Helloween em São Paulo: ao vivo, septeto vive momento mágico e imbatível do power metal

texto de Paulo Pontes
fotos de Douglas Mosh

Completar 40 anos de estrada é uma marca respeitável para qualquer banda, mas o que chama a atenção na trajetória atual do Helloween não é só a capacidade de resistir ao tempo, pois o grupo alemão chegou a 2026 vivendo uma de suas fases mais emblemáticas, interessantes e vitoriosas. Na noite de sábado (19/9), na Suhai Music Hall, em São Paulo, o septeto encerrou a agenda de shows do ano com uma apresentação de duas horas e quinze minutos que deixou uma coisa bem clara: se em estúdio os trabalhos recentes não são unânimes e nem chegam perto dos clássicos do passado, no palco os caras entregam um puta show. É um momento praticamente imbatível e obrigatório para qualquer fã de música pesada e, principalmente, de power metal.

Essa foi a 57ª apresentação da história da banda no Brasil, fechando a perna nacional da turnê de 40 anos depois de passarem por Porto Alegre. O que se viu em São Paulo foi um grupo totalmente em paz e à vontade no papel de gigante do metal. Em vez de entregarem um show burocrático ou preso ao roteiro mais óbvio de sucessos, eles usaram essa última data do ano para dosar os clássicos de sempre, tocar sons do disco mais recente, “Giants & Monsters” (2025), e resgatar algumas raridades que não davam as caras no setlist há um bom tempo.

O grande trunfo dessa formação, que já caminha para dez anos de estabilidade desde o retorno de Michael Kiske e Kai Hansen em 2017, continua sendo a convivência no mesmo palco. A divisão de espaço entre o Kiske e o Andi Deris é o coração do espetáculo. Sem disputa de ego, a química e o entrosamento entre os dois passam uma leveza muito legal para quem está assistindo da pista.

Deris domina a comunicação com o público e vem cantando demais nessa fase, adaptando sua voz de um jeito muito natural para dividir os microfones com Kiske. Essa troca de timbres funciona bem demais: as músicas da era Deris ganham o alcance e os agudos do Kiske, enquanto os clássicos dos anos 1980 ganham a agressividade e o tom mais rasgado do Deris. Kiske, por sua vez, parece cada vez mais solto nessa volta. O momento em que a dupla senta à frente do palco para um curto (mas celebrado) bloco acústico mostra bem esse clima descontraído. Antes de entrarem em “A Tale That Wasn’t Right”, Kiske mandou no violão trechos de “Suspicious Minds”, de Elvis Presley, e “Yesterday”, dos Beatles, brincando e trocando o instrumento com Deris antes de começarem a cantar. Para fechar a trinca de vocalistas, Kai Hansen assume os vocais principais na visceral “Ride the Sky”, além de contribuir em outras faixas, resgatando aquela raiz mais rápida e pesada do começo da banda.

Montar o repertório de uma banda com quatro décadas de história e dois vocalistas de fases tão marcantes é uma tarefa ingrata. Alguém sempre vai sentir falta de alguma coisa. Mas as escolhas feitas para São Paulo se mostraram (em sua esmagadora maioria) acertadas O show já começou quente com “March of Time”, faixa cultuadíssima que raramente entrava nas turnês passadas e já conquistou o público. Outro ponto altíssimo foi o resgate de “Hey Lord!”. Lançada no “Better Than Raw” (1998) – um dos discos preferidos deste que vos escreve –, a música trouxe de volta a energia daquele período da discografia que às vezes fica um pouco escondida atrás do peso histórico dos Keepers. Foi um golaço ter colocado essa no setlist, e dá até aquela sensação de que mais faixas desse álbum poderiam aparecer no show (“Push” teria sido um sonho).

A grande surpresa da noite ficou para a entrada de “I’m Alive”, tocada pela primeira vez nesta turnê para substituir “Hell Was Made in Heaven”. A resposta da galera foi imediata, gerando uma comoção generalizada na pista premium e na comum, com todo mundo cantando junto esse clássico do “Keeper of the Seven Keys Part I” (1987). Já as músicas novas de “Giants & Monsters” (2025), como “A Little Is a Little Too Much” e a mais viagem “Universe (Gravity for Hearts)”, cumpriram bem o seu papel. Por mais que os álbuns de estúdio dessa nova fase dividam opiniões e não entrem para a lista de clássicos absolutos da banda, ao vivo essas canções ganham mais corpo e dão uma dinâmica interessante para o roteiro do show. Por outro lado, “This is Tokyo” continua tão morna ao vivo quanto é em estúdio. Poderia ter dado espaço para alguma outra da fase Deris (qualquer uma do “Master of the Rings”, que foi deixado de lado em SP, teria sido melhor) ou mesmo uma do disco anterior, autointitulado, como “Best Time”.

No bis, durante a execução de “Eagle Fly Free”, rolou um daqueles momentos típicos de show ao vivo. Ali no meio da música, o batera Dani Löble deu uma aceleradinha no andamento, o que deixou Kiske ligeiramente perdido no vocal. Ele olhou para trás, deu risada e seguiu o baile numa boa. Pode ter sido algum detalhe de retorno do batera, mas no fim é o tipo de detalhe orgânico que faz parte de uma banda tocando de verdade no palco, sem prejudicar em nada a entrega de um dos maiores clássicos da história do metal

Fechando a noite com o bis clássico de “Eagle Fly Free”, “Power” e “Dr. Stein”, o Helloween provou em São Paulo que essa reunião deixou de ser um mero projeto comemorativo para se transformar em uma das bandas mais divertidas de se ver ao vivo atualmente. A única coisa a lamentar na noite foi mesmo a qualidade do som na Suhai Music Hall. Em alguns pontos da pista, o áudio estava meio embolado e com frequências agudas excessivamente destacadas, o que acabou encobrindo um pouco dos solos de guitarra e as linhas de baixo do Markus Grosskopf.

Se em estúdio o atual Helloween entrega discos apenas corretos, em cima do palco a história é totalmente outra. A entrega, o entrosamento e o carisma de Kiske, Deris e companhia transformam a apresentação em uma celebração viva do metal. Para quem gosta do estilo e por algum motivo ainda não teve a chance de conferir essa formação em ação, ver esse show é um compromisso básico com a história do power metal. Vale muito!

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

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