Entrevista: Angus & Julia Stone ensinam a arte de unir opostos em “Karaoke Bar”, disco gravado entre refúgios na Europa e Austrália

entrevista de Heloísa Lisboa

Glamourosos ou não, os karaokês sempre são capazes de unir estranhos por meio da música. No Brasil, “Evidências”, de Chitãozinho & Xororó, parece uma escolha inevitável — e óbvia — para o momento da cantoria, mas seus versos escorregam da ponta da língua de todo frequentador desses espaços. Apesar de ser comumente associado a festas e agitação, esse universo coletivo foi imaginado pelos irmãos Angus e Julia Stone de uma forma bem intimista.

“Não é preciso estar em uma sala cheia de gente para entender que somos todos iguais e que todos vivenciamos o mundo como seres humanos de maneira semelhante — seja por meio da beleza e da conexão, ou do trauma e das dificuldades”, pontuou Julia, ao defender que ideias opostas podem e frequentemente coexistem, enquanto observava o nascer do sol pela janela de seu quarto na Tasmânia, local em que atendeu a reportagem do Scream & Yell.

Karaoke Bar” (2026), o recém-lançado sexto álbum da banda, foi feito a partir de um método ao qual a dupla ainda está se acostumando: escrever canções juntos. Locações como o Miraval Studios, estúdio no sul da França (em que o Pink Floyd gravou parte de “The Wall” em 1979, em que Sade registrou “Promise” em 1985, e que o Cure gravou “Kiss Me Kiss Me Kiss Me” em 1987) reformado com a ajuda de Brad Pitt, e Hidra, ilha grega onde Leonard Cohen viveu, tornaram a tarefa um pouco mais fácil. No château francês nasceu “Monroe”, que faz referência a Marilyn Monroe, enquanto a ilha banhada pelo mar Egeu deu um empurrãozinho para que a faixa-título do disco — com interpolações de “Sweet Caroline”, a propósito — ganhasse vida.

Ainda não há previsão para que os donos do hit “Big Jet Plane” retornem ao Brasil para apresentar “Karaoke Bar”, mas as histórias do mochilão de Julia pelo país permitem que os fãs levem a sério o amor da artista pelos brasileiros.

Confira a seguir a entrevista com Julia Stone, da dupla Angus & Julia Stone, na íntegra:

Oi, Julia, como você está?
Estou bem, e você?

Estou bem também… Onde você está agora?
Estou na costa oeste da Tasmânia. É bem cedo aqui.

Uau, que legal!
Sim, é muito bonito. O sol está prestes a nascer.

Sou a Heloísa, de um website chamado Scream & Yell. Vamos começar? Então, vocês fizeram uma viagem atrás da outra e começaram a compor novas músicas quase imediatamente depois da turnê “Living Room Sessions”, né? Como foi esse processo em termos de balanceamento entre exaustão e criatividade?
Acho que, às vezes, a exaustão pode ajudar na criatividade. É meio que… É uma questão complicada quando se fala de criatividade, porque não sou da opinião de que você deva se forçar até chegar a um ponto em que esteja completamente esgotado. Mas, às vezes, é como aquela sensação de que a vida está sendo muito agitada e te deixando muito sobrecarregado. Não sei, isso pode fazer com que aqueles momentos no estúdio, os momentos em que você está escrevendo, realmente pareçam importantes e também façam com que você se concentre de verdade.

Durante essa jornada de escrever esse disco, fazíamos as composições entre uma etapa e outra da turnê, sabe? Da Europa para a América do Norte, depois para a América do Sul. Então, tudo estava bastante compacto, uma coisa emendando na outra. Nesses períodos — cinco dias aqui, sete dias ali — nós nos sentíamos realmente relaxados e muito felizes simplesmente por estarmos no estúdio, compondo músicas. Um amigo nosso sempre diz: “A pressão transforma carvão em diamante”. Acho que é uma frase tão bonita, porque você realmente precisa de um pouco de tensão para criar algo que transmita essa sensação de abertura.

Sim, acho que faz sentido. E vocês escolheram locações incrivelmente inspiradoras para gravar o novo álbum. Queria começar falando sobre o Miraval Studios: como a oportunidade de gravar lá surgiu? E como foi trabalhar com equipamentos de última geração, sentindo, ao mesmo tempo, a presença dos artistas icônicos que estiveram lá anteriormente?
Não consigo me lembrar como isso aconteceu. Acho que foi a partir de uma garota que trabalhava como assistente com a gente durante a turnê. Ela não está no Reino Unido. E tenho a impressão de que queríamos trabalhar em um estúdio próximo de onde terminamos a turnê, que foi na França. Ela nos enviou várias ideias, e acho que o Miraval estava na lista de estúdios. Estou meio que inventando um pouco essa parte, porque não lembro exatamente como descobri o Miraval. Mas acabamos analisando a opção e começamos a entrar em contato com o estúdio, conversando sobre o desejo de passar um tempo lá e compor.

Eles foram simplesmente adoráveis — toda a equipe do Miraval é realmente maravilhosa. E, para ser sincera, nós não sabíamos muito bem o que esperar. Mas, quando chegamos lá… Era um lugar tão lindo, sabe? A gente se sentia tão relaxado e acolhido. E acho que a parte mais difícil para nós foi justamente esse relaxamento todo. Quase não tínhamos vontade de compor. Só queríamos ficar deitados ao sol. Mas acabamos indo para o estúdio. Angus e eu até conversamos um pouco sobre isto: as pessoas nos perguntam como a história dos lugares influencia a composição, e acho que nem sempre é assim que funciona. Às vezes, escrevemos e gravamos músicas em lugares que não são exatamente “inspiradores”. São quartinhos decadentes em hotéis ruins, sabe? E, outras vezes, compomos em locais com uma história incrível, ligados a bandas icônicas. Acho que ambas as situações funcionam.

Sem dúvida, nos sentimos muito sortudos por estar no Miraval. Com certeza, sempre nos sentimos muito tocados por lugares que apoiaram as artes ao longo dos anos e que certamente fizeram parte da criação de discos incríveis.

Depois disso, vocês foram para a Grécia, certo? E, além da conexão óbvia com Leonard Cohen, o que os atraiu para esse destino?
Uma amiga nossa nos falou sobre a Old Carpet Factory. Ela toca em uma banda chamada Warpaint e me disse: “Vocês precisam ir a esse estúdio, é incrível”. Então, acabamos pesquisando mais a respeito… E tínhamos um tempo livre. O fato de o lugar ter uma ligação com Leonard Cohen nos deixava muito empolgados, já que ouvir a música dele foi uma parte muito importante da nossa infância. E, por sorte, conseguimos vê-lo se apresentar na Austrália antes de ele falecer.

Mas, enfim, estar na ilha foi uma experiência realmente incrível. O ritmo de vida era bem lento, especialmente vindo de uma turnê, que é algo muito acelerado. Sabe como é: tem a passagem de som, depois você precisa se preparar para o show, aí sobe ao palco, entra no ônibus, acorda na cidade seguinte e faz tudo de novo. Então, parecia mesmo um momento de respirar fundo, de relaxar. E o Old Carpet Factory — o estúdio — fica lá no topo da colina. O trajeto até lá não é nada fácil. Não dá para ir de carro, então você tem que subir tudo a pé e ainda encarar aquelas escadas bem íngremes para chegar ao estúdio. Você chega lá e tem aquela sensação de ter aterrissado em outro planeta.

Havia muita gente indo e vindo. Estávamos conhecendo pessoas da comunidade. E aí, claro, o filho do Leonard acabou vindo ao estúdio e passando um tempo com a gente. Isso também foi muito especial — simplesmente conversar sobre música e sobre a vida. Todo aquele período foi realmente muito mágico. E parecia mesmo, eu acho, o momento em que soubemos que estávamos criando um novo disco juntos. Acho que a gente tinha composto uma ou duas músicas no Miraval, mas Angus e eu sempre compomos, só que não se sabe se aquilo vai virar algo concreto. E acho que, quando chegamos a Hidra, percebemos que estávamos fazendo o nosso próximo disco.

Li que esse encontro com o Adam Cohen proporcionou a oportunidade de vocês se conectarem por meio da experiência singular de crescer com pais músicos. Então, como você acha que as histórias de suas famílias moldaram a sua relação com a música? E de que maneiras a sua própria música — a sua trajetória artística — se diferencia da do seu pai?
Acho que a nossa trajetória é um pouco diferente da do Adam, no sentido de que o pai dele, Leonard, era um artista de verdade. Sabe, a maneira como ele compunha e o impacto que teve nas pessoas e no mundo foram extremamente significativos. Não sei o quanto isso altera, imagino, a experiência de se crescer como filho dele. Mas acho que, ao ouvir o Leonard — mesmo quando ele falava em entrevistas —, percebia-se a essência de quem ele era: um homem incrivelmente sábio, de pensamentos e sentimentos profundos. E, de novo, não sei exatamente como era a situação dele, mas, para nós…

Bom, nosso pai é músico e sempre se apresentou, mas não era compositor. Ele é um artista de entretenimento, sabe? O que, na minha opinião, é um tipo de músico bem diferente. É mais como ter um pai extrovertido em comparação a ter um pai introvertido, entende? E tanto o Angus quanto eu provavelmente nos consideraríamos pessoas mais introvertidas. Gostamos da nossa própria companhia. Gostamos de ficar sozinhos. Estar no palco às vezes é um desafio para nós. Sabe, não é algo natural da maneira que é para o nosso pai. Ele ama subir ao palco. Qualquer oportunidade que ele tem de pegar um microfone e simplesmente ficar diante das pessoas falando… Dá para ver a alegria que isso lhe proporciona. Já nós tivemos que aprender isso. Compor — escrever músicas sobre o que estávamos vivendo — era algo muito natural para a gente, enquanto o desafio era subir no palco.

Acho que, por sermos filhos de um artista, tivemos muitas oportunidades de superar o nervosismo, já que ele sempre nos fazia subir ao palco com ele. Nós detestávamos isso. Sabe, era aquela sensação de “meu Deus, isso é horrível”. Mas, para o bem ou para o mal, acho que crescer assim foi bom para nós. Nossos pais são extrovertidos. Nossa mãe também é artista, e acabamos sendo colocados em muitas situações desconfortáveis ​​que envolviam apresentações. Acredito que isso ajudou, porque, quando chegou a hora de compartilhar nossa música, já tínhamos alguma experiência para superar o medo de palco e tudo mais.

E, desde o seu último álbum, vocês têm adotado cada vez mais a prática de compor músicas juntos. O que mudou ao longo dos anos para que a composição colaborativa se tornasse algo tão natural para vocês dois?
É uma boa pergunta. Acho que, em certo momento, sentimos que o projeto ainda parecia ser meio que “seu e meu”, “meu e seu”. Não parecia ser nosso. E acho que, depois de “A Book Like This” (2007), do “Down the Way” (2010) e de vários EPs, sentimos que algo precisava mudar. E não acho que conseguíamos enxergar isso por conta própria. Simplesmente não nos sentíamos motivados a trabalhar no projeto. Ficamos mais inspirados a realizar nossos próprios projetos.

E foi assim que começaram, para o Angus, o [projeto solo] Lady of the Sunshine e o álbum “Broken Brights”; e, para mim, o “By the Horns” e o “The Memory Machine”. Sentíamos que, se fôssemos continuar trabalhando juntos, algo precisava mudar, mas não sabíamos o quê. Foi então que começamos a nos dedicar ao nosso terceiro álbum com Rick Rubin. E uma das coisas que o Rick sugeriu foi que compuséssemos juntos. Foi um momento marcante para nós.

Meio que percebemos que, para fazer o projeto acontecer — para mantê-lo crescendo e evoluindo… Compor juntos tornava tudo mais mágico, de certa forma. E aquele [“Angus & Julia Stone” (2014)] foi um álbum feito metade por músicas que escrevemos separadamente e metade por músicas que escrevemos juntos. “Heart Beats Slow” foi a primeira música que compusemos totalmente juntos. Simplesmente aconteceu algo durante aquele processo.

Depois disso, meio que decidimos que comporíamos juntos todas as músicas dos discos que fizéssemos. Esse processo tem sido muito divertido. E continua evoluindo, sabe? É muito bom chegar ao estúdio sem saber exatamente o que vamos criar naquele dia — em vez de eu trazer músicas e você trazer músicas para depois transformarmos isso em algo. Acho que essa é a origem dessa mudança.

Ainda tenho muitas perguntas, mas não temos tempo para todas elas. Então, quero fazer apenas mais duas. Ao falar sobre o título do álbum e a energia que vocês queriam que ele transmitisse, vocês descreveram a música como uma experiência profundamente coletiva. Mas, quando você descreve o processo de composição, imagino paisagens tranquilas, momentos íntimos e reflexão solitária. Então, como essas ideias aparentemente opostas se unem no álbum?
Essa é uma observação muito boa. Acho que o que há de belo na música e nas artes é que ideias opostas podem coexistir. E acredito que, muitas vezes, isso também se aplica a nós, seres humanos. Duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Acho que, às vezes, nesse espaço silencioso de criatividade, o que acessamos é uma conexão humana comum. Não é preciso estar em uma sala cheia de gente para entender que somos todos iguais e que todos vivenciamos o mundo como seres humanos de maneira semelhante — seja por meio da beleza e da conexão, ou do trauma e das dificuldades. E acredito que, para nós, o processo de fazer e criar realmente nos conecta aos nossos semelhantes.

Às vezes é engraçado: estar em turnê pode ser algo tão frenético e desafiador que você acaba não se sentindo tão conectado àquela essência de fazer música. E, falando do Leonard Cohen… Bom, para mim — e sei que para muita gente também —, a vida pode parecer solitária, mas aí você ouve uma música composta por alguém do outro lado do mundo e percebe que a forma como essa pessoa combinou palavras e melodia faz você pensar: “Ah, não estou sozinho. Não estou sozinho nessa, mesmo que essas pessoas não saibam quem eu sou, elas entendem pelo que estou passando. Existe uma família de pessoas por aí expressando exatamente o que estou sentindo agora”.

É com isto que sempre tentamos nos conectar ao criar música: aquele sentimento sobre o que realmente estamos vivenciando, sabe? E, naquela época, era esse o sentimento. Era algo como: vejam só quanta alegria a música pode proporcionar.

Antes de encerrarmos: essa será a segunda vez de vocês no Brasil [a assessoria da dupla no país havia informado de shows no Brasil que, na verdade, não estavam fechados], certo?
Na verdade, não sei quando vamos voltar ao Brasil. Quando disse isso, pensei: “Meu Deus, não conferi o roteiro. Quando partiremos?” Acho que, no ano que vem, quando fizermos uma turnê mundial, voltaremos ao Brasil.

Ah, então vocês devem vir ano que vem…
Sim, eu espero.

E qual a sua relação com o Brasil?
Quando eu estava fazendo um mochilão, aos 19 anos, passei bastante tempo no Brasil. E foi justamente enquanto eu percorria o país que comecei a descobrir a composição de músicas. Então, fui para o norte do Brasil para o Carnaval. Foi uma experiência extraordinária. Acabei fazendo amizade com um grupo de garotas do Rio. Ninguém falava inglês, exceto uma das garotas, a Viviane. Nós nos demos muito bem. Acabei passando a semana inteira curtindo e saindo com elas. Foi assim que conheci a música brasileira. Era algo tão vibrante e incrivelmente divertido.

Depois, voltei para o Rio e fiquei hospedada na casa da família dela por alguns meses. E acho que o que há de bonito no Brasil — e provavelmente em grande parte da América Latina — é que, embora a Austrália tenha uma criatividade incrível, sinto que somos muito isolados em nossas comunidades. Parece que… Não sei… Não há muitos lugares em que crescemos em que você possa ir para estar entre outras pessoas e curtir a própria companhia ao som de música. Sair sempre significava ir beber, ir ao pub. Mas, quando estive no Brasil — e, como eu disse, em grande parte da América Latina durante meu mochilão —, a sensação era de que as pessoas estavam sempre na rua. Tomando café, ouvindo música. Você via gente de todas as idades — jovens e idosos — dançando na rua às 23h.

E, sei lá, aquilo realmente ressoou em mim como um jeito de viver. A ideia de que não estamos seguros no isolamento — como às vezes pensamos —, mas sim na comunidade, onde podemos ser vistos e nos sentir apoiados… E eu adorava isso no Brasil. Eu sentia que a cultura de praia, a cultura musical, a cultura das baladas — tudo era tão inclusivo. Levei isso comigo. Mesmo sendo introvertida, gosto muito de estar entre as pessoas. Não no sentido de sair e ter que conversar com um monte de gente, mas gosto da sensação de estar cercada por pessoas lá fora, no mundo. É por isso que também adoro fazer turnê pela Europa. A cultura é a mesma na Itália, na Espanha, na França… As pessoas saem de casa, e não existe essa segregação por idade. Não é como se só os jovens estivessem aqui ou só os mais velhos estivessem ali. Todo mundo sai junto.

Julia, realmente temos que encerrar agora. Obrigada pelo seu tempo. Adorei nossa conversa e espero ver Angus e você no Brasil no próximo ano.
Obrigada, Heloísa. Foi muito legal falar com você.

– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone. Leia outros textos de Heloisa.

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