texto de Renan Guerra
1984, interior de Goiás. O acidente de um motociclista na estrada modifica a vida de um fazendeiro solitário que mora na região. Antonio (Lucas Drummond) resgata o ferido Marcelo (Liev Carlos) e o acolhe em sua propriedade. A conexão inesperada entre eles dá início a um romance profundo que desafia o mundo de ambos. A partir disso se desenrola a parte inicial de “Apenas Coisas Boas” (2026), novo filme do goiano Daniel Nolasco. Podemos adiantar, sem spoilers, que o filme tem uma espécie de virada em sua metade: de faroeste romântico passamos a uma espécie de thriller urbano. Dois momentos que nos convidam a um universo especial, com uma narrativa de ritmo e estética própria.

Fato é que há uns bons anos, uma parcela do cinema tem focado no realismo, do registro documental com câmera na mão dos filmes independentes até a busca por verossimilhança dos filmes de super-heroi. Num oceano de realidade, o cinema do goiano Daniel Nolasco é uma fenda imaginativa. Em seus filmes, o real cria bases para cenários estilizados, exagerados, fetichizados, construídos de forma anti-natural. Cores fortes, corpos sedutores e uma mise-en-scène bem marcada criam um universo único para que seus personagens trafeguem entre o desejo, a tensão, a violência, numa dicotomia entre a frieza da solidão e o calor do encontro. E talvez “Apenas Coisas Boas” seja seu experimento mais ousado nesse sentido. Seu primeiro longa, o excelente “Vento Seco”, era esteticamente vibrante e sedutor, mas ainda apresentava seu arco narrativo de forma mais direta. Aqui há um mistério, uma tensão quase árida.
Como adiantamos, “Apenas Coisas Boas” tem dois momentos bem distintos e isso pode até quebrar o filme, podendo ser um ponto negativo para certos espectadores – a mudança é bastante brusca entre as duas narrativas. Ainda assim é essa dicotomia que cria a tensão. No primeiro momento, o destaque está em Lucas Drummond, o fazendeiro Antonio. Sua construção é certeira, há uma dureza, uma estrutura bem estabelecida para seu personagem, mas é através dessa quase teatralidade que ele nos transmite o desejo, o medo, a incerteza e até mesmo a fúria. A firmeza da construção estética de Nolasco poderia facilmente engolir o ator, engessá-lo (o que até acontece com alguns personagens no filme), porém isso se transforma num trunfo para Drummond, algo que o define como a estrela do filme. Ele nos seduz, nos envolve e nos conduz – e talvez seja a sua falta que faça com que a segunda parte do filme diminua em potência.
De um lado temos um faroeste romântico e de outro um trilher urbano; entre esses dois, a ponte do desejo. O sexo e a paixão (ou fim dela) como um fio condutor que nos coloca nesse espaço em que desejo, encantamento e repulsa se entrelaçam. Antonio (Drummond) se encanta com Marcelo (Liev Carlos), o motoqueiro solitário, e é desse ir e vir da relação que se constroi o fio narrativo do filme de Nolasco. A presença de Marcelo guia o primeiro ato do filme e sua falta tensiona o segundo momento. Dentro disso o que nasce é uma narrativa sinuosa, que deixa muitos não-ditos e causa uma estranheza real no espectador – o fato de Nolasco não ter nenhum pudor ao filmar o sexo de seus personagens auxilia nessa imersão mais intensa; não podemos negar as provocações do diretor!
A forma como Nolasco cria outros imaginários possíveis para a sexualidade, os relacionamento e o próprio desejo é algo muito especial e como ele faz isso brincando com os gêneros cinematográficos é um feito e tanto. “Apenas Coisas Boas” não é um filme simples, na verdade é um convite ao espectador para uma viagem pelos interiores de Goiás – das casinhas no campo às coberturas goianas – e pela intimidade (e dubiedade) de seus personagens. Ao subir os créditos, sobram as dúvidas, mas fica a inegável sensação de uma experiência única de cinema.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
