texto de Leandro Luz
As escolhas estilísticas em “Pequenas Tragédias” (Daniel Nolasco, 2026) convocam para si a sensatez de se combater a ideia do “filme de tema importante”. Nolasco sabe muito bem que, ao falar de si e de Catalão, sua cidade natal localizada no interior de Goiás, também está em diálogo com os interiores do Brasil – ou com “as dores do mundo”, para telegrafar uma conexão improvável com outro filme da mostra competitiva brasileira do Festival de Brasília deste ano, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” (André Novais Oliveira, 2026), que, assim como o filme de Nolasco, combina humor com uma melancolia profunda. O que diferencia, portanto, este filme de seus pares que se dizem “urgentes” ou “necessários”? Uma vez que “Pequenas Tragédias” se estrutura diante de prólogo, cinco capítulos, entreato e epílogo, podemos espelhar a sua forma neste texto (os títulos elencados abaixo não são os mesmos do filme, vale o aviso).
Prólogo. Crescer em uma cidade do interior tem as suas peculiaridades. Crescer como um homem gay diante do conservadorismo dessa mesma cidade, mais ainda. Nolasco apresenta-se em sua obra por meio da interpretação de dois atores, um que utiliza todo o corpo para se expressar, outro que, por meio da narração, revela informações pessoais e fatos daquele território com a boca cheia de ironia. O duplo-Nolasco nos conta de sua origem: uma família simples do interior, tios e tias que veem televisão na sala de estar, um irmão descrito como “sangue ruim”, apresentado de um jeito e representado de uma maneira oposta (o artifício do paradoxo estará sempre presente na obra).
Capítulo 1: a memória também inventa. Duplo-Nolasco nos conta sobre a sua educação sentimental. No centro de um descampado, vemos uma TV (seria a mesma atirada com força na estrada em “Apenas Coisas Boas”, filme anterior do cineasta?) e uma família sentada no sofá assistindo ao seriado “Barrados no Baile” (“Beverly Hills, 90210”, Darren Star, 1990-2000). Na cena em questão, na qual a imagem na TV toma de assalto a tela do cinema, dois camaradas entram em um bar frequentado apenas por homens gays. Um logo percebe e fica apavorado, enquanto o outro ignora e, ao descobrir onde está, não demonstra tanto espanto assim. O pequeno Daniel ainda não entende completamente o que vê, indagando a família e recebendo o silêncio como resposta, mas são as imagens e as palavras que ficarão grudadas em seu hipotálamo. A ponte entre a memória e a emoção é um artefato poderoso.
Capítulo 2: desterro e carnaval. “Pequenas Tragédias” surge como um documentário e se torna um filme de ficção no processo de escrita do roteiro. Nolasco entende a importância da conjuração de quimeras e máscaras para navegar com sucesso pelos meandros da mágoa. Logo no início, uma cena brilhante: ao contar do primeiro emprego com carteira assinada no supermercado da cidade, os contextos de produção invadem a diegese; a equipe não fora autorizada a filmar dentro do estabelecimento nem a revelar o seu nome verdadeiro, obrigando os cineastas a usarem da criatividade para representar, tal como no teatro, tais ambientes. Eles acertam ao também confiarem na capacidade de abstração do espectador. Um salto de fé curioso e raro de se ver. É também logo no início que a noção de deslocamento nos é apresentada. O longa-metragem está completamente localizado no retorno a um lugar do qual o cineasta deixou há tempos. É uma sensação difícil de se descrever, mais ainda de se filmar.
Capítulo 3: quando as histórias se confundem com a História. Boa parte de “Pequenas Tragédias” trata de violências terríveis, sofridas pelo próprio cineasta ou pelos seus amigos. O gesto principal é tentar não usar da representação de uma violência similar para dar conta desses traumas. Quando nos é narrada uma história de um agressor, a câmera filma um banco, uma rua, uma fachada, jamais a agressão em si. Que tal se as imagens de violência forem trocadas por imagens de desejo e fantasia? No entrevero com a História, nos é dada uma aula (sem a característica didática da palavra) sobre a formação daquele território e das questões indígenas que o permearam. Este é também um filme sobre apagamentos e invisibilização.
Entreato. Tônus: “um corpo jovem / aquele tônus / aquele brilho / um corpo pronto pro verão / é ofensivo ao coração”. Corta para. Uma língua lambe um suvaco. Corta para. O sexo oral escondido pelo encostar de uma porta e por uma piada orientada ao distribuidor do filme. Hilária. Corta para. Saliva e músculos.
Capítulo 4: vento seco. Apesar do humor ser a principal ferramenta para que Nolasco consiga falar de todas as situações que elege para o seu filme, o que mais impressiona é a variação de tom. Com muita dinâmica, saímos da piada mais irônica para um sentimento profundo de tristeza. Mesmo quando se torna árido e dramático, “Pequenas Criaturas” nunca perde seu encantamento com as possibilidades que o cinema oferece. Nolasco sabe usar as referências em prol do seu cinema, e fica evidente como o seu olhar se aproxima da obra do alemão Rainer Werner Fassbinder, sobretudo nessa desafiadora maneira de lidar com as mudanças de temperatura entre uma história e outra.
Capítulo 5: reimaginando despedidas. Dois relatos chamam a atenção pela sua força dramática. Primeiro, a história de Monalisa, uma travesti que passou toda uma vida bebendo no mesmo posto de gasolina, sentindo a poeira da mesma rodovia, sem jamais furar as fronteiras impostas a ela. A essa personagem, Nolasco garante uma autonomia primordial. Monalisa sonha e canta a sua própria fuga. Já com Samuel, amigo de longa data do diretor-personagem, notamos todo o cuidado empreendido para que não se reproduzam preconceitos e para que a nostalgia não engula as possibilidades sinceras de despedida.
Epílogo. Isto deveria ter sido posto desde o princípio deste texto, mas a atuação de Guilherme Téo é fundamental para que o recurso metalinguístico de “Pequenas Tragédias” funcione. Além de reinterpretar com muito esmero a cadência bem característica de fala do diretor, ele ainda garante a conexão necessária com o espectador para que sejamos capazes de testemunhar toda a narrativa como cúmplices de um passado que, apesar de distante, nunca pode ser totalmente deixado para trás. Daniel Nolasco encontra equilíbrio, sem abandonar os excessos, entre uma lógica queer de se narrar uma história e a estranha sensação de se voltar para casa. Assim como em “Vento Seco” (2020) e “Apenas Coisas Boas” (2025), os elementos de erotismo e fetiche seguem em jogo para o diretor. Não obstante, o que fica mesmo na memória é o abraço da gerente do supermercado heterossexual, interpretada pela produtora e atriz Cecília Brito, em Daniel-personagem, após uma situação de perigo iminente. No plano final, o corpo exposto do agressor está a serviço do filme, não o contrário. Está revelada a chave para decifrar a tragédia.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
