Cinema: “Roma”, de Alfonso Cuarón

Resenha por Renan Guerra

Colonia Roma é um bairro de classe média próximo ao centro da Cidade do México. Foi nessa localidade que o cineasta Alfonso Cuarón cresceu e onde agora toma vida o seu longa “Roma” (2018), lançado diretamente na Netflix. Espécie de colcha de retalho de memórias, o longa é um retorno de Cuarón ao México depois do sucesso de “Gravidade” (2013), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor (e outras seis estatuetas).

“Roma” acompanha o circular dia a dia da empregada Cleo num casarão de classe média, enquanto cuida dos filhos dos patrões e vive nesse eterno jogo de ser “quase da família”. Ela é o elo central do filme, sendo os dramas da família os eixos laterais, sempre às margens. Nesse sentido, o longa se inicia com a ida do patriarca para uma viagem de trabalho ao Canadá, após isso o espectador acompanha o não-retorno dele, a perspectiva da esposa possivelmente abandonada e as relações com as crianças; paralelamente, vê-se Cleo se envolvendo em uma relação amorosa conturbada, que influi no seu cotidiano de trabalho.

Muitas críticas, inclusive em grandes portais brasileiros, repetem a bobagem de dizer que “Roma” quase não tem história ou que pouco acontece no filme. O ritmo do filme é realmente mais contemplativo e bastante distinto das cartilhas hollywoodianas, porém as mais de duas horas da trama acompanham uma dezena de acontecimentos que formam o todo dessas personagens: são quase um ano na vida de Cleo e de sua família de patrões, nesse meio tempo todos os personagens se transformam e se modificam de diferentes formas pelos acontecimentos apresentados. Para um público extremamente acostumado a perseguições e explosões, pode parecer que um carro tentando entrar na garagem ou uma ida ao cinema não são necessariamente “histórias” em si.

Em inúmeros textos também se observa uma constante comparação entre “Roma” e o brasileiro “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert. A comparação surge sempre pelo caráter mais explícito das tensões de classe do longa nacional em comparação com o de Cuarón. Em “Roma” as tensões de classe conduzem o filme, mas elas não são questionadas ou implodidas, é como se Cleo vivesse num círculo do qual não conseguiria sair – o que não deixa de ser uma realidade de uma grande parcela da população latino-americana. Idealizar uma ascensão social através da tomada de consciência daquela família seria como reescrever o passado com o olhar de hoje. Já o filme de Anna Muylaert reflete o nosso tempo e por isso tensiona essas questões de outro modo.

Em perspectiva, “Roma” se comunica mais com “Santiago” (2007), documentário de João Moreira Salles, em que o diretor constrói um retrato delicado sobre o personagem título, que foi mordomo de sua família durante 30 anos. Em determinado momento do filme, Salles compreende que durante todo o filme, fossem utilizados os mais diferentes artifícios possíveis, ele sempre era a figura do patrão perante Santiago, e ele sempre se resguardava ao seu local de empregado. Uma lógica opressora e obsoleta, mas extremamente latente que reverbera também em “Roma”: Cleo tem medo de ser demitida, tem medo de uma vida fora daquela casa, não vislumbra outras perspectivas além e isso cria uma personagem resignada e quase passiva perante alguns fatos.

As personagens femininas de “Roma” habitam dentro desse status quo dos anos 1970 e, por isso, esse retrato é tão acurado e tão complexo: Cleo e a patroa tem seus defeitos; uma é quase subserviente, a outra tem arroubos de descontrole; porém ambas se irmanam na solidão, no enfrentamento de um mundo que diz que a mulher é sempre menos. E nisso, as personagens se mostram fortes ao seguirem firmes apesar de qualquer cenário intempestivo.

A maternidade, nesse universo criado por Cuarón, assume perspectivas múltiplas: há a maternidade desejada, bem-quista; a maternidade forjada nas relações cotidianas, aparte dos laços sanguíneos; e há o não-desejo pela maternidade, tudo isso orbitando sob o espectro feminino. Ainda hoje há uma cultura que relega a maternidade a uma potência quase sacra e qualquer mulher que tente desamarrar-se disso é vista como menos digna. É nisso que o filme de Cuarón é perspicaz, já que aquelas mulheres se mostram fortes e dignas ao assumirem suas idiossincrasias.

As escolhas estéticas de Cuarón são fortes, e, não à toa, a produção liberou um “manual” de como assistir ao filme “corretamente” em sua própria TV via Neflix. Desde a escolha pelo preto e branco até os longos takes panorâmicos em plano-sequência, o apuro estético é até mesmo visto por muitos detratores como o elo problemático de “Roma”, pois a frieza (ou passividade) da câmera perante tudo seria como o álibi do diretor para não assumir posições mais pertinentes perante as tensões que surgem na tela e quase nunca eclodem. De todo modo, é essa composição que cria uma mística especial ao filme, já que cada take cria composições densas e profundas, que desenham um panorama amplo da sociedade mexicana e, por conseguinte, de toda a cultura latino-americana.

A câmera comumente sai de um pequeno quadro e de repente abarca situações extremamente maiores. Por exemplo, Cleo desce do ônibus e, de repente, o ângulo abre e engloba a toda uma comunidade pobre das periferias da Cidade do México, com sua falta de saneamento básico e, até mesmo, uma espécie de circo político armado ao fundo. Em outro momento, uma compra simples em uma loja apresenta um panorama doloroso sobre as manifestações estudantis e a repressão política. Os quadros escondem e mostram coisas que transformam o espectador atento a um voyeur, a ver de longe. E assim, enquanto a família sofre, vemos um casamento ao fundo; ou enquanto Cleo sofre uma desilusão amorosa acompanhamos uma típica matinê nos antigos cinemas de rua.

São pequenas composições que (re)criam um universo único, quase palpável, dando pano para compreendermos muito das sociedades latinas atuais, com todos os joguetes políticos e todas as complexidades sociais. Mas é inegável que essa amplitude também acaba resvalando na superficialidade, já que a câmera mira muitas dessas coisas, mas a maioria dela não é aprofundada, são apenas memórias passageiras – o que também não é necessariamente o caso de ser certo ou errado, já que o filme busca reconstruir memórias de um Cuarón criança. Mesmo assim, algumas tensões poderiam ser muito mais latentes: a cultura indígena de Cleo perante a família branca da cidade, o machismo, as relações de classe, os problemas políticos do México, como a demarcação de terras, todas pontas de icebergs que Cuarón apenas exibe sorrateiramente, dando pano para que o público faça suas próprias análises posteriores, pois o fundamental em “Roma” é vivenciar essa experiência ao lado daqueles personagens.

Para isso, o apuro estético do diretor cria cenas de beleza incontestável, como a sequência do mar – que ilustra o cartaz do filme –, a sequência da maternidade e a sequência de Cleo ao lado de uma das crianças no topo da casa (uma espécie de lavanderia – área de serviço das casas mexicanas). Essa última passagem é de uma beleza lancinante em sua simplicidade e destreza, que logo no início do filme já mostra que a atriz Yalitza Aparicio é uma estrela poderosa, de delicada atuação, em sua construção de Cleo. Além de Yalitza, Marina de Tavira como a patroa Sofia também é certeira na construção de uma mulher que oscila entre a desilusão e a força. Ainda se destaca a naturalidade de todas as crianças, que trazem um efeito forte de naturalismo ao filme.

Yalitza Aparicio até já está sendo cotada para a categoria de melhor atriz no Oscar de 2019, sendo que foi escolhida como a melhor atuação do ano em lista da revista Time. Yalitza é de ascendência mixteca, uma das minorias ameríndias do México, assim como sua personagem Cleo, tanto que no filme ela fala em determinadas cenas o idioma Mixtec. A jovem de 25 anos era professora infantil em Oaxaca quando foi descoberta por Cuarón, fazendo sua estreia aqui em “Roma”. Considerando a história e a ascendência de Yalitza, é importante reconhecer os espaços que ela tem assumido depois do filme: ela já posou para as lentes da Vanity Fair e é a capa da edição de janeiro da Vogue México, o que não é pouca coisa se pensarmos que o mundo da moda ainda tem muitos passos a dar no sentido da representatividade.

No final das contas, com todo esse burburinho, é inegável que “Roma” é um acontecimento cinematográfico e, por isso mesmo, é compreensível que muitos lamentem o seu lançamento direto no Netflix – a empresa até organizou algumas sessões em salas de cinema, porém concorridíssimas e com ingressos esgotados rapidamente. O ponto é: veja como for, na TV, no computador, no ipad, mas veja e deixe-se levar pela câmera de Cuarón, deixe-se banhar por esse universo que ele apresenta. São duas horas ao lado de Cleo e de sua “família” em que identificamos as nossas dores, os nossos medos e vemos que a solidão é um sentimento universal.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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