Entrevista: “Três palavras resumem a Mostra CineBH: movimento, transformação e encontro”, pontua Raquel Hallak

entrevista de João Paulo Barreto

O tema central da 20ª edição da Mostra de Cinema de Belo Horizonte – CineBH destaca a indagação “O Cinema Latino-Americano: O que será?”, referenciando a canção clássica de Chico Buarque. O tradicional evento mineiro chega a duas décadas de existência evidenciando a história do cinema feito na América Latina através tanto de mostras retrospectivas quanto da apresentação do que de mais recente foi produzido no Brasil e nos países hermanos.

Amostra destaca a exibição de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, novo filme de André Novais Oliveira, um dos principais nomes da geração atual de cineastas brasileiros, e destaque no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2026. Mescla de ficção científica com drama acerca da solidão, o casal Jacira e Gilberto, juntos há quase meio século, vivem os percalços da vida em conjunto durante a terceira idade. Um tenro retrato de dois adoráveis personagens e uma marca evidente do belo cinema feito por Novais.

Raquel Hallak, diretora-geral da Universo Produção, responsável pela organização das principais mostras mineiras, que incluem não somente a CineBH, mas, também, a Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP, cujo foco temático é o da preservação, e a Mostra de Cinema de Tiradentes, que, ano a ano, apresenta um panorama do recente cenário nacional no cinema contemporâneo, voltou a conversar com o Scream & Yell, dessa vez, sobre suas expectativas para a edição de 2026 do CineBH: “Queremos destacar o cinema como esse espaço da multiplicidade de linguagens”, diz Hallak. Leia o papo na integra abaixo.

A Mostra de Cinema de Belo Horizonte completa duas décadas de existência em 2026. Nessa trajetória de tantos anos, muitas transformações na produção nacional de cinema, na cidade de BH, bem como na produção latino-americana, que passou a ser foco da CineBH há cinco anos. Como coordenadora geral do evento, como você pontua esse marco de vinte edições?
É uma edição histórica! Sempre buscamos fazer um cinema representativo dessa capital. É uma trajetória construída com continuidade, resistência, inovação e muito compromisso, porque acho que, dos três eventos que a gente faz, o CineBH é o que traz um desafio maior. Porque além de ser o nosso evento internacional, é um evento em uma capital onde, além de toda a programação extensa, temos o desafio da comunicação, o desafio do deslocamento. Ao longo dos anos, teve essa descaracterização que Belo Horizonte sofreu com as salas de bairro. Hoje, a cidade tem três salas de cinema de bairro. Já fomos uma capital com mais de 120 salas. Celebrar esses vinte anos dessa mostra que nasceu com esse propósito, de inserir Belo Horizonte no circuito internacional do cinema, é muito gratificante. É um reconhecimento desse trabalho que é coletivo, que ajudou a construir não somente um evento consolidado, mas, também, uma referência em Belo Horizonte. Um evento que reafirma a vocação de Belo Horizonte para a economia criativa, uma capital que tem essa vocação muito mais para as artes, para a cultura, para os encontros do que para a indústria em si. Então, acho que é uma conexão do que estamos somando com o passado e com o presente, mas, também, mostrando e trazendo para essa edição uma perspectiva de futuro com foco no cinema latino-americano. A Mostra CineBH ajudou a ampliar essa visibilidade dessa produção independente que não chegava ao circuito comercial. Três palavras que resumem são: movimento, transformação e encontro. Foi através dos encontros de filmes, de realizadores, de profissionais do audiovisual, de pesquisadores em uma contribuição muito bacana que abriu espaço para diferentes gerações de cineastas. E estamos fazendo isso com o cinema latino-americano. De cinco anos para cá, estamos abrindo no Brasil uma janela para esse cinema latino-americano. Um cinema latino-americano que também não tem espaço. São histórias de países vizinhos muito parecidas com a nossa, tanto do ponto de vista do cinema quanto dos impactos sociais, políticos e econômicos que refletem na produção. Por isso, acho que a Mostra CineBH, nesses vinte anos, é um momento mesmo de celebração, de representar essa cena latino-americana no Brasil, nesse evento internacional que projetou a cidade de Belo Horizonte. Lembro que, quando a gente começou a fazer o evento, ninguém conhecia Belo Horizonte. A gente tinha que mandar link de Ouro Preto, que era uma cidade em Minas conhecida pela questão histórica, sendo uma cidade patrimônio. Em BH, ainda não existia o Inhotim. Foi somente depois que o Inhotim veio a ajudar muito nessa projeção de Belo Horizonte no cenário internacional. Foi realmente uma trajetória de muitas conquistas e de muita vontade de fazer diferença.

E é interessante você falar dessa questão da projeção e ver nomes como o do pessoal da Filmes de Plástico, dentre eles o André Novais Oliveira, que, agora, um diretor consagrado internacionalmente, cujo mais recente trabalho, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” é o filme de abertura dessa edição (e acabou de vencer o Festival de Brasília).
Verdade. E juntando as três mostra de cinema da Universo, são muitos casos de realizadores que foram surgindo no decorrer dessa história. A Filmes de Plástico é uma produtora emblemática nesse sentido, porque o Gabriel Martins começa fazendo oficina aos 11 anos de idade na Mostra Tiradentes. O André Novais teve seu primeiro curta selecionado para o Festival de Cannes em uma exibição que aconteceu na Mostra de Tiradentes. E a partir daí, nunca mais ele perdeu um edital. É a partir daí que ele fica conhecido internacionalmente porque ele foi para o Festival de Cannes e, lá, ganhou menção honrosa. E eles criaram a Filmes de Plástico, que tem, também, o Thiago (Macedo) como produtor e o Maurílio (Martins), também, diretor. Quer dizer, cada um deles teve uma vivência e uma experiência muito diferente nas mostras. Na décima edição da CineBH, homenageamos a Filmes de Plástico. De lá para cá, temos homenageado, inclusive, atores e atrizes que surgiram a partir das produções, como foi o caso da Rejane Faria e do Carlos Francisco. É essa cadeia que as mostras de cinema vão proporcionando com essa questão do encontro, do evento, dessa possibilidade das trocas, da experiência e da formação, principalmente. Da possibilidade de você conhecer e fazer negócios. Temos vários casos assim. O (produtor) Rodrigo Teixeira com o (diretor) Lincoln Péricles, por exemplo. Eles estiveram juntos em um debate na Mostra Tiradentes SP, e eu tive a notícia agora do Lincoln Péricles, na Mostra CineOP 2026, que ele fechou um uma produção com Rodrigo Teixeira. Lembro, também, da Teia, que, hoje, é uma produtora mineira. O pessoal da Alumbramento, também. Todas essas produtoras surgiram como coletivos em encontros durantes as nossas mostras. Então, realmente, temos sido o espaço de formação dessa geração dos últimos vinte anos.

E a edição 2026 homenageia, também, Conceição Evaristo, cuja presença como atriz e co-protagonista do filme do André traz toda uma surpresa.
É bacana isso. A gente quer destacá-la. Uma pessoa que já tem toda uma trajetória consolidada na literatura e é essa aposta do cinema. Porque é a estreia dela no cinema como atriz. Já tive notícia que ela estará em mais dois outros filmes. E queremos destacar, também, o cinema como esse espaço da multiplicidade de linguagens. E a aposta dessa homenagem dela com atriz. Queremos chancelar isso. Vamos conhecer a Conceição Evaristo na tela do cinema como atriz. Então, acho que isso é um reconhecimento também novo para ela, que eu acho que ela não imaginava. E trazer essa chancela da protagonista do cinema brasileiro.

Além dela, a homenagem à cineasta paraguaia Paz Encina confirma essa relação, essa unicidade que você citou anteriormente da Mostra CineBH com o cinema da América Latina.
Estamos muito felizes com a vinda da Paz Encina para o CineBH. É uma tentativa nossa já de alguns anos e que deu certo agora. São duas mulheres que vão ser homenageadas nessa edição. Cada uma com a sua trajetória e sua história. E a Paz Encina vai coroar esses cinco anos em que estamos trabalhando o cinema latino-americano. O primeiro filme dela, o “Hamaca Paraguaya” (2006) também está fazendo vinte anos. Já o “Ejercicios de Memoria” (2016) está completando dez anos. Então, vamos exibi-los na Mostra de Diálogos Históricos junto com o filme mais recente dela (“Carta a un Viejo Master”, de 2024). É uma homenagem, também, que compõe a Mostra Diálogos Históricos e que tem esse propósito de olhar para esses filmes que estão celebrando datas comemorativas ou que foram e são destaques dentro da cinematografia do seu país e, no caso, também, da América Latina. E a Paz Encina vai estar presente com a gente. Ela vai receber o Troféu Horizonte na abertura, realizará uma masterclass, além contar sobre sua trajetória no cinema latino-americano.

O Brasil CineMundi chega à sua 17ª edição com um recorde de 375 projetos inscritos.
Sim. Tivemos um recorde de inscrições de projetos de longa-metragem vindo de 11 estados brasileiros. Minas Gerais lidera essa presença com 10 trabalhos, algo que para a gente, é muito importante porque mostra essa efervescência, também, do cinema mineiro, seguido por São Paulo e Pernambuco. E essa edição traz 37 projetos que vão estar distribuídos em cinco categorias. São dez projetos na Horizonte, que é dedicadas à ficção em desenvolvimento. Seis projetos estão na categoria DocBrasil de documentários. Seis projetos estão na Foco Minas, que é uma categoria exclusiva para projetos mineiros. E temos cinco no Work in Progress (WIP), voltado para filmes que estão em seu primeiro corte. Fechando, temos dez filmes na categoria Projeto Paradiso Multiplica. O Brasil CineMundi, além desse ambiente dos encontros individuais onde esses projetos serão apresentados para representantes da indústria de 15 países, também oferece um programa de formação muito consistente. É um programa consistente na parte de laboratório de desenvolvimento dos projetos que foram selecionados. Isso para eles prepará-los para esse encontro individual aqui e, também, já prepará-los para pensar a co-produção do seu filme. E esse é o objetivo principal: queremos que mais projetos saiam do papel, tornem-se filmes e tenham parceiros internacionais para que possam circular internacionalmente. Também oferecemos um programa de formação chamado CineMundi Lab, que reúne masterclass, debates, painéis, rodas de conversa. Esse ano, esse programa de formação conta com a participação de mais de 50 convidados em um centro de vinte atividades com assuntos desde internacionalização do cinema, co-produção e fundos de investimento. São 17 anos do Brasil CineMundi. Então, é um momento e um ambiente de mercado muito importante pro cinema brasileiro. Esse ano vamos lançar, inclusive, uma publicação mostrando exatamente essa trajetória dos 17 anos. Mostrando os projetos que estavam no papel e viraram filmes. Projetos que foram para as telas e que estrearam comercialmente. A publicação vai mostrar o que o CineBH proporcionou para a internacionalização do cinema brasileiro. É um evento de mercado muito importante e sedimentado que acontece simultaneamente à Mostra CineBH e que tem sido responsável por essa internacionalização do cinema brasileiro. Para você ter uma ideia, projetos como “Bacurau” (2019), “Benzinho” (2018) e “Tinta Bruta” (2018) passaram por aqui. Tantos projetos que vimos nascer no Brasil CineMundi como uma aposta inicial do evento e conseguiram não só chegar às telas, como, também, atrair esses parceiros internacionais que faz com que esses filmes estreiem no circuito internacional, recebam recursos de produção que não são só brasileiros. E a partir disso, ganhamos, também, notoriedade para os realizadores e produtores. Para poderem abrir caminhos para os seus próximos projetos.

E são quatro publicações recentes sobre as mostras realizadas pela Universo Produção, né?
Isso. Lançamos, na CineOP, a publicação sobre a Mostra de Ouro Preto, que tem o foco da preservação, aproveitando a ocasião dos vinte anos do evento em 2025. Agora, lançaremos esses dois livros e, em Tiradentes, lançamos um sobre a trigésima mostra. As quatro publicações fazem parte dessa coleção Cinema Sem Fronteiras. Ao mesmo tempo que têm sessões que falam da trajetória do evento, têm sessões que trazem reflexões, dados, contribuições sobre o foco de cada um. Então, o CineBH sobre o cinema latino-americano; o Brasil CineMundi sobre o mercado audiovisual, sobre a internacionalização; a CineOP, em Ouro Preto, sobre a preservação; e Tiradentes sobre o cinema contemporâneo.

Nessa trajetória de mais de trinta anos à frente da coordenação das mostras que a Universo Produção realiza, você já testemunhou diversos momentos de dificuldades na cultura brasileira. Um governo de extrema-direita que ia contra a cultura, uma pandemia, são dois desses momentos. Em um ano de eleição, o que você espera desse novo governo?
Bom, todo o desejo que temos é que a cultura possa ter políticas públicas. Tanto a cultura brasileira como um todo como o audiovisual. Sem políticas públicas, vemos as interrupções opções que já aconteceram ao longo dessa trajetória de pouco mais de 120 anos do cinema brasileiro. Então, a primeira coisa, independente do governo, é que precisamos que os governantes, em todos os níveis, municipal, estadual, federal, assegurem políticas públicas para o fomento da cultura e para a difusão. Governantes que entendam a cultura como uma parte da indústria que gera emprego, que gera renda, que traz impacto social e econômico e de desenvolvimento social. Então, diante dessa trajetória de pouco mais de 30 anos, temos também um desafio para continuar com esses eventos. As políticas públicas precisam se refletir, também, em incentivos. Temos a Lei de Incentivo, mas temos uma reforma tributária. Enfim, estamos sempre em estado de alerta para o que está por vir. Então, continuamos sonhando, mas, também, resistentes e resilientes. Continuamos mantendo o nosso compromisso com o cinema brasileiro, de valorização, de promoção, de difusão e, ao mesmo, tempo, investindo nessa parte da formação, que é fundamental para aumentar a indústria do audiovisual. Então, espero que a gente possa continuar sonhando no nosso país. Que a gente não perca a esperança de que sempre dias melhores estão por vir. E que a gente possa continuar essa trajetória nesse trabalho que não é só de uma empresa, de uma pessoa. É uma trajetória coletiva, de muitas mãos, cabeças pensando juntas, acreditando no mesmo propósito de ter o cinema soberano e representando a nossa identidade.

Há anos que o CineBH traz esse foco evidenciando o cinema latino-americano. E esse evidenciar se torna imprescindível em um período no qual um governo como o dos EUA busca excluir o que é latino. É importante frisar essa missão da mostra em Belo Horizonte.
Sim, eu acho que temos que unir forças entre os países que a gente pertence, que fazem parte do nosso continente. Porque, com certeza, nesse encontro, nessa união de esforços, vamos conseguir construir caminhos possíveis para o nosso cinema latino-americano, Isso considerando, inclusive, que passamos pelas mesmas dificuldades, problemas, interrupções. E é por isso que a temática desse ano, “O Cinema Latino-Americano: O que será?”, é exatamente para provocar uma reflexão. Essa pergunta é para provocar uma reflexão do que está por vir e o que nós estamos fazendo para que esse futuro continue existindo.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *