entrevista de Davi Caro
É impressionante constatar a trajetória que a Papangu construiu desde sua concepção, em 2012. Agora com seu terceiro disco, “Celestial” (2026), devidamente lançado, o quinteto de João Pessoa exibe um nível de confiança e segurança artística do tipo que raramente se vê na música brasileira – seja ela mainstream ou underground. Destilando a já bem azeitada mistura sonora que já tinham mostrado em seus dois álbuns anteriores (“Holoceno”, de 2021, e “Lampião Rei”, de 2024), a Papangu também vem passando por um momento de ótimas novidades após sua segunda turnê internacional.
“Celestial” foi gravado de forma totalmente analógica, em fita magnética de duas polegadas, ao longo de nove dias em Berlim, logo após a primeira turnê internacional da banda. Já em 2026, Marco Mayer (baixo, voz, entre outros instrumentos), Raí Accioly (guitarra e voz), Pedro Francisco (guitarra, voz, e outros instrumentos), Hector Ruslan (guitarra e voz), e Rodolfo Salgueiro (teclados e voz) se apresentaram no Lollapalooza Brasil, assinaram contrato com o selo Deck, e soltaram seu disco mais coeso, ambicioso e instigante até agora.
Foi nesse contexto que Pedro, Marco e Rodolfo se sentaram para seu terceiro papo com o Scream & Yell, no qual dissecaram o processo de gravação do novo disco e a intricada mistura musical que conduzem com maestria. Além disso, também falaram sobre a experiência de tocar para plateias estrangeiras, pela mudança de formação que se deu após a saída do baterista Vitor Alves (que deixou o grupo depois de gravar o novo álbum), e muito mais. Confira!
Quero começar perguntando sobre esse processo que vocês tiveram desde o lançamento do disco, no mês passado. Como é que vocês têm sentido a resposta das pessoas ao novo repertório?
Marco: Bicho, tem sido muito, muito massa. O “Celestial” é um disco que marca uma divisão para a banda. De poder retratar em disco o que a gente faz no show. Então, acho que o “Celestial” retrata como a banda tem essa energia no show ao vivo, nessa brincadeira, nessa improvisação. E a energia que a gente transpôs ali naquela gravação está bem parecida. Acho que o pessoal que tem comprado o disco e tem visto a gente tocar essas músicas no show consegue ver esses paralelos, sabe? Consegue ver que o disco é um retrato super fiel do que a banda consegue fazer no palco, transposto pra o laboratório do estúdio. Foi super legal executar essas músicas ao vivo e a gente têm alcançado públicos bem diferentes do que a gente tinha conseguido antes. A gente viu no mês passado, em agosto, quando a gente fez a nossa segunda turnê internacional. O público lá ia do boomer ao zoomer, desde a galera lá com 80 anos até a galera bem jovem, com 18, 19 anos. Foi legal ver esse recorte demográfico, bem diverso, nos nossos shows.
Rodolfo: O disco tem repercutido assim tanto em nichos especializados de música progressiva, de jazz, jazz fusion, mas também em veículos tradicionais. E isso tem sido interessante de ver, além da coisa geracional que o Marcos citou, também essa coisa tanto de mídia nichada quanto de mídia especializada. E isso é bem interessante para a gente porque reflete um pouco a experiência recente da banda. De, numa terça ou quarta-feira, estar tocando num ambiente totalmente underground para poucas pessoas, mas, no final de semana, estar conseguindo acessar palcos de grandes festivais, para um público totalmente diverso. Então isso mantém a coisa muito dinâmica.
Falando nisso, esse ano vocês estiveram no Lollapalooza, que é uma vitrine enorme. Como foi tocar num palco tão grande, em um evento tão importante, sendo parte de um lineup deste tipo?
Pedro: Foi muito massa. Acho que foi o evento mais produzido que a gente participou, de maior porte. A gente ficou surpreso com o tamanho mesmo do evento, passando pelo backstage, vendo o tanto de gente que trabalha nesse evento. E também a conexão com os artistas que estavam lá. Não tivemos muito contato com os internacionais, mas a gente conseguiu participar do mesmo palco em que KATSEYE tocou, por exemplo. Outro que tocou nesse mesmo palco foi o FBC, que também gerou uns memes na internet com o lance do black metal. Públicos distintos: isso é bem interessante.
Rodolfo: Eu acho que é uma coisa interessante do Lollapalooza: a gente vê que a distinção de gêneros e de cenas, digamos assim, muitas vezes parte mais das bandas e das produções do que do público. Ele está menos interessado nessas distinções, e mais em escutar música que o toque de alguma forma que, talvez, seja diferente do que ele escute normalmente. Então o público é muito mais aberto do que as bandas acham, então, às vezes fica-se muito preso às cenas. Mas eu acho que tem mais a ver com comunidades que você precisa criar. Comunidades que girem ao redor do que você faz e que aos poucos se expandem para outras bandas, outros estilos. Talvez os palcos mais interessantes que a Papangu tocou tenham sido os mais diversos.
É bacana pensar nesses espaços maiores que a Papangu tem ocupado, principalmente agora que vocês estão com a Deck. Foi com eles que vocês lançaram o single de “Calado (de Olho)” e, depois, o “Celestial”. Como é o processo de estar dentro de um selo tão importante?
Rodolfo: O legal é que a Deck entende muito bem a dinâmica de uma banda que está galgando novos espaços. Então, há muita liberdade para a gente criar o que quiser e apresentar novas ideias. Atualmente o selo faz a edição das nossas músicas, e também a distribuição. Mas a Papangu segue sendo uma banda independente, no sentido de produzir nossos próprios shows, de ir atrás do calendário de turnês. Felizmente, agora podemos contar com uma base de contatos que a Deck tem e que nos ajuda muito nesse processo. É uma dinâmica que, em, menor escala, compartilha as mesmas características, por exemplo, do que o Black Pantera vem fazendo: numa quarta-feira, eles estão tocando no circuito underground; na quinta-feira os caras estão no Rock in Rio. E isso é muito massa, porque você consegue trabalhar a construção de um público que está próximo de você, e que consegue te acessar diretamente, mas também tocar para o mainstream. Talvez isso seja um “midstream”. Ao mesmo tempo é exigido, não pela Deck, mas pelo público, pelas bandas, e pelas produtoras, que a gente entregue um show e um profissionalismo de banda grande. Então esse é um desafio que a Papangu ainda tem que lidar, porque somos uma banda pequena, independente, onde todo mundo está fazendo alguma outra coisa pela banda além de tocar; agora é exigido de nós entregar o que bandas grandes entregam. Então isso é um desafio, não só do ponto de vista profissional, mas de tempo. Aos pouquinhos, a Papangu tem conseguido achar pessoas que fazem outras coisas por nós. Por exemplo, o Bruno (Montalvão), da Brain Booking, nos ajuda com shows; temos artistas que circulam ao redor da banda que vão nos ajudar com artes, com capas, com flyers.
A quantidade de referências sonoras que vocês têm, do regional ao metal, acaba refletindo muito nas decisões criativas da banda – inclusive de gravar o “Celestial” em Berlim. Vocês estavam em turnê por lá. Falem sobre a experiência de gravar fora, já que foi a primeira vez que a Papangu fez isso.
Marco: Foi na primeira turnê internacional da banda, e a gente teve o apoio de uma agência de booking estrangeira que nos convidou pra fazer parte do roteiro deles. Só que a gente aproveitou que teria um tempo livre após um show em Berlim, na Alemanha, e descobrimos que lá tinha um estúdio de um amigo nosso que já tinha trabalhado com a gente no “Lampião Rei” (o produtor Richard Brehrens), que permitia gravar de forma 100% analógica. Como a gente estava aquecido depois da turnê e pôde aproveitar que os custos da viagem da turnê já tinham sido bancados pelos shows e pela venda de merchandising, pensamos em unir a oportunidade ao que a gente já tinha, e gravar logo esse esse repertório novo, esse disco, esse conceito, de uma vez só. Era uma pessoa que a gente já conhecia e a gente já sabia que teria uma compatibilidade estética entre o que a gente tinha na cabeça, de som e de timbre. Então deu para gravar esse disco de uma maneira relativamente rápida, em nove dias. O que é muito pouco, e ficamos satisfeitos por poder aproveitar esse embalo da turnê. Se a gente estivesse no Brasil, provavelmente teria gravado aqui, mas teria que novamente aproveitar uma turnê no Brasil pra fazer isso, porque é bem caro viajar em banda, né? A gente não teria condições de viajar pra Berlim só pra gravar. A gente estava com aquela alegria e sangue nos olhos, ali, pra gravar aquele disco dentro do que a gente conseguia fazer enquanto banda independente. Mas foi corrido.
O processo de gravação analógica, então, não tinha sido algo pensado de antemão? Dá para imaginar que tenha sido um baita aprendizado para vocês.
Pedro: Fazendo um paralelo com um artista que a gente trabalhou, que é o Ivan Cordeiro: a produção do vídeo de “Colosso”, que ele fez, foi analógica também. Eu vi ele falando recentemente que pessoas que o procuram perguntam a ele, por exemplo, sobre qual é a melhor câmera para filmar. Ele diz: “a melhor câmera é a que você tem”. Quem tem que saber usar é a gente. Em gravação analógica também, a melhor coisa que você tem é o que está ao seu dispor. Penso que o importante é a música, sabe? A gente teve a dificuldade de descobrir como operar aquela máquina no momento de fazer. Então, para a música ficar boa, tem que respeitar as as qualidades e os defeitos dela, como um instrumento.
Marco: Tem uma coisa que é muito diferente entre gravar no digital e no analógico: na gravação digital tradicional que se faz hoje em dia, normalmente você vai para o estúdio, ou você está em casa, no seu estúdio de quarto, e você grava e até compõe na hora de gravar. Você passa muito tempo corrigindo coisinhas, fazendo micro-correções e tudo, você tem um milhão de opções de plugins, instrumentos, e tal. E na mixagem você gasta ainda mais tempo. Pra deixar tudo balanceado, você vai cortando pausas de respiração, barulho do instrumento, e coisas assim. Mas na gravação analógica, o tempo que você gasta como um todo é no preparo, na pré-produção. Você gasta o seu tempo nas composições e nos arranjos, ficando afiado. Então tem muito ensaio, tem muito esmero naquele tempo de arranjo, antes de você finalizar a composição, e depois pra você tocar aquilo ao vivo. Mas o tempo de gravar vai ser muito mais curto, comparado a uma gravação digital. Mixar também vai ser muito mais rápido, porque depois que gravou, está tudo em fita magnética, não tem mais como mexer. A masterização também foi rápida.
Rodolfo: É uma questão que foi muito levantada pelas pessoas, nos perguntaram muito isso. E é muito fácil de fazer. Na verdade, a gente gastou menos nessa gravação do que a gente gastou, por exemplo, no “Lampião Rei”, e com menos tempo de estúdio também. Por outro lado, o custo da fita é muito caro, não é algo que você pode se dar ao luxo de experimentar para ver como é que vai ficar. É um risco alto, mas tem ótimos estúdios no Brasil que fazem isso. E a banda está quente. Vale a experimentação, porque muda muito a linguagem do que você está tocando.
Até porque vocês são um quinteto.
Rodolfo: Sim, oficialmente, a gente tem circulado e produzido em quinteto desde o “Lampião Rei”, mas temos um sexto membro em João Pessoa, que se une a nós em eventos específicos.
Inclusive, o Vitor Alves, que foi o baterista do “Celestial”, não está mais tocando com vocês, e foi substituído pelo George Alexandria. Como foi esse processo de se adaptar a um baterista novo, tendo registrado um repertório tão complexo?
Pedro: Toquei (antes) com o George, e conheço ele faz acho que mais de 10 anos, quando a gente criou uma banda em 2016, para tocar stoner instrumental e rock. Nesse momento de troca, a gente pensou nele, e meio que foi unânime. Todo mundo quis que ele estivesse junto, e foi justamente nessa virada para o Lolla. Então a gente teve pouquíssimos shows antes, e o sexto show dele já foi no festival. Foi muito massa. A gente rapidamente fez essa conexão. A gente está criando coisa nova, e ele tem muito input criativo assim dentro da banda. Ele participa muito assim, como improvisador também. Ele entende também um pouco sobre tocar instrumentos de corda. Como a gente tem muitas partes instrumentais, é importante ter uma noção também.
Marco: O George tem uma capacidade imensa de internalizar a música, entender com facilidade e com muita rapidez a estrutura relativamente complexa das músicas que a gente compõe. E, por já ter essa afinidade estética, ele escuta coisas um tanto parecidas, umas coisas meio também fora da nossa zona de conforto. Mas a formação musical dele se complementou com a nossa de uma maneira muito boa, e encaixou perfeitamente numa química que a gente alcançou em pouquíssimo tempo.
Rodolfo: Uma coisa muito interessante aconteceu no terceiro ou quarto ensaio com o George: a gente estava tocando “Taxidermia”, que é uma das músicas do “Celestial”. De repente, a gente começou a fazer uma jam, improvisar em cima dela, e saíram não uma, mas duas músicas novas, assim, em seguida. A gente é tão ansioso que tem músicas do “Celestial” que a gente nem está tocando ao vivo ainda, e já estamos tocando essas músicas que a gente criou no ensaio com ele. A gente permite que cada um traga sua própria linguagem, e modifique as músicas na hora de executá-las. Até preferimos que a coisa evolua, que a coisa mude. O próprio disco é um retrato daquele momento. Se a gente tivesse gravado o disco uma semana depois, talvez as músicas tivessem outra pegada. Então, o que é tratado às vezes como uma “hard choice”, para nós, é algo muito, muito fluido.
O disco novo tem duas faixas instrumentais, “Bode Expiatório” e “Celeste”. Quando vocês estavam compondo, elas já eram pensadas como faixas instrumentais, ou vocês chegaram a cogitar escrever letra para elas?
Marco: A gente chegou a escrever letra para “Bode Expiatório”, mas acho que a música meio que pede esse silêncio, sabe? A gente tem que ficar mudo na hora de tocar ela, porque é uma música super complexa. E o jeito que a gente consegue interpretar melhor a mensagem dessa música é tocando; tem muita melodia, muitos temas diferentes. Tem alguns momentos totalmente lúdicos de interação, que é a gente essencialmente tirando onda. Me lembra um pouco de “Pitágoras”, dos Mutantes, ali do “Tudo Foi Feito Pelo Sol” (1974). Acho que os temas já falam por si.
Pedro: E acho que “Celeste” não teve, em nenhum momento, letra. Essa música foi sempre instrumental. A gente já queria ela assim mesmo.
Rodolfo: “Colosso”, por outro lado, foi inicialmente instrumental. E aí o Marco sugeriu colocar uma letra naquela melodia, que se assemelha ao que aconteceu com “Sol Raiar” no “Lampião Rei”. E temos o contrário acontecendo com “Bode Expiatório”, mas no disco tem um outro exemplo, que é “Fechamento de Corpo”: Marco ensaiou o início de uma letra e de um vocal. Depois ele falou não, eu quero fazer instrumental. Essa aqui vai ficar instrumental mesmo.
Marco: Isso que o Rodolfo mencionou se vincula à máxima que a Papangu tem toda vez que vai gravar alguma coisa: proibir ideias novas. Infelizmente a gente é muito agoniado e, toda vez que está lá no estúdio, na hora de gravar, surge aquele ímpeto de “eu quero fazer alguma coisa diferente aqui, vamos mudar essa nota aqui, trocar esse acorde”. A gente tem que tentar simplificar um pouco, porque senão você perde o fio da meada e a gravação que tinha. E acho que isso torna as coisas um pouco interessantes pra gente.
Vocês saíram na Pitchfork, também. Pensando nessa repercussão, e na forma que o disco foi trabalhado em resenhas, é muito comum se associar o som da Papangu às referências que vocês trazem. Dá para encontrar pessoas falando de jazz, de maracatu, de stoner, de forró, de metal. Como é que vocês enxergam essa necessidade de trazer outras referências para tentar explicar o som de vocês? Incomoda essa ideia de “estão querendo colocar a gente numa caixinha”?
Rodolfo: Eu acho que tem uma linha que une todos na banda, que é o rock progressivo. Pelo menos, é uma linha de influência que a gente compartilha, e que é muito ampla. Esse é um termo que funciona como um guarda-chuva para muita coisa. E facilita, mas ao mesmo tempo, ele não explica toda a influência nordestina, né? Ela está muito presente, tematicamente, no “rock troncho”, que é uma brincadeira ao mesmo tempo que é verdade. “Troncho” é uma palavra que a gente usa muito aqui, e soa tipicamente nordestina, ainda que seja usada em outros lugares. E é rock; é rock, e é troncho. A gente tem duas guitarras, a gente tem teclado, tem bateria, a gente tem um show com energia alta. A gente tem peso. Então talvez seja fácil dizer que é uma banda de rock, mas a gente também é uma banda de metal. A gente também é uma banda de jazz. Só que a galera do metal acha que a gente não é tão metal, porque a gente não usa preto; “aí já é outra coisa, aí já é outra coisa” [risos]. Realmente, a gente não se preocupa tanto com isso.
Marco: Também não me incomodo tanto com isso, não. Eu acho até engraçado, às vezes, quando o pessoal gosta de querer catalogar as coisas, quer colocar a gente numa caixinha. Vão dizer que a gente tem uma referência X, que a gente tem influência Y, quando o nosso ponto de partida é totalmente distinto do que as pessoas acham que usamos como referência. Posso ser levemente pedante em falar isso, mas eu acho até que a Papangu hoje em dia chegou num nível de maturidade composicional suficiente pra não precisar se questionar tanto. É simplesmente divertido, às vezes.
Uma das faixas mais interessantes do disco é “Iamanakaru”. Qual a origem desse nome?
Rodolfo: É uma outra palavra pra “mandacaru”, que é um tipo de cacto do Nordeste. Então, como muitas palavras de povos indígenas, ela vai ter grafias que remetem ao som, a esses fonemas enunciados. Ela é uma composição do Hector que ele fala sobre essa belíssima planta que dá flor, tem água, tem espinhos, e se protege de várias intempéries. Ela é um monolito que está impregnado na nossa cultura. Então, se você pegar músicas de Alceu Valença, de Geraldo Azevedo, de Zé Ramalho, é uma referência que surge.
Imagino que muita gente deve perguntar para vocês sobre as referências mais regionais de vocês. Como é que vocês encaram isso?
Rodolfo: Mesmo na própria capa do disco tem coisas que são inexplicáveis aqui, né? Tem coisas que você entende imediatamente, mas tem outras em que você suspende a descrença. Tem um grupo de pessoas dançando, e uma das figuras até virou uma piada num grupo de WhatsApp de fãs da Papangu, porque disseram que é o Chico Bento dançando [risos]. É curioso que eu acho que vem mais um espaço de curiosidade do que de dúvida, de “preciso saber o que é isso”. E é fácil para a gente explicar, porque a gente gosta disso. Dessas metáforas, dessas analogias. Então, também gostamos de falar a respeito. A gente é bucho furado, né? Não consegue guardar segredo. Daqui a pouco a gente está contando para todo canto o que tal letra significa, qual o título da música, quem fez o que.

Em relação à capa do disco: ela foi feita depois que o disco já estava pronto, ou ela foi feita em paralelo, com uma coisa retroalimentando a outra?
Marco: Depois que a gente terminou de gravar tudo, mandamos as músicas para a Juliana (Lapa), e ela criou a partir da própria audição. A interpretação dela foi totalmente distinta do que uma pessoa teria feito lendo as letras, racionalizando tudo. São três painéis distintos, que se comunicam entre si, e uns respondem perguntas que estão em outro quadro. Então, é bem legal como essa parte, da arte gráfica da Juliana, conseguiu se comunicar com o que a gente fez e com o que nós somos.
Rodolfo: Eu fico assim um pouco triste, às vezes, quando eu vejo uma banda muito boa e interessante que vai lá e faz uma capa que parece um flyer publicitário, sabe? Não tem um conceito. Se o disco é conceitual e você consegue agregar um outro artista àquilo, você engrandece as duas coisas, como era muito feito no passado.
Marco: É outra coisa quando a banda consegue um certo espaço, podendo realmente retroinvestir na produção da sua música. Aí passa a alimentar aquele pequeno ecossistema da indústria da música; você passa a ser uma banda que contrata artista gráfico, que tem uma relação com técnicos de som, ou de luz. E aí você passa a contratar essas pessoas pra fazer esses serviços e elas também conseguem expor trabalhos em determinados cenários, e formar essa comunidade de pessoas que trabalham na indústria da música e que fazem coisas sérias assim.
Sobre as músicas novas: escutando o “Celestial” agora, qual seria a música favorita de cada um de vocês?
Marco: Bicho, é tipo escolher filho, sabe? [risos] Ou pelo menos essa é a resposta oficial que eu dou – é feito escolher filho. Não quero escolher, porque também muda todo dia. A música que eu quero ouvir, hoje, e é o que está na minha cabeça, é uma música que eu não sei como a gente conseguiu gravar: “Bode Expiatório”. Não sei como a gente conseguiu sequer compor, porque o processo composicional dela foi de juntar retalhos de uma música que eu tinha feito, com retalhos de outra música que eu tinha feito, com retalhos de outra música que o Pedro tinha feito. E aí, fazer esse grande Frankenstein, cheio de enxertos, deu certo. Eu fico impressionado escutando, pensando que a gente conseguiu fazer uma música tão, digamos, esquisita. E do jeito que a gente fez, gravando ao vivo, é muito doido.
Rodolfo: Curiosamente, eu também vou com “Bode Expiatório”. Ela tem muita variação, muitos momentos diferentes. Ela tem espaço para a gente improvisar, é uma música que vai se tornar mais interessante ao vivo, porque é uma colcha de retalhos. E aí ela facilmente pode ter suas partes esticadas, ou diminuídas, para que ao vivo a gente explore todo o improviso e também traga o público pra, de repente, cantar junto as partes que não estão no disco, porque a gente faz isso também. [risos]
Marco: A gente tem que ver também o que o George vai fazer nessa música, né? Porque ele tem uma capacidade criativa absurda, e a gente tem que ver como é que ele vai reinterpretar tudo. Tem uma coisa engraçada, nessas últimas turnês que a gente fez desde que ele entrou na banda, que foi tocar um repertório já antigo, que estava mais ou menos cristalizado nas performances, mas com a bagagem e a interpretação totalmente distintas dele. Então “Água Branca” e “São Francisco” agora são músicas totalmente diferentes. A gente tem tocado elas em quase todos os shows, mas desde que ele entrou, todo show tem sido uma surpresa.
Pedro: Eu ia responder “Bode Expiatório” também, mas todo mundo respondeu com ela [risos], então vou escolher “Fechamento de Corpo”, que é uma música bem diversa também, é super complexa. Tem muitas camadas, e acho que dá para ouvir 500 vezes e sempre achar coisas novas. E foi uma das músicas que a gente mais trabalhou também.
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
