Ao vivo: Él Mató e a redenção da democracia em Porto Alegre

 texto de Luiz Spinelli

Dezoito anos após o primeiro show na capital gaúcha, os platenses do Él Mató a un Policía Motorizado voltaram a Porto Alegre em um sábado, 10 de outubro, na abertura das datas brasileiras da turnê em comemoração aos seus 20 anos de trajetória. O show no Opinião e a boa presença do público indicam um sinal, ainda tímido, de que o Rio Grande do Sul pode voltar a integrar a rota regular dos shows internacionais no Brasil.

O Él Mató é um caso curioso. O grupo começou inevitavelmente indie, meio anos 90, meio punk lo-fi, coisa de quem ouvia Pixies e Sonic Youth, mas cantando em espanhol. Com os anos, ampliou o público, fez sucesso, refinou consideravelmente a produção, gravou nos Estados Unidos, tocou ao vivo na KEXP e nas edições do Primavera Sound em Barcelona e também em São Paulo e hoje ocupa um espaço – como banda de rock que é rock mesmo – que parece vago no Brasil. É como se houvesse um Los Hermanos no rock brasileiro que nunca tivesse virado MPB nem terminado. E, a julgar pelo público desse sábado, pelo menos no Rio Grande do Sul, é o próprio Él Mató que ocupa esse espaço.

O grupo argentino abriu a noite com “Navidad en Los Santos”, do álbum “Navidad de Reserva”, de 2005. Mesmo duas décadas depois, a canção sobre violência policial continua atual na América Latina, e esse começo com um dos antigos sucessos teve dois efeitos: animou a plateia e antecipou a dimensão política que atravessaria todo o show. A banda seguiu alternando novos e velhos sucessos, jogando em casa, com o público cantando alto em todas as faixas.

Foto de Tatiana Brandão

“La Noche Eterna”, “El Tesoro” e “Amigo Piedra” empolgaram tanto que tiveram um momento curioso após o final das execuções: a audiência seguiu cantando os refrões mesmo depois de a banda ter encerrado as canções. Se em “Amigo Piedra”, a empolgação chegou a produzir uma inesperada roda de pogo, em quase todas as faixas, o público repetiu um comportamento de simbiose com a banda que eu só havia visto antes em relatos dos shows do Wilco no Brasil: solos e riffs de guitarra foram cantados pela plateia. Depois de uma sequência de hits e três ou quatro bis, os argentinos terminaram o show com “Mi Próximo Movimiento”, para uma plateia em completo êxtase, com mosh do guitarrista-base e de fãs enlouquecidos.

E embora a geração Z pense equivocadamente que o rock é conservador – tenhamos paciência, os coitados acham que os gays nasceram com a Gaga, não é sequer com a Madonna! – em vários momentos da noite a ansiedade política que o Brasil vive nas últimas semanas transbordou, com inúmeros cantos de “Lula lá!”, “hey, Milei, vai tomar no cu!” e até uma camiseta do Lula arremessada para Santiago Motorizado, que acolheu bem o presente, contando que, na passagem anterior da banda, tinham dado sorte para a eleição brasileira.

Esse encontro entre delírio político e enlevo musical conduziu a plateia a uma estranha catarse coletiva. A gente sabe que está todo mundo por um fio e precisando de um alívio, mas não deixa de ser surpreendente ver tantas pessoas celebrando coletivamente, como se esse país que parece eternamente fraturado ainda seja possível.

foto de Amanda Prestes

– Luiz Espinelly, professor de literatura e guitarrista da Josephines: https://josephines.bandcamp.com/

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