Entrevista: Buitres, uma das principais bandas do Uruguai, fala sobre seu novo disco, “Nido de Espinas”, e show no Brasil

entrevista de Leonardo Vinhas

O que é ser uma das “maiores bandas” de um país muito musical, mas com uma indústria de música pequena? E que essa mesma banda, massiva em seu país a ponto de ser headliner de festivais, mesmo aqueles com atrações internacionais, seja um grupo cult em solo estrangeiro? E como sustentar tudo isso ao longo de 37 anos de atividade, com relativa estabilidade na formação? Essas são algumas das perguntas que Gustavo Parodi, guitarrista dos Buitres, responde na entrevista a seguir.

Parodi e o vocalista Gabriel Peluffo montaram o Buitres Después de la Una imediatamente após o fim da sua banda anterior, Los Estómagos. Chamaram o amigo de infância José “Pepe” Rambao para o baixo e Marcelo Lasso para a bateria, e estava formada a banda, que muito rapidamente passou a ser conhecida apenas como Buitres (“abutres”). O som inicialmente era bastante influenciado pelo punk, especialmente em suas vertentes mais cancioneiras, mas foi se abrindo para acomodar influências de folk, country rock e canção uruguaia, sempre mantendo a energia bruta do rock’n’roll e o senso melódico beatle, influências fundacionais da banda.

Ao longo dos anos de existência, Parodi, Peluffo e Rambao se mantém como o núcleo principal da banda. Em 2005, Pepe Rambao foi para a segunda guitarra e deixou o baixo para Orlando Fernández (irmão dos Buenos Muchachos Pedro Dalton e Marcelo Fernández, que também acompanha Dalton em muitas canções do projeto Isla de Encanta), que segue no posto desde então. Somente a banqueta da bateria viu alguma rotatividade na banda, com cinco músicos diferentes segurando as baquetas durante esses anos. Desde 2018, quem defende essa posição é Federico “Kako” Bianco.

No Uruguai, a banda é uma das principais referências para o rock nacional. Em países como Argentina, Colômbia ou Espanha, são uma banda cult. E no Brasil são praticamente desconhecidos – o que não os impediu de fazer uma apresentação inesquecível no festival paranaense Paraíso do Rock, em 2025. Em 21 de novembro de 2026, voltarão para um segundo show no país, agora na cidade gaúcha de Bom Princípio como uma das atrações do Canísio Rock, festival organizado em benefício do Hospital São Pedro Canísio.

Essa volta serviu de pretexto para uma entrevista na qual Parodi conta sobre a decisão de lançar o último álbum da banda, “Nido de Espinas” (2026), em vinil, CD e fita cassete, mas não nas plataformas tradicionais de streaming (o disco pode ser ouvido online e baixado apenas no Bandcamp), mas o cerne da conversa é repassar a longevidade dos Buitres, o preço que ela cobra de seus integrantes, e como a banda se vê na história da música de seu país – um papo sincerão que começa logo abaixo.

“Nido de Espinas”, da Buitres,. està à venda na Discomoda

Vocês estão voltando ao Brasil pela segunda vez. Qual o papel que o país ocupa no imaginário dos Buitres?
É um país vizinho com o qual sempre tivemos uma espécie de trava idiomática. Estamos falando por nós, enquanto banda de rock. Nossa primeira experiência no Brasil foi com Los Estómagos, a banda anterior ao Buitres. Já eram os momentos finais da banda, mas fizemos uma pequena turnê pelo Estado de Santa Catarina em 1988 e nos demos muito bem. Poderíamos ter voltado, mas o comentário das pessoas era sobre o idioma. Elas gostavam muito da música, das canções, mas não entendiam as letras. Chegaram até a perguntar: “Por que vocês não gravam algumas músicas em português?”. E, bom, depois vem toda a história dos Buitres a partir de 1989/1990. E só no ano passado, depois de tanto tempo como banda, voltamos ao país [no festival Paraíso do Rock]. Ainda nos perguntam por que não gravamos duas ou três músicas em português para ver o que acontece (risos). No começo, nos achávamos engraçado, mas por que não tentar? Acho que seria uma boa ideia. Mas falando dos nossos shows por aí, temos ótimas lembranças em relação ao público brasileiro — especialmente naquela turnê de 1988. O público brasileiro é gente muito aberta, que ouve, que presta muita atenção ao que está sendo feito. A experiência do ano passado naquele festival foi maravilhosa para nós. E agora estamos voltando novamente, graças aos esforços e a dedicação do Fernando Smith (médico responsável pela organização do Canisio Rock), que é nosso amigo e fã. Essa é, basicamente, a relação que temos com o Brasil.

E musicalmente, nunca houve uma ponte?
No que diz respeito à música, a conexão entre Uruguai e Brasil manifesta-se mais no campo da música popular — especialmente a música de fronteira — e na forte influência que o Brasil exerceu no Uruguai nas décadas de 1950 e 1960. Posso confirmar isso pelos meus familiares — meus pais, meus tios —, vendo como a música brasileira era ouvida no Uruguai. E, claro, nem preciso mencionar toda a explosão da bossa nova e tudo mais, né? Acredito que o último artista que conquistou o Uruguai, que entrou com muita força por aqui, foi o Roberto Carlos. Até a época de Roberto Carlos, o Uruguai recebia artistas brasileiros. Depois, houve uma espécie de ruptura, e o Uruguai foi conquistado pela música argentina em geral, principalmente no que diz respeito ao rock. Os argentinos, de modo geral, dominam totalmente o mercado latino — o mercado de língua espanhola —, muito mais do que os mexicanos ou os colombianos. Então, a música brasileira sofre uma espécie de interrupção a partir do início dos anos 1980. No plano pessoal, a única relação que tive com o rock brasileiro nos últimos, digamos, 20 anos, foi com os Autoramas, de quem eu gosto muito, eles são de um estilo musical que muito me apetece. A última coisa que ouvi com bastante entusiasmo vinda daí foi o CPM22. No final dos anos 90, início dos anos 2000, descobri o CPM22 em uma das minhas viagens anuais de férias a Florianópolis. Foi uma banda que me encantou. Não sei como eles estão hoje em dia, por exemplo; a menos que você acompanhe pelas redes sociais ou algo do tipo, é bem difícil saber. Ou seja, a música brasileira não chega aqui, assim como, certamente, a música uruguaia também não chega ao Brasil — exceto na região de fronteira.

“Nido de Espinas” em versão fita cassete

Com a música regional, você diz?
Sim. A fronteira tem essa magia, né? Em todas as fronteiras — Rivera, Artigas —, existe essa conexão direta com o país vizinho e uma música que é compartilhada, especialmente a música popular. Quando vou tocar em Rivera ou Artigas com o Buitres, percebo essa relação que o habitante de lá tem com o país irmão. É impressionante! Mas, se a gente se afasta uns 50 ou 60 km em direção ao interior do Uruguai, a conexão desaparece. E, na mídia, não é como era quando eu era pequeno. Nos anos 1960, 1970, a gente ligava o rádio, sintonizava uma estação, e a música brasileira estava presente o tempo todo. Na minha casa, a gente respirava isso. Tenho aqui os discos que herdei dos meus pais — Os Demônios da Garoa, por exemplo; eu adoro eles! Ouvi-los me faz lembrar dos meus pais. Os Demônios da Garoa se apresentaram duas vezes na minha cidade natal, Pando — que é uma cidade do interior. No final dos anos 1950, início dos 1960, era muito comum que bandas e artistas brasileiros viessem ao Uruguai — e não apenas a Montevidéu. Enfim, essa era toda a nossa relação com a música brasileira. Minha mãe adorava o Roberto Carlos. Mas, hoje em dia, quem domina a mídia uruguaia é a Argentina, algo que não me agrada nem um pouco. Nós, como banda e como músicos, nunca tivemos essa conexão que muita gente aqui tem com a Argentina. Nossa influência musical não veio da Argentina — como aconteceu com muitos artistas uruguaios —, mas sim da Espanha. Somos uma banda totalmente influenciada pela Espanha. Bom, antes de mais nada, fomos influenciados pelos Beatles e por todo o rock and roll dos anos 1950. Depois, no que diz respeito à música contemporânea, por todos os artistas que surgiram a partir da nova cena espanhola que surge com a queda do franquismo. Quando ocorre uma reabertura cultural na Espanha, aparecem várias bandas que nos influenciaram muito quando éramos adolescentes, porque tínhamos uma ligação com amigos da Espanha e tudo mais. É por isso que os Buitres são uma banda tão diferente de todas as outras bandas uruguaias: absorvemos muitas influências de bandas da Espanha, e não dos nossos vizinhos argentinos. Acho que essa é uma das particularidades da banda, especialmente no que diz respeito às letras.

 

Olha, pela deferência aos Autoramas e por essa camiseta dos Deaf Devils, não faltaram indícios de que você sempre preferiu sonoridades mais punk, mais garageiras…
Para mim, o rock and roll é uma coisa só. É uma grande discussão que tenho com muita gente. O rock and roll é uma música muito simples, primitiva, fácil de tocar, mas que te atinge em cheio. Para mim, tudo o que chega direto ao peito, ao coração, soa como rock and roll. E tem que ter guitarras; tem que ser uma banda baseada em guitarras. Os Buitres, no início, eram mais ou menos assim. Depois, com o tempo — todo mundo cresce, a gente entra na vida adulta, já estamos na casa dos 60 anos —, cada um acaba desenvolvendo sua preferência por gêneros diferentes. É normal que isso aconteça em uma banda. Acho que eu fiquei — e me orgulho de dizer isso — estagnado na música que eu ouvia quando era adolescente; é a música que, ainda hoje, me comove, e é a música na qual consigo me desenvolver e ser feliz. Então, o Buitres se transformou em uma banda que deixou de fazer aquela sonoridade punk do início para criar uma música um pouco mais… não diria “evoluída”, porque não gosto da palavra “evoluir” —, mas um pouco mais complexa. E isso reflete os gostos e as ideias musicais de cada integrante.

Vocês, inclusive, estão experimentando algo novo agora: vão lançar um disco sem disponibilizá-lo nas plataformas digitais.
Sim. “Nido de Espinas” está saindo em vinil, CD e fita cassete — e isso nos dá muito orgulho. Planejamos isso no ano passado, quando estávamos na fase de mixagem do disco. Somos pessoas… bom, não somos exatamente muito velhos, como costumo dizer, mas ainda apegados a ouvir o disco e o artista como um todo. Nós crescemos comprando discos e nos reunindo na casa de algum amigo para ouvi-los. Colocar o disco para tocar, ouvir um lado, virar, ouvir o outro, ouvir de novo… Foi assim que entramos no mundo da música: ouvindo o disco de um artista, ou quando um amigo dizia: “Você precisa ouvir este disco, vou te emprestar”. É a nossa forma de ver a música. É claro que, ao longo da nossa carreira — que é bem longa —, muita coisa aconteceu. Fomos uma geração que vivenciou uma espécie de ruptura em vários aspectos: nas comunicações, na forma de lançar música… São métodos novos, muito práticos e fáceis, mas, ultimamente, nós não concordávamos com isso. Acabamos adotando uma postura contrária a essa prática de lançar música apenas para que alguém baixe uma única canção, ouça e pronto — sem ouvir mais nada além daquela música específica. Então, a forma que encontramos para voltar no tempo foi lançar um disco curto, com oito faixas, e apresentá-lo no Planetário, com imagens e um bom som — e lá você podia ir e comprar o vinil, o CD ou a fita cassete.

Buitres festejando o lançamento do álbum “Nido de Espinas” no Planetário

Mas vocês o subiram no Bandcamp também.
O disco foi disponibilizado no Bandcamp algum tempo depois, como uma forma de incentivar o público a passar por essa experiência. Conheço muita gente que comprou o vinil, mas não tinha como ouvir — não tinha um aparelho para reproduzi-lo. E ir ao Planetário para ouvir e assistir a tudo aquilo… Para nós, foi um orgulho, algo muito inovador. O nosso público, inclusive, encarou isso de uma forma quase combativa, sabe? Porque, se você quiser baixar o disco no seu celular, precisa pagar por ele no Bandcamp; ele não está disponível nas redes — não está “postado” em lugar nenhum. Aconteceu uma situação bem curiosa: ontem à noite, por exemplo, eu estava no YouTube e vi que alguém postou uma música desse disco, acompanhada de imagens editadas por essa própria pessoa, e um número enorme de seguidores e fãs dos Buitres saíram repreendendo essa pessoa, criticando o fato de ela ter disponibilizado a música. Eles consideraram uma falta de respeito com a banda e com toda a proposta de “voltar no tempo” — de lançar um disco da mesma forma que se fazia há 25 ou 30 anos. E isso me emocionou, porque pensei: “Olha só, as pessoas entenderam a proposta! Elas voltaram a curtir o ato de comprar um disco, levar para casa e ouvir”. Por esse lado, para nós foi um sucesso, foi um grande acerto, foi um estouro, porque conseguimos fazer algo que ninguém tinha tido coragem de fazer: lançar um disco apenas em formato físico — algo que a pessoa precisava ir lá e comprar para poder ouvir. É claro que, daqui a pouco, esse disco vai estar em todo lugar, disponível online e tudo mais; mas, pelo menos durante os dois primeiros meses, conseguimos mudar as coisas — vencemos a indústria fonográfica, saca? Pelo menos da forma como ela estava estruturada. Esse tipo de coisa ainda pode ser feita por uns “velhos” de 60 anos; é algo que todas as bandas novas deveriam fazer. É por isso que a gente continua tocando, conversando com o pessoal, com os novos artistas e tudo mais. Estamos tentando passar essa experiência, mostrando como lutar contra algo que não é bom para o artista. É disso que “ser independente” se trata: não depender de ninguém, fazer o que a gente quer, lançar o disco quando bem entendemos, tocar onde queremos tocar. Nós, felizmente, somos caras muito privilegiados, porque podemos fazer o que quisermos com a música, Conseguimos conquistar essa independência que, talvez, não traga tanto retorno financeiro, mas que preenche a alma. E, considerando o motivo pelo qual você subiu ao palco um dia e pegou uma guitarra… nesse sentido, somos caras muito, muito felizes.

Vocês estão nessa estrada desde o início dos anos 1980. São mais de 40 anos nisso. A velocidade das mudanças nesse período é de deixar tonto. Se alguém começou a ouvir música nos anos 1960 e chegou aos anos 1990, pouca coisa tinha mudado na indústria, os formatos eram os mesmos, o peso da rádio ainda era grande… O impacto maior talvez tenha sido o advento do videoclipe. Mas, nesses 40 anos, vocês viram a indústria mudar drasticamente. Ainda assim, vocês continuam na ativa, com poucas mudanças na formação. Ok, foram cinco bateristas ao longo dos anos, mas o núcleo central – você, [Gabriel] Peluffo e Pepe [Rambao] – permaneceu, o Orlando [Fernández] está na banda há mais de 20 anos. Como vocês conseguem manter essa longevidade sem que as brigas entre os integrantes ou as mudanças na indústria os tirem do caminho?
É tudo uma questão de respeito. Veja bem, sempre me refiro ao Buitres como uma espécie de indústria musical bem pequena, principalmente a minha relação com o Gabriel. Sabemos o quanto fomos — e ainda somos — importantes, tanto para o público quanto para as bandas que surgiram porque, um belo dia, alguém subiu num palco e pegou uma guitarra. No caso do Los Estómagos, por exemplo, é uma banda cult mítica na Argentina, na Espanha, na Alemanha, no Canadá… Os discos do Los Estómagos são muito procurados. Mas, na época em que éramos o Los Estómagos, a gente não se dava conta disso. Estávamos em outro mundo, curtindo o que éramos e tentando realizar coisas. O mesmo aconteceu com o Buitres. Os primeiros 10 anos do Buitres foram muito, muito difíceis. Apesar de ter sido, praticamente, a continuação do Los Estómagos, foi muito custoso para nós; tivemos que começar do zero. Foram 10 anos vivendo em cima de um caminhão, tocando por todo o país — que era, aliás, exatamente o que a gente sempre quis fazer. Ou seja, nosso sonho nunca foi dar o salto para a Argentina; o que queríamos, na verdade, era levar o rock and roll para o nosso país. O rock and roll era algo praticamente proibitivo fora de Montevidéu. O que bandas como Los Estómagos e Buitres conseguiram, mais tarde, foi levar sua música para todo o país. E isso é algo muito difícil até hoje. É um país que não tem infraestrutura para uma banda de rock. Então, sair para tocar, fazer turnês apresentando seus discos, é algo muito custoso — envolve movimentar muita gente —, mas você precisa fazer mesmo assim. Porque o pessoal do interior do país — de Artigas, Paysandú, Rivera, Tacuarembó — tem todo o direito de ver sua banda em sua própria cidade, no seu clube, no seu teatro; e é isso que importa para nós. De qualquer forma, voltando ao que você mencionou no início: tenho uma constatação que fiz há muito tempo — o Uruguai é um país muito musical, extremamente musical. Aliás, arrisco dizer que é ainda mais musical… Veja bem: na América Latina, temos a percepção de que o Brasil é sinônimo de música — tem todo aquele ritmo, toda aquela energia. Mas o Uruguai, com seus 3 milhões de habitantes, é um país onde todo mundo toca um instrumento. Em toda casa há um violão, um piano, um acordeon; existem centenas de bandas por todo o país — não só de rock, mas de todo tipo. Há muitos festivais. Costumo comparar o Uruguai à Irlanda… é a “Irlanda” da América do Sul. A Irlanda é um país extremamente musical, de onde surgiram inúmeras correntes musicais. Se você for para lá hoje — seja em Dublin, Belfast ou em qualquer cidadezinha —, encontrará muita música nas ruas, nos pubs… O Uruguai é muito parecido. A gente sai para caminhar por Montevidéu e, a cada duas quadras, sempre tem um lugar de onde sai música, com alguém tocando.

De fato. Estive algumas vezes no país e experimentei literalmente isso que você está dizendo, tanto na capital quanto no interior. Mas com o rock a coisa sempre me pareceu um pouco dúbia: existe uma movimentação forte, com muitas bandas, algumas chegaram a fazer sucesso em outros países, mas ao mesmo tempo, parece uma coisa ainda underground, mesmo para as bandas maiores.
O rock é algo muito difícil de levar adiante no Uruguai; ele não tem — e, na verdade, nunca teve — o apoio dos governos nem nada do tipo, porque ainda é visto como algo que está fora da cultura. É verdade que há muito investimento no candombe, na murga e em coisas desse tipo, mas, no caso do rock, ainda existe aquela ideia de que ele vem de fora. O candombe e a murga também vêm de fora, mas, enfim… para mim, isso nunca deixa de me surpreender. Eu tenho uma banda paralela, um trio de rock and roll [Los Chanchos Salvajes]; a gente toca em porões e lugares bem pequenos pelo país — principalmente em Montevidéu, porque lá existem muitos porões. E, numa cidade como Montevidéu, que é bem pequena… se você pegar a programação de rock and roll numa sexta ou num sábado, vai encontrar pelo menos 30, 35, 40 lugares onde, a cada noite, tocam duas, três, quatro bandas — gente jovem que tem bandas de rock and roll e toca. Geralmente, o público é formado por músicos; não é um público geral. Quem não é músico vai ver outra coisa; o rock and roll não chama a atenção dessas pessoas. Mas o Uruguai é um país extremamente roqueiro, que nunca teve — ou teve pouquíssimas vezes — apoio do governo, e que sempre carregou esse estigma de ser uma música estrangeira. Isso não aconteceu na Argentina, e não creio que aconteça no Brasil, no México ou em qualquer outro lugar. Então, é muito mais digna essa luta do cara que pega uma guitarra elétrica, monta uma banda e sai para tocar. A gente sente que precisa apoiar esse tipo de pessoa, sabe? É preciso estar ali com eles, dar conselhos. E isso faz parte — falo por mim — do meu trabalho: incentivar essa galera jovem a fazer coisas, a não ter medo, a perder a vergonha, a subir num palco, tocar e dizer coisas. Acredito que é isso que toda banda deve fazer; é a razão de existir de uma banda. Além de entreter e agradar ao público, você precisa abrir caminho para quem vem atrás. Isso resume um pouco por que os Estómagos, os Buitres e tudo isso duraram tanto tempo — e, incrivelmente, as pessoas gostam muito da gente. Tudo isso sem ter a atenção da imprensa que outros têm, sem a mesma exposição na mídia. Nós somos uma banda que consegue lançar seus próprios discos, vendê-los, criar formatos para esses lançamentos e fazer com que tudo funcione. Somos um caso bem particular. Sinceramente, não sei exatamente a que se deve tudo isso, mas um dia alguém vai escrever a respeito.

Uma coisa que notei na última vez que estive em Montevidéu foi que bandas como os Buitres — e também os Trotski — passaram por uma renovação de público. Não é só o pessoal que acompanha a banda desde o início; tem muita gente jovem também. E – o mais notável – é um público que trata as músicas novas com a mesma ansiedade e empolgação que as antigas. O que você acha que gera essa conexão? O que faz com que o público mais jovem continue se conectando com a banda?
As músicas. Acredito que o poder da música em si — a canção propriamente dita — é muito importante. Às vezes, pedem para a gente se definir como banda: “Que tipo de banda vocês são? Qual é o estilo de vocês?”. E nós não gostamos de nos definir. Simplesmente dizemos que somos uma banda que toca músicas. Claro, existe toda aquela questão de como você “veste” a música, como a apresenta ao público, mas o que sempre foi importante para o Buitres é fazer canções. São músicas que você pode tocar com um violão na praia, ou num churrasco; dá para pegar o violão e tocar qualquer música do Buitres, entende? Acho que esse é o segredo: a canção. Não somos uma banda definida por um estilo, porque ninguém consegue nos rotular em um gênero específico — especialmente hoje em dia. Somos, sim, uma banda de canções, e acredito que a canção é fundamental. Como você a “veste”, como a embala e a entrega ao público, isso já é outra história. E o segredo da renovação está nas músicas também — canções que vão passando de geração em geração. Nós somos uma banda que já viu passar quase três gerações de público. Desde a época de Los Estómagos — aquele pessoal que cresceu com a gente, formou família, teve filhos — e, em um show do Buitres, você via esse pessoal com os filhos nos ombros. E tem até casos em que esses filhos já são pais, e também carregam seus próprios filhos nos ombros! É o que acontece quando se tem uma banda com mais de 40 anos de estrada, mas isso também enche a gente de orgulho. Ou seja, há momentos — em certas fases — em que você se pergunta: “Cara, toda aquela gente que apareceu em meados dos anos 2000, na época dos grandes festivais, dos Pilsen Rock (nota: festival que teve sua primeira edição em 2003 e sete outras mais até 2020, com as três primeiras tendo se tornado míticas na história do rock uruguaio) e tudo mais… e que de repente desapareceu, foi embora, eles pararam de gostar da banda?” A gente depois entende que esse pessoal, em algum momento, precisou estudar, constituir família, ter filhos… e depois ficaram livres para voltar a um show de rock ‘n’ roll, já levando o filho. Acho que essa é um pouco a mágica… com a Trotsky [Vengarán] acontece a mesma coisa. Eles também surgiram na mesma época que nós, uns 3 ou 4 meses depois do Buitres. Viramos bandas que a família inteira ouve. É algo muito inusitado, e às vezes dá até uma certa vergonha (ri), porque você pensa: “Cadê todo aquele rock ‘n’ roll que eu tocava, que assustava os pais da galera que ia nos ver na época do Los Estómagos?” (risos). Mas enfim, é normal… e, por sorte, aconteceu com a gente. Quer dizer, a gente nunca, nunca planejou isso. Nunca paramos para avaliar e dizer: “Vamos fazer isso para que todas essas coisas aconteçam”. As coisas simplesmente acontecem e, geralmente, você não percebe no momento em que estão ocorrendo; só depois, quando já aconteceram e você consegue olhar de uma distância maior, entende como se deu. É aí que você passa a valorizar tudo. Dá um orgulho danado.

Você mencionou sua outra banda, então queria encerrar com uma pergunta sobre ela. O que você faz com o Chanchos Salvajes que não consegue fazer no Buitres? O que essa banda te proporciona?
Fazer muito mais barulho com a guitarra (risos). Para começar, esse é um dos meus grandes dilemas. Eu considero que fui um grande guitarrista e que deixei uma marca importante na época do Los Estómagos. Naquela época, eu percebia que fazia coisas inovadoras, coisas de que eu gostava. Depois, no Buitres, a gente acaba perdendo isso, porque, em prol da canção, você acaba sacrificando muita coisa… O técnico de som precisa criar um som potente, mas garantindo que tudo apareça — os instrumentos, a voz do cantor… Já o Chanchos Salvajes vai na contramão de tudo isso; é um trio que permite subir a um palco, aumentar o volume e extravasar… E tem também a questão de poder cantar o que eu penso. Sempre gostei de escrever, especialmente depois de tantas coisas que aconteceram nos últimos tempos — e continuo achando que vivemos em um mundo muito fodido, um mundo de mentira que nos engana demais – e tem muita gente que até gosta de ser enganada. Pois é. Enfim, a minha missão com Los Chanchos é essa: te contar certas coisas que ninguém mais vai te contar, ou que não vão deixar que te contem. Eu já me considero um cara velho e tenho todo o direito de te dizer o que penso. E tudo isso vem acompanhado desse barulho todo que trago comigo. Essa é a satisfação. No Buitres, parei de escrever há muito tempo porque eu e o Gabriel pensamos de formas bem diferentes. Não posso obrigá-lo a cantar coisas com as quais ele não se sinta à vontade. Acho que está tudo bem; afinal, ele é o cantor e precisa cantar o que pensa, o que expressa. Mas sempre mantemos um respeito mútuo. Criei o Los Chanchos Salvajes justamente para isso: para evitar uma “explosão” — e até um problema cardíaco — e conseguir colocar para fora tudo o que guardo aqui dentro. Por isso eu disse lá no começo: para mim, o rock and roll é algo que me tocou profundamente e mexeu com a minha cabeça quando eu era adolescente, porque ouvi certas coisas que me marcaram, e quero manter isso vivo. A maneira de manter isso é fazendo as minhas coisas do jeito que eu quero, sem precisar incomodar ninguém, e sendo feliz por esse lado. O Gabriel disse numa entrevista, certa vez: “Que sorte que ele parou e montou o Los Chanchos Salvajes, porque senão a gente não ia aguentar nos ensaios”. Mas, enfim, faz parte. Tenho a sorte — e a alegria também — de poder fazer isso e me desenvolver nessa vertente. Assim como o Gabriel gravou seus discos de tango e milonga — porque é algo de que ele também gosta muito. Acho que a mágica do Buitres está justamente em conciliar todas essas coisas e apresentá-las como canções em um disco. O que esse último disco tem de especial? É um trabalho com o qual todos nós estamos muito, muito contentes, muito felizes. O som está ótimo. Fazia tempo que não nos sentíamos orgulhosos de um disco. Tínhamos passado por algumas experiências bem complicadas. Mas este disco, em particular, foi super tranquilo para nós; fazê-lo foi um prazer. E o fato de ter sido lançado dessa forma, com essa sonoridade e essa intensidade, nos deixa muito, muito felizes.

 

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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