Redd Kross: Jeff e Steven McDonald falam sobre Os Mutantes, dividir o palco com o Poison e o começo com o Black Flag

entrevista de Luiz Mazetto

Fundado em 1978 em uma pequena e ensolarada cidade da Califórnia chamada Hawthorne, também conhecida como berço dos Beach Boys, o Redd Kross desembarca nesta semana em São Paulo para a sua tão aguardada, e demorada, estreia no Brasil, com um show no Cine Joia nesta sexta, 26/06, como parte da programação do festival de documentários musicais In-Edit Brasil (que incluiu em sua programação “Born Innocent: The Redd Kross Story”, de Andrew Reich).

Ao longo de seus cerca de 45 anos de existência, que incluem um hiato entre o fim dos anos 1990 e a primeira parte dos 2000, o Redd Kross passeou por uma grande variedade de estilos, incluindo desde a então nascente cena punk/hardcore no fim dos anos 1970, quando foram “apadrinhados” pelo Black Flag, passando pelo rock alternativo, grunge e power pop, mas sem nunca deixar de lado algumas das marcas registradas dos irmãos McDonald, incluindo muita melodia, vocais harmonizados, piadas de gosto duvidoso e uma eterna influência e admiração pelos sons que fizeram a cabeça dos então (pré)adolescentes Jeff (vocal e guitarra) e Steven (vocal e baixo) quando começaram a tocar juntos (primeiro como Tourists, depois Red Cross, até chegar em Redd Kross): Beatles, Kinks, Kiss, Ramones, Runaways, X, New York Dolls e Patti Smith, entre muitos outros.

Na entrevista abaixo, os irmãos McDonald, que hoje são acompanhados nos palcos e discos pelo baterista Dale Crover, do Melvins (onde toca ao lado de Steven) e pelo guitarrista Jason Shapiro (Celebrity Skin), falam sobre a quase vinda do Redd Kross ao Brasil em 1994, ao lado dos Ramones e Stone Temple Pilots, como foi tocar com o Poison antes da fama da banda de hard rock farofa nos anos 1980, sua admiração pela música brasileira, com menções a Mutantes, Rita Lee e Gal Costa, e quais os discos que mudaram as suas vidas. Confira!

Vocês quase vieram ao Brasil em 1994, com os Ramones, mas os shows acabaram sendo cancelados. E agora, cerca de 30 anos depois, vocês finalmente estão vindo, trazendo na bagagem um documentário, um livro sobre a história da banda e um disco duplo, que saiu em 2024. Queria saber como isso aconteceu: foi através do In-Edit (festival de documentários que exibirá o filme sobre a banda)? Vocês já tinham propostas recentes para vir à América do Sul? Ou as coisas simplesmente se encaixaram?
Jeff: Acho que as coisas simplesmente se encaixaram. Acho que foi preciso um livro, um filme e um álbum duplo para nos levar ao Brasil.

Steven: O Brasil tem sido difícil para nós!

Jeff: Nós sempre quisemos ir. Sempre sonhamos em nos apresentar no Brasil porque somos grandes fãs de Os Mutantes há décadas.

Steven: É, com certeza. E também porque é um país muito interessante, com milhões e milhões de pessoas. (risos)

Na nossa entrevista anterior, Steven, você me disse que conheceu Os Mutantes através do Bill Bartel (White Flag), porque a irmã dele veio ao Brasil nos anos 1970, se não me engano, e voltou com alguns discos dos Mutantes para os EUA. Então, queria saber se vocês sempre tiveram curiosidade pela música brasileira em geral ou foi especificamente o som dos Mutantes que chamou sua atenção naquela época?
Jeff: Bom, no meu caso, eu não conhecia nada de música brasileira até o Bill nos apresentar aos álbuns dos Mutantes. E foi simplesmente algo que explodiu a minha cabeça. Nós ouvíamos os dois primeiros álbuns o tempo todo e todos nós que tocávamos em bandas, que viajávamos, compartilhávamos fitas deles com um monte de outros grupos. Então agora é muito legal porque no YouTube tem muitas filmagens, gravações ao vivo e tudo mais. Antigamente, quando começamos a ouvir, a gente só tinha as fotos das capas dos discos — aquelas fotos estranhas de marcianos, o vestido de noiva e as guitarras bizarras. Então nós ficávamos fascinados.

Legal! Tem alguns documentários bem interessantes sobre o Arnaldo Baptista e a Rita Lee, vou mandar para vocês.
Jeff: Isso seria ótimo. E eu também amo a Rita Lee. Acompanho a carreira dela há bastante tempo.

Steven: Eu tenho um filho de 17 anos que é fã de música, e ele toca muita música brasileira no carro. Ele é tipo o DJ residente da família agora, e toca muitas coisas brasileiras no carro. Toca bastante Gal Costa. E ela canta uma música dos Mutantes – ela canta tipo “Baby, Baby” (nota: na verdade, a música “Baby” foi escrita por Caetano Veloso, mas gravada pela banda e pela cantora nos anos 1960, além de estar presente no clássico disco “Tropicália”).

É, a versão dela é muito famosa no Brasil, foi trilha de novela, inclusive. E quais são as expectativas de vocês para essa viagem à América do Sul? Vocês vão conseguir passar um tempo em São Paulo? Porque vocês têm uma exibição do documentário agendada também, certo?
Jeff: Sim, acho que temos uma exibição do filme no In Edit – é esse o nome do festival de cinema?- e o nosso show. Por isso, não sei exatamente quanto tempo vamos ter. Acho que vai ser um “bate e volta” bem rápido. Então vamos ter que realmente ver muita coisa em pouco tempo.

Steven: Nós vamos ter tipo dois ou três dias em São Paulo e só. Mas eu sei que vamos a uma loja de discos fazer uma sessão de autógrafos, e eu nem tenho certeza do que vamos autografar (risos). Depois vamos para o documentário, e aí fazemos o nosso show em um desses dias.

E vocês estão preparando algo específico em termos de repertório (setlist), já que é a primeira vez de vocês no Brasil e na Argentina também?
Steven: Tipo, se nós vamos tocar um cover de Os Mutantes, por exemplo?

Talvez “Bat Macumba” (música que os irmãos gravaram nos anos 1980 no projeto Tater Totz)?
Jeff: Talvez a gente encaixe uma jam de “Bat Macumba” em algum momento no meio de “Crazy World” ou algo assim. Não sei. Acho que já estamos tocando juntos há dois anos (nesta turnê) e conhecemos muitas músicas, mas estamos de folga há um mês. Então vamos ter que revisar o nosso repertório alguns dias antes de viajar para ver o que podemos adicionar que seja mais focado no Brasil.

Steven: Como nunca estivemos aí, não é como se soubéssemos se as pessoas conhecem alguma das nossas músicas. Tipo, quando vamos para a Espanha, por exemplo, tem um disco específico que não é tão popular na maioria dos lugares, mas é muito popular na Espanha. Então a gente sempre sabe que tem que tocar músicas daquele disco. Mas não temos histórico com o Brasil, além de sermos fãs de alguns artistas brasileiros. Sendo assim, é uma loteria para nós. Não sabemos se devemos tocar um show bem curto ou tentar tocar muitas músicas. A única coisa que eu diria que temos um pouco de conhecimento é que, quando fomos escalados para tocar com os Ramones e o Stone Temple Pilots em um estádio gigantesco, demos entrevistas nos anos 1990 e, naquela época, pelo que entendi, ficamos em alta rotação na MTV brasileira com o clipe de “Jimmy’s Fantasy”. Então talvez haja uma pequena parcela de pessoas que se lembram disso, e pessoas da nossa idade que ficaram sabendo da gente nessa época, como uma introdução ao Redd Kross, que eu imagino que foi algo que veio e depois sumiu tão rápido quanto chegou quando cancelaram aquele show.

Na verdade, eu acho que o “Phaseshifter” (1993) é um disco bem popular entre os fãs por aqui, e também o “Show World” (1997), porque acho que nos anos 1990 a MTV ajudou a levar a música de vocês para mais pessoas. Mas também entendo que o primeiro EP de vocês, mais punk/hardcore, também tem muitos fãs por aqui.
Jeff: Ah, que bom. Porque nós gostamos de tocar essas músicas (do primeiro EP). Mas às vezes, se as pessoas só nos conhecem pelas nossas músicas mais recentes ou do meio da carreira, aí tocar o nosso primeiríssimo EP pode ser bizarro (risos). Mas eu sempre gosto muito, porque é algo que simplesmente me leva de volta a um lugar estranho só de cantar aquelas músicas.

Steven: É estranho para um homem na casa dos 60 anos cantar “I Hate My School” (risos).

Jeff: Eu ainda me sinto exatamente como eu me sentia naquela época, não sei exatamente o que é isso. É algo muito cósmico, me sinto cosmicamente conectado com aquelas músicas.

Steven: Eu odeio a minha escola cosmicamente. É isso que deveria estar entre parênteses hoje em dia?

Jeff: É, quero dizer, a escola da vida. Tipo, depois que você se forma no ensino médio, você segue em frente para outras coisas.

Steven: Ok.

Jeff: Então as pessoas podem realmente odiar suas vidas, mas toda a existência delas gira em torno de superar isso.

Steven: Certo, gostei disso.

Jeff: E existir, vencer, superar as expectativas. Tipo o Phil Collins.

Steven: Isso parece o começo de algo, Jeff. Acho que deveríamos terminar essa ideia em uma música.

Jeff: Bom, eu sei que a Madonna está preparando o “Confessions on a Dance Floor – Part Two” Tipo, ela está fazendo a sequência de um disco que fez, sei lá, 20 anos atrás (nota: o primeiro disco saiu em 2005). Então talvez a gente tenha que escrever uma ópera rock completa baseada nas músicas do nosso primeiríssimo lançamento.

Steven: Um ciclo completo. Então agora é tipo: “eu odeio a minha escola cosmicamente. Eu odeio a minha escola da vida. Mas você não odeia a sua escola da vida.

Jeff: Não, mas odeio alguns aspectos dela.

Steven: Bom, não a sua própria.

Jeff: Todo mundo tem problema com alguma coisa. Pessoalmente eu sou muito, muito grato. Me sinto muito sortudo por poder viajar pelo mundo e visitar lugares como o Brasil e ir para a Flórida e Los Angeles.

Se vocês fossem da Flórida, ainda poderiam estar cantando sobre como odeiam os seus colegas da escola atualmente.
Jeff: É, isso é verdade, porque alguns deles provavelmente moram na Flórida agora (risos). Mas não sei.

Steven: É muito legal para a gente poder fazer coisas que nunca fizemos antes. Com certeza, isso é uma coisa sobre a vida que — já que estamos falando em um nível cósmico ou de uma forma mais geral — parece que é verdadeiro o clichê de que o tempo acelera e,para nós, é inacreditável que tenha se passado tanto tempo. Parece que foi ontem que éramos garotinhos gritando em um microfone. Mas uma coisa que realmente parece desacelerar o tempo é quando você faz coisas que nunca fez antes, quando você tem uma experiência inédita. Então, quando as pessoas me perguntam tipo, “como você se sente por nunca ter estado no Brasil antes? Ou tipo, por que vocês nunca vieram aqui?”, eu fico tipo, “não sei”. Mas que bom que conseguimos, que bom que está acontecendo. Nós só vamos ficar fora por uma semana, vamos fazer um show em Buenos Aires e um show em São Paulo, com uma sessão de autógrafos em uma loja e uma exibição do filme. Mas essa semana vai passar muito mais devagar do que se eu estivesse em casa, assistindo às Kardashians ou algo assim. E seja lá como seria uma tarde monótona de verão, essa semana aí vai ser muito mais cheia de ação e o tempo vai desacelerar.

Jeff: Eu estou esperando que esse seja o início de um ótimo relacionamento (risos).

Steven: Você está aberto a isso?

Jeff: Sim, porque acho que estamos num momento muito bom. Vocês vão ver a gente depois de dois anos de turnê, estamos muito afiados.

Steven: É, não, é verdade. Acho que na última turnê, nós apenas passamos uma semana na Espanha. E foi bem consistente.

Jeff: Foi muito divertido.

Steven: Foi consistentemente como estar funcionando a todo vapor. Sempre tem coisas que estão fora do seu controle, tipo problemas técnicos que podem acontecer. E espero que os deuses estejam conosco na nossa noite em São Paulo. Mas sim, quero dizer, e talvez a razão de não termos vindo antes seja porque não estávamos prontos, e agora estamos prontos.

Jeff: É, e é porque é para a gente estrear agora.

Steven: É. Então talvez tenha sido isso, os deuses tinham determinado isso anos atrás. Talvez seja por isso que os Ramones cancelaram em 1993. Eles disseram: “o Redd Kross ainda não está pronto”.

Estávamos falando sobre tipo o início da sua carreira, mais especificamente sobre o primeiro EP. No livro, vocês falam sobre como quando vocês foram ver o Black Flag por acidente, já que não conheciam a banda, e acabou sendo o show que meio que mudou a vida de vocês. Isso é uma coisa que podemos dizer?
Jeff: Sim, conhecer aqueles caras, que já estavam começando a fazer shows, eles realmente nos ajudaram. Eles nos introduziram no mundo das casas noturnas e várias coisas às quais nós não teríamos acesso sendo adolescentes, sendo jovens – muito, muito jovens. E eles tinham, então eles tinham descoberto isso. E eles estavam realmente interessados em começar uma pequena cena e no pequeno bairro em que eles moravam. E então nós éramos apenas mais uma banda. A cena era originalmente aqueles caras, um grupo chamado The Last, Descendents. E uma das grandes bandas daquela cena, que era tipo o grupo satélite, era os Alley Cats. Mas então uma vez eu liguei para o Greg (Ginn, guitarrista e líder do Black Flag) e nós começamos a conversar e ele disse. “Venham aqui e nós vamos dar uma olhada na banda de vocês”. E eles nos deixaram ensaiar na casa deles. Quero dizer, na sala de ensaio. E nós meio que fizemos uma audição. E então de lá em diante, nós estávamos fazendo shows com aqueles caras quase sempre.

Steven: Na verdade, eles nos convidaram para assistir o ensaio deles. E então depois que eles terminaram de tocar, nos entregaram os instrumentos e disseram “Vocês são uma banda? Vamos ver o que vocês podem fazer”. E eu sempre gosto de dizer que basicamente, essencialmente o que fizemos foi uma audição para poder andar com eles.

Jeff: Sim, e eu lembro que nós tocamos os instrumentos deles e eles tinham amplificadores gigantescos e todas essas coisas que nós não tínhamos ainda. Então acho que a primeiríssima vez que tocamos lá foi a primeira vez que qualquer um de nós tocou com amplificadores gigantes.

Steven: Sim, e o Chuck Dukowski, na época ele era conhecido como Gary McDaniels, tinha um baixo Ibanez Flying V gigantesco.

Jeff: Que era tão grande quanto você.

Steven: Sim, eu tinha provavelmente cerca de 1,55 m. E era tão grande quanto eu. Mas sim, nós não recuamos ou amarelamos. Nós não engasgamos sob pressão. E nós conseguimos andar com eles.

Morando em LA, vocês cruzaram caminhos com pessoas que talvez vocês não quisessem cruzar? Tipo eu sei que vocês abriram para o Poison uma vez nos anos 1980.
Steven: Ei, ei. Pega leva no “abriram” (risos).

Jeff: Na verdade, o Poison abriu pra gente.

OK, me desculpe (risos).
Steven: Acho que você poderia dizer que era um show em que os dois eram co-headliners.

Jeff: Bem, sim, foi isso mesmo, mas nós tocamos depois deles. Mas a coisa interessante sobre aquilo foi que nós só os conhecíamos por fotografias. E então nós estávamos meio que esperando que eles fossem um grupo tipo o Sweet, ou eles sempre afirmavam ser influenciados pelo New York Dolls, mas depois ficamos desapontados que eles eram, que eles vinham de uma abordagem mais no estilo do Van Halen. E então isso foi desanimador.

Steven: Eu acho que nós tivemos o que você chamaria de vergonha alheia quando os vimos.

Jeff: Sim, nós ficamos com vergonha deles quando os vimos, mas a piada é por nossa conta.

Steven: Porque as pessoas que montaram aquele show, elas basicamente estavam dizendo para nós, “Ah, vocês gostam do New York Dolls?” E nós ficamos tipo, “Sim, claro”. E eles responderam “Então vocês vão amar essa banda nova na cidade, o Poison.” E então eu fico tipo, “Ok, isso parece legal”.

Jeff: Eu lembro que o Poison tinha, eles estavam tentando emplacar essa frase, esse bordão, o glitter glam slam. Não, apenas glam slam.

Steven: A palavra glitter não era usada lá no meio dos anos 1980.

Jeff: Era algo como glam slam queens of noise.

Steven: Ok, Jeff, você está perto. Me desculpe, vovô (risos). Era o glam slam kings of noise, pelo qual nós nos ofendemos totalmente porque eles estavam fazendo referência às Runaways também. E eles realmente não tinham nada a ver, não apenas com o New York Dolls, como as pessoas estavam dizendo, mas também com as Runaways, aquilo era algo nosso. Me dá um tempo, porra. E então, sim, nós ficamos envergonhados.

Quando vocês estavam falando sobre o Poison, você mencionou que vocês ficaram desapontados porque eles eram mais como Van Halen, me fez pensar em outras bandas de irmãos e lembrei que você me contou da outra vez, Steven, que vocês escolheram trabalhar com o Tommy Ramone depois que ouviram o “Tim” (1985), dos Replacements, que foi produzido por ele. Essa é uma banda com a qual você pode ver algumas semelhanças com vocês porque eles eram dois irmãos na guitarra e no baixo e o irmão mais novo, o Tommy Stinson, era o baixista, entre outras coisas em comum. Vocês chegaram a ser próximos deles de alguma forma?
Steven: Bem, eles estavam em Minneapolis, então nós realmente não interagimos muito com eles, mas porque era uma distância de milhares quilômetros. Mas eles também fizeram um cover do Kiss.

Jeff: Sim, eu conheci eles logo no início, eles estavam em uma trajetória muito semelhante em muitos níveis. E, sim, eles tinham o irmão menor na banda e eles gostavam de Kiss também.

Steven: Sim, eles fizeram um cover de “Black Diamond” (em “Let it Be”, de 1984) mais ou menos na mesma época que nós fizemos um cover de “Deuce”, do qual eu sempre me esqueço (em “Teen Babes from Monsanto”, de 1984). Mas, ao contrário da gente, eles (os irmãos Stinson) eram como a equipe de apoio para o vocalista e guitarrista principal. Qual é o nome dele? Estou esquecendo, estou tendo um congelamento cerebral completo.

Jeff: Stinson, acho que Bob.

Steven: Não, Paul.

Jeff: Paul Westerberg, isso.

Steven: Então eles eram a equipe de apoio do Paul Westerberg. Então eu acho que isso vai ser muito diferente. Tipo, nós somos mais, eu suponho, do nosso próprio jeito punk estranho, comparáveis aos irmãos Davies (do Kinks) ou os irmãos Gallagher (do Oasis) ou algo assim em termos desse tipo de dinâmica.

Eu queria que vocês, por favor, me dissessem 3 discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso.
Jeff: Ok, quem começa?

Steven: Vai, Jeff.

Jeff: Ok, eu vou dizer, claro, o “Meet the Beatles!” (1964). O “Meet the Beatles!” é a versão americana de “With the Beatles” (1963). Foi o primeiro disco dos Beatles que eu tive e tenho até hoje a mesma cópia desde que eu tinha três anos de idade. Foi uma influência enorme e eu adorei o disco. Então, depois disso, eu teria que dizer que o próximo. Eu adorava muita música, adorava muita coisa, mas acho que o próximo realmente enorme foi o Ramones. E eu comprei o “Leave Home” (1977) antes do primeiro álbum deles. Eles meio que saíram mais ou menos na mesma época, mas aí eu comprei esse primeiro e foi um disco que me deu vontade de tocar em uma banda. E teria que dizer que outro seria o “Too Much Too Soon” (1974), do New York Dolls. Nós compramos esse disco quando foi lançado, quando éramos basicamente crianças. Nós pegamos ele antes de termos o primeiro álbum e o escutávamos e ficávamos olhando para as fotos. E era meio que um roteiro para tipo como você pode fazer isso na sua garagem. Como parecer ter um visual descolado, o som meio maltrapilho e apenas como utilizar todas as suas influências para fazer algo novo. Esses são três dos discos que mudaram a minha vida.

Steven: Discos que mudaram a minha vida? Eu vou levar isso de forma bem literal e dizer, quando eu estava na 3ª série, eu era meio que, sabe, uma criança normal na escola primária. Mas eu estava vivendo essa vida obcecada por rock’n’roll em casa com o meu irmão, e ele estava me apresentando a isso. Ele é quase quatro anos mais velho, então ele estava me apresentando a músicas que estavam muito além da minha faixa etária. Nós ficamos muito fissurados no Kiss. Nós compramos o “Alive!” (1975) e depois compramos todos os três primeiros álbuns depois desse. Quando chovia na escola, em vez de sair para almoçar e almoçar lá fora, nós ficávamos dentro e ouvíamos música, e as crianças levavam discos. E na 3ª série, a maioria das crianças levava coisas como Olivia Newton-John, a trilha sonora de “Grease” ou algo assim. E eu levei o “Dressed to Kill” (1975), do Kiss. E a professora ficava perto de onde tocávamos os discos e ela ficou muito desconfiada desse disco (risos). E eu disse para ela “Você pode tocar ‘Ladies in waiting?'”. Essa era a minha música favorita no disco. Então a música começa e a letra é tipo, “So you been to the market”. Eu estou literalmente pensando no supermercado. E aí continua “And the meat looks good tonight / And the ladies in waiting / Will show you what it’s all about”. E então o disco sai da vitrola. A professora colocou a mão e simplesmente puxou o vinil do toca discos. E eu lembro que foi tipo, eu adorei tanto que achei que todas as crianças simplesmente ficariam ligadas naquilo, tipo que todas elas agora estariam possuídas. Mas, em vez disso, foi mais como se eu tivesse compartilhado demais e todo mundo meio que me tratou como se eu tivesse acabado de dizer algo realmente bizarro, tipo eu, foi quase como pornografia ou algo assim. E então isso foi constrangedor, mudou a minha vida na escola. E eu fiz isso de novo alguns anos depois (risos). Foi quando eu estava na 6ª série e levei o primeiro EP dos Dickies para a escola. E isso era punk em 1978.E essa é definitivamente a época em que as crianças estariam tocando “Os Embalos de Sábado à Noite”, “Grease”, sei lá. E eu fiz eles tocarem “Hideous”, em que eles falam “You’re not one of us”. Eu toquei “Hideous” e “You Drive Me Ape (You Big Gorilla)”, que eu amo. Eu ouvi esse disco de novo recentemente, quando estava na academia, e ele realmente me inspirou. É um disco muito bom (risos)! Mesmo com as letras sendo todas meio bestas, musicalmente é incrível. Está logo ali com Sparks e The Quick. Então diria que esses discos mudaram a minha vida na escola, com certeza. E eles são de um ambiente que teve um grande impacto na minha vida.

E outra coisa é que eu e o Jeff pegamos o “Ziggy Stardust” (1972) emprestado em uma versão 8 canais de um tio nosso, que era o irmão mais novo do nosso. Mas ele tinha apenas 9 anos a mais que a gente, então era quase como se fosse um irmão mais velho. E isso foi em 1972, no Natal depois que o disco foi lançado. E ele falou tipo “Ah claro, vocês podem pegar emprestado”. Era uma fita cassete de 8 canais e nós ficamos malucos e nunca mais devolvemos o disco pra ele. E esse disco definitivamente mudou a minha vida – e diria que também mudou a vida do Jeff.

Vocês mencionam no livro que o Bowie provavelmente viu o primeiro show da banda, como Redd Kross, em Los Angeles.
Jeff: Sim, quero dizer, sim, quero dizer, é isso que nós ouvimos falar.

Steven: Ah, bem, o Bowie aparecia no Hong Kong Cafe por aquela época, e a nossa amiga Ella tinha no diário dela que ele estava lá na noite em que tocamos. Eu não sei. Mas, quero dizer, preciso dizer que, naquele momento, eu ainda não tinha redescoberto o Bowie. E recentemente eu me deparei com, tem uma coisa Apple Music ou sei lá, que são tipo gravações ao vivo que eles lançaram agora da turnê de 1974. E é tão estranho. Tipo ele, quando ele estava começando a entender a coisa do soul dele, tipo ele realmente nos afastou. E foi tipo, o show abre com “Rebel Rebel” e depois vai para, ah, não consigo lembrar que outra música, mas é tipo, “John, I’m only dancing”. E eu sei que essas estão no “Young Americans” (1975). Mas foi tipo, na época em que éramos moleques ele foi para o soul, nós ficamos muito distanciados por isso porque éramos roqueiros e amávamos o personagem Ziggy e os discos que ele fez naquele estado de espírito. Por todo o caminho até “Diamond Dogs”. Eu sei que você gosta, nós dois gostamos do single de “Young Americans”, mas aquele disco foi um pouco tipo qualquer coisa pra gente, e depois disso eu redescobri tipo “Station to Station”(1976) e tudo mais, mas ele estava passando por uma estranha metamorfose ao vivo no palco. E nessa performance ao vivo que comentei antes ele estava sob efeito de tanta cocaína que a voz dele está ferrada.

Jeff: Eu sei, e eu ouvi o “David Live” (1974) recentemente, e me lembro de ouvir isso na época em que aquele disco saiu.

Steven: Aquele primeiro álbum ao vivo.

Jeff: É, parecia que ele estava tentando ser o Frank Sinatra.

Steven: Então, bem, eu acho que ele estava tendo tantos problemas com a voz dele também, por causa de apenas consumir quantidades copiosas de cocaína e é uma loucura que ele tenha conseguido se manter firme com tudo aquilo. E, além de tudo, compor ótimas músicas. Mas ele estava em turnê com um instrumento muito comprometido. E aquilo deve ter sido estressante pra caralho, mas talvez ele estivesse tão fora de si que não se importava. Eu não sei. Mas é estranho. Mas tipo, aquilo nos afastou, nós dois. E nós ficamos tão afastados. E na época, e então isso é 1979, e nós estamos fazendo os nossos primeiros shows. Eu tenho 12 anos, Jeff tem 15. E nós não tínhamos conferido “Low” (1977) o “Heroes” (1977) ainda, e não sabíamos que, na verdade, aquele era apenas um período estranho que tinha altos e baixos e que ele continuava a fazer ótimas músicas. Então é uma maneira muito longa de dizer que talvez eu não acho que eu teria eu teria me importado porque ele era famoso, mas não teria o mesmo impacto para mim do que teria sido quatro anos antes, quando éramos completamente obcecados por Bowie, tipo realmente obcecados por Bowie naquela época.

Essa é a última pergunta. Vocês estão tocando juntos há quase meio século, já tocaram muitos estilos diferents ao longo desse tempo e conseguiram criar algo realmente especial. Além disso, vocês já tocaram com o Poison antes da fama e passaram trotes em personalidades como o baterista do Ratt e a Courtney Love. E estão prestes a tocar no Brasil pela primeira vez. Por isso, queria me dissessem do que vocês têm mais orgulho, na carreira de vocês, na jornada de vocês juntos como irmãos?
Jeff: Ah, bem, há muitas, muitas, muitas coisas. Quero dizer, tem sido a nossa vida inteira, nós temos feito isso quase a nossa vida inteira. Então eu acho que cada vez onde nós completamos uma turnê e tudo foi ótimo, ou terminamos um disco e tudo está ótimo. É aí que eu me sinto realmente contente por estar fazendo isso, ainda continuando. Talvez ouvir a nós mesmos, após a primeiríssima vez que gravamos em um estúdio de gravação real, acho que aquele foi provavelmente o momento mais emocionante.

Steven: Eu diria que para mim, de longe, tenho mais orgulho do nosso último álbum, nosso álbum autointitulado, um disco duplo, de 18 músicas. Chegar aos 45 anos de carreira e fazer algo que mostra uma riqueza de criatividade e vitalidade que, apesar de todas as nossas disfunções e da nossa incapacidade de manter as coisas fluindo como um cronograma, tipo você meio que tem que realmente se beneficiar da tração que pode ter criado. Eu acho que nós temos muito a oferecer ainda. E eu estou muito interessado em ver o que é isso. Eu não sei o que é, mas eu quero buscar isso. E eu acho que o nosso último disco é o sinal mais encorajador disso.

–  Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud!

 

 

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