texto de João Paulo Barreto
A Coreia do Sul é notória por ser um país cujo cinema de terror e ficção científica prima por uma abordagem que une o espetáculo visual catártico e caótico a um frenesi advindo do comportamento de pessoas comuns diante de uma situação absurda e brutalmente violenta em sua sanguinolência. São longas que, mesmo trazendo roteiros tensos, acaba encontrando em suas entrelinhas válvulas de escape através do humor que surge de risos entre dentes trincados. Apresentado em sua filmografia diversas obras que convidam seu espectador para adentrar em algo para além de um raso entretenimento plástico, o país do K-pop tem em seu histórico exemplos clássicos de referência para o gênero do horror.
Nessa reflexão, torna-se impossível não citar obras como “Tudo em Família”(1998) e “Eu vi o Diabo” (2010), filmes dirigidos por Kim Jee-woon que ultrapassavam limites de violência diante de uma situação absurda e já traziam pessoas diante de situações brutais, mas com um roteiro que encontrava brechas para presentear seu público com a acidez de um humor destrutivo. “Hope: O Primeiro Impacto” (2026), novo filme de Na Hong-jin, diretor do impactante “O Lamento” (2016), apesar de se valer dessa proposta de abordagem do choque visual, bebe em uma fonte diferente por mesclar esses mesmos limites da brutalidade visual com a ficção científica espacial. Mas a ideia de localizar tais absurdos através de um prisma fantástico que envolve seres de outros planetas não é exclusiva.

Ao falar de “Hope”, e de sua ideia de focar em monstros, é impossível não lembrar de “O Hospedeiro”, filme sul coreano de 2006 no qual Bong Joon Ho (cineasta por trás do premiado “Parasita“, de 2019) mergulhou nessa ideia de elevar potencialmente um encontro imediato de terceiro grau a algo para além da curiosidade pacífica de se ver diante de uma inteligência alienígena. Lá, sua criatura não vinha do espaço, mas, sim, do fundo do tóxico e poluído rio Han, em Seul, mas poderia muito bem vir de outra galáxia. Dito e feito: do mesmo modo que Bong Joon Ho fez na sua obra de vinte anos atrás, o cineasta Na Hong-jin coloca personagens comuns, como policiais, pescadores e caçadores, diante de uma crescente onda de violência cuja origem, inicialmente, se faz misteriosa. Aos poucos, porém, essas pessoas se vêem diante de um rastro de destruição sem precedentes na cidade portuária do título, e o citado encontro com tal força sinistra acontece de maneira absurdamente frenética e arrasadora.
Com sua primeira hora se baseando justamente nessa preparação para o encontro tanto do espectador quanto de seu hilário policial protagonista vivido por Hwang Jung-min (um dos rostos mais conhecidos do recente cinema coreano) com a criatura responsável por toda a destruição que acometeu o vilarejo, “Hope: O Primeiro Impacto” cria para seu público a ambientação perfeita para o caos que evoluirá ainda mais. É quando o frenético ritmo do longa metragem se comprova através de uma montagem inteligente que, ao invés de focar em cortes rápidos, opta por privilegiar planos mais longos, tornando, assim, todo o acompanhar daquele rastro de destruição da criatura em uma sequência mais fluída para o espectador.
O mesmo se dá em um segundo momento, quando, após já conhecermos mais à fundo as origens daqueles seres intrusos na cidade, vemos outra sequência de batalha impressionante, dessa vez em uma floresta na qual caçadores curiosos e azarentos, após se vêem diante da nave espacial que trouxe tais criaturas à Terra, encontram-se com representantes dessa espécie mutante e violenta.
Com duas horas e quarenta minutos de duração, “Hope: O Primeiro Impacto” não é um filme que está muito preocupado em ter pressa em seu desenvolvimento, preferindo criar com parcimônia seus três atos. Deste modo, suas sequências de ação têm ritmos próprios, algo que, para o espectador atento e ciente desse tipo proposital de escolha, torna-se perceptível um cuidado narrativo, bem como um apuro visual em sua construção. O resultado é impactante e enérgico. Com a mesma eficiência, a direção de arte capta na sua essência a destruição trazida pelos visitantes interplanetários, algo que torna palpável a ideia cinematográfica de violentos seres alienígenas chegando à Terra.
Com um final em aberto no qual os seres, apesar de contidos momentaneamente, sofrem um revés ainda maior (e cuja grandiloquência visual surge de modo ainda mais espetacular e impressionante na tela), “Hope” abre-se para possibilidades ainda mais ambiciosas em suas inevitáveis continuações. Se conseguir superar a energia narrativa dessa primeira parte, serão muito bem vindas.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
