texto de Leandro Luz
“Ana, en Passant” (Fernanda Salgado, 2026) desenha uma Belo Horizonte viva, entre fusões e recortes que misturam técnicas diversas de animação. Ana acaba de perder a avó e, desnorteada, habita uma Paris apática e melancólica. A escolha pelas cores e pelas texturas saltam aos olhos e orientam o modus operandi da cineasta: é a subjetividade de Ana que dá as cartas do jogo.
Uma chave e um endereço deixados pela avó levam Ana até a casa de Alice, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Há um estranhamento inicial pelo fato de Ana e Alice se parecerem muito fisicamente. Ambas as personagens são interpretadas por Jéssica Pierina, portanto não é apenas na aparência que se dá esta semelhança, mas também no registro vocal. Fora isso, no entanto, as duas personagens não poderiam ser mais diferentes. Personalidades quase opostas que estabelecem uma tensão inicial muito propícia, transformando a cena da chegada de Ana na melhor do filme.

Nessa noite de cheganças, o diálogo entre as duas é temperado pelo receio do primeiro contato e a excitação da descoberta. Ana vive esse luto intensamente, enquanto Alice também passa por uma fase difícil. Ficamos sabendo disso quando, no dia seguinte, um amigo de Alice chega em sua casa e se espanta com a presença de Ana. A partir deste momento, tomamos ciência também de que esta história se passa durante o carnaval, o que justificará a alegria salpicada pela cidade (e até pela casa, em momentos oportunos). Ao sair para a rua, Ana ajuda a levantar a cidade enquanto caminha, imaginário que só consegue ser alcançado pela escolha acertada de contar essa história por meio da animação.
De todas as técnicas em animação empregadas, a rotoscopia é a que estrutura o filme. Talvez muitos de nós tenhamos sido apresentados ao uso da rotoscopia nos filmes do cineasta texano Richard Linklater, com os seus “Acordar para a Vida” (“Waking Life”, 2001) e “O Homem Duplo” (“A Scanner Darkly”, 2006). Carlos Francisco, ator coadjuvante que interpreta um rico personagem aqui, salientou, durante o debate no dia seguinte à exibição no Festival de Brasília, que trabalhar no filme – sua primeira experiência com cinema de animação – foi parecido com atuar no teatro. Na rotoscopia, capta-se a interpretação integral dos atores, em corpo e em voz, para depois retrabalhar quadro a quadro as imagens. Cenografia, figurino e exteriores são desenvolvidos mais e melhor nas mãos dos animadores, transformando o trabalho do ator – que precisa lidar com essa escassez de elementos prévios – num desafio totalmente diferente ao que é executado no cinema convencional em live-action.
A tríade “direção de fotografia, de arte e de animação” é assinada por, respectivamente, Safira Moreira (cineasta talentosa, vide seus trabalhos anteriores como diretora, sobretudo “Cais”, de 2025), Marcella Tamayo e Camila Kater. Junto à diretora, essas três mulheres buscam e atingem uma unidade estética, algo sempre desafiador, ainda mais ao se tratar de um longa-metragem brasileiro independente de animação, que contou com inúmeros profissionais espalhados pelo Brasil envolvidos em um longo período de gestação.
Zezé Motta empresta a sua experiência para construir a avó Alice, que surge materializada nas memórias de Ana. A voz cadenciada e generosa da atriz aproxima o espectador dessa âncora emocional da protagonista. A trilha sonora composta e executada pela banda Metá Metá, de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França colabora e muito para a definição do tom agridoce empregado por Salgado, sempre com muita sutileza. Boa parte das questões apresentadas pelo roteiro se amarram através da relação entre essas distintas gerações de mulheres negras. Neste ponto, remete ao recente “Ainda Não É Amanhã” (Milena Times, 2024), que também dançava com essas mesmas ideias.
A dança, aliás, funciona tanto como ponto de virada quanto como ferramenta de respiro para a narrativa. Ana afirma não dançar, mas as Alices de sua vida, sim. É por meio desta manifestação artística inerentemente ligada ao corpo que a diretora consegue passagem para fazer a sua narrativa avançar, ainda que tenha dificuldades para lidar com um ritmo oscilante, ponto mais frágil da obra. A primeira metade de “Ana, en Passant” é certamente mais bem sucedida do que a segunda. Salgado tem mais facilidade para apresentar as situações e as personagens do que para encaminhar resoluções. Talvez, as referências do filme-ensaio tenham tomado por demais espaço no roteiro, privilegiando o percurso em detrimento dos pontos de chegada. Um filme refém e em constante estado de perseguição das próprias encruzilhadas que cria.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
