texto de Alexandre Lopes
fotos do texto de Fernando Yokota
foto de abertura de Marcio Kovacs
O Balaclava Fest passou novamente pelo Tokio Marine Hall, em São Paulo, nos dias 26 e 27 de setembro, propondo novamente uma maratona que não parece muito interessada em facilitar a vida de quem tenta definir o festival por um único gênero. Entre guitarras barulhentas, pós-punk, hardcore, indie pop, shoegaze, rock alternativo e eletrônica, a edição deste ano teve alguns shows que funcionaram melhor justamente por não entregarem aquilo que se esperava deles.

No sábado, o festival começou no palco Hall com Pedro Mizutani, acompanhado por uma formação de quinteto com baixo, guitarra, teclado, bateria e vocal/violão. Sua voz grave e tortuosa lembrava, em alguns momentos, o tipo de interpretação associada ao Radiohead, mas havia uma identidade própria na construção das músicas. O encerramento foi particularmente interessante, começando de maneira delicada ao teclado, com uma melodia de assobios que lembrou a música da rede de supermercados Pão de Açúcar, antes de mudar novamente de clima e ritmo.

A primeira grande atração internacional do dia veio às 16h22, quando o Bar Italia (que teve uma turnê latina cancelada em 2024) ocupou o palco principal. O trio britânico (acompanhado de dois músicos de apoio no baixo e bateria – ampliando o leque que adiantaram em entrevista ao Scream & Yell) começou de maneira relativamente contida, com uma faixa lenta (“My Kiss Era”) e a vocalista Nina Cristante dançando de maneira insinuante enquanto, nos momentos em que não cantava, segurava uma meia-lua. A dinâmica vocal entre ela e os dois guitarristas Jezmi Fehmi e Sam Fenton foi um dos elementos que mais chamaram atenção durante a apresentação. A segunda música, “My Little Tony”, já trouxe uma abordagem mais roqueira, com os três dividindo os vocais. Ventiladores foram posicionados diante dos integrantes principais, e volta e meia Nina era ‘vítima’ dos ventos em sua blusa, desnudando-a, enquanto o restante da banda seguia sem interromper o fluxo do repertório. O grupo pouco conversou com o público, limitando-se a alguns tímidos “thank you” e “obrigado” entre as canções. Musicalmente, a apresentação foi ganhando intensidade até chegar a momentos mais festejados e acelerados, como “Nurse!” e “Punkt”, até encerrar com “Cowbella”. Foi um show correto e esforçado, mas parece que faltou algo mais para conquistar realmente o público.

Às 17h20, o palco Hall recebeu o Wishy, quinteto de Indiana que fazia sua primeira apresentação no Brasil. O grupo transitou entre indie rock e pop punk, com destaque para os momentos em que Nina Pitchkites assumia os vocais principais. “Persuasion”, “Love on the Outside”, “Lovesick” e “All the Rage” ajudaram a apresentar ao público brasileiro uma banda ainda relativamente nova por aqui. Acabou que animaram mais a plateia do que o Bar Italia anteriormente.

Pouco depois, o palco Balaclava recebeu o Pedro the Lion, projeto de David Bazan que trouxe uma proposta bem diferente. Com uma formação em trio bastante econômica, bateria à frente de um lado, baixo e vocal de Bazan no centro e guitarra do outro, o palco tinha como principal elemento visual o nome da banda escrito em branco sobre um enorme fundo azul no telão. E nem precisou de mais do que isso para fazer um belo show. O repertório caminhou por músicas melancólicas como “The Fleecing”, “Modesto” e “Criticism as Inspiration”, mas sem perder firmeza nos momentos mais guitarrísticos. Bazan conduziu a apresentação de maneira discreta e, antes da última música, “Bands With Managers”, agradeceu ao público por estar ali e falou sobre como a internet é uma coisa incrível por permitir que pessoas de lugares tão diferentes conheçam as músicas da banda e acabem reunidas em um show como aquele. O comentário fazia sentido diante da cena que se formou durante a última música. Em meio a um festival movimentado, algumas pessoas ao redor simplesmente fecharam os olhos para ouvir. Sem grandes efeitos, o Pedro the Lion encerrou seu show apostando apenas na força de suas próprias canções. E ganhou bonito.

Às 19h, foi a vez do Ludovic. Diferente do palco principal, o som do palco Hall chegou perto de um nível de estridência desconfortável, e a banda pareceu pequena diante das dimensões cada vez maiores do público que se acumulava para conferir a apresentação. O guitarrista Eduardo Praça, de óculos escuros e empunhando uma guitarra Gretsch, remetia um pouco visualmente a um Roy Orbison e contrastava com a postura mais frontal e enérgica de Jair Naves. A banda tocou faixas de seu disco mais recente, que foram bem recebidas pelos fãs presentes, mas a apresentação ganhou mais força justamente quando o grupo começou a revisitar músicas mais antigas. “Janeiro Continua Sendo o Pior dos Meses”, “Qorpo-Santo de Saias” e “CVV” apareceram entre os destaques da reta final. Nos últimos 11 minutos, Fernando Sanches, apresentado por Naves como “o herói da música brasileira”, assumiu o baixo para que o vocalista pudesse ficar livre no palco. Antes da última música, Jair falou sobre ter vergonha de dizer o próprio nome em um período de eleições e afirmou que está longe de ser um exemplo político. Depois, lembrou a importância de continuar sonhando, antes de anunciar a derradeira “Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés”.

A apresentação seguinte foi uma das mais curiosas do sábado. Às 19h40, o Dry Cleaning entrou no palco principal com a vocalista Florence Shaw no centro, criando uma presença cênica difícil de ignorar justamente por sua aparente falta de esforço. De cabelos compridos, camisa larga e uma saia igualmente volumosa, ela passava boa parte do tempo praticamente imóvel, segurando uma garrafinha de água com uma mão e o microfone com a outra, falando longos monólogos como se estivesse conversando consigo mesma. A vocalista gesticulava ocasionalmente, balançava a cabeça, revirava os olhos e assumia uma expressão quase impassível enquanto a banda construía uma cama instrumental precisa ao seu redor. Guitarra, baixo e bateria e violão e teclados se alternavam, funcionando como uma espécie de máquina pós-punk, enquanto os backing vocals apareciam apenas em momentos pontuais.

O telão permaneceu praticamente todo o show exibindo a imagem da capa do disco “Secret Love” (2026), uma pintura de Erica Eyes retratando Florence Shaw tendo seu olho lavado por uma pessoa. O resultado era estranhamente hipnótico, especialmente em músicas como “Blood”, “Magic of Meghan” e “My Soul/Half Mind”. Florence conversou pouco. Depois do hit “Scratchcard Lanyard”, agradeceu timidamente pelo retorno a São Paulo (eles tocaram no C6 Fest 2023) e disse que amava muito o público brasileiro. Perto do final, ainda tentou arriscar um português: “Muito obrigada. Sorry for my shit Portuguese, love ya”. O guitarrista que ficava à esquerda do palco, mais comunicativo ao microfone, tratou de exaltar a vocalista antes da despedida.

Às 20h50, o Sharp Pins mostrou um indie pop com forte sotaque e indumentária de mod britânico – embora a banda seja de Chicago. O quarteto liderado por Kai Slater bebe bastante (até demais) da fonte dos anos 60, sem medo de parecer uma versão mirim do The Kinks. O grupo aproveitou a apresentação para divulgar “I Wonder Where You Hide All Your Love”, música disponível no Bandcamp, cuja renda seria destinada a crianças palestinas. Em determinado momento, também sobrou uma provocação ao isentão Ed Sheeran, criticado por não defender Macklemore após o rapper ser retirado de sua turnê americana por pressão de empresários contrários às suas manifestações em apoio à Palestina. Perto do fim, veio uma surpresa especialmente adequada ao festival: “A Minha Menina”, dos Mutantes. O cover colocou uma reverência brasileira dentro de uma apresentação que, até então, parecia mergulhada em influências anglófonas.

O palco principal recebeu o Blonde Redhead às 21h40. A apresentação começou com um silêncio prolongado e algum suspense antes de Kazu Makino aparecer usando um boné vermelho com referência à Palestina. A cantora alternou entre baixo de seis cordas e teclado e, aos poucos, foi estabelecendo uma comunicação tímida com o público, enquanto se mostrava totalmente entrosada musicalmente com os gêmeos Simone e Amedeo Pace. “Olá” e “obrigada” foram algumas das poucas palavras em português, mas a profunda relação da musicista com nosso país (relatada em uma entrevista aqui no Scream & Yell) ficou ainda mais explícita quando Makino disse: “Brasil, vocês são nosso guia espiritual. Vote Lula”, com direito a imagens do presidente e manifestações anti Trump e Flávio Bolsonaro no telão. A apresentação percorreu diferentes fases da carreira da banda, incluindo “Bipolar”, “Falling Man”, “Melody Experiment” e músicas de “Sit Down for Dinner” (2023). O trio deixou o palco depois de “Spring and by Summer Fall”, mas voltou para um bis com “Distilled” e “Kiss Her Kiss Her”. Quando parecia que o encerramento estava definido, ainda veio uma terceira música, “23”, que nem sequer aparecia na lista de repertório impressa. Um belo encerramento para o primeiro dia, pena que diante de um público que pode ser considerado pequeno para uma atração principal de um festival.

No domingo, o Balaclava Fest recomeçou com Budang, às 15h40. A banda colocou uma versão de “1406”, dos Mamonas Assassinas, no repertório (presente em seu disco de estreia) e teve um vocalista bastante ativo, descendo diversas vezes até o cercadinho diante do palco. O grupo agradou os fãs de algo mais pesado que já estavam por ali, mas terminou a apresentação cerca de cinco minutos antes do horário previsto.

A primeira grande descarga de energia do segundo dia veio às 16h20, com o High Vis. Em sua primeira passagem pelo Brasil, o grupo inglês fez aquilo que se esperava de uma banda de hardcore: colocou uma roda de pogo em funcionamento durante “Why Go Any Higher” e deixou claro que havia ali espaço para pessoas da velha guarda e também para quem está chegando ao gênero agora, especialmente quem descobriu o hardcore por meio de bandas como Turnstile. E de fato, o Tokio Marine Hall se encheu muito mais rápido de espectadores do que no dia anterior, então pode-se dizer que o High Vis teve uma grande participação nisso. Perto do final da apresentação, o vocalista Graham Sayle comentou que havia tentado tirar a própria vida no ano anterior e falou sobre acreditar que já havia conseguido sair daquele lugar. O discurso mudou o tom da apresentação antes de a banda voltar à música e encerrar o show com “Trauma Bonds”.

Às 17h20, o palco Hall estava lotado para receber a Adorável Clichê. A quantidade de pessoas dificultava até entender alguns dos versos cantados em português, mas o público parecia conhecer bem o repertório. Durante “Eu Só Queria que Tudo Tivesse um Fim”, foi possível flagrar um casal se beijando apaixonadamente no meio da multidão, enquanto o baterista levantava do banco em alguns momentos para atacar os pratos com mais entusiasmo. “Traços”, “Naquele Inverno”, “Medo”, “CDs” e “As Coisas Mudam pra Melhor” fizeram parte de uma apresentação que cresceu junto com o público. Até um cover de “Myth”, do Beach House, apareceu no repertório.

Pouco depois, o palco Balaclava recebeu o Wednesday, um dos shows mais interessantes e cheios do domingo. Depois de duas músicas, Karly Hartzman avisou: “This is our first time in Brazil”. A banda começou com uma sequência mais pesada com “Reality TV Argument Bleeds”, mas foi mudando de direção ao longo da apresentação, incorporando elementos de country e lap steel antes de retornar às guitarras mais agressivas. A formação de quinteto, com bateria, baixo, guitarra, vocal/guitarra e lap steel, permitiu que o grupo transitasse entre esses extremos sem parecer que estava trocando de banda a cada música. Hartzman, uma figura pequena no palco, alternava entre uma guitarra Danelectro e uma Stratocaster e usava uma blusa feita com partes do próprio cabelo, como ela mesma chegou a explicar. Em determinado momento, um fã praticou crowd surfing e a vocalista percebeu a movimentação, chegando a rir durante um refrão. Mais tarde, antes de uma música, ela explicou que iria gritar no final e disse que gostaria de usar aquela energia para ajudar o Brasil contra alguma coisa, mas tinha receio de falar errado. Olhou para baixo, conferiu o que havia escrito no papel ou teleprompter e mandou: “Fuck Bolsonaro”. O comentário veio antes de “Bull Believer”, que encerrou uma sequência especialmente pesada depois de músicas como “Got Shocked”, “Hot Rotten Grass Smell”, “Quarry” e “Bitter Everyday”.

Às 19h, os argentinos do Winona Riders encontraram o palco Hall lotado para apresentar um show forte de rock com doses de psicodelia e fuzz. A banda, formada por seis integrantes, com três guitarras e teclado, construiu um dos momentos mais triunfantes do festival. Visualmente, o vocalista lembrava Julian Casablancas, mas foi na penúltima música que o grupo chegou ao ponto mais interessante da apresentação, com uma linha de baixo repetitiva, efeitos de teclado, bateria dançante e luzes piscando. Era o tipo de final que poderia fazer alguém esquecer por alguns minutos que havia outra atração esperando para começar no palco principal.

O problema é que essa outra atração era justamente os queridinhos do Beach Fossils. Às 19h40, o grupo americano entrou diante de uma plateia cheia, e que ia aumentando à medida que o show do Winona Riders chegou ao fim. Ficou claro que boa parte do público estava ali para ver os norte-americanos do lo-fi dream pop. Com bastante gente batendo palmas para ajudar a impulsionar o ritmo das músicas, o repertório percorreu diferentes fases da banda, de “Don’t Fade Away” e “What a Pleasure” a “Sleep Apnea”, “Down the Line” e “Daydream”. O público parecia conhecer boa parte das letras e assumiu um papel importante no andamento do show, especialmente nas faixas mais diretas e conhecidas, com coros nos refrões e sacolejos nos momentos mais dançantes. Parecia até que o Beach Fossils era um time jogando em casa.

O último show do palco Hall ficou por conta de Sudan Archives, mas ficou difícil para este repórter vencer o cansaço e conferir a apresentação; acabei escolhendo pegar um lugar para repor as energias para acompanhar o último show. Mas segundo relatos de amigos, sua presença ajudou a manter a característica do festival de colocar artistas de trajetórias e propostas diferentes no mesmo programa, com seu som eletrônico experimental adornado de influências de R&B, hip hop e suas habilidades no violino. Quem sabe numa próxima?

E então veio o DIIV. Às 21h40, o palco Balaclava recebeu os norte-americanos em ternos propositalmente grandes demais para seus corpos, uma imagem quase caricatural diante da música carregada e sussurrada que viria a seguir. Uma estrela rosa torta aparecia no telão enquanto o grupo começava a apresentação de sua nova turnê, “ZIRP!”. “Under the Sun” apareceu logo no começo, seguida por uma sequência que misturou repertório conhecido e várias estreias ao vivo. As novas “The Fountain”, “The Crash”, “Kid”, “Dare Me”, “My Star” e “Trillions” fizeram suas primeiras aparições diante de uma plateia brasileira. A escolha mais improvável veio quando o DIIV apresentou “Playboy Bunny”, de Charli xcx, também pela primeira vez ao vivo. A versão não parecia uma tentativa de simplesmente reproduzir o universo pop da cantora, mas uma forma de encaixar a música na atmosfera do grupo. A conexão fazia ainda mais sentido diante da participação de A. G. Cook, um dos nomes responsáveis pela sonoridade de “Brat”, na produção do novo álbum do DIIV (eles aprofundaram a história sobre a colaboração em conversa com o Scream & Yell). Depois, o grupo voltou ao próprio repertório com o envolvente peso lento de “Soul-net”, “Frog in Boiling Water”, “Taker”, “Acheron” e as urgentes “Doused” e “Blankenship”. Era um encerramento coerente para um festival que passou dois dias alternando entre o familiar e o inesperado.

O Balaclava Fest 2026 manteve uma das características mais interessantes do evento: não parece haver muita preocupação em construir uma programação que funcione como uma playlist homogênea. O público precisou alternar entre pós-punk, indie, hardcore, shoegaze, country alternativo, psicodelia e diferentes formas de música, sem reclamar do resultado. Mas uma ressalva importante (além dos altos preços das bebidas, comidas e merchs das bandas, sempre inflacionados em festivais de música) fica por conta do sistema de som do palco principal. Depois dos shows, ouvi amigos comentarem sobre falhas nas caixas do lado direito do PA, que teriam deixado de funcionar por alguns minutos em diferentes apresentações. O problema teria começado no show do Dry Cleaning, no sábado, e voltado a ocorrer nas apresentações de Wednesday, Beach Fossils e DIIV, nesta última em três ocasiões. Segundo os relatos, a falha persistiu de um dia para o outro, aparentemente sem uma tentativa de correção entre os shows. Este repórter não percebeu todos esses episódios, possivelmente por ter assistido à maior parte das apresentações do lado esquerdo do palco. Só notei algo estranho durante o Wednesday, quando cheguei a pensar que a interrupção pudesse fazer parte da dinâmica de uma das músicas.

Por fim, nem todos os shows funcionaram da maneira esperada e algumas atrações pareceram menores diante do tamanho do palco ou do próprio contexto do festival. Mas a edição teve momentos em que a aposta em nomes menos óbvios se pagou, como no High Vis, Wednesday, Winona Riders e Sharp Pins, enquanto Blonde Redhead, Ludovic, Pedro the Lion, Beach Fossils e DIIV encontraram públicos especialmente receptivos. Mais uma vez, o Balaclava Fest parece interessado em uma coisa que festivais maiores frequentemente deixam de lado: possibilitar que o público descubra alguma coisa diferente entre suas atrações favoritas. E, para um evento que já construiu uma identidade bastante própria no calendário paulistano, talvez esse continue sendo seu maior acerto.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
– Fernando Yokota é fotógrafo. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
