Entrevista: Kazu Makino passa a limpo ligação com o Brasil, encontro com Gal Costa e longevidade do Blonde Redhead

entrevista de Heloísa Lisboa

Formado por Kazu Makino e pelos irmãos gêmeos Amedeo e Simone Pace, o Blonde Redhead se consolidou em Nova York no fim dos anos 1990, ao lado de bandas como The Strokes, Interpol e Yeah Yeah Yeahs. Apesar de compartilhar a cena com alguns dos principais nomes do chamado revival do rock nova-iorquino, o Blonde Redhead seguiu uma trajetória particular e não alcançou o mesmo (grande) público de seus contemporâneos — algo que Kazu associa, em parte, ao fato de os três integrantes serem imigrantes.

“É claro que nunca vamos pertencer de verdade ao mesmo lugar que todas essas outras bandas. […] Nunca tivemos esse tipo de raiz”, ponderou a vocalista em entrevista exclusiva ao Scream & Yell.

A condição de imigrante também passa pela relação de Kazu com a própria música. Japonesa, ela admitiu que é muito tímida, mas acredita que cantar em inglês — uma língua que não é a sua — cria uma distância conveniente entre ela e aquilo que canta. “É quase como se, por causa da língua, eu mudasse um pouco a minha personalidade”, explicou.

A primeira passagem do Blonde Redhead pelo Brasil aconteceu em 2012, como parte do line-up do festival No Ar Coquetel Molotov, em Recife (PE). Na mesma ocasião, o trio participou do Cinetério, projeto cultural que integrou o Mês da Cultura Independente de São Paulo, com um show em frente ao Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da capital paulista.

A experiência brasileira, porém, não foi completamente fácil para Kazu. “A primeira vez [em que estive no Brasil] foi bem difícil, porque notei o grande abismo entre ricos e pobres. Eu também nunca tinha visto uma criança em situação de rua”, contou. A lembrança permanece associada à sua primeira visita ao país, assim como uma dúvida bem mais trivial que surgiu durante a viagem ao Nordeste: “Tem mesmo tantos tubarões nas praias brasileiras?”

Com mais de 30 anos de história, o trio também foi marcado pela separação de Kazu e Amedeo e pela tentativa da cantora de construir uma carreira solo, a partir do álbum “Adult Baby” (2019). O lançamento, no entanto, não saiu como esperava. “Os críticos odiaram tanto o disco que eu meio que perdi a vontade de seguir pelo caminho solo, porque, para mim, aquilo realmente era uma primeira tentativa”, contou.

Hoje, a recepção mais positiva que o álbum recebeu ao longo dos anos encoraja Kazu a não descartar novos projetos individuais. “Posso fazer o que eu quiser. Não sinto mais tanta pressão para ficar com os gêmeos ou para fazer as coisas sozinha”, afirmou.

A relação entre os três integrantes, por sua vez, está longe de ser livre de conflitos. Kazu não escondeu as discussões com Amedeo e Simone, mas associou a longevidade da banda a uma distinção fundamental: “Acredito que compatibilidade entre personalidades e química musical são duas coisas diferentes”. Sem qualquer vínculo familiar entre os gêmeos e ela, a convivência de mais de três décadas se sustenta por uma combinação que vai além da amizade ou da afinidade pessoal.

Aos 56 anos, Kazu ainda carrega algumas das mesmas dúvidas que já a acompanhavam quando tinha 30. Em 2007, ao falar ao Los Angeles Times sobre o Muse, a cantora refletiu sobre a sensação de observar uma banda que parecia saber exatamente o que queria. “Quando tocamos em um festival com uma banda enorme como o Muse, parece que eles sempre souberam o que queriam e foram atrás disso”, comentou na época.

Quase duas décadas depois, a pergunta continua sem uma resposta definitiva. “Uma vida bem-sucedida, para mim, é quando sua alma e seu corpo conseguem seguir juntos, quando os dois estão, de alguma forma, em sintonia, sabe? Os dois são ouvidos, os dois recebem atenção. Então, sim, eu ainda estou tentando entender isso. Penso em tantas coisas e, por meio da música, acho que quem eu realmente sou acaba vindo à tona”, pontuou Kazu ao relembrar antigas angústias.

Ainda não há previsão para o sucessor de “Sit Down for Dinner” (2023), um disco “delicadamente comovente” (descrição de uma resenha aqui no Scream & Yell) mas o Brasil pode acabar servindo de inspiração para novas composições. Ao ser questionada sobre a homenagem ao arquiteto mexicano Luis Barragán no título de “Barragán” (2014), Kazu não descartou encontrar uma referência semelhante por aqui.

Além disso, pela primeira vez, Kazu contou em detalhes sobre seu encontro com Gal Costa e sobre o impacto que a cantora brasileira teve em sua trajetória artística. Também falou sobre sua proximidade com a música palestina, a parceria com Ryuichi Sakamoto e sua paixão pelo Mediterrâneo. Leia a seguir a entrevista na íntegra com Kazu Makino, do Blonde Redhead.

Como você está, Kazu?
Estou bem. Muito animada!

Onde você está agora?
Em Nova York.

Na sua própria casa?
Sim. Está um caos, porque estou fazendo as malas, ensaiando, limpando…

E como você se sente em relação a voltar ao Brasil? O público brasileiro é conhecido por ser muito caloroso e interativo. Você acha que isso vai ajudar você a se sentir mais confortável no palco?
Sim, não sei… Eu sempre toquei, mas, quando vim para Nova York, passei a absorver muita música antes de começar a fazer a minha. Minha primeira curva de aprendizado foi com música brasileira. Fui me apaixonando por música por meio da música brasileira, de Gal Costa, Caetano [Veloso]… Fiquei obcecada.

Em algum momento, eu fiz aquele teste de DNA do National Geographic — só fiz porque alguém me deu de presente de aniversário — e, aparentemente, eu venho do Brasil. Minha raiz mais distante está no Brasil. Eu pensei: “O quê?” Porque minha família não tem notícias sobre isso. Não acho que tenha a ver com o fato de muitos japoneses viverem no Brasil. É algo muito, muito mais antigo. E então eu pensei: “É claro! É por isso que amo tanto o Brasil”. Então, eu quero muito descobrir se realmente sinto algo aí.

Estive no país três vezes. A primeira vez foi bem difícil, porque notei o grande abismo entre ricos e pobres. Eu também nunca tinha visto uma criança em situação de rua. Vi pela primeira vez no Rio de Janeiro e fiquei muito chocada. “Como uma criança pode estar em situação de rua?”, eu pensei. Essa foi minha primeira impressão. Ainda assim, é um lugar muito especial para se voltar. Então, estou ansiosa.

Geralmente, quando entrevisto bandas que estão juntas há muito tempo, pergunto qual o segredo para permanecerem unidas depois de tantos anos. No seu caso, quero saber o que os mantém unidos. Amadeo é seu ex-namorado, e, como alguém que tem uma irmã, sei que as coisas podem ficar complicadas entre irmãos também. Então, como isso funciona?
Sim, é complicado. No entanto, acredito que compatibilidade entre personalidades e química musical são duas coisas diferentes. E acho que você não precisa gostar da outra pessoa. Isso também depende do tipo de música com que ela cresceu e de todos os outros elementos, sabe? Algo muito mais profundo do que a superfície, do que o caráter. Então, vocês podem se odiar, mas, ainda assim, manter essa química musical. Mas, como todo mundo, temos nossos problemas. Não é fácil.

Dito isso, como foi o processo de gravação de “Blood Spilled”? Como você construiu a letra?
Eu coloquei uma expectativa muito alta para mim mesma. Amo tanto essa música e sabia exatamente sobre o que queria cantar. Mas, quando você gosta tanto de alguma coisa, é quase como se tivesse medo de tocá-la. Então, mergulhei na carreira solo. Esperei o máximo que consegui antes de realmente colocar as palavras no papel. Mas todas as emoções já estavam na música, você só precisa encontrar as palavras certas para elas, sabe? E espero ter feito isso direito.

É (uma canção) sobre perceber que a morte não é o fim, que nossas almas não morrem. Eu meio que já tinha essa sensação. Mas o que eu nunca tinha alcançado era perceber como é incrível ter o poder do corpo. Isso é algo que as pessoas no Brasil manifestam muito, não? Vocês aproveitam ao máximo o benefício de ter um corpo. Vocês têm uma forma tão avançada de expressar as coisas por meio do corpo. Eu nunca tinha percebido isto no meu próprio corpo: o quanto de incentivo e força você precisa ter para estar nele, poder cantar, comer, beber, enxergar, sentir o mundo através dele. Acho que essas coisas são tão importantes e poderosas. Então, eu sei que um dia não vou mais ter isso. Até lá, vou fazer o máximo possível. Foi assim que cheguei à ideia da música.

Ela surgiu desse processo de conversar com mártires, com pessoas que já se foram e, então, voltar para algo como: “Ok, agora este é o meu momento”. E ainda é o meu momento, porque ainda estou aqui. Então, vou realmente viver plenamente, sabe? É meio que… Como se diz? Uma música que completa um ciclo.

Ouvindo você dizer tudo isso, pensei em “Sit Down for Dinner”, porque também trata do luto. E, quando você falou sobre o poder do seu corpo, não pude deixar de ligar isso ao seu acidente. Você acha que essas coisas estão relacionadas e serão encapsuladas em um novo disco? É muito cedo para falar sobre um novo disco?
Bom, não sei exatamente em que caminho estamos. Não sei se tem a ver com a vida ou com a alma, mas sei que não quero sair desse caminho no qual estou. Comecei algo que não quero abandonar.

Também estamos lançando um single 7 polegadas. E o lado B (“Crimson Door”) é algo que fiz muito rapidamente, mas que ainda está dentro do mesmo ritmo. Mal posso esperar para que as pessoas ouçam, porque soa bastante insano. Com “Blood Spilled”, eu ficava pensando: “Espero que as pessoas entendam”. Com o lado B, é tão insano que eu realmente espero que as pessoas entendam. Estou no mesmo caminho, começando a mesma jornada, sabe?

Mas é muito cedo para falar sobre um novo disco?
Um álbum completo? Espera um pouquinho… [Kazu busca o single]. Chegou ontem [mostrando o single].

Ficou muito bonito!
Sim! Ficou muito legal, né? Geralmente, fico desapontada quando o disco chega, mas este me deixou muito feliz. Também fiquei feliz com a capa de “23” quando o disco chegou, mas esta ficou muito boa. E acho que vamos levá-lo para a América do Sul. Espero que você possa ver. Enfim, o lado B é novo, mas, para além disso, não estamos planejando nada. Temos algumas ideias e precisamos terminá-las.

Vocês passaram por muita coisa juntos, incluindo uma enorme transformação no mundo da tecnologia. Também envelheceram e, obviamente, amadureceram juntos. Como tudo isso influenciou a trajetória de vocês na música, se é que influenciou?
É, não sei. Parece que não mudamos, mas, com certeza, estamos mudando. Só que é como se olhar no espelho: você não fica se encarando e gritando porque está tão diferente. Então, é difícil para mim dizer se sim ou se não. Mas eu sei que estamos mudando. E acho que o que mais me deixa feliz é que é quase como se continuássemos tentando escrever a música que ainda não escrevemos. Porque há muita música que ainda não conseguimos fazer, que ainda não conseguimos alcançar. Então, acho que esse é o cerne da nossa razão para continuar seguindo em frente, sabe?

Como você tocou nesse assunto, vou pular algumas perguntas e voltar depois…
Mas, dito isso, você tem todos esses sonhos, todas essas coisas que quer fazer, quer experimentar. E, de vez em quando, muitas vezes porque o público fala sobre isso, você é lembrado de trabalhos muito antigos que fez, coisas nas quais não pensava há muito tempo. Aí você ouve de novo e essas músicas soam tão atuais. Você pensa: “Uau, o que eu estava pensando quando fiz isso?” E isso é muito revigorante. As coisas podem sempre continuar soando novas porque você não se lembra delas. É tipo: “Nossa, como foi que eu fiz isso?” Revisitar essas coisas também é muito interessante, muito revigorante.

Em 2007, você disse em uma entrevista: “Quando tocamos em um festival com uma banda enorme como o Muse, parece que eles sempre souberam o que queriam e foram atrás disso”. Você comparou Blonde Redhead a eles, mas também disse que não queria se tornar o Muse. Você sente que hoje já sabe o que quer ou que está cada vez mais perto de descobrir? Tenho muita curiosidade sobre isso. Eu tenho 25 anos, então acho normal ainda não saber exatamente o que estou fazendo, mas muitas vezes me pergunto se algum dia vou chegar a um ponto em que vou saber.
Uau… Eu estava pensando nisso ontem. Sua alma está lá com você desde seu nascimento, ou até mesmo antes e depois disso, quando você morre. E você tem um corpo que faz todo tipo de coisa… Eu vejo a filha do Simone… É como se o corpo dela estivesse fazendo coisas malucas, sabe? Mas aquilo que ela realmente é, o que existe no centro dela, continua ali. Só que o corpo também pode deixar você completamente louca, tipo quando os dentes começam a cair. E ela precisa passar pela adolescência, precisa chegar aos 25 anos… Você tem os desejos da sua alma, mas também existe um corpo ali. Seus hormônios estão loucos para ter filhos, você tem esses instintos, esses desejos, coisas assim. E essa é a parte difícil. É quase como se o seu corpo estivesse gritando tão alto que ficasse difícil ouvir o que realmente existe dentro de você.

Uma vida bem-sucedida, para mim, é quando sua alma e seu corpo conseguem seguir juntos, quando os dois estão, de alguma forma, em sintonia, sabe? Os dois são ouvidos, os dois recebem atenção. Então, sim, eu ainda estou tentando entender isso. Penso em tantas coisas e, por meio da música, acho que quem eu realmente sou acaba vindo à tona. É quase como se você estudasse isso depois, por meio da música, e pensasse: “Então é isso que eu sou”. De certa forma, você faz as coisas primeiro e só depois consegue entendê-las: “Será que é isso que eu sou?” E eu realmente penso nisso.

Fiquei muito impressionada quando a Dolly Parton morreu. Começaram a aparecer muitas citações dela. E uma das coisas que ela dizia era algo como: descubra quem você realmente é e, então, viva de acordo com isso deliberadamente. Faça isso com intenção. E acho que ela é um ótimo exemplo disso. Ela realmente descobriu quem era e fez tudo com muita intenção, sabe? E ninguém consegue mexer com ela ou com aquilo que ela criou. Acho que esse é, de certa forma, o objetivo de todo mundo. Não sei…

Me conte sobre você. Quem você acha que é?

Acho que ainda não sei.
Mas o que você tem feito?

Estou tentando entender melhor algumas coisas sobre o meu eu pelo cinema, pelos filmes. Escrevo alguns roteiros e tento fazer alguns vídeos, mas nada muito grandioso. E eu gosto de fazer isso. Também gosto de conversar com pessoas como você e de ser jornalista, uma jornalista de música. Mas é muito difícil tentar fazer todas essas coisas enquanto você também precisa ganhar dinheiro e trabalhar, sabe? Então, não sei. Estou tentando descobrir isso.
É, eu entendo. Acho que, para mim, a música nunca foi uma ambição. Era mais uma ferramenta de sobrevivência, sabe? Muitas vezes, precisei de alguma coisa para me esconder atrás. Precisava de alguma coisa que me salvasse. Precisava de algo que fizesse com que eu não pensasse tanto em mim mesma. Quando você faz algo que ama, você não fica pensando em si mesma. Você não fica pensando em mais nada. Eu amo animais. Quando estou com animais, não penso em nenhuma outra coisa. Não fico me perguntando: “Será que eu pertenço a este lugar?” Acho que esses são os sinais, sabe? Quando você não fica questionando a si mesma, nem aquilo que está fazendo, acho que esses são os espaços em que você quer estar.

É, e acho que, apesar de eu não saber exatamente quem sou, não posso fugir de quem sou, porque eu estou sempre comigo mesma. Então, não sei, é complicado, mas é algo de que você não pode fugir.
Não. Outra coisa é que acho que, quando você se sente um pouco mais leve, naqueles momentos fáceis, quando você está simplesmente rindo de qualquer coisa e tudo parece muito simples… Para mim, esses momentos também são muito importantes. Você simplesmente começa a rir. Às vezes, durante uma turnê, você fica tão cansado que tudo começa a parecer engraçado, sabe? Você acaba quase chorando de tanto rir, chorando porque está completamente exausto. Acho que esses momentos também dizem muito sobre quem você é. Mas acho que até a maneira como você diz “Eu não sei quem sou” soa muito bem, com um grande sorriso no rosto e dizendo “Acho que está tudo bem”.

E já que estávamos conversando sobre tecnologia, é impossível não falar sobre as redes sociais e sobre “For the Damaged Coda”. Qual é a sua relação com essa música hoje? E como é ver tantas pessoas diferentes se conectando com ela por meio de apenas alguns segundos da música?
É insano. É uma daquelas músicas que você escreve sem fazer esforço. Eu a fiz logo antes de dormir. Estava muito cansada para fazer algo muito difícil, mas consegui escrever essa faixa. Estávamos dormindo no estúdio. Os gêmeos já tinham ido para a cama, e eu usei esse tempo para escrever. Então, não tenho nenhum apego a essa canção.

Às vezes, quando estou viajando e pego um ônibus ou metrô, vejo que ninguém está prestando atenção em ninguém e penso: “Quantas pessoas aqui conhecem essa música?” E são muitas, né? É uma forma de me conectar com diferentes pessoas. Isso é tão doido. Não consigo entender como isso pode ser possível. Seria mentira se eu dissesse que me importo com essa música [risos].

Essa diferença de gerações provavelmente também vai ficar evidente no Balaclava Fest. Você costuma ouvir algumas das outras bandas que vão tocar no festival?
Sim, eu adoro Beach Fossils. Já cantei em uma música deles [“In Vertigo”]. Na verdade, estou pensando em escrever para eles e perguntar: “Vocês poderiam tocar aquela música?” A minha principal expectativa em relação a estar no Brasil é poder conversar e conhecer o maior número possível de brasileiros. Quero ver bandas brasileiras. Quero conversar com músicos brasileiros. Só quero descobrir quem são vocês.

Acho que o pessoal da Balaclava poderá ser bem prestativo nesse sentido. Eles trabalham com bandas como Terraplana e Terno Rei, por exemplo…
Mal posso esperar! E eu amo e cultivo orquídeas e, em São Paulo, há muitos orquidários. Então, espero conseguir visitá-los. Existe uma espécie que só cresce no Brasil. É tão linda. Quero vê-la.

Não sabia disso… O som de vocês também parece ter mudado ao longo dos anos. No começo, vocês soavam mais raivosos, enquanto hoje parece haver algo mais contemplativo na música. Por que você acha que isso aconteceu?
Hormônios [risos]! Não sei… Acho que “Blood Spilled” também soa raivosa.

Acho que sim. Talvez mais a letra do que a sonoridade. Não sei…
Seria engraçado se a gente começasse a ficar realmente com raiva de novo, a essa altura de nossas vidas. É, vamos descobrir [risos]. Mas não faço a menor ideia de como isso aconteceria. Acho que esse tipo de energia também tem a ver com a biologia, é algo biológico.

 

Nosso tempo está acabando, mas eu gostaria de fazer mais algumas perguntas.
Sim, vá em frente. Eu estou bem com o tempo, e você?

Eu também! Ao longo dos anos, vocês puderam passar mais tempo no estúdio e refletir melhor sobre o que estão fazendo. Vocês também ganharam mais experiência. Acha que essa experiência pode, na verdade, fazer com que o processo criativo se torne mais longo?
Boa pergunta. É quase doloroso. Costumávamos gravar em poucos dias. Fazíamos um disco inteiro em um, três ou cinco dias. Agora leva mais de um mês. Mas acho que é porque, como eu estava dizendo, você começa a elevar cada vez mais o nível. Tipo: “Ok, já fiz isso. E agora? O que posso fazer a seguir?” E vai ficando cada vez mais difícil e complexo. Como eu estava dizendo, “Blood Spilled” soa raivosa, mas também é muito complexa, sabe? É quase como se todo o conhecimento e experiência que acumulamos ao longo dos anos tivessem sido colocados em uma única música. É mais ou menos isso. Ela acaba sendo quase uma representação de toda a nossa história.

E aí você precisa de tempo. Você também não pode simplesmente se contentar em agradar a si mesma. Na verdade, você pode simplesmente fazer algo só para se agradar. Mas agora eu sei que existe uma certa expectativa… Acho que vem principalmente de mim mesma. Sim, fica mais desafiador com o tempo, mas, às vezes, você tem que exercitar a rapidez e seguir seus instintos. É uma boa pergunta. Acho que me limitar para colocar tudo para fora em um curto período de tempo também pode ser um bom exercício.

A chamada é interrompida aos 40 minutos para que um novo link no zoom seja criado.

Oi! Prometo que isso não vai demorar tanto.
Não se preocupe! Eu estou gostando. Qual o seu nome?

Heloísa.
Heloísa?

Isso! Então, você vive em Nova York, né? Como você vivencia o mundo e o seu trabalho como imigrante e como alguém que canta em uma língua que não é a sua língua materna?
Essa questão da língua é muito boa. É muito legal, porque acho que eu seria muito mais tímida em japonês. É quase como se, por causa da língua, eu mudasse um pouco a minha personalidade. Sou uma pessoa muito mais tímida como japonesa. Mas, ao mesmo tempo, você simplesmente não pode se dar ao luxo de ser tímida. Você precisa combater essa timidez. E também existe uma certa distância entre a língua que não é a sua e você, então você pode ser um pouco mais ousada. Você se aventura mais ao cantar as palavras, quase como se o que você narra estivesse acontecendo com outra pessoa, e não com você. É uma distância muito conveniente justamente porque não é a sua língua. Então isso é muito bom.

E, sobre ser imigrante… Acho que sinto isso agora, por causa da maneira como o mundo está, sabe? Devido à forma como as coisas estão acontecendo no mundo. Mas eu realmente acho que a força dos Estados Unidos está nas pessoas que não são daqui. É por isto que Nova York é tão incrível: porque todo mundo continua falando, gritando na própria língua, e a cultura de cada um acaba completamente integrada à vida das pessoas em Nova York. Todos respeitam a cultura dos outros e, de certa forma, simplesmente deixam todo mundo viver. Me sinto muito confortável com isso em Nova York. De vez em quando, você encontra pessoas que dizem: “Eu nasci e cresci aqui em Nova York”. E elas tendem a ser pessoas muito nerds. Não são as mais agressivas. São as mais quietas, meio tímidas, desajeitadas. É engraçado, porque você não imagina que ela seja assim, mas é.

Não acho que me sentiria confortável vivendo em um lugar onde ninguém se parece com você. Talvez seja por isso que o Japão pareça um pouco estranho em alguns aspectos, porque todo mundo se parece, sabe? Existem muitos estrangeiros hoje em dia, mas, mesmo assim, as pessoas ainda são bastante uniformes. E isso é um pouco estranho, tenho que dizer. Ao mesmo tempo, funciona porque o país é tão pequeno e todo mundo é tão respeitoso e educado. Também existe uma beleza nisso. Eu realmente não acho que conseguiria sobreviver fora de Nova York. Me sinto bastante forte aqui. Ainda não tenho um passaporte americano, só o Green Card. E tenho um passaporte japonês. Isso é importante, sabe? Não acho que conseguiria abrir mão do meu passaporte japonês e trocá-lo por um americano. Acho que isso nunca vai acontecer.

Mesmo depois de visitar e passar um tempo na Itália… Ainda prefere Nova York?
A Itália é uma loucura. É tão incrível. Em qualquer país que você vá, existem pessoas meio perturbadas, mas a Itália é inacreditável. Eles têm raízes muito fortes no comunismo, socialismo e anarquismo. A gente costumava tocar — e ainda toca — em ocupações, tipo centros sociais, sabe? Bolonha é um lugar muito forte nesse sentido. É um lugar tradicional, de certa forma. Às vezes, parece que você está vendo pessoas da burguesia falando sobre comunismo de uma maneira muito confortável. E você pensa: “Mas você ainda mora com os seus pais”. É esse tipo de conforto. Mas, ainda assim, a Itália é ótima, o clima é incrível. É um clima quase bíblico. O tipo de clima que eles têm parece coisa que você lê na Bíblia, sabe? Gosto disso, de todo o Mediterrâneo. Tenho uma atração muito forte por essa região. Amo o Mar Mediterrâneo. Queria vivenciar isso… A gente já foi ao mar no Brasil, mas tinha placas de alerta sobre tubarões por toda parte. Isso é verdade? Tem mesmo tantos tubarões nas praias brasileiras?

Isso acontece mais no Nordeste, mas, aqui no Sudeste, não é comum. Estive na Grécia no mês passado e, meu Deus, queria estar lá. É tão lindo. Tenho muita vontade de morar no Mediterrâneo por um tempo, então consigo te entender.
É bem feminino, né?

Sim! A loucura de São Paulo é bem parecida com a de Nova York, eu acho, mas o clima no Mediterrâneo — na Grécia e na Espanha…
É mágico, né?

Sim, é bem bíblico, como você disse.
Sim, é realmente bíblico. É que o clima é lindo, sabe? Não é exatamente ameno. Eu acho super feminino. E também as plantas que eles cultivam, como alecrim, lavanda e todo tipo de erva crescendo por aí, de forma selvagem… Você sente o cheiro delas no ar. Você simplesmente sente que poderia ficar melhor vivendo ali.

Exatamente! E eu fiquei sabendo que você curte música palestina. Pode me contar mais sobre isso?
O 7 de outubro foi, para mim, como um terremoto. Eu já sabia um pouco do que estava acontecendo, mas percebi naquele dia que aquilo ainda não acabou. E, até então, eu nunca tinha me aprofundado realmente na cultura deles. Uma das ferramentas mais fortes de sobrevivência deles é mostrar às pessoas o quanto eles têm de cultura e como carregam a história antiga. Eu me interesso muito por isso e sou completamente fascinada por criatividade — parece que não existe povo mais criativo do que o palestino. Isso acabou se tornando uma obsessão muito profunda para mim. A partir de 2023, comecei a ouvir tudo.

E aí, depois, começa a guerra com o Irã, e eu começo a ouvir música iraniana. Então, sim, tem sido uma jornada. Até o Alcorão é tão criativo, tão musical, que eu nem sei o que fazer. É como se eu não tivesse tempo suficiente para aprender sobre todas essas coisas, sabe? Mas espero poder ir para lá em breve e simplesmente ver como as pessoas tocam e cantam. A maneira como cantam, as notas, a forma como articulam as frases… É simplesmente uma loucura o quanto a cultura deles é criativa e bonita.

E você acha que consegue explorar esse seu lado mais profundamente quando trabalha sozinha? Li a matéria da Pitchfork sobre as suas inspirações musicais e fiquei muito feliz ao descobrir que você trabalhou com uma delas, o Ryuichi Sakamoto.
Ele teve um impacto enorme em mim. E ainda tem. Continuo falando com ele. Sempre que tenho uma ideia nova, penso se ele gostaria ou se está boa o suficiente. É muito importante para mim. E é muito surreal pensar que houve um período em que eu estava fazendo música e ele era a única pessoa que ouvia. Era a única pessoa para quem eu tocava as coisas. Ele não dizia nada. Nunca falava: “Isso está bom”. Só disse algumas vezes: “Ah, isso é bom. Acho que posso fazer alguma coisa com isso”. Mas, em todas as outras vezes, ele ficava completamente em silêncio. Ou então dizia: “Eu não entendo isso de jeito nenhum”. Coisas assim.

Mas foi incrível. Era quase como mandar a sua música para o universo, sabe? E, mesmo quando ele não respondia, só o fato de ele estar ouvindo me dava muita força. Ele nunca chegou a trabalhar diretamente nas músicas. Nunca dizia: “Você deveria fazer isso ou aquilo”. Nada disso. Ele simplesmente estava ali, ouvindo. Foi incrível. E acho que você só pode esperar conseguir chegar, nem que seja um pouquinho, mais perto da maneira como ele trabalha. Da maneira dele de transmitir, de uma forma tão pura, aquilo que quer que seja transmitido. Porque eu nem acho que a música seja algo que você cria. Ela simplesmente sai de você. Eu sinto que ela entra e sai. E é como se você fosse, basicamente, apenas um transmissor, sabe?

Por que você acha que demorou tanto para embarcar nessa jornada solo?
Eu tive medo. Não achava que conseguiria fazer isso. Eu já tinha feito algumas coisas, como em “Penny Sparkle”. Fui sozinha para a Suécia e trabalhei com dois produtores diferentes. Foi meio que um experimento para mim, para ver como seria trabalhar sem os gêmeos. Eu já estava começando a experimentar esse caminho solo.

E, se aquele disco [“Adult Baby”] tivesse feito muito, muito sucesso, talvez eu tivesse pensado: “Ok, quer saber? Esquece. Vou seguir carreira solo”. Mas o disco foi criticado de uma maneira tão dura. Foi como sofrer uma humilhação global instantânea, sabe? Foi muito difícil receber comentários tão brutais. Era coisa do tipo: “Isso é lixo. Isso é uma porcaria”. Os críticos odiaram tanto o disco que eu meio que perdi a vontade de seguir pelo caminho solo, porque, para mim, aquilo realmente era uma primeira tentativa. Mas hoje as pessoas continuam falando sobre como aquele álbum é ótimo, e eu fico pensando: “Ah, eu queria que vocês tivessem me dito isso antes”.

Como estávamos falando mais cedo, química musical e compatibilidade de personalidade são duas coisas diferentes. É claro que, depois de estar com os gêmeos por tanto tempo, você acaba sendo sempre o elo fraco — aquela que pertence, mas que, ao mesmo tempo, não pertence de verdade. Não é fácil. Eu sempre tive vontade de seguir o meu próprio caminho, mas agora me sinto bastante confortável com isso. Sinto que não preciso abrir mão de uma coisa para poder fazer outra. Posso fazer as duas. Posso fazer o que eu quiser. Não sinto mais tanta pressão para ficar com os gêmeos ou para fazer as coisas sozinha. Eu faço o que eu quiser.

Sim, acho que você pode fazer os dois. E eu gostei bastante do álbum. Saber que foi brutalmente criticado é novidade para mim.
Obrigada! Acho que hoje as redes sociais mudaram tanto as coisas que não precisamos mais dos críticos de música para dizer o que é bom ou não. Antes, você tinha que pagar para ouvir música. Então, precisava pesquisar antes: “Será que isso é bom? Vale a pena comprar?” E aí apareciam alguns caras meio nerds — ou mulheres também — que se colocavam como autoridades e diziam: “Esse álbum é uma porcaria”. E muita gente pensava: “Ah, então não vou comprar esse”. Mas hoje todo mundo pode pesquisar por conta própria e descobrir do que gosta. De certa forma, acho que os críticos perderam esse poder que tinham sobre as pessoas em geral. E isso não é necessariamente uma coisa ruim. Acho que é até bom.

E, claro, vocês estavam lá quando The Strokes, Interpol, Yeah Yeah Yeahs e tantas outras bandas de Nova York surgiram e conquistaram um público enorme. O Blonde Redhead também é frequentemente comparado ao Sonic Youth. Eu sei que essa comparação não incomoda vocês, mas queria perguntar: em que momento você acha que o caminho de vocês se tornou diferente do dessas outras bandas?
Acho que o fato de nós três sermos estrangeiros, por si só, já nos colocou em um caminho diferente. Somos três imigrantes fazendo música. É claro que nunca vamos pertencer de verdade ao mesmo lugar que todas essas outras bandas. Elas são todas americanas, sabe? Nasceram e cresceram lá. E acho que nós não somos assim. Nunca tivemos esse tipo de raiz. Acho que só isso já nos colocou em uma posição diferente.

Se houvesse outras bandas e todas fossem estrangeiras nos Estados Unidos, talvez pudéssemos formar uma espécie de grupo, de comunidade. Mas não existe nada disso. Então, de certa forma, acabamos ficando meio isolados. Talvez seja por isso. Mas, ao mesmo tempo, isso também nos dá liberdade para ir para qualquer lugar que quisermos e nos sentirmos em casa, sabe? Eu, por exemplo, estaria completamente aberta a começar a fazer mais coisas e até mudar minha base para o Brasil. Para mim, tudo bem. Na Itália também. É como se a gente não tivesse uma sensação tão forte de pertencimento a um único lugar. A gente se sente confortável em qualquer lugar.

Acho que faz sentido. E você pode me contar um pouco mais sobre o setlist que vocês estão preparando para o Brasil?
Bom, não sei. Acho que eu… Quer dizer, nós… Com certeza temos ensaiado bastante “Blood Spilled” e trouxemos de volta uma música bem antiga chamada “Distilled”. Reaprendemos a tocar essa faixa e ela parece uma música nova agora. Também temos várias de “Sit Down for Dinner”, como “Snowman”. A gente sempre toca “Falling Man”. Também sempre tocamos “SW” e “Maddening Cloud”. É difícil, porque temos muitas músicas, então precisamos decidir quais vamos tocar. Acho que estamos ensaiando “Loved Despite of Great Faults”…

O que está acontecendo agora é que eu tenho muitas músicas, como “23”, “Elephant Woman”, “Blood Spilled”, “Kiss Her Kiss Her”… São músicas muito fortes, mas extremamente difíceis para mim de cantar. É uma coisa vocal muito intensa. Eu vou cantar essas músicas, mas não posso cantar muitas outras além delas, porque são muito difíceis. Antes, eu cantava mais da metade das músicas da setlist, mas agora acho que vai ser mais equilibrado. Talvez o Amadeo cante mais músicas, enquanto eu canto um pouco menos, mas músicas mais épicas, sabe? Estou muito animada. Acho que vamos experimentar bastante.

Antes de passarmos à última pergunta, preciso saber: que tipo de desentendimento você costuma ter com os gêmeos no estúdio e como isso afeta a dinâmica entre vocês?
A gente briga por coisas que depois nem consegue lembrar. Acabamos discutindo por alguma coisa tão boba… Mas, quando é algo realmente importante, geralmente estamos na mesma página. Quanto menores são os detalhes, mais absurdas, eu acho, ficam as nossas brigas. Às vezes a gente briga porque, muitas vezes, você não pode fazer coisas que combinam bem demais, porque aí a música não provoca tanto impacto, não faz você sentir o suficiente. Para a música ter impacto, às vezes você precisa fazer justamente o contrário. Então, temos que ficar em caminhos separados durante a música inteira. Tem algumas músicas em que cada um fica completamente na sua. A gente não se relaciona musicalmente, mas, juntos, o resultado fica incrível. E essas coisas podem levar a uma briga de verdade, porque você quase não quer ouvir a outra pessoa, já que aquilo acaba te distraindo demais. Então, sim, isso pode virar uma briga bem séria. Tipo: “Você pode abaixar um pouco? Eu mal consigo me ouvir”, sabe? E acaba virando uma briga completamente absurda. Mas, no fim, geralmente a gente resolve. Durante as turnês, a gente pode brigar por qualquer coisa.

Minha última pergunta: descobri que o título do álbum “Barragán” veio do arquiteto mexicano Luis Barragán e preciso admitir que fiquei com um pouco de ciúmes. Então, você acha que poderia encontrar uma inspiração parecida no Brasil e transformá-la em uma música?
Sim, meu Deus… Sabe aquela música da Gal Costa, “Azul”? Para mim, parece que ela está cantando meu nome.

Nossa, realmente têm sonoridades muito semelhantes.
Sim. Eu a conheci quando estava trabalhando em “Girl Boy”, a primeira música que nós escrevemos. Um amigo meu estava trabalhando com a Gal — ele era produtor —, e eu tive a oportunidade de conhecê-la. Não sei exatamente como aconteceu, mas ela disse: “Toca uma música para mim”. Então toquei “Girl Boy” para a Gal. E ela disse: “Que linda! [em português]”, ou alguma coisa assim. Ela comentou: “Ah, que bonito. Você tem uma voz bonita”. E acho que isso acabou se tornando uma espécie de motor para mim. Até hoje fico muito emocionada quando penso nela, porque me lembro de olhar para ela e pensar: “Essa pessoa não é humana. Ela é um pássaro. É um pássaro que canta”. E o ritmo que ela tinha por dentro, sabe? O quanto ela tinha de groove. Você sentia isso. Ela tinha um ritmo tão forte dentro dela. Ela não precisava necessariamente se mexer ou cantar daquela maneira, mas você conseguia sentir que havia um ritmo absurdo dentro dela. Essas coisas tiveram um impacto enorme em mim — ela teve um impacto enorme em mim.

Eu tinha um emprego de meio período… Acho que ninguém sabe dessas coisas, que eu conheci a Gal, sabia? Eu também trabalhava meio período na Comme des Garçons, e ela costumava usar roupas da Comme des Garçons, então eu ajudava a atendê-la algumas vezes. E ela ficava tão elegante com aquelas roupas da Comme des Garçons, que têm uma estética tão ousada, tão diferente. Ela ficava tão bonita de preto, com aquele cabelo… Eu ficava completamente encantada. Só de poder estar perto dela, mesmo que por pouquíssimo tempo, em cada uma dessas ocasiões, eu ficava maravilhada. Isso mudou a minha vida. Mudou, de certa forma, o meu desejo de ser artista. Então, sim, estou pronta para absorver tudo o que eu puder e, depois, dedicar tudo o que me restar ao Brasil.

Estou muito feliz por ter ouvido essa história, Kazu. Podemos fazer uma captura de tela juntas?
É claro!

Muito obrigada por essa conversa. Gostei bastante. E é um pouco engraçado porque, sempre que converso com um artista, tento me encontrar um pouco na pessoa. Quero entender qual é o segredo para ser como você. Quer dizer, qual é o segredo para conseguir viver de arte, sabe? Então essa conversa foi muito importante para mim. Obrigada por ter dedicado esse tempo a conversar comigo.
Não, eu que agradeço. Porque, quando uma entrevista não é boa, meio que estraga o seu dia inteiro. Você fica pensando: “Por que eu fiz isso? Por que eu tive que passar por isso?”, sabe? É muito triste quando você está sendo entrevistado e o jornalista está simplesmente fazendo o trabalho dele, mas as perguntas não são realmente bem pensadas. É um desperdício de tempo tão grande. Então, poder conversar com alguém que realmente… A pessoa nem precisa necessariamente saber tudo sobre você. Você só quer conversar com alguém que tenha o mesmo tipo de dúvidas e dificuldades, sabe? E que também esteja em busca de inspiração. Então, isso também é importante para mim.

– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone. Leia outros textos de Heloisa.

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