Festival de Brasília: “Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província”, de Júlio Bressane

texto de Leandro Luz

Júlio Bressane filma nas brechas do tempo. No intervalo entre um suspiro e outro. Com 80 anos de vida, mais de 60 de carreira e mais ou menos o mesmo número de obras em sua filmografia, o cineasta fez nascer um pensamento em cinema ímpar, com variações, evidentemente, mas de uma unidade espantosa. Em “Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província” (2026), uma nova peça é içada até o topo do que ele próprio chama de “cinema oculto”, ou seja, o que está escondido por trás da concepção de “filme”. Ou seja, daquilo que des-arranja a narrativa, que a coloca em perspectiva.

Um pouco como Ingmar Bergman filmou o seu tão pessoal “A Hora do Lobo” (1968), com suas fantasmagorias, obsessões e delírios, Bressane também faz, aqui, o seu artefato horrífico. A diferença, marcadamente, pode ser observada pelas doses incontidas de humor e de loucura, como de hábito no cinema do octogenário. Paulo Betti interpreta o protagonista, um acumulador inveterado – de pergaminhos, cartas, fotografias e pequenos objetos pessoais -, com um ensimesmamento chocante. Nada está disposto (pelo menos é o que parece) a interromper o seu processo obstinado de revisitar o seu arquivo, mesmo quando alguns obstáculos em forma de criaturas humanas surgem em seu caminho.

A província, fixada no título do filme, nos é apresentada por meio de imagens reconhecíveis para quem já pisou pelo menos duas ou três vezes em Tiradentes, cidade histórica de Minas Gerais. O preto e branco, aliado aos ângulos de câmera que recortam e dissecam a paisagem, transforma os paralelepípedos, as casinhas e a vegetação daquele território em algo deslocado no tempo. Aos poucos somos convocados a entrar em uma casa com muitos cômodos, amplos e inquietantes. É Betti que nos guia nessa primeira parte, com precisão nos movimentos corporais. Ele deita, caminha, se balança na cadeira e cada milímetro de seu corpo contribui nesse desenho esquizofrênico que será intensificado em breve.

Elaborados por Bressane em conjunto com o seu diretor de fotografia, Pablo Baião, os movimentos ousados de câmera ajudam a compor esse personagem e sua habilidade em navegar entre a loucura e a lucidez. Não são discretas as tentativas de estabelecer uma subjetividade pautada no tato, na textura das coisas. Com apenas um corte seco, o filme é capaz de nos transportar do casarão para uma floresta, sem que este gesto soe repentino. O montador é Rodrigo Lima, um dos colaboradores mais significativos para a continuidade do trabalho de Bressane nesta última década.

Bressane perscruta a mansão mal assombrada e questiona: quem é o invasor aqui, o homem obcecado com as palavras e com os documentos antigos ou o casal (Josie Antello e Cláudio Mendes), que só quer ver o tempo passar ouvindo no rádio as aventuras de “Jerônimo, o herói do sertão”? Há uma verborragia que vem do texto escrito, da caligrafia tão meticulosamente registrada pela câmera – que faz panorâmicas pacientes -, obrigando o espectador a brincar de decifrar ora garranchos, ora letras escritas com excessivo rebuscamento.

Assim como em seus filmes mais recentes, o cineasta insere fragmentos, principalmente sonoros, de obras marcantes de sua filmografia e encerra com a (nem tão) pequena equipe olhando para a câmera como numa fotografia de família do século passado, apenas para que, uma a uma, cada pessoa saia do enquadramento até que sobre um pequeno grupo, que por sua vez sai em conjunto.

Numa cena acelerada pela montagem, vemos dois personagens correndo em zigue-zague num quintal, fugindo de seu fantasma. Mais uma vez, vem à tona algumas imagens de cineastas como Bergman e Dreyer, artífices desse tipo de encantamento. Lembra, ainda, os velhinhos de “Cidade dos Sonhos” (David Lynch, 2001) que assombram a personagem de Naomi Watts na sequência mais insólita do filme. Bressane segue filmando com o vigor de um garoto e com a sabedoria de um decano. Sorte a nossa.

Leia também: “‘Pitico’ é uma dessas aventuras de Júlio Bressane”, diz curador do Festival de Brasília

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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