DIIV: “Um artista sozinho não pode derrotar o sistema, mas podemos criticá-lo”

entrevista de Bruno Capelas e Igor Müller, do Programa de Indie

Mais pop – e estranho – do que nunca, DIIV estreia turnê do álbum ‘ZIRP!’ no Brasil; em entrevista, banda discute a derrocada dos EUA, força da comunidade e lista discos da vida

O que você faria se sua casa pegasse fogo e você perdesse tudo? Para Zachary Cole Smith, fundador, vocalista e guitarrista do DIIV, a resposta é uma só: “miramos nas estrelas”. É uma das explicações que ele dá para “ZIRP!” (2026), novo álbum do quarteto nova-iorquino, previsto para chegar às plataformas digitais no próximo dia 30 de outubro. Um mês antes disso, porém, o público brasileiro terá a chance de ter um pequeno “spoiler” do disco – afinal, o grupo abre a turnê do próximo trabalho em São Paulo, na segunda noite do Balaclava Fest, no dia 27 de setembro (ingressos aqui).

“Nossos shows no Brasil sempre são uma loucura”, diz Zach, cuja banda já passou pelo Brasil em 2017 (com duas noites em SP e uma em Recife) e em 2024 (duas datas em São Paulo e um acachapante concerto no Se Rasgum, em Belém). A próxima passagem por aqui também tem tudo para ser especial – especialmente porque a banda não faz ideia do que vai tocar. “Vai ser o primeiro show, não tocamos nada do ‘ZIRP!’ em nenhum show ainda. Talvez a gente toque alguns clássicos esquecidos? Vamos tirar a poeira do repertório”, diz o baterista Ben Newman, que completa a formação ao lado de Colin Caufield (baixo) e Andrew Bailey (guitarra).

Aclamado ao longo dos últimos anos como um dos principais nomes do cenário alternativo, versando entre o shoegaze e o dream pop, o DIIV parece pronto para dialogar com um público mais amplo. Não à toa, o quarteto escolheu A.G. Cook – um dos responsáveis pela sonoridade de “brat”, hit da cantora Charli XCX – para produzir o novo álbum. “Acho que a música pop se tornou um lugar interessante para a experimentação. De certa forma, o mundo alternativo ficou um pouco estagnado em comparação com o pop”, afirma Zach, em entrevista originalmente concedida ao Programa de Indie e agora publicada no Scream & Yell.

Isso não significa, porém, que o DIIV está amaciando no discurso. A começar pelo nome do disco: apesar dessa cara de onomatopeia de HQ, “ZIRP!” é uma abreviatura para “zero interest rate policy” – ou “política de taxa de juros próxima a zero”, praticada nas últimas décadas nos EUA e responsável por impulsionar a indústria de tecnologia com capital de risco barato, auxiliando no desenvolvimento do capitalismo tardio dos nossos tempos. No álbum, essa discussão se reflete tanto em citações a empresas como a gestora de investimentos BlackRock ou a empresa de tecnologia para segurança Palantir, ou em versos como “Onde está o mundo são que eu conhecia antes?”, do single “Kid”.

“ZIRP é uma parte importante dos EUA que vemos hoje. É um país no qual as instituições foram esvaziadas e o capitalismo engoliu tudo”, afirma o vocalista, que viu sua visão de mundo mudar depois de perder a casa nos incêndios de Los Angeles, em 2025. “Quando algo dessa proporção ocorre e você perde tudo, sua perspectiva muda. Uma parte muito grande desse disco tem a ver com esse sentimento. Tentamos fazer algo excitante, que não servisse só para cumprir tabela, mas para mostrar algo que realmente achamos bom.”

No papo a seguir, concedido pelo DIIV de dentro de um carro com os quatro integrantes, Zach e seus colegas falam mais sobre o novo trabalho, a decisão de começar a usar um figurino especial, a parceria com A.G. Cook e a expectativa para os shows do Brasil. Eles também listam os discos que levariam para a ilha deserta e falam sobre o que esperam provocar com “ZIRP!”. “Nós fomos politicamente radicalizados pelas músicas que ouvimos enquanto crescemos”, diz Zach. “Um artista sozinho não pode derrotar o sistema. Mas podemos fazer arte que critique o sistema, ou ao menos que consiga influenciar a forma como algumas pessoas pensam.”

Normalmente, as bandas costumam vir ao Brasil no final da turnê. Vocês, por outro lado, vão fazer o primeiro show do novo disco aqui em São Paulo. Por que vocês decidiram nos dar essa oportunidade?
Zachary Cole Smith: Nós trabalhamos com a Balaclava e com o Fernando (Dotta) há um tempão. Estamos muito animados em fazer parte do festival deles! Nossos shows no Brasil sempre são uma loucura. Amamos tocar aí. Lembro do quanto as pessoas cantavam nossas músicas, de um jeito que nunca tínhamos ouvido antes. Foi sensacional, mesmo.

Vamos falar de “ZIRP!”, o disco que vocês lançam agora em outubro. À primeira vista, parece uma daquelas onomatopeias de quadrinhos. Na verdade, é um conceito econômico, uma abreviatura para “zero interest rate policy” – ou seja, uma política de juros próximos de zero. Por que vocês escolheram esse conceito como o título do disco?
Zach: Você acertou na mosca. É um título que parece meio bobo, como o som de um tiro de laser em um quadrinho futurista, ou mesmo algo saído de uma ficção científica. Ao mesmo tempo, essa ideia está no centro do que podemos chamar de derrocada americana. ZIRP é uma parte importante dos Estados Unidos em que vivemos hoje.

E que país é esse?
Zach: É um país no qual as instituições foram esvaziadas e o capitalismo engoliu tudo. ZIRP foi a política que permitiu que isso acontecesse.

Ben Newman: É um império em colapso.

Muito do que vemos tem uma grande influência da tecnologia e do Vale do Silício, que se beneficiaram com essa política. Por outro lado, não dá para escapar da tecnologia. Estamos conversando via Zoom, as músicas do DIIV estão no Spotify, usamos iPhones para conversar. Como lutar contra esse sistema mesmo dentro dele?
Zach: Um artista sozinho não pode derrotar o sistema. Acho que você entende o que quero dizer. Podemos fazer arte que critique o sistema, ou ao menos que consiga influenciar a forma como algumas pessoas pensam. Nós fomos politicamente radicalizados pelas músicas que ouvimos enquanto crescemos. Criticar o sistema é o que podemos fazer dentro das nossas possibilidades, a partir do nosso trabalho, que é fazer música.

É interessante ouvir isso. No nosso programa, sempre falamos que ouvimos música alternativa porque gostamos de pensar que existe outro mundo possível. Acho que estamos no mesmo barco.
Zach: É uma ideia que temos discutido bastante ao propor o que chamamos de New Alternative. Você já ouviu aquela frase da Margaret Thatcher, “não há alternativa”? Ela fala como se não houvesse nenhuma alternativa ao capitalismo. Propor uma música alternativa – ou uma nova alternativa – também é uma forma de ir contra essa ideia.

A versão em vinil de “ZIRP!”, do DIIV

“ZIRP!” foi produzido por A.G. Cook, que muita gente conhece de discos como “brat”, da Charli XCX, ou o próprio “britpop”, um álbum triplo que ele lançou em 2024. É um universo sonoro diferente do que o DIIV costuma fazer. Como vocês se conheceram? E por que decidiram chamá-lo para produzir o disco?
Zach: Sempre fomos grandes fãs do A.G. Cook e da música que ele faz. Quando saiu o “Britpop”, ficamos viciados no segundo dos três discos. Sempre vi o A.G. Cook como um guitarrista, mas ouvir o que ele fez naquele disco, uma espécie de rock futurista, me fez pensar que poderíamos fazer algo muito divertido juntos. É engraçado: começamos a conversa com ele com uma abordagem totalmente diferente da que acabamos fazendo. Sugerimos fazer algo tipo “Screamadelica”: íamos gravar as músicas e ele remixaria tudo depois. E ele respondeu: não, não é isso o que a gente deveria fazer. Então, começamos a construir o som de “ZIRP!” com ele desde o início. Foi muito mais divertido e muito melhor do que a nossa ideia, francamente.

É um disco que traz um DIIV mais pop do que nunca – e usando a estrutura do pop para criticar o sistema!
Zach: Acho que a música pop se tornou um lugar interessante para a experimentação. De certa forma, o mundo alternativo ficou um pouco estagnado em comparação com o pop. É por isso que a ideia de música alternativa começou a ficar engraçada para nós – e foi exatamente por isso que criamos esse conceito do New Alternative. É uma espécie de rebelião, uma alternativa à música alternativa. É algo que o pop pode fazer muito bem.

É também interessante ver que é a primeira vez que vocês estão usando… uma espécie de figurino nos clipes e nas fotos de divulgação. Posso ver que você está de camisa e gravata agora mesmo, inclusive, tal como no clipe de “Kid”. Há um conceito por trás disso?
Zach: É mais divertido quando as bandas começam a ter personagens além das pessoas reais. Lembro de uma entrevista do Bradford Cox, do Deerhunter, há uns 15 anos, em que ele dizia: “Cara, agora parece que toda banda está vestida como se estivesse indo comprar asinhas de frango às duas da manhã”. É por isso que mudamos um pouco e decidimos abraçar esse conceito. Estamos usando camisas, gravatas e ternos, mas é como se vivêssemos o dia seguinte à quebra da Bolsa. Estamos de terno? Sim, mas é um terno meio fodido – como se a economia tivesse colapsado, mas ainda assim você precisasse ir trabalhar no dia seguinte, sabe? Essa é a fantasia.

Precisamos compartilhar algo com vocês. Há algo muito específico que sentimos quando ouvimos a música do DIIV. Aconteceu no show de Belém, e também aconteceu na primeira vez que ouvimos “ZIRP!”. É como se ficássemos enjoados, mas numa espécie de náusea boa – da qual não dá para escapar e que nos faz não querer parar de ouvir a música. Acho que pode ter a ver com o jeito que vocês trabalham o som. Vocês já ouviram isso antes? Alguém já reclamou nos shows?
Zach: Não! Esse foi o comentário mais legal que a gente já recebeu! Gosto disso.

Ben: Acho que posso explicar. Isso acontece em muito do que se chama de “música atmosférica”. Foi algo que notei no jeito como o Alex [A.G. Cook] trabalha. Cada elemento da canção está se mexendo o tempo todo. Nada fica perfeitamente afinado o tempo todo. Isso pode causar uma espécie de tontura. Compreendo totalmente o que você quer dizer! É algo que o My Bloody Valentine faz bastante também.

Mas é de propósito?
Zach: Mais ou menos. Não estamos tentando fazer ninguém ficar enjoado! Mas como Ben disse, o movimento faz parte da nossa proposta de levar as canções adiante. Se há uma mudança de filtro ou algum efeito enquanto a música toca, isso ajuda os ouvintes a chegarem à próxima parte da música. É algo que ajuda a manter a atenção das pessoas – ou pelo menos evita que eu fique entediado enquanto ouço música.

Zach, “ZIRP!” é também o primeiro disco que o DIIV lança desde que sua casa foi destruída nos incêndios de Los Angeles, em janeiro de 2025. Como isso influenciou o disco – se é que influenciou, claro?
Zach: Foi algo que influenciou toda a minha vida, não só o disco. Quando o incêndio aconteceu, ainda estávamos começando a gravar “ZIRP!”. Quando algo dessa proporção ocorre e você perde tudo, sua perspectiva muda. Comecei a pensar no que realmente é importante – na minha família e no que está imediatamente ao meu redor. Uma parte muito grande desse disco tem a ver com esse sentimento. Miramos nas estrelas. Tentamos fazer algo mais acessível para as pessoas, algo excitante, que não servisse só para cumprir tabela, mas para mostrar algo que realmente achamos bom. Acho que é algo natural quando você percebe que suas prioridades mudaram na vida.

Você também recebeu muita ajuda – li em uma entrevista que você recebeu milhares de dólares em doações. Sempre falamos muito sobre a importância da comunidade, de estar com as outras pessoas. É algo muito difícil nos dias de hoje, especialmente depois da pandemia.
Zach: Estar em comunidade é o que faz a música existir. Sabe o que quero dizer? Fazemos amigos porque usamos a camiseta das mesmas bandas, porque ouvimos música juntos, ou vamos a shows juntos… e de repente existe uma comunidade porque está todo mundo junto fazendo a mesma coisa. Nós começamos uma banda porque queríamos fazer parte de uma comunidade em Nova York. Acho que receber dinheiro e doações da comunidade é uma prova de que esse esforço é real. Pode parecer só algo aleatório, mas não é: é uma prova de que há pessoas que se importam com a gente, pessoas reais que estão conectadas a nós de alguma forma.

É algo que vai muito além de um “número de ouvintes mensais” ou qualquer coisa do tipo.
Zach: Sim! É uma mecânica tão cínica, sabe? A música é algo muito mais pessoal para cada pessoa do que um simples número.

Estamos quase no final da entrevista, mas ainda temos duas perguntas para fazer. Uma é sobre o show que vocês vão fazer aqui no Brasil. Além das músicas do disco novo, o que mais vocês vão tocar? Dá para dar algum spoiler?
Zach: Não sabemos ainda. É sério, ainda estamos ensaiando.

Ben Newman: Não sabemos mesmo! Vai ser o primeiro show, não tocamos nada do “ZIRP!” em nenhum show ainda. Talvez a gente toque alguns clássicos esquecidos? Vamos tirar a poeira do repertório. Quem sabe?

A última pergunta é uma tradição do nosso programa, uma coisa meio “Alta Fidelidade”. Quais seriam os cinco discos que vocês levariam para a ilha deserta?
Zach: O Bailey falou o primeiro aqui. “Illmatic”, do Nas.

Colin Caufield: Hmmm. Talvez “Heaven or Las Vegas”, do Cocteau Twins? Sim. É um disco no qual eu confio muito.

Zach: Não sei… acho que eu levaria o “mbv”, do MBV [My Bloody Valentine]. Sabe? O autointitulado?

O mais recente?
Zach: Isso!

Ben: Acho que eu levaria “Music for Airports”, do Brian Eno. Assim eu conseguiria dormir de noite.

Adoramos quando alguém responde essa pergunta de um jeito prático.
Ben: Bem, eu estou sozinho na ilha, né? Gosto de levar a questão ao pé da letra. Se eu realmente estivesse numa ilha, o disco teria de ter algum propósito, sabe?

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie. 

 

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