texto de Leandro Luz
Há uma máxima repetida à exaustão por espectadores de cinema por mais de um século e que perdura ainda hoje: “filme bom é aquele no qual nem sentimos o tempo passar”. Que o peso do cinema clássico narrativo impera sobre os nossos hábitos, isso é sabido, mas como se desvencilhar desse modo dominante de ver? De que maneiras os filmes podem contribuir para que os perscrutemos com os olhos mais livres?
“Onde Moram os Irmãos” (Marisa Mendonça, 2026) é um belo exemplo de como o cinema pode se libertar desses vícios. Lívia é uma mulher de 40 anos que mora no escritório dos pais. Sua família vive um luto que imobiliza a todos – ela, sua mãe e, sobretudo, seu pai, alcoólatra e em depressão. À Lívia é destinada a responsabilidade de cuidar dos negócios da família, um sem-número de apartamentos que precisam ser bem administrados para que não deem prejuízo aos proprietários. Alguns imóveis possuem inquilinos há décadas, mais ou menos problemáticos e difíceis de se lidar, outros estão desocupados, acumulando dívidas de IPTU e de condomínio. Para preservar a saúde financeira familiar, Lívia precisa estar sempre em movimento, fincando placas de “aluga-se” nos canteiros do Plano Piloto de Brasília e realizando visitas aos apartamentos vagos. Saúde, aliás, é um dos principais temas trabalhados pela diretora, em suas múltiplas possibilidades: financeira, mental e física.

Marisa Mendonça não rejeita o cinema narrativo, mas suas intenções estão menos ligadas ao encadeamento lógico dos eventos e mais conectadas a um raciocínio espiralar. Ao acompanhar as desventuras da protagonista, o espectador nota rapidamente que está diante de uma narrativa quase kafkiana. Os sucessivos problemas enfrentados por Lívia não irão acabar de repente. A corda esticada entre o final feliz e a tragédia cria uma angústia tremenda. Mendonça escolhe uma terceira via, como se a corda estourasse para cima ou para baixo, e nunca para um ou para o outro lado já definidos.
Apesar de suas referências orbitarem o cinema cru e centrado nos atores de John Cassavetes e a deambulação típica dos personagens criados pelo coerano Hong Sang-soo, “Onde Moram os Irmãos” é erguido com um estilo muito próprio. Para Mendonça, parece fundamental que o espectador sinta, experiencie, viva a duração de seu filme. Só assim será possível vivenciar também a ansiedade de Lívia, interpretada com brilhantismo por Liliane Rovaris – certamente a atuação mais inspirada entre todas nesta edição do Festival de Brasília -, a frustração de sua mãe, interpretada por Maria Paula Freitas, e a cólera de seu pai, vivido por Marcio Vieira. O trio de atores faz dessa relação familiar áspera algo ímpar no cinema brasileiro recente.
Algumas pessoas poderão comparar também com “Malu” (Pedro Freire, 2024), cuja ótima interpretação de Yara de Novaes também trazia à tona qualidades e desafios semelhantes. Embora o filme de Mendonça navegue por traumas aparentemente tão irreconciliáveis e duros como os vividos pelos personagens criados por Freire, há aqui uma consciência plena da escolha pela não psicologização das coisas. Rovaris encara a sua Lívia com uma técnica que privilegia o corpo ao intelecto. Nunca conseguimos invadir a cabeça da personagem porque o filme nos nega essa interiorização. Ao invés disso, Mendonça nos dá as pernas desengonçadas, os ossos cansados, os lábios crispados e o cenho cerrado de Lívia. Nos dá também a sua ânsia por se relacionar com o próximo. Carência e desespero são presumíveis, claro, mas é a materialização de seu sorriso tímido que conta mais.
Temas como as contradições de Brasília, a especulação imobiliária e os conflitos geracionais estão presentes e amarram essa espiral de acontecimentos. Na medida em que a narrativa avança, Lívia se vê cada vez mais presa em um beco sem saída. Entre as trapalhadas que se mete – umas com consequências mais graves do que outras – ainda é concedida à personagem, ao final, algum horizonte, mesmo que não tenhamos certeza do quão longe está do abismo.
O tom predominante em “Onde Moram os Irmãos” é arriscado, longe das facilidades de comunicação com o público, e ao mesmo tempo é o que o torna tão instigante, o que nos leva a permanecer em contato com ele para além da sessão. Marisa Mendonça, aliada a Rafael Ribeiro Gontijo, seu diretor de fotografia, quase sempre manipula a câmera da maneira mais benéfica aos interesses dramáticos do filme. Uma exceção é a cena do pai jogando sinuca e perdendo as estribeiras com uma tia que quer impedir a audição de sua música favorita. O disco “Na Quadrada das Águas Perdidas”, lançado em 1979, segundo do cultuado violeiro e compositor baiano Elomar, gira no toca-discos da família e faz ressoar alto a melancólica “Campo Branco”. É neste instante de indignação que a câmera se desestabiliza junto com a desestabilização do personagem. Um ato de redundância um tanto quanto alienígena ao que víamos até o momento.
A música de Elomar é tocada mais de uma vez durante o filme, o que nos leva a prestar ainda mais atenção em sua letra. Logo no início da canção, ele canta, com o seu linguajar inconfundível: “campo branco minhas penas que pena secou / todo o bem qui nóis tinha era a chuva, era o amor / num tem nada não, nóis dois vai penano assim / campo lindo, ai que tempo ruim / tu sem chuva e a tristeza em mim”. Mais tarde, na música, a frase “meu dia inda vai nascer” dá uma dica para interpretarmos o fim do longa-metragem. Após uma cena delicada de mãe e filha caminhando por uma trilha – um dos únicos momentos de respiro com a natureza, longe do concreto e das construções imponentes de Brasília -, é novamente a lembrança da música de Elomar que nos resgata. Que nasça outro dia, tempestuoso ou ensolarado, para Lívia e os seus.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
