitámos para juntar uma canção nova, “Sacode o Pó das Tuas Asas”, já que Bruce tinha sido invocado.
– Como extra, incluímos o nosso clássico dos clássicos, impossível de ser regravado e, por isso, na sua imperfeita versão original perfeita: “Queluz Está a Arder”.
Como título deste disco indica, este é um velho arsenal. Não deixa de ser curioso que os nossos parceiros de guerra sejam a revista Scream & Yell. Não quero teorizar muito sobre esta mudança de mira para o Brasil – aconteceu assim porque tinha de acontecer. Mas gostava de pensar que, por barulhentas que sejam as nossas armas, ainda conseguem fazer algum fogo. São vinte cinco anos de explosões. Deus é bom e, por causa de Cristo, o Espírito ainda queima. See ya in the pit.
DOWNLOAD GRATUITO: baixe “O Velho Arsenal dos Lacraus” em MP3 320 via Mediafire aqui
Ouça o disco online no SPOTIFY, no DEEZER ou em seu player favorito!

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– Entrevista – Tiago Cavaco (2015): “Canto em português porque sou português“
– Tardes Scream & Yell na Sensorial: Tiago Cavaco, Marcelo Perdido, Felipe S ao vivo
CATÁLOGO COMPLETO DO SELO SCREAM & YELL
Dados de downloads: aferição em 11/09/2026
SY00 – “Canção para OAEOZ“, OAEOZ (2007) com De Inverno Records 251 downloads
SY01 – “O Tempo Vai Me Perdoar”, Terminal Guadalupe (2009) 263 downloads
SY02 – “AoVivo@Asteroid”, Walverdes (2011) 1.346 downloads
SY03 – “Ao vivo”, André Takeda (2011)
SY04 – “Projeto Visto: Brasil + Portugal” (2013) 306 downloads
SY05 – “EP Record Store Day”, Giancarlo Rufatto (2013)
SY06 – “Ensaio Sobre a Lealdade”, Rosablanca (2013) 164 downloads
SY07 – “Ainda Somos os Mesmos”, um tributo à Belchior (2014) 20.386 downloads
SY08 – “De Lá Não Ando Só”, Transmissor (2014) 5.392 downloads (streaming)
SY09 – “Espelho Retrovisor”, um tributo aos Engenheiros do Hawaii (2014) 29.617 downloads
SY10 – “Projeto Visto 2: Brasil + Portugal” (2014) 717 downloads
SY11 – “Somos Todos Latinos” (2015) 5.061 downloads (streaming)
SY12 – “Mil Tom”, um tributo a Milton Nascimento (2015) 30.335 downloads
SY13 – “Caleidoscópio”, um tributo aos Paralamas (2015) 7.918 downloads (streaming)
SY14 – “Temperança” (2016) 1.305 downloads (streaming)
SY15 – “Ainda Há Coração”, um tributo à Alceu Valença 3.422 downloads (streaming)
SY16 – “Brasil También Es Latino” (2016) 2.088 downloads (streaming)
SY17 – “Faixa Seis” (2017) 614 downloads (streaming)
SY18 – “Sem Palavras I” (2017) 1.094 downloads (streaming)
SY19 – “Dois Lados”, um tributo ao Skank (2017) 25.677 downloads
SY20 – “As Lembranças São Escolhas”, canções de Dary Jr. (2017) 623 downloads
SY21 – “O Velho Arsenal dos Lacraus”, Os Lacraus (2018) 321 downloads
SY22 – “Um Grito que se Espalha”, um tributo à Walter Franco (2018) 1.626 downloads (streaming)
SY23 – “A Comida”, Os Cleggs (2018) 102 downloads
SY24 – “Conexão Latina” (2018) 491 downloads (streaming)
SY25 – “Omnia”, Borealis (2019) 233 downloads (streaming)
SY26 – “Sem Palavras II” (2019) 4.710 downloads (streaming)
SY27 – “¡Estamos! – Canções da Quarentena” (2020) 584 downloads
SY28 – “Emerge el Zombie – En Vivo”, El Zombie (2020) 213 downloads
SY29 – “Canções de Inverno – Ivan Santos & Martinuci” (2020) 251 downloads (streaming)
SY30 – “SIEMENSDREAM”, Borealis (2020) 301 downloads (streaming)
SY31 – “Autoramas & The Tormentos EP”, Autoramas & The Tormentos (2020) 604 downloads
SY32 – “O Ponto Firme”, M.Takara (2021) 248 downloads
SY33 – “Sob a Influencia”, tributo a Tom Bloch (2021) 311 downloads (streaming)
SY34 – “Pra Toda Superquadra Ouvir”, Beto Só (2021) 223 downloads (streaming)
SY35 – “Bajo Un Cielo Uruguayo” (2021) com Little Butterfly Records 227 downloads (streaming)
SY36 – “REWIND” (2021), Borealis 278 downloads (streaming)
SY37 – “Pomar” (2021), Vivian Benford 205 downloads
SY38 – “Vizinhos” (2021), Catalina Ávila 195 downloads (streaming)
SY39 – “Conexão Latina II” (2021), Vários artistas 264 downloads (streaming)
SY40 – “Unan Todo” (2022), Vários artistas 347 downloads (streaming)
SY41 – “Morphé” (2023), Rodrigo Stradiotto 55 downloads (streaming)
SY42 – “Paranoar” (2023), YPU (com Monstro Discos) 444 downloads (streaming)
SY43 – “NO GOD UP HERE” (2023), Borealis 124 downloads (streaming)
SY44 – “Vou Tirar Você Desse Lugar”, Cidadão Instigado & Plástico Lunar (2024) – Com Allegro 226 downloads
SY45 – “Smoko” (2024), Smoko 164 downloads (streaming)
SY46 – “Trilhas Sonoras para Corações Solitários” (2024), Hotel Avenida 146 downloads (streaming)
SY47 – “El Retorno de Senicio” (2025), Duna Riders 79 downloads (streaming)
SY48 – “Smoko Vol. 2” (2025), Smoko 98 downloads (streaming)
SY49 – “LOSTWAVES” (2025), Borealis 79 downloads (streaming)
SY50 – “Ensaio Sobre a Urgência” (2026), Terminal Guadalupe – com 8-Bics 256 downloads
Discos liberados para download gratuito no Scream & Yell:
01 – “Love Hurts”, Selo Urbanaque (2011) 260 downloads
02 – “Natália Matos”, Natália Matos (2014) 1.998 downloads (streaming)
03 – “Gito”, Antônio Novaes (2015) 1.649 downloads (streaming)
04 – “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas”, de Leonardo Marques (2015) 659 downloads (streaming)
05 – “Inverno”, de Marcelo Perdido (2015) 4.584 downloads (streaming)
06 – “Primavera Punk”, de Gustavo Kaly e os Hóspedes do Chelsea feat. Frank Jorge (2016) 44 downloads
07 – “Volume 11”, 11 bandas de Porto Alegre (2017) 822 downloads
08 – “Consertos em Geral”, de Manoel Magalhães (2018) 91 downloads (streaming)
09 – “Toda Forma de Adeus”, Jotadablio (2023) (streaming)
10 – “Papai Noel Chegou”, Selo Urbanaque (2023) 55 downloads
11 – Tributo: “Raimundos – Eu Quero É Rock!” (2015/2026)

Sabe que eu gostei muito…