texto de Davi Caro
Mike Flanagan respeita o gênero do terror como poucos diretores de sua geração. Neste caso, “respeitar” é bastante diferente de simplesmente “entender” – e “Carrie” (2026), mais nova adaptação do romance de estréia de Stephen King, lançado originalmente em 1974, talvez seja a melhor forma de compreender a diferença entre os dois conceitos. Flanagan é, obviamente, bastante familiar ao horror no audiovisual: seja na televisão (como nas séries “A Maldição da Residência Hill” (2018) e “A Queda da Casa de Usher” (2023), baseadas nas obras homônimas de Shirley Jackson e Edgar Allan Poe, respectivamente), seja no cinema (meio no qual debutou com “Absentia”, de 2011), a folha corrida do cineasta esbanja credibilidade em relação ao entretenimento de terror. O mesmo se estende, inclusive, à suas adaptações das obras de Stephen King. Afinal, “Carrie: A Estranha” – reimaginada como uma série em oito episódios lançada pela Prime Video – é tão somente a mais recente transposição das histórias de King para as telas a ser feita por Flanagan, que já esteve à frente do ótimo “Jogo Perigoso” (2017) e iniciou uma relação com as obras do autor que se estendem até o brilhante “A Vida de Chuck” (2024).
E “Carrie” talvez seja a produção na qual o tal respeito que Flanagan tem pelo entretenimento de terror fica mais evidente. Não por acaso, lá se vão cinco décadas desde a primeira adaptação da história, que chegou aos cinemas em 1976 pelas mãos de Brian DePalma. Ao procurar se ater ao enredo original o máximo possível, o longa acabou se convertendo em um clássico de sua época, e fez de sua protagonista (interpretada de forma impecável por uma jovem Sissy Spacek) um ícone do horror moderno. A nova releitura, que retém muitos dos principais elementos da narrativa original, se distancia do clássico que a precedeu – bem como das duas outras refilmagens que sucederam neste ínterim (uma subestimada adaptação feita para a TV, em 2002, e um pífio remake dirigido por Kimberly Pierce, em 2013). Tal distanciamento, no entanto, não deve ser confundido com vergonha do material que inspira a história. Pelo contrário: ao transpor o enredo de “Carrie” para os dias atuais, e priorizando a linguagem episódica do streaming, a nova série tem o potencial de se conectar com novas audiências de maneira que muitos poderiam ter julgado como improvável. O que poderia ser interpretado como uma simples tentativa de modernizar a trágica fábula escrita por King acaba por ressaltar o apelo que a história tem, mais de 50 anos após sua publicação original.

Carrietta “Carrie” White (Summer H. Howell) é uma jovem completamente diferente das outras em sua cidade natal de Chamberlain: filha do construtor civil Ralph (Tahmoh Penikett) e da religiosa dona de casa Margaret (Samantha Sloyan), a jovem foi criada longe do contato social com estranhos e doutrinada na fé dominante da mãe, que percebeu, logo cedo, as estranhas e assustadoras habilidades da criança. Quando seu pai perde a vida em um acidente de trabalho, as circunstâncias acabam forçando as duas sobreviventes da família a confrontarem o mundo lá fora. Enquanto Margaret se vê condicionada (ainda que de forma compulsória) a arrumar um emprego, a fim de manter a custódia da filha, Carrie vê na possibilidade de passar a frequentar a escola local uma chance de desbravar um mundo completamente novo, repleto de segredos e descobertas. O aparecimento da desajustada jovem acaba impactando a todos – se, por um lado, o corpo docente da instituição enxerga a introdução da menina ao ambiente escolar com curiosidade e, muitas vezes, com pena, o mesmo não pode ser dito dos alunos. Embora alguns vejam a garota com um misto de empatia e intriga, como Susan “Sue” Snell (Siena Agudong) e seu namorado, Tommy Ross (Joel Oulette), outros vêem na nova aluna um alvo fácil. É o caso de Tina Blake (Josie Totah) e, sobretudo, de Christine “Chris” Hargensen (Alison Thornton), a aluna mais popular, e mais cruel, do colégio. Quando Carrie se depara com seu primeiro ciclo menstrual dentro de um vestiário lotado, sem qualquer conhecimento de um fenômeno completamente normal, seu choque acaba virando motivo de risos em meio às alunas (lideradas por Hargensen) que testemunham o horror da jovem White.
Não demora muito para que o bullying sofrido pela menina chame a atenção do diretor da escola, Henry Grayle (Matthew Lillard). O aparecimento de uma conta em redes sociais, identificada como “Carrie Red” e motivada a expor e a humilhar tanto a mais nova aluna, quanto diversos outros estudantes e professores da Ewen High School, cria um ambiente cheio de desconfiança e paranoia, onde discentes como Rita Desjardin (Amber Midthunder) e Seth Peist (Rahul Kohli) se vêem diretamente impactados a nível pessoal e profissional. A revelação de Chris como a principal responsável pelas difamações e o envolvimento da própria Margaret no drama interescolar fazem com que a situação se transforme em uma bomba-relógio – com Carrie, cada vez mais consciente de suas extraordinárias habilidades, no centro do impacto. E quando esta explosiva conjunção finalmente detona, ninguém em toda a cidade de Chamberlain permanece imune. E o surgimento de uma misteriosa garota chamada Emaline West (Thalia Dudek), que parece conhecer bem os poderes ocultos de Carrie, indica que há mais por trás dos fenômenos que a adolescente parece ser capaz de causar. E um potencial destrutivo muito maior do que sua mãe, seus professores, ou seus impiedosos algozes escolares podem imaginar.
Embora seja uma história há muito conhecida e readaptada, existe o suficiente nesta nova interpretação de “Carrie” para justificar sua existência. Além de tomar determinadas liberdades para com o universo no qual ocorre, a transposição do enredo para uma realidade contemporânea e pós-pandêmica é primorosa em seu desenvolvimento. Longe de ser piegas em seus comentários sobre violência escolar, depressão e assédio dos mais diversos tipos, a forma com a qual a produção de Mike Flanagan discorre sobre estes tópicos é bem-escrita ao ponto de fazer com que qualquer espectador possa esquecer estar vendo uma história fundamentalmente sobrenatural. A decisão de não abordar o roteiro em formato de longa-metragem é outro acerto: além de permitir maior aprofundamento das histórias que antecedem o enredo principal, a escolha também permite que as mudanças trazidas aqui (algumas superficiais, outras bem mais drásticas) passem longe de serem apressadas ou inadequadas. Em oito episódios, “Carrie” passa muito mais rápido do que qualquer um poderia imaginar.
Mesmo uma história com um apelo tão universal quanto esta não poderia ser bem adaptada sem um elenco à altura da tarefa. E, neste aspecto, a produção mais uma vez acerta: Summer H. Howell não se atém à lendária interpretação de Sissy Spacek, fazendo com que sua Carrie seja multidimensional, instigante, e totalmente factível aos anos 2020. O mesmo pode ser dito da Chris Hargensen de Alison Thornton, que vai além de ser uma vilã maniqueísta e caricata – como o próprio material original a retrata – para se tornar uma figura quase tão trágica quanto a própria protagonista. Ou melhor: as protagonistas; afinal, Samantha Sloyan justifica aqui o favoritismo de Flanagan, com quem mantém uma parceria longeva. Não só por escapar da forma mais melodramática que Piper Laurie adotou para o papel de Margaret White no filme de De Palma, mas também por reinventar uma personagem que cobra certa empatia, mesmo com um comportamento obsessivo e por vezes assustador. Apesar de agraciados com tempo de tela mais limitado, tanto Amber Midthunder quanto Matthew Lillard entregam performances memoráveis, assim como Siena Agudong e Josie Totah – esta última, em especial, acaba sendo o acerto secreto da temporada, partindo de uma figura detestável nos primeiros episódios apenas para alcançar uma espécie de redenção no explosivo e sangrento trecho final da trama.
Na verdade, aí está a grande mudança de “Carrie”, a série, em relação à história que a originou (e também às adaptações que a sucederam): seu final, que surpreende ao ser mais ambíguo e menos conclusivo do que se esperaria deste enredo. Ainda não está claro se, ou quando, uma nova temporada poderia acontecer; entretanto, ao final de seu último episódio, fica claro que há mais nuances a serem exploradas aqui. Muitos poderiam pensar se tratar de sacrilégio para com um dos mais relevantes contos da era contemporânea, ou, ao menos, interpretar como desrespeito diante do intento original de seu autor. No entanto, é importante voltar ao ponto central deste texto: Mike Flanagan mostra, acima de tudo, respeito para com as histórias que conta nas telas – sejam elas grandes, como as de cinema, ou pequenas, como as dos celulares onde muitos preferem assistir produções como estas nos dias atuais. Seja no primor de seu roteiro, seja na escalação de um impressionante elenco como este, ou seja nos incríveis valores de produção postos em prática, “Carrie” é uma das melhores séries a chegar aos streamings neste 2026 justamente por servir como uma espécie de avatar de sua protagonista: facilmente subestimável, embora guarde muito, muito mais do que o ceticismo é capaz de conceber.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
