textos de Leandro Luz

“Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy (2026)
O título e o cartaz do filme de May el-Toukhy anunciam uma preocupação imediata com a ideia de identidade. Marie, nossa protagonista, está em trânsito. Ela se prepara para o jantar de noivado com o seu ex-patrão. Difícil, inclusive, usar o termo “ex” para descrever a relação entre os dois. Marie não é mais, pelo menos oficialmente, a empregada da mansão de Christian, viúvo e patriarca de sua família, dono de uma grande fábrica de luvas, responsável por empregar centenas de pessoas antes, durante e após a ocupação nazista em Copenhague. No entanto, Marie segue realizando tarefas domésticas e cuidando da filha de seu futuro marido. Somos arremessados no universo de Marie sem muita preparação, e vamos descobrindo aos poucos o que acontece em seu presente e, sobretudo, o que ela precisa esconder de seu passado. Serão os eventos e as pessoas do passado, inclusive, que ameaçarão a reconstrução de identidade e a ascensão de classe de Marie. “Mulher Desconhecida” (“Kvinde ukendt”, May el-Toukhy, 2026), vencedor do Leão de Ouro de melhor filme e da Coppa Volpi de melhor atriz para Mathilde Arcel no Festival de Veneza em 2026, é uma obra afeita a enigmas – que reluzem bem na tela, com composições meticulosas que valorizam a presença política do corpo da atriz, mas que nem sempre são bem conduzidos. A violência na obra, por exemplo, é registrada de modo sensacionalista, mas Arcel ainda consegue, com o seu rosto expressivo, preservar a ambiguidade necessária para acompanharmos com interesse a história até o fim. Uma última nota: embora menos notável, a abordagem da neurose do pós-guerra faz lembrar um pouco o cinema do diretor alemão Christian Petzold.

“A Longa Estrada”, de David Drake (2026)
CJ é uma caminhoneira veterena com dificuldades para se adptar às mudanças da sociedade ao seu redor. Olha de cara feia para o filho de seu principal empregador, que faz das lives nas redes sociais uma fonte extra de renda. CJ ainda usa telefone fixo em sua casa (que fica meses a fio sem voltar, preferindo dormir em seu próprio caminhão) e, na estrada, ainda não se rendeu aos smartphones modernos, utilizando, em seu lugar, um velho celular de flip para prospectar novos trabalhos que a possibilitem permanecer em constante movimento. Uma grande fatia de “A Longa Estrada” (“The Long Haul”, David Drake, 2026) consiste em mostrar a solidão de CJ – parte uma escolha da própria mulher, rendendo momentos de genuíno prazer pelas largas pistas estadunidenses, parte um isolamento autoimposto diante de um trauma mal resolvido do passado. Vamos descobrindo aos poucos (spoilers daqui em diante) sobre a sua filha assassinada, o homem que a matou e a audiência que decidirá se a ele será concedido um livramento condicional. CJ evita contato com familiares e velhos amigos, preferindo a anonimidade da amizade com Buck, um colega caminhoneiro com o qual ela se comunica diariamente via rádio. Mantém o hábito de enviar cartões-postais para si mesma, uma forma elegante do roteiro mensurar a passagem do tempo e a relação da protagonista com a sua casa. Apesar da boa interpretação de Margo Martindale, que carrega o filme nas costas, a previsibilidade dos eventos tira um pouco a sua força. Mesmo implorando pela emoção do espectador, como fica evidente nas cenas com a Yalitza Aparicia – atriz revelada em “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018) – e na sequência do julgamento, Drake ainda assim consegue gerar, com o seu olhar, momentos inegavelmente tocantes.

“Revolucionárias Nunca Morrem”, de Mohanad Yaqubi (2026)
A principal ideia de “Revolucionárias Nunca Morrem” (“Al-Thuwwar La Yamutun Abadan”, Mohanad Yaqubi, 2026) é ratificada ao final com uma legenda que diz mais ou menos assim: “Archives are not meant to be preserved, but activated”. Deixando de lado a má compreensão em torno do conceito de preservação no cinema, que possui em sua dimensão não apenas a noção de salvaguarda material e imaterial, mas também a garantia de sua fruição pelo público, o filme de Yaqubi de fato garante um protagonismo para os arquivos da cineasta libanesa Jocelyne Saab. Yaqubi começa o seu filme fazendo uma mea culpa dolorosa: o diretor recebeu um e-mail de Saab com uma proposta de colaboração artística dois meses antes dela falecer; a obra é, em certo sentido, um grande e-mail de resposta atrasado; é também um pedido de desculpas, um lamento pelo precoce falecimento de Saab e uma celebração de um arquivo e de um legado sobreviventes, tudo junto e misturado. Vencedor do Prêmio Especial do Júri na seção Cineastas do Presente do Festival de Locarno em 2026, o documentário faz um retrato da relação de Saab com as guerras e as revoluções que ela presenciou. O rico material alcança momentos importantes de vários países como o Líbano, o Irã, o Egito e a Palestina entre os anos 1970 e 1980. Um documento histórico de valor incalculável para a humanidade. Yaqubi usa bem os clichês do filme-ensaio para provocar a convergência necessária entre as suas próprias ideias e a vida capturada por Saab em suas filmagens.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
