texto de Leandro Luz
A competição de longas-metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi marcada por uma variedade considerável de estilos e de gêneros. Compuseram esta mostra sete filmes que, em seu conjunto, demonstraram como o cinema brasileiro está forte e é capaz de se renovar. É o caso de duas cineastas, Fernanda Salgado e Denise Vieira, com os seus longas-metragens de estreia: “Ana, en Passant” e “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, respectivamente. Renovação esta que também parte de aventuras (no bom sentido) empreendidas por realizadores já amadurecidos, como os novos filmes de Daniel Nolasco (“Pequenas Tragédias”), Ary Rosa e Glenda Nicácio (“Todo o Sentimento”), Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner (“Privadas de Suas Vidas”) e André Novais Oliveira (“Se Eu Fosse Vivo… Vivia).
Diante da enorme diversidade identificada no conjunto, há elementos que se destacam. Um deles é o temperamento dos filmes. O uso do humor como fio condutor da ironia (Nolasco), como potencializador do drama e do horror (Vinagre e Gewdner) ou como fixação da representação do amor no cotidiano (Novais Oliveira) foi algo que chamou a atenção do público e da crítica. Embora nem todos os filmes tenham escolhido navegar por esta trilha, esta é a impressão geral que perdura. Outro elemento importante na costura dos filmes – algo que pôde ser constatado com mais nitidez apenas no último dia de Festival – é a ideia de deslocamento. Cada filme, a seu modo, lida de um jeito com esse trânsito, que pode tanto ser geográfico, mas principalmente temporal. “Tudo É Tempo” (Marcos Guttmann, 2026), terceiro filme da competição a ser exibido e premiado pelo júri popular como melhor longa-metragem, certamente é o maior expoente disso.
O documentário de Guttmann começa em 2002, na iminência das eleições presidenciais que coroaram Lula presidente do Brasil pela primeira vez após três tentativas que o deixaram na segunda posição (1989, 1994 e 1998). Empunhando a sua câmera, o cineasta decide encontrar personagens que, em comum, têm apenas o fato de votarem em uma mesma zona eleitoral, a saber, o Colégio Pedro II, uma instituição de ensino público federal localizada no Rio de Janeiro. Pelo menos é o que fica impresso na primeira metade do filme. A premissa era acompanhar esses personagens por quatro anos e identificar, após o término do mandato do presidente vencedor, que tipos de mudanças impactaram essas pessoas e, consequentemente, a partir da lógica metonímica, também impactaram o Brasil. Com o ciclo completo, Guttmann percebeu a insuficiência de suas escolhas. Se quatro anos não foram o suficiente para dar a ver transformações profundas no íntimo dessas pessoas e na sociedade brasileira, que tal vinte anos, então?
Cristiane Magalhães Rosa, médica infectologista de classe média – ela mesmo tem dificuldades para se enquadrar dentro das divisões de classe no Brasil – é a primeira personagem que viaja no tempo para, de antemão, anunciar ao espectador que a expectativa da mudança prevista por Guttmann não será frustrada. A montagem de Arthur Frazão faz tocar um áudio de WhatsApp logo no início do filme, dando a ver as contradições anunciadas. Ela reclama com o cineasta, frustrada com as suas falas do passado e com receio de que elas firam a sua filosofia política atual. A opção por trazer esse áudio de antemão soa tanto como insegurança do realizador, no sentido de garantir ao espectador que há movimento em seu filme, quanto como uma estratégia para forçar o espelho quebrado proposto ao final.
Os outros três personagens são Carlos Eduardo Ibrahim, filho de um líder sindical e ex-preso político, nascido no Panamá durante o exílio dos pais, Fernando Pereira, morador da Cidade de Deus e representante da classe trabalhadora carioca, e Heber Cunha, que se define como poeta e desempregado – praticamente um nômade, como veremos a seguir. Junto com Cristiane, eles são acompanhados pela câmera e pela curiosidade de Guttmann, que estabelece um vínculo dificílimo através dos anos.
Enquanto o filme se concentra nos primeiros quatro anos, as descobertas sobre esses personagens são fascinantes. Cristiane destaca a sua formação política em movimentos estudantis, mas votou na direita em 2002 (Serra) e em 2006 (Alckmin). O seu arco é certamente o mais inesperado, de liberal a ativista do ecossocialismo, eleitora confessa de Lula em 2022, que se esforça para entender suas próprias opiniões políticas do passado. Carlos nasceu no berço da política e tem orgulho de dizer que o seu principal objetivo é viver disso. Apesar (ou em função, na verdade) do histórico familiar, assim como Cristiane, acha que a candidatura do PT não está pronta para encarar os desafios do país. Votou na direita. Fernando e Heber, por sua vez, declararam voto no Lula tanto em 2002 quanto em 2006. Os dois transmitem ideias muito comuns para nós, brasileiros: o primeiro acredita na força do próprio trabalho – “meu braço esquerdo e meu braço direito”, como afirma em determinado momento -, mas sem deixar de reconhecer como o preço do quilo de arroz baixou em quatro anos de governo progressista; o segundo é o mais complexo (e engraçado) do conjunto, apresentando um discurso quase anarquista, repleto de contradições maravilhosas.
Heber questiona a tudo e a todos (sobretudo o próprio filme de Guttmann). Em uma das cenas mais interessantes do documentário, na qual o diretor coloca os quatro personagens juntos pela primeira e única vez, Heber aponta, inclusive, as contradições dos outros – o embate principal, aqui, é com Carlos, exibindo um debate que nós, espectadores, estamos doidos para participar. Como um filho da tortura é capaz de defender uma candidatura de direita? Mais adiante na trama, ele também irá questionar a si próprio, notando com surpresa as suas contradições particulares. É um personagem fascinante, carismático, responsável por boa parte do humor presente no documentário. Também é dele a reflexão mais valiosa, sobre o sentido da palavra “esperança”. Ele nega essa noção de confiança no futuro e aponta, ao invés dela, uma preferência pelo conceito de “fé” – do ponto de vista filosófico, não exatamente religioso. Segundo ele, é impossível confiar no futuro. A sua capacidade de viver o presente é inspiradora, mas também triste. Nos lembra da nossa insignificância. Paralelamente, nos instiga a tentar mudar o presente.
Com o passar dos anos e com a consciência de que o seu filme precisa de mais tempo para iluminar quaisquer reflexões mais profundas sobre o Brasil, Guttmann passa a acompanhar Cristiane, Carlos, Fernando e Heber com elipses mais frouxas. Ele chega a abrir a câmera nas eleições de 2018, na ocasião da chegada do fascismo ao governo, mas não faz contato com todos. É apenas em 2022 que o filme reencontra todo mundo e, nesse momento, percebemos como Guttmann perdeu um pouco o prumo. Em um diálogo com Carlos no meio da rua, o cineasta contesta seu personagem, desafiando-o a entrar em contradição. A resposta é agressiva. Carlos conta de um acidente que o levou a ter uma dupla hemorragia na cabeça. O assunto se encerra ali. O cineasta recua, meio arrependido. Um momento constrangedor. Guttmann não sabe o que está fazendo – ou se perde momentaneamente.
A visita à casa de Fernando em 2022 é outro momento marcante. Flertando com o bolsonarismo, ele nos conta que deixou a velha casa para os filhos. Lá chegando, vemos que a porta está enfeitada com uma toalha do Lula. Os mesmos cômodos que conhecemos em 2002 estão completamente diferentes vinte anos depois. As paredes estão muito bem pintadas, a cozinha equipada com eletrodomésticos modernos e o banheiro tinindo de novo. Talvez tenha sido neste instante que o público do Cine Brasília assumiu o seu favoritismo por “Tudo É Tempo”. Com o seu filme, Guttmann atesta o óbvio ululante: o Brasil passou, sim, por mudanças significativas na qualidade de vida dos brasileiros nessas duas últimas décadas. É a sombra, no entanto, que fica ainda mais imponente: se nem assim conseguimos nos afastar do fascismo, que raios podemos fazer para encontrar a saída?

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
