Crítica: “Fito Paez: O Mundo Cabe em uma Canção” é uma egotrip recheada de insegurança e de grandes canções

texto de Davi Caro

O documentário “Fito Paez: O Mundo Cabe em uma Canção” (“Fito Paez: El Mundo Cabe en una Canción”, 2026), se inicia com seu protagonista rechaçando produções do gênero que prezam pela sanitização. O que falta, segundo o cantor e compositor argentino, é mais “crueza, honestidade”. E dá para entender seu ponto de vista; até porque, em mais de quatro décadas de carreira, Fito amadureceu, como pessoa e como artista, às luzes dos holofotes – de forma que uma ideia como a conduzida pela Netflix seria um esforço fútil se não tivesse como principal propósito a tal honestidade de que Paez fala.

É importante, entretanto, falar sobre como esta mesma crueza bruta acaba criando uma nova e fragilizada impressão de um nome que há tempos está acostumado a se apresentar diante de milhares de pessoas em diversos países. Alternando-se entre filmagens recentes do cantor rosarino – que é mostrado durante os ensaios do show “4030”, em 2025, no qual revisitou o material de seus álbuns “Del 63” e “Circo Beat”, e também em passagens da preparação do ambicioso álbum duplo “Novela”, que lançou em 2025 – e recordações biográficas da trajetória do compositor, “El Mundo Cabe en una Canción” acaba se posicionando entre o delírio de uma viagem de ego e a tomada de consciência do peso que tem um legado.

O fio condutor com o qual todos os acontecimentos contrastam é um acidente doméstico que Fito sofreu ainda antes da conclusão da turnê “El Amor 30 Años Despues Del Amor”, no qual fraturou várias costelas e precisou de repouso hospitalar extenso. O processo de recuperação, ao que se dá a entender, levou a um período de auto-reflexão profundo, algo que pode ter a ver com a intenção deste documentário: ao se dar conta da fragilidade física ao qual está sujeito, na altura de seus mais de 60 anos, Fito se debruça sobre seu trabalho o quanto possível – e sobre sua história, também.

Muito da parte retrospectiva deste documentário é praticamente um complemento documental a série dramatizada “Amor & Música”, que percorre os primeiros anos de carreira do artista até seu sucesso incendiário em 1992. Faz, sim, toda a diferença ter a narração do próprio personagem principal desta história; recordações romantizadas e idílicas (como o incentivo do pai, a criação por parte da avó, seus encontros fortuitos com os mestres Charly García e Luis Alberto Spinetta, e também com a ex-parceira e eterna amiga Fabiana Cantilo) são entrecortados de forma vertiginosa com passagens cheias de sofrimento (a morte da mãe; que pereceu após complicações pós-parto, a perda do pai, já em uma época em que tinha êxito comercial; e sobretudo o bárbaro assassinato de sua avó e outra parente, em 1986, que o impactou para sempre). Embora não prejudique a imersão da narrativa, as transições entre o passado e o presente são um pouco truncadas, e podem por vezes parecerem bruscas.

Há muito, aqui, da faceta mais “primadonna” de Fito. Seja esbravejando (mais de uma vez) com sua banda, determinado a executar com perfeição o repertório que compôs quando mais jovem, seja definindo um show como “arruinado” após seus músicos errarem, aparentemente em uníssono, o último acorde da derradeira canção de uma das apresentações – algo que contrasta com as tomadas mais sensíveis da produção. Ao abordar sua relação com a namorada de longa data, Eugenia Kolodziej (de quem, o documentário revela, o cantor chegou a se separar) ou com os dois filhos, Martín e Margarita (que ajudam a ilustrar o lado paternal de Paez, inclusive em seu aspecto mais carente), o mito se dissolve um pouco e revela uma pessoa intensa, por vezes difícil, e sempre exigente demais consigo mesmo e com seus próximos. Mesmo em momentos de maior fragilidade.

Ainda assim, fica a impressão de que Fito Paez – a exemplo do já citado Charly García – não espera se deixar aposentar tão cedo. O que é possível testemunhar no longa, sem sombra de dúvidas, é uma instituição da música pop rock latino-americana que ainda se mostra disposta a desafiar sua própria audiência. “O Mundo Cabe em Uma Canção” se encerra, cronologicamente, às vésperas da apresentação de “Novela” para o público; a esta altura, Paez já lançou outro disco de inéditas, o bacana “Shine”. Nem todo mundo se mostrou disposto a dar uma chance ao material novo – vide o recente episódio onde o cantor foi vaiado durante uma apresentação, na Movistar Arena de Buenos Aires, por uma multidão distraída por celulares e que gritava pedindo que Fito tocasse seus sucessos (em uma apresentação que, conforme amplamente divulgado antes, visava apresentar o repertório do disco de 2025 na íntegra).

Se o rosarino se sente à vontade para embarcar em projetos sinceros, ambiciosos e bem-idealizados a despeito do conservadorismo de seus fãs, o mérito é mais do que devido; por outro lado, o longa é uma produção agridoce, que parece reticente ao tentar mostrar o lado mais humano de uma figura adorada internacionalmente, um artista eternamente dividido entre a honestidade que sua música transparece e o circo midiático no qual sua existência se converteu. Ao contrário da maioria dos trabalhos de Fito Paez, “O Mundo Cabe em uma Canção” exala insegurança em uma abordagem protocolar, esquecível, e por vezes contraditória – que é sonorizada por belas canções que, por sorte, seguem tendo a importância que merecem. E que nenhuma egotrip jamais será capaz de diminuir.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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