Três discos: Bemti, Holger, Paola Kirst

por Renan Guerra

“era dois” – Bemti (Independente)
O amor em suas múltiplas vertentes é o fio condutor que leva o mineiro Bemti a um passeio pelo pop e pela MPB em sua estreia “era dois” – estilizado em caixa baixa. O disco é “multi” em diferentes frentes: poética, sonora e culturalmente. O ponto de vista gay de Bemti, por exemplo, é muito forte na poética das canções, mesmo assim, elas assumem em sua maioria uma perspectiva universalizante. Outro exemplo de multiplicidade: as músicas partem da viola caipira para assumir um caráter pop, há como que uma intersecção entre o interior do Brasil e certa urbanidade, advindo da inserção de outros elementos sonoros. Já num sentido cultural, há mais um ponto a se destacar: as diferentes participações vindas de lugares distintos – Johnny Hooker e Marisa Brito, do Pará; Tuyo, do Paraná; e Natália Noronha, do Rio Grande do Norte. Dentre essas participações destaca-se a conversa entre a voz suave de Bemti ao lado do canto rasgado de Hooker na excelente “Tango”, criando assim um jogo quase de sedução. Já a parceria com Noronha (da Plutão Já Foi Planeta) em “Às Vezes Eu Me Esqueço de Você” soa rasteira e quase cafona em sua eletronice, sendo certamente o ponto mais baixo do disco. Já “Outro”, ao lado de Tuyo, encerra o disco em um momento de suntuosa beleza, através de sua languidez. No todo, “era dois” funciona como uma bela apresentação de Bemti, que se mostra um compositor sincero e delicado a abordar o amor sob um viés extremamente pessoal, sem medo de expor suas fraquezas e seus anseios. Para se ouvir de peito aberto.

Nota: 7,5

“Relações Premiadas”, Holger (Balaclava Records)
O Holger já apresentou muitas facetas desde seu surgimento lá em 2008: já foi expoente de uma espécie de micareta indie, passou por fases mais solares e chega agora ao seu quarto disco de forma crua, bem menos pop que em suas incursões anteriores. “Relações Premiadas” é rápido, são curtos 25 minutos onde se versa sobre tensões, medos e falhas de forma bastante coesa. Gravado, em sua maioria, ao vivo em um sítio durante o mês de julho de 2017, o disco consegue ser certeiro ao captar as angústias do nosso tempo, para isso cria-se um cenário sonoro quase lo-fi, onde o barulho e a desordem formam uma espécie de pop torto e inconstante. É a primeira vez que a energia quase frenética do Holger ao vivo consegue ser captada em disco: há uma espécie de confusão e de troca entre a banda que surge bem expressa nesse álbum. As inicias “Não Posso Aceitar” e “Preciso Acordar” são quase mântricas em suas repetições e, por isso mesmo, cativantes. De todo modo, os destaques ficam por conta de “Coragem”, que conclama a manutenção desse sentimento tão necessário; e a barulhenta “Se Não Der Mais”, que precisa ser escutada em volume máximo. “Relações Premiadas” acaba sendo um álbum que não se esperava do Holger e por isso é tão cativante vê-los entregues em um disco rasgado, forte e que tem ganas de qualquer coisa que não seja o mais do mesmo.

Nota: 8

“Costuras Que Me Bordam Marcas na Pele”, Paola Kirst (Escápula Records)
Na reta final do ano, a gaúcha Paola Kirst nos surpreende com o lançamento de sua intensa estreia “Costuras Que Me Bordam Marcas na Pele”. Seu show no Festival Morrostock, em 2017, já tinha sido um curioso aperitivo, porém seu disco de estreia é ainda mais cativante do que a expectativa prometia. Produzido, gravado, mixado e masterizado por Wagner Lagemann, “Costuras…” foi criado em uma semana, quando os artistas fixaram residência na casa-estúdio Pedra Redonda, em Porto Alegre, gravando muitas canções praticamente ao vivo. No trabalho, Paola é acompanhada pelo Grupo KIAI, donos do excelente disco instrumental “Além”, também lançado esse ano pela Escápula Records. Essa parceria cria uma sonoridade que conversa com o jazz, o afrobeat e toda uma gama de sonoridades oriundas da MPB. A delicada “Pão de Mel”, que abre o disco, tem potencial pop para hit alternativo; já na sequência entra a excelente e jazzística “Crendice”, com seu caráter mais arrojado. “Charlie 04” já é forte e mostra a potência vocal de Paola, algo que a aproxima de cantoras como Juçara Marçal, por exemplo. Força, aliás, é uma palavra que demarca o disco por inteiro; mesmo em seus momentos mais delicados, ele é construído pela força artística de Paola, que consegue trazer ar novo em canções que poderiam soar frugais em outras vozes. Fato é que se deve ouvir “Costuras Que Me Bordam Marcas na Pele” de forma atenta, dando espaço para que sejamos atingidos por Paola Kirst de todos os modos.

Nota: 8,5

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– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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