Festival do Rio: “A Mãe Bruxa”, “O Sertão das Nossas Memórias”, “O Trem Fluvial”

texto de Leandro Luz

“A Mãe Bruxa / Δωδεκάμερον” (2026), de Minos Papas
Há pelo menos um plano que vale o filme inteiro, mas talvez ele apareça um pouco tarde demais e seja suplantado por escolhas ruins que acabam enfraquecendo o todo. Se trata de um plano longo, que tem início com uma panorâmica bem calculada e termina com um lento zoom em direção a uma figura misteriosa que se arrasta pelo chão. O medo toma conta do corpo do espectador e é finalmente o momento de nos depararmos com algo próximo do verdadeiro desespero que se encontra a protagonista. “A Mãe Bruxa” (“Δωδεκάμερον”, Minos Papas, 2026) é uma coprodução Chipre, Macedônia do Norte e Estados Unidos que se passa no Chipre do final do século XIX, mais especificamente em 1882. Eleni é uma pintora que vive à margem de sua comunidade e que passa por uma tragédia impensável. Uma mãe que perde três filhos já é um trauma maior do que a vida, difícil superar isso com imagens logo em seguida. O melhor seria deixar essa emoção consumir os personagens e seus arredores ao invés de tentar criar novos monstros. Ao encontrar o menino Michalakis, a Eleni é concedida a possibilidade de exercer a sua maternidade novamente. Michalakis vive sendo abusado pelo pai, e encontra nessa nova mãe alguma esperança de acolhimento. Os dois compartilham uma conexão pela arte também: um desenho será fundamental no ritual proposto para apaziguar uma maldição. Fantasia e horror se misturam na maneira como Papas faz surgir figuras mais estranhas do que exatamente assustadoras, e é uma pena que ele não consiga equilibrar bem as duas coisas.


“O Sertão das Nossas Memórias” (2026), de Lucia Murat
“A História não tem “se””. Lucia Murat propõe uma viagem do Rio de Janeiro ao sertão da Bahia para se debruçar nesta reflexão. Como lidar com as nossas escolhas do passado, 50 anos depois? Como afastar a culpa e o sentimento de frustração diante do horror? Em “O Sertão das Nossas Memórias” (Lucia Murat, 2026), a diretora encara os assuntos mais escabrosos da vida com um largo sorriso no rosto, com a alegria de quem sabe que nunca ficou indiferente à barbárie. O título do filme é muito apropriado, diga-se de passagem, porque dá conta de três coisas fundamentais: a solidão, a aspereza e a profundidade das memórias desses três personagens – Lucia é um deles, se colocando nessa difícil posição entre quem observa e quem é observado. É boa a decisão de incluir a equipe na filmagem, pois dá a ver justamente essa noção de coletivo que o filme tanto parece buscar. Importante dizer que este é um filme de muitos sorrisos, nas bocas e nos olhos, de muito companheirismo e reverência a um tipo de resistência essencial para jogarmos o Brasil para frente. A trilha sonora faz um bom trabalho costurando com precisão Chico Buarque, Elomar, Aldir Blanc & João Bosco e outros grandes mestres da canção nesse road movie meio às avessas. Ao buscar informações a respeito do ataque que tirou a vida de Carlos Lamarca e de José Campos Barreto, o líder comunitário Zequinha, Murat e seus companheiros de luta se colocam em movimento para desafiar a própria memória e narrar uma história pouco contada.


“O Trem Fluvial / El Tren Fluvial” (2026), de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale
A Argentina de Milo, ator e personagem de a todo instante, por isso o título enigmático que evoca movimento. Bailarino em formação, treinado sobretudo pelo próprio pai em sessões exaustivas – que incluem uma demonstração rápida até antes da hora de dormir -, o garoto de 9 anos não parece se engajar tanto assim, apesar do talento evidente, na tarefa de ser um grande mestre do Malambo, espécie de dança folclórica daquela região do norte argentino. A dupla de cineastas filma Milo com proximidade e faz de seu entorno em Buenos Aires, após decidir “apagar” os pais e fugir de casa, uma realidade mágica na qual ele tenta se relacionar a todo custo, com dificuldade. São encontros emoldurados por uma fina e constante lente onírica, que tem seu auge quando o garoto invade o apartamento de uma mulher e se esconde debaixo da cama. Ela se masturba, ele escuta curioso, alvoroçado em seu esconderijo. Depois, já sozinho no quarto, coloca o vestido da moça largado para trás apenas para retomar os passos firmes e expressivos do Malambo. Embora pareça uma boa ideia, toda a relação metalinguística que o filme estabelece funciona menos, infelizmente. O retorno para casa, novamente por trem, agora projeta todos os olhares dos passageiros em Milo, numa cena muito bem montada que culmina em um longo plano no rosto do menino, que olha para o horizonte sem demonstrar uma emoção tão transparente. A opacidade aqui é bem-vinda, complexifica a narrativa e nos faz viajar de volta para o norte argentino pela última vez junto com a obra.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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