texto de Bruno Capelas
fotos de 30ebr / Pridiabr
Já houve um tempo em que os dinossauros andavam sobre a Terra. Majestosos, eles dominavam o ambiente e movimentavam multidões. Muitos já se foram, alguns precocemente. Outros se recolheram a seus habitats. De vez em quando, porém, uma dessas criaturas quase mágicas dá o ar de sua graça pelo mundo – e o resultado é um espetáculo avassalador. Foi o caso da noite do último dia 1º de novembro, quando Ronnie Wood subiu ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo. Em pouco mais de duas horas, o veterano inglês demonstrou uma verdadeira aula do melhor que a música popular anglófona pode oferecer ao longo do último século.
Não que muita gente tenha estado lá para testemunhar: com preços inflacionados, houve baixa venda de ingressos – a ponto de pista e pista premium terem se tornado uma só mesmo semanas antes do show, abrindo espaço para um setor de mesas e cadeiras. Ao chegar no Espaço Unimed, porém, o público se deparou com outra surpresa: boa parte do piso do recinto foi inutilizado, com o segmento de mesas começando já na metade do local. Antes da apresentação começar, foi difícil circular pela pista e encontrar um lugar ideal. Mas quando Ronnie subiu ao palco, aconteceu um efeito colateral positivo: o que poderia ser um show vazio acabou ficando aconchegante, combinando com o caráter despojado da noite.

Aos 79 anos de idade, Ronnie Wood segue em turnê por pura diversão – afinal, difícil dizer que ele precisa ainda provar alguma coisa para alguém. Antes mesmo de ser convidado a fazer parte dos Rolling Stones em 1976, substituindo Mick Taylor, o inglês já tinha escrito seu nome na história do rock por inúmeras razões. Ainda nos anos 1960, ele foi o baixista da banda de Jeff Beck em discos seminais como “Truth” e “Beck-Ola”. Já na virada para os anos 1970, foi um dos pilares do Faces, banda que influenciou meio mundo – do Simply Red ao Sex Pistols, para citar dois extremos – e mesclou como poucos o rock, o folk, o soul e o R&B.
De quebra, Ronnie também foi o guitarrista nos cinco primeiros discos solo do amigo Rod Stewart, dividindo com ele parcerias como “Gasoline Alley”, “Every Picture Tells a Story” e “True Blue”. E antes mesmo de fazer parte dos Stones, Wood já tinha colaborado uma porção de vezes com Jagger & Richards – seja no seu disco solo de 1974, “I’ve Got My Own Album To Do”, seja numa parceria não-creditada no hit “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It)”, de 1974. E foi justamente com o hino dos Stones que Wood abriu sua apresentação em São Paulo, oferecendo um cartão de visitas para o que se veria a seguir.

A mensagem não deve ser tomada ao pé da letra: mais do que “só” rock, a aula que Wood oferece ao longo do show passeia pelos diversos ritmos que compuseram a música pop do pós-guerra – o que fica claro no blues elétrico de “Am I Grooving You”, tema de Freddie Scott registrado no primeiro álbum solo do guitarrista, ou ainda no groove rocksteady de “Take It Easy”, do jamaicano Hopeton Lewis. Não se trata todavia de uma lição sisuda. Pelo contrário: com uma banda formada basicamente por amigos de décadas, o inglês fica tão à vontade no palco que o que se vê não parece um show, mas sim uma jam ou uma canja.
Wood veio ao Brasil muito bem acompanhado: a Ammo Band, que o segue nessa turnê, é formada por gente que já tocou em tudo que é canto. O baterista Andy Newmark, por exemplo, fez parte da Sly & the Family Stone e tocou com David Bowie, John Lennon e Roxy Music. Já o baixista Willie Weeks tocou com Stevie Wonder, Etta James e Eric Clapton – além de ter recebido elogios de George Harrison, que certa vez disse preferir tê-lo como companheiro no baixo em vez de Paul McCartney.

O tecladista britânico Andy Wallace, por sua vez, já foi escudeiro de gente como Roger Waters e Robbie Williams – não confundir com o produtor americano responsável por mixar discos como “Reign In Blood” e “Nevermind”. Já a backing vocal Chanelle Haynes, além de ter feito Tina Turner no teatro, excursiona desde 2023 com os Stones. É da garganta dela que sai, inclusive, o próximo grande momento do show: a irrepreensível execução vocal de “Flying”, dos Faces, utilizando um agudo potente para substituir a voz rascante de Rod Stewart no original.
A performance de Chanelle no tema dos Faces e também em “Hey Negrita”, dos Stones, acaba por eclipsar um pouco a entrada no palco de Imelda May – cantora irlandesa cujo nome foi anunciado como participação especial do show. A princípio tímida, porém, a cantora acaba se soltando ao longo de “Remember (Walking in the Sand)”, das Shangri-las – mais conhecida por ter viralizado há algum tempo no TikTok como a canção do “oh no! oh no!”, servindo de trilha para memes em que algo parece dar errado.

É o início do delicioso momento jukebox do concerto, quando Wood revisita sua juventude e dá vazão a temas do R&B, do soul, do doo-wop e, claro, do blues – na bela sequência da ensolarada “You’re So Fine” (The Falcons) e dos blues “Baby What You Want Me To Do” (Jimmy Reed) e “Show Me” (Johnny Winter). O mesmo espírito vai aparecer logo adiante, quando Wood convida Chanelle para reler um dos hits de Ike & Tina Turner, “River Deep, Mountain High”, ou ainda na releitura charmosa de “Chain of Fools”, um dos hits máximos de Aretha Franklin. É um dos grandes momentos de uma noite cheia de grandes momentos – e olha que, mesmo com duas cantoras no palco, quem comanda os vocais é o timbre esganiçado e marcante de Wood.
A sessão jukebox, porém, é entremeada com outros grandes números mais ao folk e ao gospel – caso de “Mystifies Me”, tema do disco solo de 1974 de Wood, que começa despretensiosa e aos poucos explode num crescendo, como muitas das boas baladas dos Stones dos anos 1970. Por falar em Stones, eles voltam a aparecer no repertório com “Country Honk”, a versão caipira de “Honky Tonk Women”, para delírio dos presentes. Foi como se ter ido fosse necessário para voltar – afinal, a canção nasceu a 300 km de distância do Espaço Unimed, quando Jagger & Richards passaram uns dias numa fazenda em Matão (SP), em janeiro de 1969, a convite do banqueiro Walther Moreira Salles, pai de João e de Walter.

A plateia aplaude, delira e ensaia um coro de “olê olê olê, Ronnie, Ronnie”, ao qual o guitarrista responde com sorrisos e um breve rebolado. Mas, em vez de deitar sobre as glórias dos colegas, Wood emenda outras duas envenenadas releituras. Uma é “Boogie Disease”, de Doctor Ross. A outra é “Spoonful”, tema do bluesman Willie Dixon, imortalizado por Howlin’ Wolf e também pelos compatriotas do Cream, aqui comandada por Chanelle.
Quando o palco parece pronto para explodir, vem a voz da experiência: Wood toma o microfone para si e recorda “Ooh La La”, talvez o hit temporão dos Faces, levando as mãos do público para o alto. É um daqueles momentos que não só fazem valer um ingresso, mas também fazem a vida fazer sentido, num sopro de felicidade que combina bem com o clima da última semana no Brasil – e olha que nem mencionamos que houve quem tenha transformado a canção em “Lula lá” (opa!).
Era suficiente para mandar todo mundo para casa, mas Ronnie queria se divertir um pouco mais. Sorte do público, que pode conferir uma versão acachapante de “Can’t You Hear Me Knocking”, dos Stones, com direito a dois solos incríveis do inglês – um na gaita, outro na guitarra. Ainda havia espaço para mais surpresas no set principal. Em vez de “Outlaws”, que encerrou o repertório na recente turnê europeia, Wood puxou da bagagem dois petardos de sua carreira solo: “Breathe on Me” e a deliciosa “I Can Feel the Fire”, cujo clima tropical foi perfeito para que Imelda May sacasse uma bandeira brasileira da plateia e a colocasse sobre as costas do bandleader.
E ainda teve bis! Primeiro, Ronnie voltou ao palco sozinho para tocar “Dust My Broom”, um clássico do blues de Elmore James. Depois, já com a banda, emendou um medley que serviu como autoreverência, unindo “Black Limousine”, dos Stones, a “Plynth”, do Jeff Beck Group, e “Gasoline Alley”, de Rod Stewart.
Em espírito de volta olímpica, só faltava lembrar do Faces mais uma vez – o que aconteceu em outra gloriosa exibição de “Stay With Me”, botando todo mundo pra dançar. O público bem que tentou fazer jus ao nome da canção, pedindo mais um bis, mas já era tarde. Não importa: depois do sinal bater, o que fica na memória são os ensinamentos do mestre Ronnie – e a enorme quantidade de lição de casa que o professor oferece, numa discografia frutífera pronta para ser descoberta ou revisitada. Uh lá lá.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
