Entrevista: Ary Rosa fala sobre “Todo o Sentimento”, filme seu e de Glenda Nicácio que imagina a vitória do golpe de 8/1/23

entrevista de João Paulo Barreto

Em um Brasil quase pós apocalíptico, no qual a tentativa do golpe de estado de 8 de janeiro de 2023 se concretizou e toda uma onda de conservadorismo, preconceito e perseguição tomou conta do país, “Todo o Sentimento” (2026), novo trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, apresenta um novo fôlego de luta dentro daquela realidade que requer resistência. “Para mim, não existe ficção maior que aquilo”, pontua o diretor Ary Rosa em entrevista ao Scream & Yell.

“Todo o Sentimento” revisita “A Ilha” (2018), um trabalho anterior da dupla mineira radicada em Cachoeira-BA, resgatando um personagem, Henrique. “Acho que é uma continuação”, provoca Ary, que revela que “revisitar os trabalhos, para mim, é muito sobre revisitar e repensar o Brasil”. Para o diretor, “o Brasil tem passado por transformações em naturezas, escalas e possibilidades inimagináveis que vão atualizando um pouco as obras e as reflexões sobre elas”.

Presente no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2026, onde a dupla foi celebrada em 2016 com “Café com Canela”, que arrebatou os troféus de Melhor Roteiro (para Ary Rosa) e Melhor Atriz (para Valdinéia Soriano), além do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, “Todo o Sentimento” destaca Henrique (Aldri Anunciação), um cineasta amargurado que, devido a um acidente, tornou-se cadeirante e precisará da ajuda de Gustavo (Lucas Leto) para poder

Nesse papo, Ary Rosa fala sobre o processo de construção deste novo trabalho. Confira!

No roteiro de “Todo o Sentimento”, você revisita um trabalho anterior seu e de Glenda, que é o “Ilha” (2018). Sem querer dar um spoiler em relação à inserção do filme de 2018, como foi esse processo de escrita e continuidade da história daquele personagem vivido por Aldri Anunciação?
Revisitar os trabalhos, para mim, é muito sobre revisitar o Brasil. Sobre repensar o Brasil. Desde que a gente começou a fazer cinema e o “Café com Canela” (2016) representa essa marca inicial, o Brasil tem passado por transformações em naturezas, escalas e possibilidades inimagináveis que vão atualizando um pouco as obras e as reflexões sobre elas. Então, tenho a sensação de que, muito mais do que um ato de falar de si mesmo, e de se pensar em si mesmo, é muito mais pensar as transformações de um país. Como esses personagens se transformam diante dessa realidade. Como o Brasil se impõe. Como o Brasil machuca. Como o Brasil vai te colocando em situações de o tempo inteiro ter que negociar. E esses personagens entram nessa ficção. Porque, a maior ficção de “Todo o Sentimento” é a parte inicial, que é a do 8 de janeiro (de 2023). Para mim, não existe ficção maior que aquilo, que entra como quase que um documentário, mas que está ali refletindo sobre um país que pode se transformar a qualquer momento e não se sabe muito para quais caminhos ele vai. Acho que a gente tem um período dos anos 1990 e anos 2000, onde o Brasil tinha um caminho que parecia que estava sendo traçado, e que imagino que a partir de 2013 e 2014 começa a mudar completamente essa previsibilidade narrativa do país. Acho que essa narrativa do país acaba atravessando. E revisitar personagens, revisitar histórias, é um pouco, também, parar para pensar sobre um país que se transforma e que nos obriga e fica nos colocando sempre nessa situação de ter que se transformar também.

Você citou o 8 de janeiro de 2023 e o filme traz esse senso distópico que tem nessa data seu estopim e a pergunta sobre o que poderia ter acontecido.
É isso, mas também sobre o risco iminente que pode acontecer. Porque é por muito pouco, né? Tudo pode acontecer por muito pouco. E acho que, pela primeira vez, também, a gente faz uma reflexão de como as coisas que acontecem fora do recôncavo baiano, que é esse microcosmos que criamos para a nossa narrativa, interfere, também. Atravessa, também. O que se decide em Brasília, o que acontece em Brasília, uma hora chega no recôncavo. E chega de formas que, aí, a imaginação pode render. Mas acho que tem um pouco dessa perspectiva de pensar um país que interfere no indivíduo. Decisões dessa escala majoritária que entram na nossa intimidade. Então, estamos fazendo essa reflexão. Acho que em outras obras nossas, também, já flertamos com isso. “Ilha” é uma delas, já inicia esse ponto. E nem acho que seja um spoiler falar de “Ilha”. Não sinto isso porque o personagem já está ali. Acho que é uma continuação. Não sei até que ponto conhecer “Ilha” vai interferir ou não (na leitura sobre “Todo o Sentimento”), se vai transformar. Porque, também, parte de uma perspectiva que eu não conheço porque estou internamente dentro do processo. E isso me causa muita curiosidade. Ver como esse filme vai bater para quem assistiu ao “Ilha”, para quem se lembra de “Ilha”, para quem não assistiu, ou para quem assistiu e já não lembra mais, como isso pode também interferir assim. Isso é interessante.

Lembro que a história do “Ilha” é citada em uma conversa de bar dentro de uma das cenas de “Até o Fim” (2020) e agora ressurge como um dos elementos da narrativa de “Todo Sentimento”. É interessante ver você e Glenda criando esse universo dentro de suas próprias histórias.
Para mim e para Glenda sempre foi muito valioso pensar o nosso trabalho como a construção de um universo. Mesmo. Pensando em filmografia, em obra. A gente já fez filmes como “Voltei!” (2020) e “Até o Fim”, que são filmes que a gente fez com do dinheiro do bolso, que a gente pagou, que a gente quis fazer porque sentimos necessidade de fazer. E essa é uma perspectiva de quem está construindo algo que não é só um filme. Cada vez que lançamos um filme, a gente se debruça sobre pensar esse filme. Mas, também, é muito gostoso poder pensar essa história que estamos construindo. Escolhemos ter uma linha de construção que é sobre o interior, que é sobre as questões raciais, que é sobre as questões de gênero. São muitas questões que vão atravessando, e acho que de formas diferentes em cada filme, seja pela comédia, seja pelo musical. Vamos mudando os gêneros, mas de alguma forma estamos sempre no mesmo lugar. Acho que essa reverência ao recôncavo baiano em paralelo a uma crítica social é o traço que escolhemos para o nosso trabalho. E essa sensação e essa vontade de criar algo. De que não é somente por um filme. É por uma estrutura que passa, sim, pela narrativa, mas também esbarra o tempo inteiro na sociedade. Esbarra em uma estrutura de produção. Esbarra no questionar os processos, em questionar o próprio cinema em si. Em questionar o preço que se paga por escolher trabalhar com cinema, que é um preço muito caro, muito difícil. E quando é no interior, ainda mais. Nosso cinema é muito periférico. Independente da história que estamos contando, a periferia está sempre colocada. A precariedade está sempre colocada. Não temos medo nem vergonha da precariedade. A precariedade é traço fundamental do próprio fazer cinema que nós escolhemos fazer.

Você falou sobre a questão de ir para a comédia, e “Todo o Sentimento” traz um tema bem sério, um desenvolvimento bem sério, mas há traços cômicos, principalmente na participação de atores como Jackson Costa, Frank Menezes, Arlete Dias, Alan Miranda e Wall Diaz naqueles programas de televisão. Eles são personagens assustadoramente reais e essa crítica que existe ali inserida de forma tão exacerbada, porém, ao mesmo tempo, tão sutil. Como foi essa construção daquelas pessoas?
Acho que o humor dialoga muito bem. Tem várias escalas e possibilidades de humor. Acho que esses personagens vêm como caricaturas reais que não estão tão distantes do que vemos ao ligar a TV, principalmente quando falamos desse sensacionalismo e dessa adesão, também, a um pensamento social e político que é simplificado, que é sempre nessa perspectiva mesmo de uma aderência a conceitos e a uma criação conservadora que se importa muito com a vida do outro. Sempre de forma genérica, mas o indivíduo. O certo e o errado. O homem de bem e o homem ruim. A mulher certa e a mulher errada. São esses conceitos muito maniqueístas que uma parte da TV e das construções da cultura acabam aderindo por uma simplificação e a caricatura funciona bem. Nem acho que seja caricatura de uma forma pejorativa. Mas no sentido de inverter o jogo de alguma forma, quem sabe, no olhar dessas figuras. Eles que são o hegemônico viram a caricatura.

Há um aspecto bem simbólico do filme em uma das falas do Aldri, que é quando ele fala da casa onde ele mora, sobre como a coisa mudou de figura e, hoje, ele é o dono daquele casarão. E o seu texto coloca isso de forma muito direta em perceber essa mudança. Queria te perguntar sobre a inserção desse momento e o simbolismo dele e para o filme em trazer justamente essa mensagem de resistência dentro da arte.
Tem essa coisa. Acho que ali é um pouco brincar sobre essa instabilidade de a gente uma hora estar por cima, outra hora estar por baixo. Você nunca conseguir ter uma perenidade. De não ser um caminho que você começa a trabalhar, vai conquistando, vai conquistando, vai conquistando, se aposenta e morre em paz. O Brasil, principalmente no campo das artes, não possibilita muito esse espaço. São sempre altos e baixos. Bons momentos e mal momentos. É o fim e a retomada. É sempre insegurança. Algo que passa pelo econômico, mas que também passa pelo criativo, que passa pelos espaços. Você está sempre sendo testado. Então, o cinema deu aquela casa para o Henrique, mas a sociedade vai lá e tira. Então vai dando e tirando, dando e tirando. Então, quando ele está naquela casa, ele olha para um passado que não é tão distante, mas que é uma fissura real na sociedade. É uma casa colonial onde possivelmente existiam senhores e escravos e tudo. Ele vai lá e, em algum momento, consegue dar a volta por cima e comprar aquele espaço. E ele faz questão de lembrar o que é aquele espaço, para não esquecer do passado. Porque o futuro sempre volta. Essa coisa rotativa que o Brasil impõe para a gente. Sobe, desce, sobe, desce, sobe, desce. É um pouco sobre isso. Sobre essa insegurança e essa impossibilidade de estabilização. É um país que não permite estar estável, de ter um percurso natural. Ele está no pior momento da vida dele, mas está em uma casa que ele comprou. Então, acho que tem toda essa relação de bens materiais que vão se perdendo, que vão sedo refeitos, sendo reconstruídos. E que já foi de um, que já passou pela decadência, então teve que vender e ele foi lá e comprou, Mas agora é a hora em que ele está na decadência, mas aquela casa tem outro sentido para ele. Ele fica lembrando que o mundo dá voltas e que a história é muito cruel.

Lembro que a montagem do “Ilha”, feita pelo Thacle de Souza e pela Poliana Costa, tinha um aspecto de rapidez, de cortes mais frenéticos. E agora, com o Renan Bozelli como montador, vocês optam por algo diferente, mais fixo, mesmo que o filme anterior seja referenciado.
Eles apontam para lugares diferentes e a linguagem acaba se transformando. Se no “Ilha” apontamos para uma transformação, para uma vontade que parte do personagem do Emerson, então, é uma câmera na mão, é uma câmera que o personagem está filmando. O personagem Thacle, que é o fotógrafo, também, está ali filmando. É um filme de movimento, um filme de ação. Já o “Todo o Sentimento” fala de um momento de paralisia. A paralisia surge de várias formas, inclusive na câmera. A câmera é fixa no tripé o filme inteiro. Só na última sequência, que é a da fogueira, que é a câmera na mão e voltamos a ter gostinho de “Ilha”. Mas é um filme parado, é um filme com tempo. É um filme diferente porque é um país diferente, porque são possibilidades diferentes. É o nosso único filme que é todo no tripé, que é todo com câmera estática, com planos abertos, onde a solidão está muito presente. E eu acho que tem esse contraste. São filmes que dialogam com o mesmo personagem, Henrique, que está nos dois filmes, só que a câmera performa, também, de acordo com o momento histórico e pessoal desse personagem. No “Ilha”, ele ainda tinha vida, ainda tinha sonho, ainda queria se transformar. Já em “Todo o Sentimento” ele já desistiu, ele já não tem mais o que fazer. Ele tem medo, não tem mais coragem.

Vocês e Aldri já possuem uma série de trabalhos juntos. Como é criar essa sinergia?
Eu adoro. Estamos no momento de gravação da série do “Café com Canela”, que estamos fazendo para o Canal Brasil, e estamos juntos com o Aldri novamente. A gente também já está finalizando o filme que ele dirigiu, que eu fui produtor executivo. É um grande parceiro. Uma pessoa que me inspira muito. Um ator genial. Genial mesmo. Dos melhores atores que eu já vi performar, de entendimento de personagem. É um dramaturgo. Então, também, tem a narrativa na cutícula da unha. Conhece bem o personagem que se propõe a fazer e é uma de inspiração maravilhosa. E é muito gostoso poder contrapor ele com o Lucas Leto, que é esse ator também incrível de uma nova geração que vem do Bando de Teatro Olodum e que agora chega na Globo, e que se mostrando como um grande ator que deve figurar nos próximos anos. Então, para mim é um é um encontro bonito e foi muito bom poder trabalhar com os dois em tempos diferentes, mas ambos com muita inspiração.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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